O Ladrão de Estrelas


Esta tarde de Domingo, um ladrão de estrelas esgueirou-se silenciosamente pelas escadas do meu prédio, matreiro e rasteirinho ao chão como um gato vadio quando avista a presa, e roubou a estrela que esteve durante muitos meses pendurada na minha porta de entrada.

Oh Senhor Ladrão de Estrelas, porque fez isso? 

A minha porta, que é uma porta sensível, está inconsolável, despida, solitária. Era apenas uma simples estrela, como as que se penduram nas árvores de Natal; não era valiosa - mas era nossa.
Para consolo da minha porta que chora lágrimas de orvalho, assegurei-lhe que irei fazer uma nova estrela para ser sua amiga e confidente.

Cuide com amor a estrela que levou sem pedir permissão. Que ela o guie no caminho para a felicidade (entendo que não seja feliz, caso contrário, porque necessitaria de surripiar uma estrela indefesa, alheia?).

Quando - e se - encontrar a sua própria luz, por favor, devolva a nossa estrela.

Um pouco triste,

Hazel

P.S. - Seja antes um Ladrão de Beijos. 
Deve ser mais emocionante roubar beijos que estrelas. 

Cileide, Sarah e Liam


"Minha mãe vai se aposentar e ela gostaria de morar em Portugal. Ela te acompanha no seu blog há muito tempo. Você pode mandar um abraço para ela?"

A maior recompensa por escrever e partilhar nas páginas desta casa-livro virtual nove anos da minha existência é a amizade que foi surgindo com pessoas maravilhosas que, de outra forma, dificilmente teria tido oportunidade de conhecer, por estarem longe, seja noutras cidades de Portugal, seja do outro lado do oceano - no Brasil.

Fiz um vídeo em resposta à mensagem da família Cileide, Sarah & bebé Liam, que pediram o meu endereço, para onde enviaram uma caixa com presentes embrulhados em papel, alegria e carinho. Um raio de Sol brasileiro para aquecer o Inverno português.

Porque será que todos os brasileiros têm uma caligrafia leve, bonita e feliz, como se as letras dançassem? Amor em cada letra. Adoro!

Muitas graças pelos vossos generosos presentes e pela vossa amada presença.

Hazel

Em busca do tesouro esquecido


O olhar insinuante e furtivo de Ofélia é, reflectido em mim, apanhado de flagrante pelos olhos matreiros do cavalheiro sentado na mesa atrás e, de imediato, ela fecha-me e atira-me para o fundo da bolsa, de onde retira um leque perfumado, que abana com petulância. O seu peito de pomba, empoeirado com pó-de-arroz, palpita como se o espartilho lhe empurrasse o coração para perto da boca.

Concede-me a honra desta dança?, arrulha o indivíduo ao seu ouvido. O vestido rodado parecia flutuar pelo salão, roçando nos outros vestidos de cores pastel, que deslizavam entre notas musicais, rendilhados e sussurros.

Saí do compartimento da bolsa bordada sempre em grandes ocasiões: lábios retocados com discrição em bailes onde se decidiam destinos apenas com a cumplicidade de um olhar; lágrimas comovidas em casamentos, que eram educadamente secas com lenços monogramados; o tule preto que se puxava com circunspecção do chapéu num ou noutro funeral.

No quarto de Ofélia, as paredes rosa-escândalo não raras vezes me viram abandonar em suspiros aos Nocturnos de Chopin entre as fiadas de colares de pérolas perfumadas com eau de toilette e a escova de prata com cerdas de crina de cavalo branco, sobre a penteadeira de madeira marchetada.

Quando fazia um passeio pelo campo acompanhada do cavalheiro dos olhos matreiros, Ofélia deixou-me cair para o chão sem que desse conta. Passei o Outono e o Inverno entreaberto debaixo das folhas castanho-dourado dos plátanos. Conheci a doçura do orvalho que escorria por mim todas as madrugadas, o cheiro da terra molhada e o despertar dos pássaros -, a mais bela sinfonia.

Um caracol fez de mim abrigo e, durante muitos dias, partilhámos a solidão e o silêncio. Ofélia, os bailes e os colares de pérolas pareciam-me agora tão distantes e pequeninos em comparação com a grande alegria que foi para mim conhecer este outro pedaço do mundo.

