Diário de Bordo do Navegante Solitário


Pede-se à loucura que, se um dia chegar, não se faça anunciar. Que tome conta de mim sem que eu o saiba, para que, ao marchar desalinhada dos demais, os julgue a eles descompensados (para além de descompassados — e destrambelhados), e a mim sã. Nada poderia ocorrer de mais lamentável senão a consciência da inconsciência, a lucidez das trevas.

Assim, se se der o advento do desnorte, escusam de me avisar, pois vos tomarei como loucos por apontardes a fuga à norma onde a norma foge à fuga de si mesma.

Quem sabe não terei perdido já o tino e ainda ninguém tenha reunido a coragem de mo comunicar. Suspeito-o por encontrar-me tantas vezes a remar contra a maré com remos feitos de penas de gaivota.

E ainda assim, remo sem parar. Pouco importa se existe algum destino porventura escondido entre as brumas salgadas que repousam sobre a linha do horizonte; para que me serviria uma ilha com palmeiras e araras no meio do oceano, senão para me deixar consumir pela insularidade, entontecida com o movimento das águas em redor dos meus pés estacados, mergulhados na areia fina?

À minha volta voam tubarões obesos e esfaimados, de bocarra escancarada e dentes afiados, devorando peixes inocentes, matrículas de carros acidentados, garrafas de rum contrabandeado e almas desalmadas, sem sequer mastigar. Bom proveito lhes faça. Flutuam frascos de vidro com mensagens enroladas em papel ensopado, alforrecas gelatinosas e ouve-se ao longe o eco do canto das sereias. Nada disso me distrai.

O barquinho prossegue sem mapa nem bússola, em direcções improváveis, vivas e inquietantes, descobrindo novas pétalas à rosa-dos-ventos. Eles na deles, eu na minha. Desalinhada, inconsciente da minha inconsciência, flor branca à proa. Para eles, a terra é plana e termina no precipício da miopia; para mim, é redonda mal pareça ter caído do precipício, estarei a dar a volta por baixo, aparecendo por trás para morder-lhes o rabo!

Bons ventos me levem.

O arcano O Louco inspira-nos a nunca deixarmos de ocupar o nosso próprio lugar no mundo e de acreditar em nós, mesmo que sejamos tomados por insensatos. Que importa isso. Nada importa. Nada.

Hazel
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Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1667
Foto: Comfreak, licença CC0

A Dama do Pechiché

Os frasquinhos de perfumes pecaminosos ocupavam quase todo o pechiché, reluzentes, tentadores. Uma serpente filiforme de odor amadeirado esgueirava-se sinuosa de uma tampa mal encaixada e evolava pelo ar, penetrando as narinas; incitando a destapar e cheirar o conteúdo de todos os vidros, embriagando os sentidos nas fragrâncias doces e exóticas, reveladoras de prazeres secretos e proibidos.

Uma taça de delicada porcelana antiga transbordava de maquilhagem comprada por catálogo, iluminada por um candeeiro com quebra-luz de franjas. Todo o quarto tinha uma atmosfera de boudoir, feminino, quente, íntimo, sedutor, onde certamente se passavam escândalos indizíveis.

As mulheres cumprimentavam-na com distância educada e prudente, numa cordialidade artificial, mas detestavam-na secretamente (porque, no fundo, a admiravam — ainda mais secretamente). Creio que a temiam e a todo o poder que provinha da sua pouco modesta auto-confiança. Os homens receavam-na também — mas não a detestavam. Pelo meu olhar de gaiata-de-soquetes-até-aos-joelhos, achava-a fascinante, rebuscada, majestosa; enorme e inacessível.

Via-a sempre sozinha, altiva, imponente, com um caminhar felino, como se deslizasse por uma estrada de veludo nos seus sapatos altíssimos. As ancas insinuavam prazeres ávidos de ser degustados. A postura, absolutamente perfeita e digna. O sorriso silencioso, de quem detém segredos impossíveis de deslindar, por muito que se perscrute; de alguém que sabe o valor que tem e não precisa que lho digam, atrevo-me a adivinhar.

Se era meretriz, como diziam, não sei. Era bonita. E uma não é sinónimo da outra, apesar do que as pessoas achavam. Eu nunca vi nada. Nem eu, nem ninguém. A feia verdade é que ninguém suportava a sua beleza e, por isso, inventavam-lhe histórias nunca comprovadas — e, ainda que o fosse, que tinham eles a ver com isso?

Vi-a no outro dia, quando fui ao Banco. O peso da idade diminuiu-lhe a altura dos saltos dos sapatos, afofou-lhe as pálpebras que caem agora cansadas e desenhou-lhe rugas como bigodes de gato matreiro à volta do sorriso que prevalece inalterado. Sempre sozinha, sempre cheia de si, de beleza, de insinuação, como se risse por dentro dos pensamentos escondidos daqueles que cruzam o seu caminho, onde o veludo se estende pela estrada à sua passagem, Deusa entre mortais.

A sua história não vo-la posso contar; permanecerá para sempre um mistério, excepto talvez para mim, que escutei os segredos sibilados em torno do meu pescoço pela serpente de perfume no seu boudoir — mas nunca os revelarei.

O arcano Rainha de Ouros inspira-nos a não detestar a Dama do Pechiché, mas a permitir-nos apreciá-la pela coragem de dedicar uma vida inteira à arte da beleza e dos prazeres dos sentidos.

Hazel
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Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1665
Imagem: Le Boudoir, Delphin Enjoiras



Mortinho por viver


Ai. Pois não é que esta vossa escriba encontrou um defunto a viver no seu roupeiro? Tinha-o guardado há tanto tempo que me esqueci dele. Lá estava, bem direitinho como compete aos defuntos, com o típico e expectável saco de plástico preto a envolvê-lo. Tal não poderia continuar, não senhor. Urgia ressuscitá-lo e, com efeito, assim aconteceu.

Fiz deslizar com delicadeza e solenidade o fecho do esquife, perdão, do saco preto, e encontrei o já referido defunto em perfeito estado de conservação. Nem um odor sinistro que acusasse o seu estado de abandono prolongado. Garanto-vos.

O falecido era um escorreito casaco preto-corvo que comprei há não-sei-quanto-tempo e custou três quartos da falange do dedo mindinho, para usar em dias de festa. Sóbrio, impecável e medonho, com uma espessa aplicação de pêlo sintético na gola, que se assemelha a um gato preto morto a aconchegar o pescoço nas noites frias.

Homessa, que me teria passado pela ideia. Para "dias de festa", se isso lá é coisa que se pense. Então não é verdade que todos os dias são dias de festa?, e que todos os dias celebramos mais um dia de vida? Que a grande festa está em ter dias para contar — em vivê-los, assim, viver, mesmo?

Por que esperamos, valha-nos Zeus, enquanto as traças dançam o pasodoble nos buracos dos nossos mais adorados e preciosos (ou abomináveis) atavios. Não há mais roupas de festa aqui em casa. É tudo para usar, mesmo que se gaste, ainda que se estrague, e até que eu própria me torne um defunto, não me permitirei guardar mais defuntos.

O arcano A Morte confronta-nos implacavelmente com tudo aquilo que morreu dentro de nós e à nossa volta. Até quando iremos esperar, aguardar, respirando o mesmo ar velho e pesado? Apalpai-vos (não uns aos outros, seus marotos, mas a vós mesmos)!, só para ter a certeza que estais vivos, palpitantes, pulsantes, febris de vida.

