Saber as linhas com que se cose


As mulheres que costumam coser roupa são mais corajosas que as outras. Pelas suas mãos, nascem caminhos, rectas, curvas e contracurvas feitos de linhas de várias cores e espessuras, ora a direito, ora em ziguezague, ora em ponto caseado. Fazem e desfazem, cortam, cosem, descosem, medem e alinhavam. Voltam a coser, mas ainda não está bem. Às vezes, desmanchar leva mais tempo que fazer. 

Os pensamentos voam soltos ao compasso da máquina de costura, deixando um rasto feito de pontos que mergulham e emergem no tecido como um nadador olímpico que nunca mais chega ao outro lado da piscina. Cada ponto guarda a memória de um pensamento que não foi dito por palavras, mas por linhas. Cada bainha retém um suspiro de cansaço.

Creio que ninguém conhece tão bem o sabor da frustração e a enfrenta com tamanha perseverança quanto as costureiras. Desistir é extremamente amargo. Atormenta-nos a ideia de ter de abandonar um caminho para onde nos dirigíamos a passos largos achando que se estava na direcção certa. E, no entanto, as costureiras fazem-no repetidamente, com uma paciência heróica que apenas elas possuem.

Nunca fiz uma peça de roupa para mim; não quis aprender a coser a sério porque sempre soube que isso implicaria errar e desfazer mais vezes do que aquelas que nasci preparada para aceitar fazer. Como o destino é matreiro e travesso, acabei por me ver a coser, não com linhas, mas com palavras que serpenteiam a carvão ao longo das folhas branco-amareladas dos meus cadernos velhos, como alinhavos antes de uma costura, que depois transcrevo para o computador. Apago mais frases do que aquelas que ficam escritas. Parece que nunca encontro a medida certa, o tom e a direcção que mais me satisfaz. Em cada sílaba, um ponto rematado no tecido da vida. Escrevo, apago e torno a escrever até me parecer melhor. Mas nunca chego lá. Por isso, continuo a escrever, como uma colcha de Penélope que nunca é terminada.

A carta Oito de Copas mostra-nos que desistir nem sempre é andar para trás; porque também o retrocesso, que enfrentamos virados do avesso com as costuras e cicatrizes expostas, faz parte dos planos. Afinal, de que vale insistir na confecção de uma peça de roupa que nunca nos irá servir? 

Desistir não é fracassar, e está reservado a quem possui a coragem de desmanchar para aprimorar. Fracassar seria recusar-nos a mudar de direcção quando temos uma parede e não uma porta à nossa frente; quando tentamos enfiar uma camisola do tamanho M, sabendo que a nossa medida é L.

Hazel
Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1597
foto: cortesia de Zélia Évora

Espírito de aldeia num prédio


Pedi um raminho de louro, a minha árvore preferida, para temperar os cozinhados e para, de vez em quando, queimar como incenso délfico. Quis a generosidade, ainda existente entre seres humanos, que me fosse ofertado um ramo do tamanho de uma árvore.

Poderíamos ficar com louro para o resto da vida, mas sinto-me ainda mais satisfeita por ter louro só por uns bons tempos, e sentir o prazer de distribuí-lo por mais casas. Um gesto de bondade torna-se maior quando o fazemos crescer, e não o guardamos só para nós. Se há em abundância, o natural é partilhar.

Assim, hoje o L. e eu estivemos a fazer cones de cartolina verde, enchêmo-los de folhinhas de louro e, às escondidas, pendurámo-los nos puxadores das portas dos vizinhos do prédio com um bilhete nosso. Foi uma bela marotice!

Quem sabe se esta surpresa não irá animar alguém que se sinta triste ou sozinho, ou que se esquece sempre de comprar louro quando vai ao supermercado.


A pendurar coisas à socapa nas portas dos vizinhos,

Hazel


Mil decibéis de silêncio


Intrigam-me as pessoas caladas. Há um inegável respeito que impõem no seu jeito silencioso de existir e no olhar observador com que seguem as conversas acenando educadamente com a cabeça, mas guardando as suas opiniões para si, seja por timidez, precaução, ou pela irrelevância que possam atribuir às palavras. Se a paz de espírito pertencer a alguém, nunca poderá ser de um tagarela, mas de um introvertido. 

