O Feitiço da Serpente


[Ficção - maiores de 18 anos]

O manto escorregou-lhe ao longo das costas nuas em direcção ao chão, no entanto, parecia que ainda continuava sobre si. Quase se poderia contar o ar partícula a partícula. Havia uma electricidade no ambiente semelhante àquela que se sente antes de uma trovoada. Os seus pés caminhavam através das lajes pretas e brancas, como uma peça de xadrez que desliza ao longo do tabuleiro. Silencioso e inexorável como a Torre e, contudo, directo e fatal como a Rainha.

O som oco do bambu tocava a melodia ordenada pelo vento quente que se esgueirava por uma janela no extremo oposto, e era quebrado por pesadas cortinas de veludo cor de sangue, que se moviam subtilmente revelando fantasmagóricas formas femininas que dançavam à sua passagem.

Toda a sala parecia um útero profundo, macio e enigmático, que aguardava a sua chegada com a inevitabilidade de uma velha profecia. O fumo do incenso serpenteava à sua volta, entontecendo-o, embriagando-o. As imagens começaram a aparecer em flashes, inexplicavelmente sincronizadas com o pulsar do sangue nas suas veias dilatadas pela mistura da excitação e do medo.

Através das cortinas de fumo, revelou-se o corpo de uma mulher, que se movia de forma sinuosa como uma serpente, dançando lentamente ao ritmo dos bambus. A Deusa. A Bruxa. Aquela que Tudo Vê. Sentiu-se capaz de sacrificar a sua própria vida para poder perpetuar aquela visão, de se oferecer para ser seu escravo. De matar ou de morrer.

Engoliu em seco, enquanto uma gota salgada de suor lhe escorria pelas têmporas. Os olhos ardiam-lhe e desfocavam-se numa névoa que mal lhe permitia ver. Totalmente submisso, de corpo nu, transpirado e a latejar de medo e desejo, mal conseguia pensar com clareza.

Talvez fosse tudo um sonho, uma alucinação, ou uma obsessão que foi longe demais. Os cabelos longos, escuros e ondulados da mulher beijavam-lhe provocadoramente os seios como serpentes vivas, lânguidas e famintas.

Deu um passo em frente, movido pelo desejo que não se consegue conter e nos leva a saltar para o abismo só pelo prazer de voar. É na loucura que está a razão.

Beijou com devoção os seus pés brancos e suaves como uma delicada flor de lótus. Ousou olhá-la nos olhos de ágata-de-fogo, que o aprisionaram num transe hipnótico. Entregou-se. Sentiu-se asfixiar, enquanto o prazer lhe invadia o corpo. Estava a ser devorado pela serpente. O seu sibilar penetrava-lhe os ouvidos como uma corrente eléctrica. Nada mais importava. Ali estava tudo.
O Alfa e o Ómega. A Grande Iniciação.

Gradualmente, todos os seus dedos foram sendo sugados, os lóbulos das orelhas, o pescoço, os mamilos, o sexo, a ponta da língua. E tudo ficou completamente escuro.

...

Quando acordou, tinha os seus lençóis enrolados à volta das pernas. Sentou-se na beira da cama, confuso. Teria sido tudo um sonho?

O seu coração disparou quando olhou para baixo e se deparou com uma pequena tatuagem de uma serpente que apareceu misteriosamente no interior da coxa esquerda...

- Fim -

Sob os auspícios da Serpente,

Hazel

Pelas ruas do meu bairro


Ainda eu usava totós com laçarotes de cetim e meias de renda branca até aos joelhos, e já a Drogaria Costa, no Largo de S. Domingos de Rana, era antiga.

Foram muitas as vezes que ali fui, pela mão da minha mãe, para comprar uma vassoura, um escorredor, um globo de vidro para o candeeiro da sala, querosene, parafusos, ou qualquer outra utilidade doméstica.

Ali havia de tudo, e as pessoas tantas vezes chegavam a fazer fila até à rua. Nesse tempo, ainda não existiam as "lojas dos chineses", nem o Leroy Merlin.


Os anos passaram e quase todo o comércio tradicional foi, aos poucos, desaparecendo como pó numa tarde de vento quente. Excepto esta loja, a mais antiga da localidade. E, quanto a mim, a mais especial.


Hoje precisei de comprar um insecticida para os tapetes (que os meus gatos têm andado pulguentos!), e resolvi ir lá.

Enchi-me de coragem, venci a timidez e, depois de pagar a minha conta, pedi autorização à senhora para fotografar a sua Drogaria.

Conhecendo-a de vista praticamente desde que nasci, apercebi-me de que só hoje, pela primeira vez, perguntei o seu nome.

A Dona Irides, 76 anos, não queria ser fotografada. Esta senhora, que percebe de torneiras, parafusos, decapantes, tintas, ceras, e toda a parafernália que se possa imaginar numa drogaria, no fundo, é a alma deste lugar. É dela que provém todo o encanto, toda a magia.

