História inacabada - parte 2











Mais um dia começa a despontar, com a claridade lilás a surgir timidamente no horizonte. A terra amolecida pela humidade da noite afunda-se sob a passada ritmada das suas velhas botas castanhas.

Inspira o ar frio e perfumado da manhã como se o bebesse pelo nariz, e caminha guiada por uma música inaudível, com o cesto de colher frutas e ervas enfiado no braço direito, cumprindo um ritual que ninguém sabe quando começou.

Pelo caminho, vai colhendo flores de acácia, ramos de louro e algumas maçãs vermelhas, da mesma cor da fita de seda que atou há anos no pulso esquerdo. Através do nevoeiro com cheiro de madeira que envolve o seu corpo como um vestido esvoaçante de algodão, contempla o sulco na terra, marcado por tantas vezes que fez o mesmo percurso silencioso.

Onde os pássaros não cantam e o silêncio se adensa como dentro de uma bolha, ergue-se o carvalho centenário que tudo viu desde o começo dos tempos. Pousa a cesta no chão e, com respeito e devoção, aproxima-se da entrada para o buraco no tronco do carvalho. Afasta as teias de aranha como quem abre duas cortinas e senta-se dentro da árvore.

O ar húmido gela-lhe o rosto. As suas mãos magras retiram do bolso da saia o papel grosseiro e amarelado e a caneta. Estou pronta. A vertigem começa a fazer-se sentir, como se estivesse a flutuar e o mundo parece parar de rodar para que as vozes ditem o destino. Os sons sibilados por elas são transformados em palavras escritas na sua caligrafia irregular.

A sua respiração pára e, no entanto, as mãos não cessam de escrever. Os anos passam enquanto ela escreve lentamente, em transe, rodeada pelas aranhas que voltam a entrelaçar as suas teias de fios esbranquiçados à sua volta, que se confundem com a brancura dos seus cabelos, como se ela fosse uma aranha gigante dentro de um casulo no interior da árvore.

Quando as vozes se silenciam, a caneta volta para o bolso da saia, as teias são novamente rasgadas e...

To be continued...

[Ler a parte 1]


8 superstições que fazem sentido


Que atire o primeiro trevo-de-quatro-folhas quem nunca teve uma superstição. Sem qualquer fundamento científico, as superstições são apenas crenças. Têm de ter um significado, uma lógica, ou uma forte impressão de que produzem algum tipo de efeito para que eu acredite nelas.

Não me importo de abrir um guarda-chuva dentro de casa, mas se vir um quadro torto, vou sempre acertá-lo. Nesta lista, encontram-se as minhas superstições e os seus significados:


1. Pássaros em gaiolas
Um pássaro que vive uma vida inteira numa gaiola, sem liberdade, apenas para satisfazer o egoísmo humano que o aprisiona para escutar o seu canto e apreciar a sua beleza.

As gaiolas, sejam brancas ou douradas, não deixam de ser uma prisão. Impedir uma ave de honrar a sua essência, que é voar em liberdade, é contra-natura e, energeticamente, muito negativo.

Como diz o Sting e com razão, "If you love somebody, set them free". Se ama as aves, cultive plantas, coloque taças com água e comida na varanda ou do lado de fora da sua janela, e deixe-as vir até si. Ou compre um CD com cantos de pássaros.

2. Flores secas
Por muito belos que sejam os arranjos de flores secas, não deixam de ser flores mortas. É como maquilhar um defunto e pô-lo a enfeitar a casa porque é bonito, iaics!
Troque as flores secas por vasos com plantas vivas.

3. Quadros tortos
Quadros tortos criam falta de harmonia e desequilíbrio porque estamos sempre a ver uma imagem torta, desalinhada da linha do horizonte. A propósito, também sente aquela tentação irresistível de endireitar discretamente os quadros tortos quando vai a algum lugar? Alguém que me diga que não estou sozinha nisto.

4. Objectos partidos
Não queria partir-vos o coração com isto, minhas abóborazinhas, mas têm mesmo de deitar fora os vossos tesouros partidos. Não vale a pena colarem. Os antigos diziam, e com razão, "cacos são desgostos". Não vale a pena dizer que isto inclui os espelhos. Ah, vale, vale: isto inclui espelhos!