No fim de tudo, o que realmente importa é quão bem soubemos viver; quão bem nos permitimos amar; quão bem conseguimos ir embora, deixar tudo para trás, sacudir a poeira e começar de novo. Quão bem soubemos apreciar, saborear. Quão bem soubemos dar, a nós mesmos e aos outros.

Não há tempo a perder com o certo tornado incerto. Pensem o que quiserem. Façam o que quiserem. Mas façam o que vos fizer felizes.

Hazel
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Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1664
foto: licença CC0

Borboletário


As curvas do meu corpo macio insinuam-se numa dança ondulante e silenciosa à medida que me movo com languidez, inconspícua por entre a folhagem que emoldura a paisagem límpida e orvalhada da manhã. Ocasionalmente, uma folha ou outra roçam-me a pele nua.

Alimento incessantemente o apetite voraz, erótico e insaciável que me consome. Os pedaços de folha tenros desfazem-se aos poucos na minha boca pequenina e húmida que não pára de sugar e de procurar por mais e mais e mais, até finalmente atingir — a saciedade.

Esgotada e preenchida, arrasto-me com lentidão; procuro uma folha onde possa abandonar-me ao repouso digestivo. Rastejo com esforço, o corpo dilatado, exausto, num êxtase guloso que gradualmente se agudiza em dor. Os meus fluidos jorram lentamente como um rio doce sobre os nervos da folha verde, onde me suspendo em crisálida para enfim encontrar o silêncio secreto; e nele, o caos, a desordem imóvel, a dor que me dilacera, que me liquefaz, que me destrói. Ninguém consegue ouvir os meus gritos mudos. Nem eu. Mas grito.

Os sucos circulam lentamente, latejam na escuridão, cada vez mais devagar até se tornarem espessos, coalhados. Ninguém me pode ajudar; rendo-me à morte. Morro. Eu não sou eu. Não sei o que sou. Não sou, sequer. Morro. Morri. Sinto alívio. Já não dói mais. Não tenho dor, nem medo, nem fome. Nem sede.

Silêncio.

Um ponto fino de luz pulsa no escuro, e cresce aos poucos. A dormência desvanece; chegam até mim sons difusos de não muito longe. Sinto-me apertada, falta-me o ar. Preciso de espaço, de me movimentar. Tenho sede, tenho fome, tenho ânsias de sair, senão morro. Preciso de sair da morte para não morrer de vez, mesmo que morra a fazê-lo; preciso de viver, para não morrer.

O arcano A Temperança indica-nos o caminho: sempre em diante, em direcção à luz. Atrás está a morte, à frente a sabedoria. Que as experiências vividas no passado nos sejam mestras e não nos amargurem —, e delas sairemos ilesos, capazes de voar, cumprindo assim a nossa natureza.

Rasgo o tecido que me asfixia com delicada violência e espreguiço-me, alongando o meu corpo, que descubro novo e diferente. Tenho asas revestidas de poeira fina e pele fofa e sedosa. Oh sim, tenho asas. Não mais rastejo por entre as folhas. Preciso de néctar, de ar, de luz. Consigo voar! As asas nas minhas costas estendem-se coloridas e reflectem a luz do Sol. Ouço o riso de uma criança que corre atrás de mim e rio-me também, enquanto subo em espiral por entre as árvores.

Hazel
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Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1663
Foto: Marco Santos

O Deus Mitra das calças coçadas


Encontrei Deus dentro de mim. Afinal não parece o Gandalf. Nem barba tem, o velhaco, excepto um punhado de pelitos manhosos que lhe escurecem o buço, formando um bigode ralo e insolente.

Dei com ele entre a minha terceira e a quarta vértebra, sentado a ler um livro virado de cabeça para baixo. Além de escrever direito por linhas tortas, também lê livros de pernas para o ar. Misteriosos são os desígnios do Senhor, carago.

O comboio da linha de Cascais ilumina-se momentaneamente com um clarão entre Caxias e Santo Amaro, enquanto o maluco que diz que viu Deus prossegue o seu relato da experiência. Os passageiros fingem distrair-se de olhos perdidos na paisagem que foge pelas janelas, mas todos o escutam com secreta e atenta curiosidade.

Usa calças de ganga coçadas (não o maluco, mas Deus), com o tecido completamente gasto na zona genital devido ao roça-roça das coxas gordas, descaídas como se as tivesse esquecido de puxar ao sair do quarto-de-banho. Fuma marlboro lights e tem um gorro de lã cheio de borbotos enfiado pela cabeça. Compreende-se, depois de ver o seu ar de mitra suástico, que tenha achado mais legítimo comunicar com Moisés através de uma sarça ardente.

Já O havia procurado nas nuvens, no coração da floresta, nos altares pagãos e nos rituais cristãos, no desfiar das contas do japamala, no desvario da luxúria e, quando desisti, ei-Lo!, todo este tempo dentro de mim, a rir-se com tosse-de-catarro-de-fumador da minha ingenuidade de crente bem-intencionado (paragem em Algés, temperatura exterior: 13 ºC, entra uma velhinha com tosse cavernosa).

Perguntei-lhe o porquê do dilúvio, da arca de Noé, das epidemias, das dez pragas do Egipto, do kizomba e de outras calamidades que têm atormentado a Humanidade desde o fiat fux; e porque não resolve de vez a querela com o Diabo e ficam amigos de novo. Ele expira o fumo do tabaco e sorri com indiferença de gato gordo.

Deus não quer saber de nós, amigos. Deus está-se marimbando. Agora percebo porque é que as vezes em que me comportei como um tipo decente, fui enganado por gente de má índole, mas quando me comporto como um sacana, safo-me boa parte das vezes. Deus sou eu.

Os passageiros seguem com o olhar o maluco-que-viu-Deus, enquanto este sai na estação de Santos. O comboio prossegue a marcha para o Cais do Sodré, mais sisudo e cinzento, agora sem Ele.

O arcano Valete de Espadas espicaça-nos com a ponta de um alfinete, atiçando-nos a astúcia e o estado de alerta, desafiando-nos a encontrar outras verdades dentro da verdade. No entanto, é sempre bom recordar que nada disso é suficiente se não aprendermos a compaixão e consideração pelos outros — e por nós próprios.
Deus O perdoe.

Hazel
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Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1662
foto: NeuPaddy, licença CC0

Conte-me a sua história


Não fosse a escassez de topete para tal arrojo e sentar-me-ia na Baixa Lisboeta com a tabuleta “Todas as pessoas têm uma história. Conte-me a sua”, à espera que alguém se sentasse à minha frente e o fizesse, qual Marina Abramović, a artista performativa sérvia, irmã-gémea sem grau de parentesco (cara de um, rosto do outro) do magnífico senhor cronista que mora na última página deste jornal.

Pelo-me por uma boa história. Quando era gaiata, entrei num livro e nunca mais de lá saí. Cresci a andar de baloiço nas linhas brancas que cosem as páginas em grupos de quatro. Refastelo-me no espaço aconchegante que separa as palavras, com uma vírgula redonda e macia a fazer de almofada. Às vezes, saio para apanhar ar entre parágrafos. Ou fico na linha, agitada, ponto-exclamada. Raras vezes me perco em reticências, que evito. Não confio nelas... Seduzem-me, porém, o ponto-e-vírgula e o travessão, vilões da monotonia.