Por isso, correndo o risco de ser chata, insisti. Aceitou uma fotografia acompanhada pela sua filha Paula, enquanto conversámos sobre os velhos tempos.



A Drogaria já existia antes de ter sido comprada pela Dona Irides e o seu (já falecido) marido. Desde há 40 anos que esta senhora, bem-disposta e com um sorriso, atende os pedidos de quem lá vai, tendo sempre um conselho útil a dar.


Enquanto as suas sábias mãos me mostravam como se monta uma ratoeira, explicava de que forma os ratos mais espertalhões, depois de roubarem o tentador pedaço de queijo, conseguem escapar.


A sua filha Paula, de 40 anos, a mesma idade da Drogaria Costa, contou-me que sabe tocar piano e, com a genuína doçura e ternura de uma criança, perguntou se me podia dar um beijo.
Claro que sim!



Estas paredes contam histórias de um tempo em que havia menos de tudo. Menos lojas grandes, menos canais de televisão, menos aparelhos electrónicos. Mas, em compensação, havia mais simplicidade, mais olhos-nos-olhos, mais calor humano.

A Drogaria Costa não tem página de Facebook. Por isso, fui lá directamente fazer "like", à boa maneira tradicional. Cheguei lá, olhei nos olhos das pessoas e disse que gosto deste sítio, e que é especial para mim! Assim mesmo.




Obrigada, Dona Irides!
Obrigada, Paula!

Dentro da máquina do tempo,

Hazel

"Mamã, eu quero mais liberdade!"



O L. está insatisfeito porque lhe limito o tempo passado no computador a jogar "Minecraft". Num suspiro vindo lá do fundo da alma, clama:

- Mamã, eu quero mais liberdade!

Ora, foi com uma afirmação semelhante que D. Afonso Henriques começou isto tudo. Também queria jogar "Minecraft", e criar um país. Olhem no que deu.

Some things never change.  smile emoticon

Saudações da Rainha-Mãe,
Hazel

O Grande Livro das Plantas de Interior


Publicação de 1982. O livro que toda a dona-de-casa esmerada e airosa tinha de ter.
Um clássico que sempre vi pelas casas portuguesas, junto de outros tomos da literatura doméstica, como o "Livro de Pantagruel", "O Grande Livro dos Lavores", os da Filipa Vacondeus e, escondida no meio deles, a revista "Maria" - a tal que todas compravam, mas nenhuma admitia, aham...

Eu não sou dona-de-casa. Sou dona-de-mim. Nem sou esmerada, mas sou um bocadinho airosa. E adoro plantas! Nunca o tive, mas sempre desejei, que o livro é velhinho, mas bom!

Hoje, encontrei-o à venda em 2ª mão. Peguei nele lentamente com as duas mãos, com a devoção de quem pega numa relíquia sagrada. Até acho que os meus pés se elevaram um bocadinho do chão, enquanto um coro de anjinhos barrocos entoava AAAAHHHH...

O tão desejado livro das plantas, ali, à minha espera. Custou 2€. E aqui está ele, ao meu colo. Não fosse amanhã acordar com a cara espalmada, e estava quase capaz de o usar como almofada, só para não me separar de tão precioso tesouro.

Em suspiros,
Hazel

7 plantas resistentes e fáceis de ter em casa

Se não tem um jardim, ou mesmo uma varanda, sonha com um pouco de Natureza dentro de casa, mas acha que é impossível, isto é para si!

Reuni as 7 plantas mais resistentes que conheço. Todas sobrevivem dentro de casa, desde que haja um pouco de luz natural, água e amor. São tão resistentes, que quase poderíamos chamar a esta lista "o Chuck Norris do reino vegetal". Vejamos as instruções:

1. Clorofito (chlorophytum comosum)

Não deve ser exposta a luz directa, ou as folhas ficam queimadas. Requer regas frequentes e abundantes.
Se tiver gatos, terá de pendurá-la num lugar alto, pois eles adoram comer as suas folhas!
2. Violeta (saintpaulia ionantha)

Requer luz indirecta.
As regas devem ser regulares, mas não abundantes.

Não regar a planta directamente; a água deve ser colocada no prato por baixo do vaso.



3. Dracaena (dracaena deremensis)

Também dispensa luz directa. As regas devem ser regulares, mas pouco abundantes.
4. Jibóia (epipremnum aureum)

As folhas ficam queimadas se estiver sob luz directa. As regas devem ser frequentes e abundantes. Sobrevive também apenas em água, sem terra.

Como é uma trepadeira, deve ser usada uma estaca para que ela possa apoiar-se.

5. Lírio-da-Paz (spathiphylum wallisii)

Manter protegido de luz directa.
Requer regas frequentes e abundantes.