5. Animais embalsamados
Há gostos para tudo, e há quem goste desta estranha e macabra forma de arte.
Mas ter animais mortos em casa é extremamente negativo. Não transforme a sua casa num cemitério (bater em madeira!); troque os bichinhos embalsamados por quadros com representações deles.

6. Fotografias de entes queridos falecidos
É melhor guardar numa caixa todas as fotos de um ente querido que tenha partido, para podermos revê-las quando quisermos. Tê-las expostas, fazendo parte do nosso dia-a-dia seria como viver no passado. Devemos estar gratos pelo tempo e experiências que partilhámos e deixar quem partiu fazer o seu percurso noutro plano, sem prendê-lo à terra.
Desculpem se magoei alguém. Se for o seu caso, leia aqui sobre como superar as perdas.

7. Relógios parados
Já que falámos em viver no passado, os relógios parados também são proibitivos. Troque as pilhas, dê corda, acerte-os, e coloque-os em movimento. Se os seus fiéis testemunhos da passagem do tempo estiverem avariados, mande-os reparar, venda, dê ou deite fora, mas não os mantenha parados. Relógios parados = vida parada.

8. O quadro do "menino da lágrima" ou qualquer outro no mesmo nível depressivo
Antigamente, era moda. Alguns exemplares eram caríssimos. Mas nem por isso deixavam de ser deprimentes e negativos, com os meninos maltratados, sujos, esfarrapados e a chorar. Existem umas histórias por detrás dos quadros, sobre miséria, violência e abusos às crianças retratadas que os conseguem tornar ainda mais negativos do que já são. Fogo neles!

9. A sogra! - Estou a brincar, estou a brincar!

E agora, algo que Sorte: gatos pretos! Não precisam de fazer figas: os gatos pretos, como o da foto, não trazem má sorte, mas Boa Sorte e Protecção.

De vassoura na mão,

Hazel
Foto licença CC 2.0 por OiMax no Flickr

Parabéns para mim!


Hoje é o aniversário desta vossa escriba. E dia da mãe (em Portugal).
Neste dia tão especial, sinto que devo agradecer à Vida, ao Universo, aos Velhos Deuses e à minha equipa de Luz pelas bênçãos que conquistei em mais esta fantástica volta ao Sol:

- Grata por tudo o que aprendi. Por todas as lições, mensagens, presságios e sussurros que me foram dados;

- Grata pelo meu filho L., a pessoa mais valiosa que existe na minha vida, e que já tanto me ensinou;

- Grata à Magia por se manifestar na minha vida;

- Grata pela minha família, que são aqueles que amam livremente, sem impôr condições, sem julgar, sem competir. Que ficam felizes por me ver feliz. Simplesmente, são um canal puro de amor. Fernanda e João Morgado, J. P. e Mariana A. Sousa, Sílvia Lopes;

- Grata por todas as pessoas maravilhosas que tive o privilégio de conhecer ao longo deste último ano;

- Grata ao meu gato Aramis, companheiro de todas as horas, que tem uma página de facebook só dele, porque ele é uma estrela de rock;

- Grata pelas minhas companheiras plantas, pelas minhas flores, pelos pássaros que todos os dias cantam à minha janela;

- Grata por ter uma casa onde me sinto feliz, por ter comida na mesa;

- Grata por ainda não me terem caído as maminhas [o aniversário é meu, e agradeço por tudo o que tenho a agradecer, ora] ;

- Grata a todos os que lêem a Casa Claridade!

A soprar as velas,

Hazel

Foto: Hazel fotografada por Sara Silva Gomes

"Caritas" (Amor) - por Abbott Handerson Thayer

"Caritas"
Há muito tempo que eu não pendurava um quadro nas paredes da Casa Claridade
A minha escolha foi este, de extrema beleza e serenidade, pintado por um homem de paixões e fúrias.

Abbott Handerson Thayer (1849-1921) foi um homem excêntrico, temperamental, inconstante e muito talentoso. Em alguns dos seus quadros, misturava sujidade propositadamente com as tintas, de modo a obter os efeitos desejados. 

Casou duas vezes. Perdeu dois filhos pequenos num ano. A primeira mulher teve uma depressão que a levou ao internamento e depois à morte. 

Thayer amava a Natureza e, juntamente com a segunda mulher e os restantes três filhos (que serviam de inspiração para as crianças que surgiam nos seus quadros), dormiam o ano inteiro ao ar livre, para usufruir do ar puro. 

Beijos artísticos,

Hazel