Foi uma tristeza quando a carrinha da Biblioteca Itinerante de Oeiras deixou de se deslocar à rua que me viu crescer como um esparguete (mais para cima que para os lados), porque não compensava, visto ser a única leitora.

Para me consolar da perda, e porque os livros que tinha contavam-se pelos dedos, refugiei-me no regaço do enorme Dicionário Ilustrado de Português, forrado a tecido cor de café-com-leite, que li de fio a pavio, tendo encontrado, certa vez, um erro de ortografia (!) — o que muito me indignou. Completava compulsivamente as palavras-cruzadas que saíam nos jornais e comia canja com massa de letras.

Correspondi-me (antes da internet) com uma idosa inglesa, minha penfriend, a quem enviava longos testamentos sobre os dilemas da adolescência e fi-lo até ela acabar por falecer (espero que não de tédio).

Tenho algumas paredes em casa forradas com páginas de livros, que vou colando uma-a-uma, como se cada folha fosse mais um pedaço de caminho que não sei onde irá terminar, mas suspeito que no horror da senhoria quando descobrir.

Não tenho televisão. Nem quero. Contudo, há sempre espaço para mais um livro. Fiz bookcrossing. Apanhei livros do lixo. Comprei muitos. Doei bastantes. Devo ter roubado algum livro por velhacaria, que eu não sou santa. Tenho a certeza que sim. Mas devolvo os que me emprestam. Fui uma “Book Loving Girl” no projecto com o mesmo nome, do fotógrafo Mário Pires, exposto na Fnac.

Sinto-me culpada se desistir de um livro, como aconteceu com “As Ondas” de Virginia Woolf, que me deixaram mareada de aborrecimento e com “O Mundo de Sofia” de Jostein Gaardner, que me induziu num estado semi narcótico — do qual despertei-de-olhos-arregalados com o governo do “Papillon” de Henri Charrière.

Há sempre um livro na minha mesa-de-cabeceira. E caderno-e-lápis no carro e na mala. Escrevi mais de mil textos, publicados nos últimos dez anos, no meu blog(ossauro). A árvore de Natal aqui em casa é uma torre de livros empilhados com uma estrela de cartolina em cima.

Traduzi e revi livros de outros autores. Nunca escrevi o meu. Talvez nunca aconteça. Sinto-me satisfeita por degustar o que os outros escrevem, e quando não escrevem o que me apetece ler, escrevo-o eu, aqui e acoli. E está bem assim.

O arcano Três de Paus incita-nos a abrir as gavetas e a banhar os apontamentos e rascunhos com a luz do dia. A arriscar, a encontrar o nosso próprio caminho à medida que o percorremos. Ora aí está. Vou escrevendo, até escrever.

Hazel
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Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1660

Boneca de porcelana


Veio de Paris, bien sûr. Os cabelos cor de trigo sarraceno emolduravam-lhe o rosto róseo e delicado, com olhos redondos e inocentes, sobrancelhas eternamente espantadas e lábios pequeninos, cheios de segredos tentadores. O vestido era uma harmonia de azul e alfazema, remetendo aos campos perfumados de Provence, e os sapatos brancos, assim como as meias.

Vinha dentro de uma caixa com uma espécie de janela em plástico transparente.
O mais belo e valioso presente da minha infância. Tão precioso que seria uma pena se se partisse e, por isso, foi guardada no topo de um armário, longe do meu alcance.

Quando ninguém estava a ver, às vezes encostava uma cadeira ao armário, subia e, em bicos de pés, esticava-me para abrir a porta e tirar a caixa com a boneca de porcelana. Não chegava a brincar com ela, não me atrevia. Deixava-me ficar a contemplar os seus detalhes em silêncio culpado, como se estivesse a mexer num brinquedo de outra menina qualquer que tinha tudo o que eu não era digna de ter — embora ela fosse minha.

Voltava a colocar a caixa com todo o cuidado no mesmo lugar sem deixar pistas que denunciassem a minha transgressão. Fiz isso regularmente até acabar por perder o interesse, com as hormonas da mudança de idade.

Mais do que o objecto obsoleto em que se tornou, era um defunto que não chegara a viver e que me foi finalmente entregue já adulta, quando tive a minha própria casa. Recebi-a com um desinteresse que não quis disfarçar. Deitei a caixa para o lixo e coloquei-a em cima do frigorífico, na cozinha, como um bibelot que não se sabe onde colocar.

O azul frio do seu vestido entristecia-me. Ali estava a minha boneca, desfasada no tempo, tarde demais para que eu pudesse brincar com ela, sempre a recordar-me que era boa demais para mim e que o meu tempo tinha passado. Desenvolvi uma revolta contra ela, como se fosse ela a culpada. Guardei a lambisgóia deslavada no fundo de uma gaveta para não ter de olhar para ela. Mas quando precisava de abrir a gaveta, lá estava ela, com um leve sorriso que me parecia sonso e cruel.

Numa limpeza de Primavera, decidi livrar-me dela. Coloquei-a à venda numa loja de antiguidades por tuta-e-meia. Saí de lá aliviada. Mas ainda a vejo. Onde quer que more, ela aparece-me, assombra-me, sorri em silêncio, recorda-me que era minha, mas nunca a pude ter; e quando a tive, já não a quis porque me magoava tê-la.

Esta semana, o arcano Cinco de Ouros leva-nos a reflectir sobre as cicatrizes antigas que por vezes nos moldam a personalidade com contornos que preferíamos não ter. Recordar é enfrentar. E enfrentar é curar.

Hazel
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Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1659
Foto: MabelAmber, licença CC0

Cantar de galo


Ainda o galo não abriu o gasganete para cantar os bons-dias e já se ouve o velho tractor a andar para-cá-e-para-lá. De ceroulas arrepanhadas até aos sovacos e olhos esbugalhados das noites mal dormidas, o homem anda desnorteado com o trabalho.

«Havia de ir ali pedir um tractor emprestado ao meu compadre, mas de certeza que ele não mo empresta», remói baixinho com azedume. O galo alonga o pescoço e espreguiça com satisfação as asas que reluzem douradas aos primeiros farrapos de luz matutina.

«Com tanto tractor que tem aquele gordalhufo capitalista, bem que me podia emprestar um; se tivesse dois tractores já conseguia dar conta de tudo.»

As patas do galo emproado, duras e rugosas da velhice, tacteiam o chão, encaminhando-se para cantar os bons-dias do alto do poleiro, mas este foge espavorido com o estrondo do motor subitamente engasgado, em convulsões com os últimos estertores da morte que se apresentou sem avisar com uma correia que rebenta.

Enraivecido, Zé Onofre pontapeia o pneu enlameado e atira com o chapéu para o chão. Só faltava isso; ficar sem o único tractor que tinha. Coxeia em direcção à vedação que o separa do terreno verdejante do compadre. «Aquele garganeiro, com tantos tractores, há-de estar a rir-se de mim agora.» Os dedos calejados levantam a tábua que prende a cancela e os cães do vizinho ladram em protesto, reclamando o território.

Os degraus de madeira rangem com queixume debaixo do peso das botas que caminham com a irregularidade de quem está de cabeça perdida. Sorve o ranho do nariz e bate à porta sem delicadeza. Ouvem-se passos no interior da casa.

