Móveis com pó. E uma Vida a ser Vivida.


A poeira que repousa silenciosamente sobre os livros nas estantes e ao longo da superfície dos móveis não é um sinal de desmazelo. Não, não. Pelo contrário.

Ela mostra-nos que há algum tempo nada precisa de ser mudado, porque tudo está bem como está.

Mas, acima de tudo, está lá também para testemunhar a mais nobre forma de passagem do tempo: Vivendo a Vida. Sem desperdiçar tempo - a limpar o pó. Que sempre volta. E a vida não.

No meio dos livros empoeirados,

Outra verdade, a mesma realidade, ou outro post de merda


Há dois tipos de pessoas: as que acordam cedo e bem dispostas por muito pouco que tenham dormido e as outras, rezingonas e monossilábicas que fazem tudo para adiar levantar o bofunfo da cama, de tão bem instalado que ele está. É preciso recorrer a técnicas avançadas de persuasão: talhar - de escopro e martelo - um buraco à volta dela; polvilhá-la com açúcar e indicar o caminho às formigas, espalhar urtigas pela cama, convidar a fanfarra local para ensaiar no quarto ao lado... acho que vocês me compreendem.

Eu estou noutra classe, mas falo-vos de uma pessoa que está na classe “B”:
- Vá, anda, que já devias estar vestida. Vá, anda, senão vamos chegar atrasados...
- Oh! Mas não como?
- Não temos tempo. Por isso é que tínhamos o despertador para as 6... Vá, anda. No plano de viagem temos tempo para comer qualquer coisa pelas 9h, em Santa Apolónia. E além disso, temos o lanche que preparei ontem.
- Mas vamos fazer este caminho todo em jejum?
- ...
Saímos porta fora e no caminho para o táxi:
- Blá, blá, blá, jejum, blá, blá, blá, preciso de comer, blá, blá, blá, jejum...

O senhor do táxi mais caro do mundo entrega-nos, explorados, na estação de Oeiras. Compramos os bilhetes e verificamos que ainda temos uns 10 minutos até o comboio chegar.
- Vamos ali ao café, digo eu. Assim podes comer qualquer coisa.
- BOM DIA! Diz o senhor do café, mais alto e com mais entusiasmo do que seria de esperar, até para alguém, que como eu, acorda invariavelmente bem-disposto.
- É um cafézinho e um croquete, se faz favor. E para ti?
- Eu.. (hesita...) também, pode ser. - Diz a pessoa, a medo.
- O que vais comer?
- Nada, só o café.
E pronto, foi isto. Este foi o momento a que toda a narrativa ficou condicionada.

Um café não deve ser pedido a medo. E não deve ser tomado, sobretudo às 7h45, sem qualquer coisa para ensopar. Como um croquete. Encolhi os ombros. Passados alguns segundos, começam a surgir novas cores na pessoa: uma palete de verdes digna dos melhores pintores.
- Estás bem?
- O café não me caiu bem.
- (no shit!)
- O quê?
- Nada...

Estação de Belém. A pessoa dá sinais de melhoras e o namorado dá-lhe um beijinho para encorajar a manhã de tão difícil madrugadora. Cais-do-Sodré: os verdes voltam, acompanhados de um amarelo suspeito.
Missão: encontrar uma casa de banho (banheiro) e comprar os bilhetes para o metro.
WC encontrado, atrás do Pingo Doce, daqueles em que é preciso meter uma nervosa moeda de 50 cêntimos. Não podem ser duas de 20 e uma de 10. Tem de ser uma de 50. Ia jurar que conseguia ouvir a voz interior da pessoa a gritar para a moeda, enquanto ela fazia o longo percurso desde o orifício até ao mecanismo que destranca a cancela: CAI POOORRRAAAA!

E lá fiquei eu, feito namorado à porta de uma qualquer loja de roupa, carregado com as duas mochilas, a ouvir outras utilizadoras a comentarem com a senhora da limpeza: “Ah, bem empregues 50 cêntimos! Estava limpinha e tinha papel. No outro dia fui a Santa Apolónia e estava uma porcaria. Assim vale a pena pagar 50 cêntimos”.

Chegados a Santa Apolónia, fui beber outro café, sempre sem acúcar. A pessoa foi novamente ao WC e eu esqueci-me de a avisar. Não percebi se tinha sido falso alarme, conversa de circunstância entre a utente de meia idade e a senhora da limpeza, ou apenas sorte, mas a casa de banho estava limpa.

Já dentro do comboio com destino a Coimbra a pessoa ganhou outra cor. E não digo isto de uma forma positiva. Olhei para o chapéu e um post depois descobri que ambos conjecturámos sobre o futuro daquele pedaço de palha. Chegou são e salvo. E nós também.