Além das regas, ela fica muito feliz se receber umas borrifadelas de pulverizador com água.



6. Yucca (yucca sp.)

Necessita de luz directa de uma janela.
As regas devem ser regulares, mas não abundantes.
Convém deixar a terra secar um pouco entre regas.






7. Espada-de-São-Jorge (sansevieria trifasciata)

A mais resistente de todas. Tolera luz directa, assim como meia-sombra. Resiste a regas abundantes, assim como a regas espaçadas.

Se deixar morrer uma Espada-de-São-Jorge... o melhor para si são mesmo as plantas de plástico!

Dois conselhos que se aplicam a todas as plantas: sempre que houver folhas ou flores secas, corte-as com uma tesoura, para que os nutrientes cheguem ao resto da planta.

Quando as folhas tiverem pó, limpe-as com um pano húmido (há quem use leite, mas a água é suficiente para limpar as plantas), de ambos os lados, para que as plantas consigam respirar. A excepção é a violeta, que tem folhas frágeis e peludas; neste caso, basta retirar o pó usando cuidadosamente uma escova de dentes velha.

Se seguir as minhas instruções, não há como falhar!

Directamente da minha selva em vasos, para o mundo,
Hazel

Sagrado Feminino - As Mulheres que me Acompanharam

Agradeço publicamente às maravilhosas mulheres que me acompanharam ao longo do último mês, celebrando o Sagrado Feminino.

Deixo aqui a minha homenagem a todas vós, partilhando um pouco de cada uma e daquilo que esta experiência vos trouxe:

 
Heloísa de Mesquita Inoue
Goiânia, Brasil

"O sagrado feminino despertou a esperança e trouxe de volta o que há de melhor em mim, o meu olhar terno e sereno, ou seja, trouxe de volta a mulher que dormia em mim!"













Sara
Porto, Portugal

"O que me fica deste mês é a sensação de liberdade! Ser mulher e sentir-me mais mulher é também sentir-me livre! Livre de roupa e livre de preconceitos, leve e fresca como este maravilhoso mês de Maio. Obrigada, Hazel, por mais este desafio que partilhei contigo!"










Rita C.
Carcavelos, Portugal


"Para mim este Sagrado Feminino foi um regresso à minha Mónada..."












Rosa Araújo
Almeirim, Portugal

"Considero-me uma pessoa feminina por natureza e de bem comigo mesma, mas muitas vezes acabo por vestir a 1ª coisa que me aparece na frente, o que ao longo deste mês não aconteceu e dei por mim a prestar mais atenção ao meu corpo. Tal como a Hazel, este ano senti-me a celebrar o meu aniversário prolongadamente. Os 50 são um marco importante, por isso valeu a pena!"








Diana Araújo
Norwich, UK

"Maio - mês que me levou a casa, a Portugal. Por entre surpresas, fadas e flores, iniciei esta celebração com a minha mãe. Há um mundo único e mágico das mulheres, que nos une e fortifica, que nos dá asas e lugares seguros."










Lénia Carlos
Cascais, Portugal

"Com esta experiência descobri que se quero, consigo. Por isso basta querer! Estes 31 dias foram vividos com muito entusiasmo, disciplina e em comunidade com as outras mulheres. Descoberta: tenho muitas saias e vestidos que não usava. Adorei!"








Lieve Tobback
Lousã, Portugal

"Em 2010, acompanhava a Casa Claridade à distância. Lembro-me tão bem das invenções dos visuais diários, esperava todos os dias pela fotografia. Este projecto de vestidos e saias, esta celebração do feminino inspirou-me na altura. Soltou algo em mim. Comecei a ver-me como a mulher que sou. E comecei a usar vestidos e saias.

Este mês de Maio decidi entrar no desafio proposto. Ainda estou a reflectir sobre e a digerir este mês que passou. Foi um mês intenso. De descobertas. Lindo. O facto de fotografar-me todos os dias e publicar esta fotografia, fez-me pensar no que vestir em vez de "enfiar o trapinho que estivesse mais à mão".
Também não houve pijamadays este mês, hehehe. Cuidei mais de mim, olhei mais para mim. Acho que nunca me olhei tanto ao espelho! Fiquei mais "vaidosa" ao longo deste mês e continuo a pensar em formas diferentes de combinar os vestidos e saias que tenho. Aprendi a sair da minha concha e assumir-me, como mulher e como pessoa. Sinto-me mais segura de mim, sinto-me mais bonita. Esta minha caminhada ainda tem muito por onde andar mas sinto que resgatei o meu ser, o meu sagrado feminino. Grata, por tudo."


Missão cumprida!
Em conjunto, resgatámos o Sagrado Feminino, a união entre mulheres, a amizade, o respeito, a confiança, a individualidade de cada uma. Obrigada a todas, do fundo do coração!

Em profunda gratidão,
Hazel