O compadre surge, de chanatas nos pés e remelas nos olhos ensonados. «Bom d…», «Olhe! — corta o Zé Onofre, com uma voz que se lhe esganiça embaraçosamente com a irritação — Meta os tractores no cuuu!».

Sai de rompante, virando costas ao vizinho, sem que este consiga fechar a boca incrédula. Do outro lado da vedação, ouve-se o galo cantar.

Esta semana, o arcano Três de Ouros recorda-nos que nenhum homem é uma ilha. Trocando o orgulho pela boa-vontade, a impulsividade pelo bom-senso e o individualismo pelo trabalho de equipa, tudo se arranja. Juntos chegamos mais longe. O único que canta de galo sozinho é mesmo o galo.

Hazel
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Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1658
foto: Public Domain Imagens, licença CC0

Medo do que os outros possam pensar


Alzira preferia morrer a sujeitar-se ao vexame insuportável de se separar do marido, que desprezava secretamente, mantendo durante toda a vida um casamento falecido, sem jamais suspeitar que o objecto da afeição do seu consorte era o Peixoto do talho.

O Peixoto, robusto e hirsuto, nunca cheirava a carne, mas a colónia-de-bebé. Viu-se forçado a herdar o negócio do talho que era do pai, e já tinha sido do avô, mas o que sempre quis foi ser maquilhador como a Xana, a sua amiga lésbica. A Xana tinha (quase) tudo, a profissão dos seus sonhos e uma sexualidade livre e publicamente assumida.

Para evitar críticas e aborrecimentos, Xana nunca foi mãe, apesar de sempre o ter desejado ardentemente. Tornou-se madrinha de uma menina já adolescente que se encontrava num centro de acolhimento de crianças e que era demasiado crescida para que alguém a quisesse adoptar. Tinha sido deixada recém-nascida dentro de uma alcofa sem um bilhete sequer. Chama-se Anita.

Nunca se suspeitou que Anita era filha da Alzira com o namorado que teve antes do marido (um cretino qualquer armado em fidalgo que não quis assumir a paternidade porque iria prejudicar os estudos e arruinar o estatuto de menino-de-bem).

Quem realizou o parto, com a máxima discrição, foi aquela que viria pouco depois a ser sua sogra; que arranjou maneira de casar Alzira às pressas com o filho, uma conveniência supostamente para Alzira não cair em desgraça — mas, na realidade, tinha visto pelo buraco-da-fechadura o filho agarrado ao Peixoto, e tinha medo das bocas-do-povo perante tamanho escândalo.

O inconsolável Peixoto passou anos a chorar enquanto cortava bifes e enchia salsichas frescas, sem que ninguém soubesse o motivo. Só Xana o conseguia animar quando o maquilhava e o transformava em mulher para irem sair à noite.

Por medo de cometer suicídio social, todos preferiram assassinar os seus próprios sonhos e desejos, convictos de que existe apenas um caminho possível e que este culminara num beco sem saída, onde se resignaram a permanecer, aprisionados pelo medo-do-que-os-outros-possam-pensar.

O arcano Oito de Copas questiona-nos: estamos onde realmente desejamos estar, ou onde os outros esperam que estejamos? Ficamos porque estamos felizes, ou porque temos medo de ir embora e do que os outros possam dizer ou pensar?

É mais importante agradar aos outros ou a nós? O que gostaríamos de mudar neste preciso momento? E estamos à espera de quê, carago?

Hazel
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Email: casa.claridade@gmail.com

Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1656
Foto: shawnrandall, licença CC0

O gato à janela


Lambe minuciosamente o corpo todo, enquanto as cortinas esgaçadas pelas unhas rodopiam ao sabor do vento fazendo a casa respirar pelas narinas da janela. Por fim, dobra as patas da frente com maciez, arrumando-as por baixo do focinho, estende os bigodes ao Sol e respira fundo.

Bonacheirão e gordo, persegue os que passam na rua com o seu olhar velhaco, cor-de-ervilha. Eles vão, ele fica. Talvez alguns não saibam para onde ir. Outros parecem não saber porque continuam a ir. Há os que vão porque não têm onde ficar. Os que não vão nem deixam ir. Os que vão, mas anseiam por vir. Alguns nem sequer sabem que vão. Outros julgam ir, mas marcam passo sem sair do lugar. São, no entanto, cada vez menos os que sabem onde e porque vão — e querem realmente ir.

O gato permanece. Fica, porque tem uma taça a transbordar de comida e outra com água fresca; a torneira do bidé que pinga; ou algum copo de água esquecido sobre a mesa da cozinha, onde — shlép, shlép, shlép — mergulha a língua áspera quando ninguém está a ver. Fica, porque não tem testículos e no lugar deles nasceu-lhe a pacatez de não precisar de ir a lado algum. Os gatos à janela são a imagem da paz, da saciedade e da tristeza que é não ter sonhos nem ambição.

Um dia, distraído com um pássaro, escorregou da janela e foi parar à rua. Comeu do lixo, andou debaixo de carros, lutou com outros gatos e até fez umas safadezas com uma gata esguia de três cores. Teve fome, sede e medo. Gastou sete das nove vidas e até sabia o caminho de casa, mas seguiu na direcção contrária sem olhar para trás, com grande desgosto da dona, que colou a sua foto em todos os postes e candeeiros.

O arcano Três de Paus desperta-nos a fome e a sede de viver, desafiando-nos a deixar a janela a partir de onde, qual Tareco de coleira-e-guizo ao pescoço, observamos passiva e confortavelmente o que se passa à nossa volta. A janela de casa e a janela do computador. A da televisão e a do telemóvel. Está tudo a acontecer lá fora, meus gatinhos. Vão por mim — que acabei de escorregar janela abaixo.

Hazel
Consultas em Oeiras, Carcavelos e online

Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1655

No creo en brujas pero que las hay las hay


Sempre me intrigaram aquelas castanhas engelhadas, mais velhas do que eu, que nunca ganhavam bicho, no fundo das gavetas da roupa. É por causa das bruxas, dizia sem mais esclarecimentos a minha mãe. Lá em casa, ninguém gostava de bruxas. Pantominices!, É tudo uma pantominice, saía-se a minha avó enquanto compunha o cordão de ouro ao pescoço. Tinha mais de cem anos (não a minha avó, mas o cordão), e chegava até aos pés se ela não lhe desse as habituais três ou quatro voltas, o que não era caso para grande espanto, porque tinha, como se dizia, nascido nos dias pequenos.

O seu olhar verde-seco e aguarelado, esbatido pela idade, fixou-se num ponto suspenso no ar, como se observasse o fio invisível do tempo. Toda a sua expressão se suavizou, parecendo readquirir o viço dos vinte anos, vividos em Vila Boim, ali mesmo à beirinha do país, onde a pronúncia castelhana se mistura com a portuguesa como as águas de dois rios que se encontram. Alguém lhe entrara em casa durante a noite e furtou o cordão de ouro.

Não valia a pena ir à Polícia, naquele tempo —, foi à bruxa. Que lia o futuro em cartas de jogar ou com uma agulha pendurada em linha de coser; tirava o quebranto e o mau-olhado; fazia purgas e curava o bucho-virado e outras maleitas que os médicos não conseguiam tratar. Não acreditava nela, não gostava dela, mas precisava dela e, portanto, meteu-se a caminho sem contar nada a ninguém.

