Porque o céu é mais largo no Alentejo



Não existe onde encontre tanta paz quanto no Alentejo. Não é pelo calor que amolece a determinação. Nem pela maresia na zona costeira que nos viaja em espiral desde as narinas até ao cérebro, fazendo crescer água na boca e esperança nos olhos.

Nem tão pouco pelo uso do gerúndio, a forma mais pacata e sem pressa de fazer uso dos verbos, levando-os até a perder a definição de tempos verbais para passarem a ser apenas um tempo nominal do verbo devido à falta de flexão de tempo. Ali o tempo é diferente do tempo nos outros lugares do mundo, e até os verbos se conjugam de outras maneiras.

Eu vou ao Alentejo para ver o céu. Sobre a planície, nas zonas rurais alentejanas, as casas e as árvores semeiam-se escassas e esparsas, deixando que o céu beije toda a superfície à nossa volta. Como o céu é largo ali.

Vemo-lo descer mesmo até ao chão, sobre nós, imenso, eterno, vivo como um Deus feito de azul e de oxigénio. Sentimo-nos aplacados pelo seu tamanho onde se entornaram latas de tinta em tons ciano durante o dia; e, à noite, embalados pelo canto hipnótico dos grilos, somos cobertos pelo manto negro salpicado de estrelas.

Ali encontro a minha pequenez, aconchegada por braços celestes que não têm fim.
Ah, Alentejo.

Falando e escrevendo usando o gerúndio,

Hazel

[Escrito a lápis de carvão no meu caderno, com a Ilha do Pessegueiro ao fundo e o horizonte aberto à minha volta.]

Profissão: equilibrista


Anacleta segurava o telemóvel entalado entre o ombro e a orelha, escutando a voz monocórdica do chefe que balbuciava qualquer coisa acerca do relatório mensal. Sobre o braço direito dobrado junto à linha do umbigo que se afundava entre refegos suados, onde outrora brilhara o cristal rosa-choque de um piercing, assentava o seu bebé que acabava de lhe desenhar uma longa autoestrada branca bolsada pelas costas abaixo. Plim!, apita o microondas, que desliga com a mão esquerda. Já cheira a sopa de legumes, e não há tempo para comê-la.

Entre as sobrancelhas arranjadas à pressa que ficaram arqueadas demais conferindo-lhe uma expressão de espanto permanente, uniam-se dois vincos de pele como pontos de exclamação resultantes do esforço para manter um estado de alerta e concentração constantes.

Nunca relaxava. Quando dormia, preenchia folhas de cálculo, fazia gráficos, estatísticas e apuramento do IVA ao mesmo tempo que passava óleo de cedro nos móveis, raspava o queimado das torradas e estendia a roupa no varal colocando as molas por ordem de cores, o que lhe prorporcionava uma reconfortante ilusão de ordem no meio do reboliço que era a sua vida.

Fazia exactamente o mesmo quando estava acordada, o que por vezes lhe tornava difícil distinguir se estava desperta ou nos domínios de Morfeu. Cansada e distraída, acabava por frequentemente misturar roupa clara com roupa de cor, e terminava tudo tingido de cor-de-rosa, o que arreliava o marido, que tinha preconceito com a delicada e feminina cor que lhe ia aos poucos invadindo todas as suas camisas brancas.

Sentia-se um falhanço em todas as áreas. Como profissional, porque quase tinha de correr uma maratona para conseguir cumprir os prazos dos abomináveis relatórios mensais. Como mãe, porque não conseguia dar suficiente atenção ao seu filho. Como mulher, porque há meses que não fazia amor com o marido devido às enxaquecas, umas vezes reais, outras inventadas. Como dona-de-casa, porque estava tudo sempre desarrumado e tingido de cor-de-rosa. E como ser humano, porque se tinha esquecido que lhe era permitido tudo isso e ainda assim viver sem culpa.

Anacleta era uma mulher espantosa sem o saber, porque conseguia gerir um milhão de responsabilidades em simultâneo - tal como tantas outras mulheres e homens com quem nos cruzamos diariamente, cheios de vincos de preocupação e angústia porque estão a fazer tudo ao mesmo tempo, e por isso acham que não estão a conseguir ser suficientemente bons em nada.

Esta semana, a carta 2 de Ouros mostra-nos que é possível transcender os limites quando colocamos a noção de perfeição em perspectiva. Por vezes, a única forma de manter o equilíbrio ao longo do fio da vida é aceitar distribuir-nos em várias direcções, manter o ritmo e a flexibilidade, e não perder a fé em nós mesmos por vacilarmos quando o vento sopra. Afinal, mares tranquilos não fazem bons marinheiros.

Hazel
Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1595