Um almoço e pimbas, outro café. Eu, porque a pessoa...

Na viagem de autocarro que se seguiu resolvi enjoar também, por solidariedade apenas, que um bom namorado faz tudo por Amor.

Moral da história: quando alguém da classe “B” vos diz: “só mais 5 minutos”... não discutam.

Com Amor,

Marco

Um post de merda


Há dois tipos de pessoas no mundo. Os madrugadores, bem-dispostinhos, arrumadinhos e cheios de genica, que acordam ao raiar do dia, metem um café negro no bucho e estão prontos para tudo. O mundo é a sua ostra. Como os invejo.

E depois há os "classe B", onde eu me encaixo. Quando sabem que têm de se levantar muito cedo no dia seguinte, deitam-se sob pressão, ordenando ao corpo que adormeça depressa. E ele não adormece. Ficam a ver as horas desfiarem-se como contas de um colar, enquanto andam às voltas na cama.

Adormecem depois das 3, o diabo do despertador toca às 6. E eles, colados à cama, que os agarra num abraço lânguido e poderosamente narcótico. Mais 5 minutos. Mais 5 minutos. Mais 5 minutos. Mais 5 minutos. Porra!! Estou atrasada!

A pessoa levanta-se bêbeda de sono. Tem uma viagem de longo curso pela frente.
Enfia um chinelo no pé e desiste de procurar o outro que se escondeu - toda a gente sabe que os desgraçados dos chinelos se escondem. Vai com um pé calçado e outro descalço, olhos remelosos, ligar o esquentador para tomar duche.

Só há tempo para duche, vestir, pegar nas malas e sair.
Dois sacos ficam esquecidos. Já não há tempo para comer.

Estação de Oeiras. Compra os bilhetes para o comboio e verifica que afinal ainda sobrou tempo. Dirige-se ao Café da estação, o namorado (da pessoa) pede um café, e ela — a pessoa — pensa que pode fazer como os outros fazem e pede um café também.

Mal o café escorrega esófago abaixo, passa pelo estômago e vai directamente para os intestinos, tudo em linha recta, é nesse momento que a pessoa percebe que fez merda. Como fez. Ah, café dos infernos. Os intestinos contraem-se e dilatam-se com espasmos, como se tivesse acordado um monstro terrível, o adamastor das tripas.

"Vai passar. Só preciso de me sentar." O comboio chega, a pessoa senta-se e o monstro continua irrequieto. "Quero sair!", berra ele em fúria.

Estação de Belém. O monstro finalmente acalmou. A pessoa respira de alívio.
Cais do Sodré, estação terminal. A pessoa levanta-se, e o monstro redesperta, mais feroz do que nunca. O meu reino por uma sanita. Ai Senhores, agora é que é.

Conclui amargamente que não existe casa-de-banho no metro do Cais do Sodré. Tem de se apanhar o elevador para a superfície e depois a tão desejada casa-de-banho, qual El Dorado, fica por trás do Pingo Doce. A distância é directamente proporcional ao desespero. Paga-se 50 cêntimos para entrar e ai se uma pessoa não tem os 50 cêntimos certos no porta-moedas. Nem quero imaginar.

O mundo é um lugar hostil para aqueles que procuram loucamente por uma casa-de-banho com o mesmo desespero e angústia com que tentariam salvar a própria vida.

A casa-de-banho estava limpa. Havia papel higiénico e até piaçaba. Misericórdia.
Não há heróis nestes momentos. A pessoa teve até vontade de chorar.

De intestino limpo e ânimo renovado, há ainda o metro para apanhar e depois o comboio intercidades. Mais 2 horas de viagem pela frente. O maldito café-assassino que a pessoa julgava ter expelido até à última gota pelo orifício mais longe da boca manifesta-se agora no estômago. Oh Deuses. Ninguém merece. É como se o monstro tivesse deixado um filho que apanhou o elevador pelo esófago acima. Foram 2 horas em que o delicado e feminino chapéu de palha que repousava no colo (da pessoa) esteve prestes a servir de saco de vómito.

"Senhores passageiros, estamos a chegar à Estação Coimbra B". Esteve quase para beijar o chão, a pessoa. Terra firme. O cérebro flutua no crânio, coloca os óculos escuros e o chapéu de palha que escapou por um milímetro, e promete solenemente nunca mais beber café em jejum às 7 da manhã. Isso é para os outros. Arrumadinhos. Bem-dispostinhos.

Beijos merdosos,

Hazel