A mulher versada nas artes misteriosas recebeu-a numa sala sinistra e mal iluminada, com lamparinas acesas, santinhos e um previsível cheiro a arruda queimada. Deu-lhe uma oração para recuperar objectos roubados escrita num farrapo de papel e as seguintes indicações: dizê-la ab-so-lu-ta-men-te todos os dias e em seguida estar “atenta aos sinais”.

Passou-se cerca de um ano sem que a minha avó desistisse. De tantas vezes ler a oração, acabou por memorizá-la. Transcrevo-a tal como me foi transmitida, sem alterações, imaginando que pândega seria se todos os portugueses a lessem diariamente no intuito de recuperar o tanto que vai para impostos e taxas bancárias:

«Ó almas do Purgatório, Eu com nove tenho mistério, Três dos enforcados, Três dos mal-sentenciados, Três da morte a ferro frio, Para que todos os três, os seis, os nove, Vão ter ao coração dessa pessoa que me tirou (nome do objecto roubado), Não possa estar, nem dormir, nem descansar, Se as almas assim fizerem, Eu um terço lhes vou rezar.»

Depois da ladainha, a minha avó (que não era ainda avó nem mãe) ia para o quintal apanhar a aragem fresca do lusco-fusco alentejano enquanto atentava “aos sinais”. Passavam as pessoas que regressavam do trabalho e ia escutando fragmentos soltos de conversas aleatórias que se uniam como um puzzle sobrenatural, dando-lhe pistas que acabariam por guiá-la até ao cobiçado cordão. Este acabou por regressar às suas mãos e foi dela até ao último dia da sua vida.

O arcano Dez de Ouros recorda-nos que aquilo que é nosso por direito, e que verdadeiramente nos está destinado, a nós retornará no devido tempo (excepto os impostos e taxas bancárias). O universo encontra sempre forma de repor o equilíbrio, acertar contas e arrumar a casa.

Hazel
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Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1654
foto: smokefish, licença CC0

A Princesa Ranhosa, um conto de fadas moderno


Era uma vez uma bela princesa que vivia numa torre de apartamentos remodelados ali para os lados das florestas luxuriantes de Mem Martins, mesmo antes de chegar a Sintra. Bela é como quem diz: a voz de bagaço, o buço que lhe crescia junto aos cantos dos lábios, o acne, as olheiras profundas e os dentes podres dos tempos da heroína não a deixavam ser muito bem-apessoada; mas era a princesa de lá da rua, isso era.

Bela (diminutivo de Belarmina) suspirava por um mancebo escorreito da Amadora, que trabalhava na loja de reparação de telemóveis do Centro Comercial Babilónia.

Sonhava com o dia em que ele apanhasse a IC19 montado na acelera de cromados reluzentes e viesse salvá-la da reclusão da sua torre húmida, solitária e assombrada pelo fantasma da vizinha de cima (que ainda não se tinha finado, mas matava-lhe a paciência com o feitio desgraçado e o arrastar de móveis à noite).

Para seu desgosto, o gaibéu gostava de outra, uma flausina qualquer do Estoril, de cabelo-alisado-a-ferro-quente e unhas de gel cintilantes, espetadas como garras de gata assanhada. Cansada de esperar por um salvador que nunca chegava, fez uma longa trança com os seus cabelos e atirou-a pela janela.

Os transeuntes, que caminhavam em passo apressado para apanhar o comboio na interface Algueirão-Mem Martins, desviaram-se repudiados com o cheiro nauseabundo das melenas que não viam água há anos, onde os piolhos já tinham construído uma autêntica metrópole com arranha-céus, vias rápidas e edifícios com elevadores panorâmicos que iam dar à parte de trás das suas orelhas.

Vencida pela indiferença cruel do mundo ao seu sofrimento, atirou-se para a cama e enterrou o rosto no travesseiro. Havia de chorar até morrer.
Ou até lhe caírem os olhos.
Ou até o ranho lhe começar a entrar na boca.
Foi a terceira: quando as ranhocas começaram a empastar no buço, sentou-se na beira da cama e mergulhou as mãos nos bolsos do vestido à procura de um lenço para se assoar.

Encontrou um pente desdentado, um isqueiro Bic sem gás e, quando puxou com a ponta dos dedos pelo lenço ouviu o som metálico de algo a cair no chão. Uma chave! — tinha estado sempre no seu bolso. O tempo todo.

Limpou o ranho da cara com a manga do vestido, rodou a chave na fechadura e abandonou a torre onde se tinha fechado a si mesma, dando por findo o conto.

O arcano 8 de Espadas surge-nos com a clareza fria de uma mão que toca o próprio reflexo no espelho, mostrando-nos em simultâneo a vítima e o autor. De pouco adianta esperar por dias melhores, por alguém, por uma sorte que nos saia, pelo raio que nos parta, o diabo que nos carregue ou um deus que nos acuda.

Não vem ninguém porque ninguém nos pode salvar de nós mesmos.

Quando as circunstâncias da vida nos encurralam a um canto, só nos resta sair pelos próprios pés. Entre arriscar tomar uma decisão, ou permanecer insatisfeito por uma não-decisão, é preferível deixar de ser uma princesa, limpar o ranho — e sair da torre.

Hazel
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Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1653
Foto: cocoparisienne, licença CC0

Laboratório do Amor


O amor é urgente, desajuizado e ridículo. Eventualmente, causa até um bocado de nojo, podendo mesmo chegar a induzir em gregorianos espasmos pré-vómito aos que, frustrados nas suas ilusões, deixaram de acreditar porque o tomaram por uma âncora que estanca a fragata em alto mar, quando o segredo está nas velas que a fazem deslizar, engolindo céu, sol, estrelas, mar e vento.

É uma carga de trabalhos, disso não há dúvida. Não se pode amar em part-time, ou tirar férias do amor. É um trabalho para escravos que se deixam capturar de livre vontade e que apenas podem ser remunerados com amor. Quem for mal pago, começa a desmazelar-se no serviço.

Nada sabendo de comprovado sobre tão misterioso e hermético tema, reservado aos poetas e aos loucos, publico o resultado de uma longa e minuciosa pesquisa realizada em laboratórios da-mais-fina-e-excelsa-qualidade sobre as transformações dos vinte aos quarenta anos nas artes de l’amour:

Aos vinte anos, já sabemos o que queremos — ou julgamos saber.
Aos quarenta, sabemos o que não queremos.

Aos vinte, preocupamo-nos em agradar à família.
Aos quarenta, que se lixe o que pensa a tia, a prima ou o periquito. Quem sabe da nossa vida somos nós, ora.

Aos vinte, acreditamos em príncipes encantados.
Aos quarenta, voltamos a acreditar neles, porque no intervalo conhecemos sapos — e se há sapos, tem de haver, pelo menos, um príncipe (segundo dados avançados pelo cientista Walt Disney).

Aos vinte, não temos medo de amar.
Aos quarenta, somos uns cagarolas, cheios de medo, mas amamos na mesma.

Aos vinte, julgamos que vamos viver para sempre e que não precisamos de dormir.
Aos quarenta, não temos tempo a perder e só fazemos uma directa em troca de amor eterno.

Aos vinte, confiamos.
Aos quarenta, desconfiamos.

Aos vinte, não gostamos de ouvir conselhos.
Aos quarenta, desejaríamos ter quem no-los pudesse dar.

Aos vinte, temos a pele esticada e viçosa.
Aos quarenta, temos que aproveitar antes que isto caia tudo (!), benza-nos Afrodite.