Ao romper da Primavera, uma mulher com um chapéu de abas largas caminhava à sombra dos plátanos sem quase fazer barulho, tendo como única companhia duas borboletas de asas brancas. Estendeu as mãos, que me descobriram por entre as ervinhas verdes. Os seus olhos sorridentes, reflectidos em mim, tinham sulcos que pareciam bigodes de gato. Eram sinceros, bondosos.

Observou-me e deixou-me ficar. Não precisava de tesouros. Nos seus olhos, o Sol brilhava a partir de dentro. Um baile de flores que dançavam com a brisa morna cobriu-me totalmente. Nunca me senti tão feliz.

O arcano Nove de Ouros inspira-nos a olhar para dentro e descobrir tesouros perdidos, esquecidos ou mesmo abandonados. Já temos tudo o que precisamos, aqui, agora. Dentro de nós. Quem duvidar, que procure bem.

Hazel
Consultas em Oeiras e online
Email: hazelclaridade@gmail.com

Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1620
foto: imediacreatives.it

9 anos a escrever sem parar

Tive outrora um vizinho, um senhor já com muita idade que morava numa casa estreita e espantosamente alta; parecia um ponto de exclamação ao fundo da rua. Ao longo da vida, foi sempre acrescentando e construindo, conforme as economias lho permitiam. A peculiaridade da sua casa surpreendia quem passava. Achava-se que ele era meio louco, porque podia parar, não precisava de continuar a esticar mais a casa, mas ele fazia-o quase como uma obsessão. Já não sabia viver de outra maneira.

Um dia, deixei de ouvir as batidas das ferramentas nas paredes. O silêncio instalou-se. O senhor construiu até ao último sopro de vida. A casa continua de pé, habitada pelo vento que se esgueira pelas frestas, os ecos das pancadas nas paredes e a hera que não pede licença para serpentear ao longo dos muros. Penso que o compreendo. Também não sei para que escrevo - senão dar sentido à minha existência.

Há nove anos, nasceu este blog. De alguma inexplicável forma, dá-me serenidade pensar que, por muitas voltas e reviravoltas que o mundo dê, uma parte de mim mora sempre aqui, nesta Casa Claridade, onde os alicerces e as paredes são feitos de frases, e os tijolos, que fui pacientemente colocando, um por um, são as palavras que escrevo.

Consultei as estatísticas há uns dias, e senti-me grata por saber que esta casa teimosa e exclamativa foi visitada mais de quatro milhões de vezes desde que nasceu. Agradeço-vos por terem a paciência de lerem o que escrevo e pela proximidade que se cria entre nós. Escuso-me por alguma vírgula mal colocada, como quem pede desculpas pela desarrumação às visitas.
Mas o sofá é confortável e o chá foi feito com amor.

Muitas graças a todos.

Hazel

Festival de Balonismo em Coruche


O 1º Festival Internacional de Balonismo irá realizar-se de 28 de Março a 2 de Abril em Coruche, a cerca de 45 minutos de Lisboa, e contará com mais de trinta balões de ar quente vindos de vários países do mundo, alguns com formas especiais, como o pelicano que virá do Brasil, ou a coruja de Las Vegas, EUA. 

Durante seis dias, os visitantes deste festival de entrada gratuita poderão observar a vila ribatejana a partir do céu, assistir ao Night Glow, um espectáculo de luz e som onde os balões irão sincronizar os seus queimadores com o ritmo da música; haverá artesanato e actividades para toda a família e a presença de restaurantes tradicionais da vila e street food, à volta da Praça de Touros.

Este evento, onde a sustentabilidade é um factor de relevância, irá contribuir para a plantação de árvores de espécies autóctones na Herdade dos Concelhos, no município, que serão colocadas na terra durante o mês de Outubro. Quem comprar uma árvore terá acesso a uma viagem de vôo livre em balão de ar quente. Parte do valor das vendas reverterá a favor da Quercus - Associação Nacional de Conservação da Natureza.

A segurança e a qualidade dos vôos são uma prioridade para a Windpassenger, empresa com mais de 30 anos de experiência na prática de balonismo, que possui todos os certificados, seguros e licenças da EASA (European Aviation Safety Agency), sob a direcção de operações do piloto responsável pelos vôos, Guido Van Der Velden dos Santos. Este evento é patrocinado pela Rubis Gás, Câmara Municipal de Coruche e Paladin.

O custo de cada árvore/viagem de vôo livre será 159€. Os vôos estáticos serão gratuitos.
As reservas podem ser feitas através do site do Festival Internacional de Balonismo.

