Peter Pan mora em Lisboa

quinta-feira, setembro 28, 2017


Num quarto andar sem elevador, com intermináveis degraus de madeira antiga que rangem como uma velhinha cansada e rezingona apesar da leveza com que os seus ténis pretos os sobem todos os dias no regresso a casa.

Na solidão do seu quarto de paredes tristes e nuas, a porta pintada a branco-casca-de-ovo separa-o dos horrores do mundo tornando aquele singelo quadrado de chão uma ilha silenciosa e flutuante no céu lisboeta, palco de uma peça de teatro onde não existe público nem aplausos, mas apenas um actor que se sujeita a cumprir o papel que escreveu para si mesmo com a resignação paciente de quem cumpre um propósito de vida desconhecido.

Deixou de fumar, mas acendeu um cigarro e deixou-o consumir-se sozinho sobre o cinzeiro velho enquanto os seus olhos cor-de-mel viajam para lá dos riscos e marcas na pintura da parede, cicatrizes de outras vidas que ali foram felizes e infelizes conforme as circunstâncias o foram permitindo. 

Derrama no papel todo o sangue que lhe percorre o coração, numa transfusão feita em tinta azul de caneta Bic laranja. Escreve em caligrafia minúscula, tímida e insegura, como se falasse baixinho com receio de ofender as inquisidoras margens vermelhas da folha pautada. Cada verso do poema um minucioso trabalho de joalharia, onde palavras, métrica, ritmo e significado compõem uma filigrana perfeita.

Os dedos longos e draculinos dobram o papel e escondem-no no fundo de uma gaveta. Ali se encontra a sua vulnerabilidade, a sua nudez, a fragilidade e toda a magia da Terra-do-Nunca. Todo o conteúdo do seu coração, que é apenas um, como a vida, esta, é apenas uma; e um amor como aquele que o invade, que lhe permite esvaziar desta forma o coração e ainda assim, mantê-lo a transbordar sangue e esperança sem cessar, é apenas um também.

Na manhã seguinte, Pan, o Peter, acorda antes do Sol e desce a escadaria velha e queixosa em passos ligeiros. No bolso das calças, o papel dobrado que tirou apressadamente da gaveta. Como sempre, foi o primeiro a chegar ao escritório.

Transcreveu o poema para o computador, releu-o mais vezes do que alguma vez admitiria, censurou-se pela falta de qualidade que achava ter e enviou-o. Peter Pan estava apaixonado. Esperou ansiosamente durante aquilo que lhe pareceu demorar horas, dias, semanas, meses. Dez minutos depois, o tão desejado som de notificação de mensagem. Ela gostou. Talvez o seu poema não fosse tão mau assim. Talvez tudo fizesse finalmente sentido.

E fez. O poema foi publicado pela Chiado Editora na Antologia de Poesia Contemporânea “Entre o Sono e o Sonho”. O lançamento será no próximo Sábado. Peter estará lá, ainda incrédulo e tímido, a falar baixinho como a sua caligrafia. Assina com o nome Diogo Ribeiro — porque ninguém acreditaria que o Peter Pan mora em Lisboa.

Esta semana, o arcano Valete de Copas inspira-nos a nunca deixar de seguir o nosso coração e os nossos sonhos. No fim de tudo, é o que realmente importa. O mundo é dos que amam.

Hazel
Consultas em Oeiras e online

Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1649
Ilustração: Eyvind Earle 

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