Aos vinte, achamos que já sabemos tudo.
Aos quarenta também.

Se o digníssimo e marotíssimo leitor tiver idade compreendida entre os vinte e os trinta, já sabe com que contar quando chegar aos longínquos quarenta. Estatísticas e experiências laboratoriais indicam que tudo tem a tendência a melhorar. Ou piorar. Já nem sei. Há estudos com resultados contraditórios.

Se tiver entre quarenta e cinquenta, venham de lá esses ossos num sentido e compreendido abraço. Força aí.

Se tiver mais de sessenta, peço que colabore neste estudo, a bem do destino da Humanidade e da preservação de tão raro e valioso bem — l’amour — enviando para o meu email a sua história de vida e de amor para ser apreciada pelos nossos cientistas-do-amor.

O arcano Dois de Copas abraça-nos como uma balada dos anos 80, inspirando-nos a encontrar o amor, primeiro dentro de nós, depois nos olhos de alguém. Abençoados os que o encontraram. Boa sorte aos que procuram.

Hazel
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Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1652
Ilustração: Kaz, licença CC0

Tão pequena e tão ladina


Os carros colam-se uns aos outros numa longa e fumegante serpente de chapa e vidros eléctricos ali mesmo à saída do bairro. Saem pela direita os que apanham a auto-estrada, fazem pisca para a esquerda os que seguem pela Marginal.

Estão todos parados agora; vejo alguns a enfiar o dedo no nariz, outros a tirar as remelas dos olhos, lacrimosos com a luz dura e cortante da manhã; outros ainda, a perscrutar o nada, suspensos no vazio existencial para onde nos atiram as filas de trânsito.

Estendem-se alguns olhares conformado-entediados no passeio de calçada onde caminha em passo ligeiro, como se estivesse prestes a fazer uma travessura, a vizinha do prédio ao lado do meu. Velhinha, franzina e de cabelo ralo e escuro, sempre de sorriso doce e olhos ladinos. Mora sozinha, nunca aceita boleias.

O ronronar do ralenti dos motores é interrompido pelo inusitado chiado de metal das rodas do seu carro-saco de ir ao supermercado. Não sei se é ela que leva o carro, se o carro que a leva a ela.

— Olá, menina.
— Boa tarde, menina.
— Bom dia, menina.
— Adeus, menina.
A voz assenta-lhe como uma luva: baixa e matreira, mas cheia de genica.

Não se passa nada. É apenas a velhinha fura-vidas a passar em compasso certo à hora que os pássaros alisam as penas e se ouvem os passos das primeiras crianças a caminho da escola. Os ocupantes da gigante serpente de chapa poluente carregam na buzinha como quem estala um chicote para atiçar os da frente a andar.

Ficamos a vê-la ir embora pela rua fora, sem nunca parar, sem jamais abrandar. Talvez seja mesmo o carro-saco de tecido axadrezado que a leva, movido por uma força desconhecida, como um cão fiel que fez o mesmo percurso mais vezes do que se consegue lembrar.

Descobri-lhe o segredo no outro dia, quando a vi passar com o carro-saco mal fechado. Olhei de soslaio e deliciei-me ao descobrir que não são compras que ela transporta lá dentro. O carro-saco vai cheio de vida. Por isso, sei que a velhinha ladina vai viver para sempre — ou até arrumar o carro-saco e se esquecer de onde o deixou.

Esta semana, o arcano O Carro inspira-nos a não ficar parados atrás dos outros como um autómato que é conduzido por alguém. É tempo de encher o nosso carro-saco de vida e seguir-lhe o encalço. Mais do que seguir, perseguir. Com ardor e determinação. Quatro-piscas ligados!, este veículo vai sair do tracejado da estrada para fazer uma manobra inesperada.

Hazel
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Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1651
Foto: violetta, licença CC0

«Quem boa cama fizer, nela se há-de deitar»


Ainda parece que a oiço, cítrica e com um travo amargo de laranja seca; profética, com uma intuição que roçava o sobrenatural. Uma autêntica bruxa que, no entanto, desprezava bruxas e as desacreditava. Mas que as havia, havia — sempre haverá.

Continuo sem compor pela manhã o delicioso leito onde Morfeu todas as noites me engole inteirinha com languidez, gula e oblívio, sem conseguir já deslindar se será por indolência ou insolência tardia; se por inofensivo e inconsequente exercício da liberdade de escolha; se por consideração ao bem-estar dos ácaros que se comprazem em deitar-se na minha almofada a ler o jornal de patinhas traçadas com os cobertores meio caídos; ou se pelo hábito de quatro décadas a defender que é bem mais prazeroso desfazer uma cama do que fazê-la — interpretem como quiserem, seus malandrões, bem vos conheço.

O infame provérbio sempre me apoquentou, dada a fatalidade que lhe é inerente, aprisionando-nos para sempre às nossas escolhas, negando-nos o direito de mudar de ideias, num castigo inevitável e eterno digno de Némesis grega.

Ovelha ronhosa (e ranhosa também, mas só mais lá para meados da Primavera, quando começam as alergias) que sou, continuo a desafiar a norma instituída. Longe vão os tempos em que se acreditava que as coisas eram como eram e nada se podia fazer senão carregar-uma-cruz-às-costas sem hipótese de redenção ou salvação, em resultado de um provérbio cruel e ditatorial.

Porque quem boa cama fizer, nela se há-de deitar — OU NÃO.
A qualquer momento, podemos sempre trocar os lençóis frios de algodão por outros aconchegantes de flanela, até mesmo a meio da noite. Ou ir buscar mais um cobertor.

Ou tirar tudo, atirar pela janela soltando um grito de Tarzan (não o Taborda, mas o outro) e dormir em cima do colchão. Ou virar os pés da cama para a cabeça e dormir de pernas para o ar. Ou, em vez de deitar, ficar sentado, de cócoras, de pé ou com um pé na cama e outro no chão. Podemos reformular tudo a qualquer momento, apesar de termos sido programados para acreditar que estamos condicionados.

Esta semana, o arcano O Imperador confronta-nos com a autoridade cega a que fomos (e somos) tantas vezes sujeitos, as verdades ‘inquestionáveis’, as normas, o dever de encaixar e obedecer sem questionar regras que não sabemos já quem criou e porque o fez, mas que vão sendo papagueadas de geração em geração perpetuando uma herança de medo da mudança e de submissão.

Mudam-se os tempos, actualizem-se os provérbios.
Não façam a cama: reinventem-na.

Hazel
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Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1648
foto: Pexels, licença CC0

Cuspir ou Engolir


«Se houver alguém que se oponha, que fale agora ou cale-se para sempre.»
A gaveta da cozinha deslizou para fora e uma mão pesada tacteou por uma faca afiada que emergiu, gélida e reluzente, reflectindo a luz mortiça da lâmpada fluorescente e uns olhos raiados de sangue. A casca do limão caiu delicadamente sobre a bancada.

O silêncio sepulcral foi interrompido pelo som da torneira a encher o fervedor de aço inoxidável. Um riscar de fósforo. Sentou-se à espera que o chá acabasse de ferver enquanto limpava demoradamente a sujidade das unhas com a ponta da faca e a imaginava a escarafunchar por entre a terceira e a quarta vértebra do sacana do Ermelindo. Teria de fazer força para perfurar a pele e de fazê-lo com agilidade suficiente para evitar que ele se conseguisse defender a tempo. O cretino havia de revirar os olhos e esticar o pernil em minutos.