 De olhos postos no céu, Guido Van Der Velden dos Santos, o piloto responsável pelos vôos.




NOTA DE AGRADECIMENTO:
As fotos que não contêm a marca d'água da Casa Claridade são da autoria de Joana Batista - Viajar em Família, a quem agradeço por ter registado a maravilhosa experiência de voar de balão!

Com a cabeça no ar,

Hazel

"Aos homens nada parece mal"


Uma mulher às vezes tem que se calar, mesmo quando tem razão - aconselhava a minha mãe no tom pragmático de quem cresceu no tempo da ditadura antes da Revolução dos Cravos e aprendeu a evitar chatices. Poucos conselhos segui, como compete a uma ovelha ronhosa.
Fui uma gaiata travessa, que respondia mal, que questionava, quase sempre de trombas - e levava nelas algumas vezes também. Nasci e cresci danada com o mundo.

Contrariada, tenho de admitir que ela estava correcta quando afirmava que aos homens nada parece mal: podem ter pêlos nas pernas, a floresta amazónica a enfeitar as virilhas, o peito e as costas, um matagal debaixo de cada braço e até podem ter uma única e longa sobrancelha como o Becas da Rua Sésamo. Podem ter barriga e afagar com orgulho a sua eterna gravidez alimentar. Se estiverem aflitos, há sempre um canto numa rua onde não parece muito mal que um homem alivie a urgência da micção. Em casa, podem fazer chichi de pé e salpicar a tampa da sanita, que alguma mulher há-de limpar a seguir.

Ó estreeela, queres co’meta? - podem meter-se com as mulheres que passam, mudar de companheira quantas vezes quiserem, e usar cuecas feias, com os elásticos relaxados, que deixam caídas no chão junto com as meias e o resto. Se andarem desmazelados, a culpa é das mulheres (que “são” umas desmazeladas).

Podem não saber cozinhar, nem gostar, nem querer aprender, porque não é preciso. Contar anedotas ordinárias, dizer palavrões, gabar-se à boca-cheia das mulheres com quem estiveram e até daquelas com quem não estiveram - mas gostavam de ter estado. Sentar-se de pernas abertas, assim como coçar e escarafunchar a genitália em público (vá lá uma mulher atrever-se a fazer o mesmo). Mostrar as mamas na rua, na internet, na praia, na piscina, ou no quintal enquanto conversam com o vizinho do lado. Ninguém liga.

Podem ter caspa, calvície e até carrapatos atrás das orelhas. Não há escândalo, porque são homens. Safam-se sempre; eles sabem-na toda. Contudo, em caso de catástrofe natural, são as mulheres as primeiras a ser salvas.

Bem sei que este retrato é um exagero, uma hipérbole, um descabimento - mas só por conta dos carrapatos. O resto é-como-é por responsabilidade das mulheres, porque todo o homem é filho de uma. O meu filho é filho de uma mãe (que engraçado seria se a frase acabasse assim) que não se quis calar. Perdoem-me.

Esta semana, o arcano Rei de Espadas inspira-nos a questionar as regras do universo que nos rodeia e a não aceitar que nos imponham uma verdade que não é a nossa. Porque é que uns podem tudo e os outros não podem nada? Isto, para quem é do sexo feminino. Já os leitores portadores do cromossoma xy, olhem, escondam este jornal e não o mostrem às vossas mulheres.

Hazel
Consultas em Oeiras e online
Email: hazelclaridade@gmail.com

Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1619
foto: madairainitaly, licença CC0

5 formas naturais de aliviar o stress


São tantas as obrigações da vida atual, as informações chegam a uma velocidade sem precedentes, não nos permitindo o devido tempo para digeri-las. Somos drenados no corre-corre de deveres e metas - seja por pressão social, familiar, do trabalho, ou aquelas que nós mesmos impomos - pelo receio de ser atropelado na escalada rumo ao sucesso e satisfação pessoal, em que qualquer passo em falso pode fazer-nos escorregar uns quantos metros.

Com tantos estímulos, não é surpresa que as nossas emoções fiquem à flor da pele, e o balanço do nosso organismo se revele muito mais instável. Apesar do desenvolvimento tecnológico, das aplicações e ferramentas supostamente criadas para facilitar as nossas vidas, os níveis mundiais de stress têm aumentado.

