O fio do tempo - parte II

quarta-feira, maio 24, 2017


Fiquei suspensa por um fio como uma aranha de pernas longas, a baloiçar para um lado e para o outro, desde a crónica escrita na edição anterior deste jornal. O fio do tempo tem brincado às escondidas, serpenteando através do mecanismo do relógio de parede, ora espreitando, ora ocultando-se por trás das rodas dentadas. 

Os braços sinuosos que tecem a trama do tempo trabalham com misterioso ardil; cortam o fio de uns e logo de seguida abrem as mãos de dedos draculinos libertando delicados novelos de fio de algodão que descem pelas encostas verdejantes, para deleite dos que aguardam pacientemente ao longo de nove luas.

O ribeiro prateado que desagua pelos olhos brilhantes segue uma inesperada direcção quando o calor de um sorriso o recebe. Não podes parar. O tempo é um príncipe eterno que caminha com um pássaro renascido no peito. O ponteiro dos segundos marca a contagem decrescente para que o novelo de fio alvo e macio esteja pronto a desenrolar-se devagarinho estendido pelo cordão umbilical de um bebé.

Pelas barbas de Zeus, desviai os olhos da barriga desta vossa escriba, que se encontra já fora de prazo-de-validade para tal laçada. O contributo ao mundo está rematado com o meu gaiato travesso e meigo que vai, também ele, percorrendo o fio do tempo com ténis número 38. Se houver algum volume abdominal que dê azo a suspeitas, desfaçam-se já as mesmas: é, por certo, flatulência!, que às vezes sucede quando me esqueço do motivo pelo qual tinha deixado de comer papas-de-aveia. Nada que uma infusão de funcho e hortelã não possa resolver com dignidade.

O bebé que aí vem é da minha amiga Liliana, que me pediu para assistir e acompanhar o nascimento. Esta vossa corajosa escriba, que se desfalece quando alguém corta um dedo numa lata de atum, aceitou tamanha honra grata e prontamente, sem hesitar — a minha amiga que não leia isto, ai senhores, e se ler, que fique tranquila, porque as técnicas de respiração que hão-de servir para uma, servirão para a outra. Força na peruca, estamos juntas nisto. 

Dizia o outro cavalheiro: “Para os amigos, tudo”. Serei amiga, irmã, mãe, confidente, treinadora de basket, malabarista, domadora de leões e tudo o que mais for preciso para ajudar o fio do tempo a nascer triunfante.

Esta semana, o arcano 8 de Paus diz-nos que não há tempo a perder nem fio a desperdiçar. Urge viver. Desatam-se nós, caminha-se para a frente. O milagre do impossível torna-se possível quando menos se espera, mais depressa do que se imagina. Como o choro de um bebé acabado de nascer.

Hazel
Consultas em Oeiras e online

Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1633
desenho: cortesia de Diogo Ribeiro

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