Espremeu o limão como quem expele o próprio desdém e juntou o sumo ao chá acabado de ferver. Adoçou com mel, mexeu com a colher e levou a caneca aos lábios. Estendeu o jornal à frente, sobre a mesa. Na primeira página, pareceu-lhe ler o título “Engoliu uma espada e foi parar às urgências”, mas a tosse e a febre causada pela garganta inflamada turvavam-lhe a visão e o entendimento; devia ser uma espécie de alucinação. Que importa, as notícias nunca trazem nada de novo.

Fechou o jornal, engoliu o resto do chá e arrastou os chinelos até à cama. Há sapos que nem um homem com goelas de pelicano consegue engolir. Quando se obriga a isso, fica ferido por dentro, as palavras que quis dizer e não lhe saíram para não maçar os outros queimam-lhe as vísceras. Não admira que tivesse ficado com a garganta neste estado.

A noite foi um tormento de ranho, suor e pesadelos que se dissiparam com a luz limpa e fresca da manhã. A febre tinha passado, mas a tosse ainda persistia. Na mesa-de-cabeceira encontrava-se a faca, testemunha silenciosa do plano homicida da noite anterior, que agora se revelava ridículo e tresloucado.

Esta semana, o arcano Ás de Espadas recorda-nos que se tivermos de escolher entre ficar mal com os outros e ficar mal connosco, mais vale optar pela primeira. Afinal, somos nós que nos aturamos a nós mesmos desde o primeiro até ao último dia.

«Bom dia. Quero falar com o Ermelindo, se faz favor.
Sim, é urgente.»

As mãos seguravam o telefone firmes como as de um cirurgião. A vontade também. Teria de encontrar um novo emprego. Aliás, dois empregos, para suportar a indemnização que iria ter de pagar ao ex-sócio a quem acabara de enviar para a genitália da respectiva tia. De mãos a abanar, alma lavada e com a tosse finalmente curada, o homem que tinha engolido uma espada jurou a si mesmo que nunca mais se deixaria rebaixar por ninguém.

Hazel
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Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1647
foto: Free-Photos, licença CC0

Beldade de labaredas pintadas


O Tragédias olhou em frente, mordeu o lábio inferior e contraiu o esfíncter como se isso o fizesse encolher e passar despercebido ao carro da polícia parado no cruzamento com a Rua Artilharia 1. Safou-se, o marialva de cabelo lambido. Por segundos de distracção policial quase era mandado parar por circular sem farol traseiro na mota e com o escape meio solto, a dar-a-dar, montado à pressa como fazia todas as manhãs para ir trabalhar.

«Esta ninguém m'a tira», pensava enquanto dava um estalo de satisfação com a língua. Depois de, nos últimos três anos, lhe terem roubado pela calada da noite quatro motorizadas seguidas que muito suou para pagar, tomou medidas drásticas — e criativas. A última aquisição, uma Honda CG 125 vermelha, antiga mas com umas labaredas desenhadas que lhe davam estilo e personalidade, era todos os fins de dia desmontada num tempo record de dezasseis minutos. Os gaiatos da rua sentavam-se no passeio a apreciar a velocidade com que as peças saíam, de olhos brilhantes e cronómetro na mão.

A porta de casa escancarava-se como se esta acabasse de ser invadida por uma trovoada trôpega com cheiro a cerveja e uma cacofonia metálica de escape, amortecedores, espelhos, faróis, manetes de travão, selim, depósito e tudo o que conseguisse enfiar dentro da cozinha, para garantir que o pouco da beldade-com-labaredas que pernoitasse na rua não valeria aos larápios o esforço de partir correntes e cadeados, e ainda lá estaria ao raiar do dia.

Os gritos e o vernáculo desesperado do Tragédias à procura das peças eram o despertador da Rua da Bica todas as manhãs nos dias de semana; era uma cómica tragédia, porque nunca encontrava as peças todas. Desmontar era fácil, mas voltar a montar a Honda era outra conversa. «Ai homem, tu matas-me!», os chinelos da Edite, que começava o dia a correr afogueada com os faróis apertados contra o peito montanhoso para não caírem ao chão, ouviam-se apressados escada-acima-escada-abaixo no prédio.

«‘té logo!» Lá ia ele. Dobrava a esquina triunfante por ter levado a melhor aos ladrões, ainda que isso implicasse ter todos os dias o fadário de desmontar e montar a motorizada.

Esta semana, o arcano 7 de Espadas surge-nos como um vil malandro à espera da ocasião que o revelará patife sem coração, capaz mesmo de tentar preencher o próprio vazio com a segurança do colchão alheio, por maldade ou mesquinhez de alma empobrecida que nunca conseguirá, por isso, encontrar um vislumbre de luz.

Resta-nos, tal como o genial e persistente Tragédias, separar por peças toda a nossa estrutura, reinventar-nos, recriar-nos diariamente. Todos os dias são dias para começar de novo.

Hazel
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Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1646
foto: Free-Photos, licença CC0

Agosto, mês de desgosto


Um novelo de cotão, um pedaço de Chocapic, um papel de rebuçado bola-de-neve amachucado e uma lasca de coração. O meu. Homessa, o que uma pessoa descobre quando muda o sofá de lugar.

Reuni o bocado de coração aos outros que se encontravam esparsos como fragmentos de navio naufragado; debaixo da cama, dentro do copo das escovas de dentes, caídos no fundo do frigorífico. Cheguei mesmo a encontrar um pedaço do ventrículo inferior esquerdo a balançar no candeeiro da sala.

Andei a juntá-los com Paciência para ver se conseguia consertar com cola-tudo, mas ficaram a faltar bocados. Desnorteada, deitei tudo fora. Já diziam os antigos, cacos só trazem infelicidade.

De maneira que andei uma data de dias por aí sem coração. O sangue circulava por especial favor do cérebro que veio fazer as vezes do órgão cardíaco, mas que me moía o juízo com reclamações por estar a fazer o trabalho do outro.

Onde é que desencanto agora um coração novo, indaguei aos meus botões e ao fecho-éclair da saia. Apareceram corações de papel, de loiça e até de pano — que não tinham serventia. O meu teria de ter sangue, nervoso miudinho, veias, força, alma, paixão, ganas.

Agarrei no pano do pó, no espanador-de-penas-verdes e na esfregona, e pus-me a limpar o espaço desabitado junto aos pulmões. Lavei, esfreguei, tirei as teias-de-aranha abandonadas e até pendurei quadros novos.

Mas nada ali morava além do vazio silencioso e de uma dormência em sentir fosse o que fosse. Nem uma mosca se ouvia. Receei estar a tornar-me, agora sim, uma besta. A ser, pelo menos, seria uma besta limpinha e organizada. Daquelas que até dobram o pijama e o guardam debaixo do travesseiro.

Azedo e impiedoso, o arcano Três de Espadas ensina-nos que não somos um par de sapatos para ficar arrumados numa caixa. Bem sabemos que os sapatos guardados vão sempre magoar-nos os pés e mordê-los como se tivessem dentes.

Para meu espanto, no outro dia, quando encostei a cabeça no travesseiro, ouvi um barulho que se tinha tornado quase desconhecido. Alguém a martelar nas paredes?
A música dos vizinhos? Kizomba (o horror)? Um carro a buzinar? Não, não podia ser.