Entre tantos afazeres e atribulações, acabamos por negligenciar o cuidado com a mente e o interior, culminando em sintomas mentais e físicos diagnosticados sob o nome de stress: ansiedade, depressão, agitação, palpitações, mal-estar, ganho ou perda de peso, dores de cabeça, insónia, hipertensão, aumento do risco de doenças do coração, entre outras consequências do stress, como o envelhecimento precoce.

Para amenizar esses males, é muito comum as pessoas recorrerem a saídas fáceis e práticas, como fumar, tomar remédios e recorrer a alimentos ou bebidas reconfortantes - ou ambos - especialmente, doces, fast food, alimentos gordurosos, álcool e café em excesso, para os que precisam de se manter acordados e alerta. Por vezes, actividades que precisam de foco extremo acabam fazendo com que o profissional caia numa armadilha. Por exemplo; André Coimbra, jogador profissional de póquer, relatou que usava de modo intenso a cafeína para se manter focado em torneios da modalidade. E que, a partir do momento que percebeu que isso lhe tirava o sono, acabou por tentar evitar o uso excessivo de café.

A conexão entre comer/beber e a sensação de conforto é feita rapidamente e, uma vez instituída, difícil de quebrar. É por isso que nos momentos de tensão deve-se resistir às tentações e investir em alternativas mais saudáveis, para não se criar mais maus hábitos e desenvolver novos vícios, caindo assim num ciclo vicioso de mais stress.

Respirar corretamente
Em momentos em que o corpo experimenta a sensação de nervosismo, tendemos a respirar de forma irregular e superficial. Por isso, devemos concentrar-nos na respiração, de forma a retomar o fluxo energético e apaziguar o ânimo. Páre um minuto e controle os seus movimentos de inspiração e expiração, tente focar a respiração na barriga, na altura do umbigo, como os bebés fazem, até ela ficar leve e profunda.

Investir em exercícios de respiração faz com que o corpo retorne ao estado de relaxamento, e o impulso extra de oxigénio contribui para a activação do sistema nervoso parassimpático, estimulando acções relacionadas com a sensação de calma no organismo.

Exercício físico
Pode achar que não tem tempo para juntar mais uma actividade à sua já conturbada lista de afazeres, mas é possível encaixar na agenda meia ou uma hora por dia, pelo menos três vezes por semana. Aos poucos, a actividade física deixa de ser uma obrigação, já que gera uma sensação comprovada de prazer: a prática regular dos exercícios liberta endorfinas, substâncias que agem no sistema nervoso e funcionam como um calmante natural, propiciando uma sensação de bem-estar; também produz serotonina, responsável pela redução do stress.

Algumas actividades favorecem a interacção social, o que contribui para a confiança e autoestima, enquanto outras trabalham a concentração e foco, desviando a mente dos problemas e desanuviando as tensões. Procure uma que lhe seja prazerosa, seja dança, luta, corrida, escalada, yoga, desportos…

Meditação
A meditação permite retomar a harmonia espiritual e regenera as energiascontribuindo para o alívio do stress e proporcionando maior serenidade. Com esta prática, é possível atingir níveis profundos de consciência e melhorar a autopercepção, alcançando um estado de atenção às próprias sensações, pensamentos e emoções. É necessário alguma persistência por parte daqueles mais impacientes, o começo pode ser incómodo, dando alguma sensação de pressa e desconforto por ficar na mesma posição, por isso é essencial saber os limites do seu corpo e ir avançando à medida que se sente confortável, com humildade, sem atropelar passos.

Comer bem
Não é segredo que uma alimentação diversificada, equilibrada e correcta é um ponto-chave na manutenção do equilíbrio, tanto físico quanto mental. No entanto, muitos não sabem o poder de alguns alimentos, cujos nutrientes e componentes proporcionam benefícios específicos para a redução do stress e melhoria da saúde. Um deles é a laranja, além de rica em vitamina C, que impulsiona o sistema imunológico, auxilia no controle do cortisol, hormona libertada em momentos de stress e que, em excesso, gera alterações negativas no organismo.

Também deve-se apostar no maracujá, que contém propriedades calmantes, e na levedura de cerveja para fazer sumos - este fermento é rico em vitaminas, fibras e proteínas, que ajudam a manter o sistema neurológico equilibrado, melhorando a resposta à ansiedade, e deixando-nos mais centrados.

