O gato à janela

quinta-feira, novembro 09, 2017


Lambe minuciosamente o corpo todo, enquanto as cortinas esgaçadas pelas unhas rodopiam ao sabor do vento fazendo a casa respirar pelas narinas da janela. Por fim, dobra as patas da frente com maciez, arrumando-as por baixo do focinho, estende os bigodes ao Sol e respira fundo.

Bonacheirão e gordo, persegue os que passam na rua com o seu olhar velhaco, cor-de-ervilha. Eles vão, ele fica. Talvez alguns não saibam para onde ir. Outros parecem não saber porque continuam a ir. Há os que vão porque não têm onde ficar.

Os que não vão nem deixam ir. Os que vão, mas anseiam por vir. Alguns nem sequer sabem que vão. Outros julgam ir, mas marcam passo sem sair do lugar. São, no entanto, cada vez menos os que sabem onde e porque vão — e querem realmente ir.

Porém, o gato permanece. Fica, porque tem uma taça a transbordar de comida e outra com água fresca; a torneira do bidé que pinga; ou algum copo de água esquecido sobre a mesa da cozinha, onde — shlép, shlép, shlép — mergulha a língua áspera quando ninguém está a ver. Fica, porque não tem testículos e no lugar deles nasceu-lhe a pacatez de não precisar de ir a lado algum. Os gatos à janela são a imagem da paz, da saciedade e da tristeza que é não ter sonhos nem ambição.

Um dia, distraído com um pássaro, escorregou da janela e foi parar à rua. Comeu do lixo, andou debaixo de carros, lutou com outros gatos e até fez umas safadezas com uma gata esguia de três cores. Teve fome, sede e medo. Gastou sete das nove vidas e até sabia o caminho de casa, mas seguiu na direcção contrária sem olhar para trás, com grande desgosto da dona, que colou a sua foto em todos os postes e candeeiros.

O arcano Três de Paus desperta-nos a fome e a sede de viver, desafiando-nos a deixar a janela a partir de onde, qual Tareco com uma coleira e guizo ao pescoço, observamos passiva e confortavelmente o que se passa à nossa volta. A janela de casa e a janela do computador. A da televisão e a do telemóvel. Está tudo a acontecer lá fora, meus gatinhos. Vão por mim — que acabei de escorregar janela abaixo.

Hazel
Consultas em Oeiras e online

Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1655

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2 COMENTÁRIOS

  1. Parabéns hazel e muito obrigado por partilhares connosco textos que vão tão direitinhos ao ponto!Foste o primeiro blog que li, desde um dia que foste as tardes da Julia...cada vez gosto mais de cá vir!!
    Há dias fizeste me sentir uma princesa ranhosa,hoje uma gata a janela!

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    1. Obrigada, querida Luz, que bom, fico muito feliz por saber! :) Um beijinho, gatinha à janela! :)

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