Ga-gum, ga-gum, ga-gum, insistia o barulho. Pelas abençoadas banhas na barriga de Afrodite, querem lá ver que. Que isto. Que isto é. Um. Coração? Dentro do travesseiro? Acendi o candeeiro da mesa-de-cabeceira de olhos arregalados.

Não, o travesseiro não tinha nada lá dentro. Ai Senhores. Deitei as mãos ao peito, os ribeiros a escorrerem-me pelos olhos, quando descubro que era cá dentro, aqui.

Páro de escrever e espeto um dedo no peito como se vós que me ledes pudésseis ver.

Um coração a bater dentro de mim. Novinho em folha, acabado de nascer.
‘que pariu! Renasceu, o safado. Renasceu. Tudo passa. Também isto passará.
E passou. Adeus, Agosto; vai, que já vais tarde.

Hazel
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Email: casa.claridade@gmail.com

Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1645
Foto: Gere, licença CC0

O Twist do Fundão


«Está com sorte, ainda há dois lugares livres», grasnou o senhor da bilheteira em voz laringofaríngea, «ficam é ao fundo». Entrei no autocarro já com o estômago embrulhado enquanto levava à boca um comprimido Vomidrine que engoli com um resto de água já tépida. Enfiei as malas no compartimento superior.

A placa que indicava a saída do Fundão passava ao meu lado, seguida das árvores que corriam à beira da estrada, os postes de electricidade onde os pássaros compunham pautas de música e as flores nas varandas que acenavam em despedida.

Nem dez minutos tinham passado e já estava disposta a vir a pé até Lisboa. O meu almoço subia e descia pelo esófago, qual teleférico do Parque das Nações. Ainda há quem acredite que a Terra é redonda. Pois nem redonda nem plana, ficais vós a saber. Garanto-vos que o planeta Terra é uma gigante espiral, tal como as molas das canetas de pressão, que se sobe quando se viaja ali para os lados do Fundão e desce quando regressamos a Lisboa — percurso este, acompanhado pelo estômago e seu conteúdo que dançam desencontrados em passo de twist, com luzes psicadélicas.

O motorista conduzia como um louco, ou como alguém a quem teriam sido diagnosticadas duas semanas de vida e, portanto, não havia muito a perder naqueles altos e baixos da Cova da Beira.

Tacteei nos bolsos por um singelo saco de plástico ou um portal espaço-temporal que me livrasse daquele tormento, mas apenas encontrei os bilhetes já amarrotados e um mísero lenço de assoar. Uma gota de transpiração escorria na parte de trás do pescoço.

À minha frente, pareceu-me ver os dois homens que estavam sentados — «Ai mais uma curva, agora é que é», mas sustive o vómito com um auto-controle olímpico — escorregarem pelo banco para colocar as cabeças a salvo, tão indefesas e asseadinhas, abençoados, do refluxo de pizza quatro-estações, mousse de chocolate (mal empregue) e café. Raios partam o Vomidrine, que não fez efeito.

Encolhi-me e aguentei o melhor que pude, entre solavancos e travagens indutoras de fazer o estômago vir parar-me às mãos. Havia de apresentar queixa do motorista. Aquilo não se fazia, transformar um autocarro no tambor de uma máquina de lavar roupa em centrifugação. Aliás, quando saísse, iria mandá-lo para o pénis. Até havia de lhe deixar cair a mala de viagem em cima dos pés — e não ia pedir desculpa. 

Ah grande velhaco, que lhe enfio o guarda-chuva no, olha, será que vi bem, ou é isto uma alucinação causada pelos ácidos gástricos? Lisboa. Ah Lisboa boa. Ai, finalmente cheguei. Ai obrigada, senhor motorista, Deus-Nosso-Senhor o cubra de bênçãos. Estive quase para beijar o chão, onde entretanto já desaguava um rio de vomitado e desespero de outras duas passageiras dobradas para a frente com as mãos apoiadas no autocarro.

Esta semana, o arcano Dois de Ouros mostra-nos que a vida às vezes sacode-nos, tira-nos a terra, o equilíbrio — e até a lucidez. Sentimo-nos como um par de calças de pijama às voltas dentro de uma máquina de lavar com uma perna enrolada nos lençóis e a outra sugada pelas toalhas de banho. Perdemos o chão. Mas não podemos perder a cabeça.

Hazel
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Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1643
Foto: StockSnap, licença CC0

É preciso ter tomates


1. Nasceram-me dois tomates. Que orgulhosa fiquei do reluzente e tentador par que se me insurgiu por entre os arbustos viçosos. Todas as manhãs os contemplava com regalo desejando que crescessem mais, mas os velhacos eram de raça pequena.

Acabei por comer um, o outro dei-o ao meu gaiato. Como nunca antes tinha tido tomates, não soube o que fazer quando uma praga de insectos me fez murchar o tomateiro. Rais’parta. Desmoralizada, deitei tudo fora e tirei os tomates da cabeça que, mau grado o sumarento fracasso agrícola, constituíram saborosa e tenrinha aprendizagem.

2. Transviada nos rigores matematicamente exactos e frios dos números, suspirei durante anos pela elasticidade das hipérboles, a delicadeza dos eufemismos e o encanto fantástico das prosopopeias. 

Traí as folhas quadriculadas com os cadernos de linhas quando reuni uma lista das editoras em Portugal. Enviei candidaturas para todas. Foram centenas. Sem qualquer cunha ou experiência comprovada na época; apenas cara-de-pau e a fé de que tinha de haver um lugar para mim no mundo das letras, mesmo que fosse na última fila. Uma editora respondeu. Após traduzir algumas páginas de teste em inglês, recebi o meu primeiro trabalho: realizar a revisão da tradução de um livro inteiro, que concluí antes do prazo previsto. Foi a primeira semente de várias frutas que vim a colher.

3. «Tens de plantar tomates», disse. A minha amiga, incrédula com o inusitado conselho espiritual, continuava a lamentar-se que já não suportava o emprego onde trabalhava há mais de vinte anos (e do qual não saía porque achava que não valia a pena procurar outro). «Devias plantar tomates», insisti. Às vezes, falo por parábolas como o outro hipster barbudo que tornou o esqui aquático um desporto bíblico.

Plantar tomates é uma experiência de valor incalculável pela qual todos deveriam passar. Ora, passo a explicar: é necessário comprar um vaso ou floreira espaçoso. Depois, vários litros de terra. Da boa, claro — não sejam sovinas. Por fim, em qualquer mercado local se pode adquirir por pataca-e-meia um pé de tomateiro para plantar. 

Trazemo-lo para casa e depositamo-lo na terra com amor e esperança, como quem aconchega um bebé nos lençóis. Certificamo-nos que o tomateiro recebe boa luz solar. Regamo-lo frequentemente. Espetamos um pau comprido onde o tomateiro se possa apoiar à medida que for crescendo (homessa, o Quim Barreiros é tolo se não aproveitar esta frase para um dos seus êxitos de Verão.). Cuidamos e vigiamos; os tomates acabarão por nascer.

O arcano Valete de Ouros diz-nos que não podemos ter tomates se não plantarmos tomates, e às vezes é preciso ter tomates para os plantar. Os lamentos não fazem nascer tomates, mas mais razões para lamentar. Plantando, tudo dá. Até os tomates.

Hazel
Consultas em Oeiras, Carcavelos e online

Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1642
Foto: Os próprios, os meus tomates