Outra dica útil é incluir na dieta alimentos antioxidantes para diminuir os efeitos negativos do stress, como tomate, couve, uva, brócolos, framboesa, mirtilo, cenoura e agrião. A banana e os vegetais verdes-escuros também são importantes por serem ricos em magnésio, mineral rapidamente consumido em momentos de stress, e que precisa ser reposto por produzir neurotransmissores que favorecem a sensação de satisfação e alegria.


Reformular pensamentos
Além de aliviar os efeitos do stress, é importante ponderar e eliminar o que o causa. É necessário reavaliar a forma como se lida com as situações do dia-a-dia, como reage a adversidades e imprevistos. Claro que é impossível livrar a vida de momentos stressantes e planear tudo, mas é um facto que podemos adaptar-nos e agir de modo mais razoável e consciente.

Devemos mudar a nossa percepção dos problemas, dramatizar menos ocorrências levianas e bloquear pensamentos negativos. Devemos cumprir com as nossas obrigações sem exagerada cobrança, sem ficar a remoer caso não tenhamos conseguido cumprir um cronograma rígido, nem avaliar tudo sob um ponto de vista dualista e maniqueísta. Permita outros tons além do preto no branco, alivie as dicotomias entre tudo ou nada e reveja os seus impasses sob outra perspectiva, almejando um olhar mais positivo, sempre.

Cada indivíduo deve implementar essa mudança da melhor forma que lhe for possível, seja escrevendo sobre o assunto, conversando com alguém de confiança, ou passando um tempo a sós para reflexão. Enfim, isso consiste num exercício como qualquer outro, que precisa de treino e prática constante para aperfeiçoamento.

[Este é um post patrocinado, redigido por uma empresa parceira]

A mulher mais odiada de Portugal


Ela canta “Hoje Maria Leal aqui só p’ra ti”, mas o país, horrorizado, diz que dispensa. Nem dada. Ninguém a quer ver, no entanto, ninguém consegue deixar de olhar para ela. Os espectáculos onde actua têm lotação esgotada em todo o país e a sua agenda está mais cheia que a do Marcelo.

Antigamente, antes da miudagem ter passado a ver o mundo através dos écrans, quando se juntavam na rua, havia um jogo - calma, não vou falar sobre o “bate-o-pé” - chamado “corredor”. Miúdos e miúdas alinhavam-se ombros com ombros formando duas filas paralelas. Depois havia sempre um desgraçado que tinha de passar no meio e levava calduços de todos. Até fervia.

Lembro-me de ter jogado uma vez, e fiquei nos que davam calduços (entre dar e levar, sempre é melhor dar). Hoje, já adultos, vejo que o jogo continua à escala nacional; quem passa no corredor é a Maria Leal, a levar forte e feio de todos. Até eu - mea culpa, que não sou santa nenhuma - já lhe assentei um calduço ao de leve quando comentei uma notícia que falava sobre a inexistência de artistas dispostos a actuar na tomada de posse de Donald Trump, dizendo, com certa velhacaria, que era a grande oportunidade da nossa Maria.

Elisabete Maria Pereira Garcia Rodrigues d'Eça Leal - ou, como é conhecida, Maria Leal - é uma má cantora, não tem um discurso eloquente, nem possui a beleza da Miss Universo. A ausência de talento para cantar e dançar é directamente proporcional à sua falta de consciência disso - o que não é necessariamente negativo. A ML tinha o sonho de se tornar uma cantora famosa, sem a menor noção de estar artisticamente despreparada. Por não o saber, lançou-se ao sonho. E conseguiu. Não é uma questão de se ser bom, mas de se acreditar que é.

Os outros riem-se, gozam e insultam-na continuamente, mas ela não vacila. O talento da Maria é a perseverança: tem sido uma campeã olímpica de resistência. Se fosse um quadro, seria uma daquelas telas indecifráveis com um borrão de tinta que todos acham feio, mas tem que se respeitar mesmo não o compreendendo - porque “é arte”.

O problema não é a sua falta de jeito para cantar, mas a nossa falta de respeito. Ela é uma artista sofrível, mas não sabe. E nós somos um país de fanfarrões, mas não sabemos. É espantoso o ódio que lhe é dirigido massivamente sem que tenha causado qualquer tipo de dano a ninguém, excepto auditivo - desculpem, não resisti à piadola, foi Satanás que se apossou de mim agora, pois ainda sou um ser humano em processo de evolução -, tendo em conta que apenas realizou o seu sonho de cantar.

