Estupendo Idiota

quarta-feira, março 28, 2018


Olá, idiota. Como tens passado? Espero que o mundo te esteja a tratar bem.
Pensei em ti ontem: estava a abrir uma lata de milho para a salada e lembrei-me daquela vez em que roubámos duas maçarocas de milho numa horta.

Eu era tão pequena que ninguém me via no meio das espigas. Chegámos a casa esbaforidos. Passámos as maçarocas no lume, barrámos manteiga e comêmo-las à dentada. Não sei se por terem sido roubadas, nunca comi nada tão delicioso. Se calhar já não te recordas. Nessa época, ainda não eras um idiota total, mas só meio-idiota, disso lembro-me bem.

Depois fomos crescendo, tu sempre o meu herói. Eram os anos 80 e eu escutava as tuas cassettes do Russ Ballard, do Rod Stewart (fiquei com essa, não vale a pena procurares por ela, desculpa!), os “Hit Parade” — que rebobinava com uma caneta.

Bebíamos Capri-Sonne, eu tinha cadernos do Pierrot e tu usavas calças estrelicadas. Víamos o Espaço 1999, os Jovens Heróis de Shaolin, o Alf e, mais tarde, o Michael Knight. Tudo era incrivelmente fascinante, mas nada era tão incrível como tu, sempre confiante e conhecedor do mundo, ao contrário de mim, que era atada e passava demasiado tempo agarrada aos livros. Era natural que troçasses, pois.

Mas não importava; deixava-te rir da minha falta de destreza com as coisas elementares, da minha cara, da minha voz, do meu corpo esguio e desajeitado, do cheiro pestilento dos meus ténis. Desde que isso te fizesse gostar de mim.

A idade adulta chegou e comecei a cansar-me de representar um papel que me deixava vazia e despedaçada como um pássaro que amputava as próprias asas. Afinal, por uma migalha de simpatia tua, eu é que acabava a não gostar de mim mesma.

Parei, então. Tratei de reconstruir a minha dignidade. Nunca mais curvei as costas para me tornar pequena. Atrevi-me a ser eu mesma; quem gostasse de mim, havia de gostar a sério e quem não gostasse, pois paciência. Afinal, um repolho não se vai transformar num bife para agradar a alguém que não gosta de verdura, não é verdade? E eu, meu caro, assumi o repolho que sou. Desculpa não ser um bife.

Quando me permiti ser eu, deixei de vez de existir para ti. Nunca me telefonaste no meu aniversário (durante quase todos estes anos, tenho detestado fazer anos). Despachavas-me quando te ligava. Nunca disseste que gostavas de mim. Nunca quiseste saber se estou viva, se estou segura, se estou feliz. Nunca quiseste sequer olhar para mim.

Sei, no fundo, que preferias que eu não existisse. Tornei-me a pedra que sempre esteve no teu sapato. E eu, que até era capaz de descalçar os meus e andar descalça por ti, seu palerma.

Foste um idiota, mas um idiota estupendo, que tanto me ensinou sobre o amor-próprio, o amor incondicional e a rejeição. Muitas graças por tudo isso. Prefiro tê-lo aprendido contigo do que com qualquer outra pessoa de quem gostasse menos.

Vimo-nos pela última vez no funeral da mãe. Soube pelo gelo nos teus olhos que não nos voltaríamos a ver. Aceitei a derrota. Desisti. Estilhaçada de dor, arranquei o meu próprio coração, comi-o, vomitei-o, voltei a comê-lo, a vomitá-lo e a comê-lo e a vomitá-lo e a comê-lo, até já não ter mais nada. E segui com a minha vida.
E!, sou feliz! Ora toma.

Contudo, não te minto: sou feliz — mas faltas-me tu. Não esqueço o teu aniversário, embora já não te telefone. Tentei odiar-te, porque era mais fácil assim, mas não consegui. A verdade é que nunca deixei nem deixarei de te amar. E vou esperar por ti até ao último dos meus dias, porque sou uma idiota, seu idiota.

Esta semana, o arcano Oito de Copas leva-nos a reflectir sobre os momentos de viragem, em que, pelo bem da vida que impera ser vivida e da paz interior que impera ser sentida, devemos desistir daquilo que nos fere e seguir por um caminho diferente. Porque todos temos o direito inato de ser felizes.

Hazel
Consultas em Oeiras e online

Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1674
Foto: StillWorksImagery, licença CC0

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