Plantas do demo

quinta-feira, junho 01, 2017


Debrucei-me para a frente sem vergonha nenhuma dos vizinhos e apanhei os dois vasos que alguém deitou para o contentor do lixo na curva à entrada da minha rua. Um com túlipas cor-de-rosa, o outro com jacintos lilases. Ah que belas flores. Obrigada, vizinhos!, pensei com desfaçatez. Cheia de amor e cuidados, trouxe as novas hóspedes para casa e instalei-as junto com as extrovertidas begónias, a orquídea pachorrenta que tem preguiça de florir e as saintpaulias pequeninas e vivaças. Foi um festim. Nunca há plantas demais aqui em casa — ou onde quer que seja. Se fosse eu a mandar nisto, ordenava que o mundo fosse completamente forrado de relva para que as pessoas pudessem andar descalças.

Reguei-as durante dias, semanas, meses, encantada com as inverosímeis cores das suas pétalas e a inacreditável longevidade das flores. Inacreditável, disse eu, e disse bem, pois nenhuma das flores dava sinais de estar cansada de viver. Seria gratidão vegetal? Poderia ser da luz, da água? Ou de mim? De sobrolho franzido, suspeitei que talvez pudesse ser de mim. Não por deter algum particular talento para imortalizar plantas, mas devido a uma astigmática inaptidão para desconfiar delas.

Com grandes sentimentos de culpa por cometer tamanha atrocidade com as folhinhas eternamente verdes — impossivelmente verdes, essa é que é essa — tentei partir-lhes um pedaço para testar. Nada aconteceu. Tentei com mais força. Ainda nada.

Incrédula, puxei uma pétala e constatei, com grande espanto, que andei meses (meses, senhores, meses!) a regar duas plantas artificiais que só podem ter sido fabricadas pelas mãos engenhosas do Belzebú, e que me enganaram, não só a mim, mas também ao meu gato que também lá foi tentar mordiscar uma folha sem qualquer sucesso. Podia sentir o gerânio da marquise a rir-se de mim em todas as flores, trocista. A hortelã virava as folhas para lá, com descrédito.

Após a escandalosa descoberta, superei o preconceito que sempre tive com plantas artificiais. Fiquei com elas na mesma (fazer o quê?), sem saber o que me espera depois disto. Um galo de Barcelos, um ‘naperom’ sobre a televisão, uma couve Bordallo Pinheiro?

Esta semana, o arcano 10 de Espadas leva-nos a avaliar com atenção aquilo que nos rodeia e a tomar consciência da quantidade de plantas que existem por aí sem vida e que continuamos a alimentar convictos que ainda podemos recuperá-las. Quem diz plantas, diz projectos. Ou relações. Ou sonhos. Vamos pensar nisso. Agora, com licença, que vou ali encher o regador na torneira da banheira.

Hazel
Consultas em Oeiras e online
Email: hazelclaridade@gmail.com


Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1634
foto: vaso das túlipas cor-de-rosa que, entretanto, já mudou de lugar 😊

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