Esta semana, o Valete de Copas comete a ousadia de afirmar “Eu sou Maria Leal, aqui só pr’a ti”, em homenagem à mulher mais odiada do burgo - ainda bem que o país é pequenito, hein? - inspirando-nos a nunca desistir dos nossos sonhos, digam-nos aquilo que disserem; e a ver a nossa realidade com amor, ainda que o amor possa ser uma ilusão. Antes passar uma vida feliz na ilusão de que se é amado, que infeliz na fealdade do ódio, enfiado atrás de um computador a falar mal dos outros.

Ao fim e ao cabo, acho que gosto da Maria Leal. Quer isto dizer, detesto ouvi-la cantar, mas admiro o que ela representa. Porque os sem-talento também merecem um lugar ao Sol. Arriscando o meu próprio pescoço a levar com alguns calduços por marchar em descompasso dos restantes, atrevo-me a dizer: ela é que está certa. Não sei quanto a vós, mas a mim a mulher do “entroncamento sem fim” ensinou que não se desiste, nem se baixa a cabeça, mesmo que tenhamos sobre ela a espada de Dâmocles suspensa por um fio prestes a rebentar.

Hazel
Consultas em Oeiras e online
Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1618

Nem todas as respostas vêm no Google


Cabelo cortado à rapaz, olhos curiosos e pernas de alicate. No rádio-despertador, sintonizado na Rádio Renascença, ouvia-se a Doris Day cantar “Que sera sera” anunciada pela voz polida e impecavelmente colocada do António Sala. O pequeno-almoço, tomado em silêncio, era sempre o mesmo: leite com três colheres de chocolate e uma carcaça com manteiga e fiambre.

Cabisbaixa, enfiou a mochila às costas e meteu-se a caminho. Era o último dia de aulas e ia realizar-se uma competição de Inglês entre turmas. Tinha sido escolhida para representar a sua, o que lhe causava dores de barriga lancinantes. Porque não escolheram outra pessoa qualquer? Só a ideia de ter de correr ou falar alto em frente a todos era tenebrosa. As costas curvavam-se sob o peso da mochila e da timidez.

Sem escapatória possível, de pernas-a-tremer e garganta seca por enfrentar os olhares das pessoas, acabou por ganhar a competição (como tal foi sequer possível, nunca saberei). No centro do recreio estava instalado um pódio para onde subiram os vencedores do segundo e terceiro prémios. O primeiro lugar permaneceu tristemente vazio. Queria tanto ter o prazer de subi-lo, mas só se ninguém estivesse a olhar. Incapaz de avançar, alguém lhe entregou o prémio onde estava, para despachar aquilo - um livro de contos escrito em inglês -, e correu para casa como um pássaro espavorido. Zero gramas de orgulho, toneladas de auto-censura. 

Mais de três décadas depois, o youtube toca no computador portátil pousado sobre a cama desmanchada. Na cómoda, repousa o copo onde bebeu um batido natural de cenoura, framboesas, laranja e duas folhas de hortelã. O pincel biselado desenha um traço cinzento-escuro perfeito junto às pestanas. Desmancha a trança libertando o cabelo enorme, pega na mala e nas chaves do carro. As árvores de Sintra estendem os braços à volta da estrada como se a Serra se abrisse para recebê-la num abraço verde e materno.

Os participantes da aula escutam com atenção a matéria, que explica com paixão e humor, como se esta fosse a última. Mal pode esperar pela data da próxima. Nada ficou por fazer. Conta aos alunos, entre gracejos, que tinha fobia social quando era miúda. Ninguém acreditou. No fim do dia, reúne os livros e abre caminho devagar por entre o nevoeiro sintrense. Não se sente um pássaro espavorido, mas uma ave tropical que um dia mudou de penas e finalmente aprendeu a voar em bando; continuando, no entanto, a saborear o momento reconfortante em que é devolvida a si mesma, no regresso solitário a casa.

O Eremita inspira-nos a abraçar a doçura da inexistência temporária que a solidão proporciona, para repousar a alma dos assuntos mundanos. Há reconciliações que apenas têm lugar dentro de nós quando nos dispomos a instalar o silêncio como quem desenrola uma tela branca onde podemos projectar trechos de filmes antigos e encontrar finalmente um sentido em tudo.

Hazel
Consultas em Oeiras e online
Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1617
Foto: Unsplash, licença CC0