Folheando mentalmente as pessoas a quem sou mais chegada, reconheço uma amiga assim. Todas as semanas fazemos uma caminhada juntas, há mais de um ano. A Patrícia, é assim o seu nome, nunca fala de assuntos inúteis ou desnecessários. Escolhe sempre cuidadosamente as palavras antes de libertá-las de dentro de si. De bom grado troca um “sim” por um simples inclinar de cabeça com um sorriso - é suficiente. 

E eu, que tantas vezes me arrependo por colher maçãs antes de me certificar que estão maduras, falando por impulso sem antes medir as palavras, admiro quem dá primazia aos pensamentos em relação ao verbo. Afinal, o mundo já tem palavras demais à solta, palavras que por vezes se descontrolam e geram zangas, mal entendidos, conflitos, ressentimentos, guerras. 

Já o silêncio é tão raro e valioso que não sabemos como comportar-nos quando desavisadamente nos encontramos a partilhá-lo com alguém durante mais de cinco minutos. 
De certa forma, sentimo-nos nus, pretendendo simular naturalidade, mas sem saber o que fazer com as mãos que procuramos desajeitadamente enfiar nos bolsos que não temos e, por isso, socorremo-nos de uma manta que nos cubra a aflição da vulnerabilidade - a palavra. Cometemos, assim, a grosseria de invadir a perfeição silenciosa do universo da outra pessoa com uma qualquer observação banal e cretina sobre o tempo ou sobre como correu a semana. 

As pessoas caladas têm um universo mais vasto que as outras, com mais continentes, oceanos, ilhas, estações espaciais, estrelas e nebulosas. É interessante observar o contraste dos que falam sem parar, como se da sua boca saltassem milhares de massinhas da sopa de letras entrecortadas por breves segundos de pausa para ganhar fôlego; por oposição à serenidade dos que observam o mundo sem sentir necessidade de lhe acrescentar uma sílaba.

O silêncio é uma arte que apenas podemos apreciar emoldurada pelos barulhos do mundo. 
Não podemos - nem devemos - querer silenciar os ruídos à nossa volta. É o nosso silêncio interior que se deve sobrepor aos barulhos exteriores. Só então dominaremos essa arte e estaremos aptos a ter longas conversas com um simples aceno de cabeça. Como a Patrícia.

Esta semana, a carta O Eremita inspira-nos a privilegiar o silêncio e desafia-nos a encontrá-lo dentro de nós. Mergulhemos nas suas profundezas, escutemos as suas respostas e troquemos o ruído dos nossos passos apressados pelo deslizar harmonioso de uma existência quase não-existente, tamanha a sua harmonia com o pulsar da Terra.

Hazel
Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1596
crédito foto: pap.az

Porque o céu é mais largo no Alentejo



Não existe onde encontre tanta paz quanto no Alentejo. Não é pelo calor que amolece a determinação. Nem pela maresia na zona costeira que nos viaja em espiral desde as narinas até ao cérebro, fazendo crescer água na boca e esperança nos olhos.

Nem tão pouco pelo uso do gerúndio, a forma mais pacata e sem pressa de fazer uso dos verbos, levando-os até a perder a definição de tempos verbais para passarem a ser apenas um tempo nominal do verbo devido à falta de flexão de tempo. Ali o tempo é diferente do tempo nos outros lugares do mundo, e até os verbos se conjugam de outras maneiras.

Vou ao Alentejo para ver o céu. Sobre a planície, nas zonas rurais alentejanas, as casas e as árvores semeiam-se escassas e esparsas, deixando que o céu beije toda a superfície à nossa volta. Como o céu é largo ali.

Vemo-lo descer mesmo até ao chão, sobre nós, imenso, eterno, vivo como um Deus feito de azul e de oxigénio. Sentimo-nos aplacados pelo seu tamanho onde se entornaram latas de tinta em tons ciano durante o dia; e, à noite, embalados pelo canto hipnótico dos grilos, somos cobertos pelo manto negro salpicado de estrelas.

Ali encontro a minha pequenez, aconchegada por braços celestes que não têm fim.
Ah, Alentejo.

Falando e escrevendo usando o gerúndio,

Hazel

[Escrito a lápis de carvão no meu caderno, com a Ilha do Pessegueiro ao fundo e o horizonte aberto à minha volta.]

Profissão: equilibrista


Anacleta segurava o telemóvel entalado entre o ombro e a orelha, escutando a voz monocórdica do chefe que balbuciava qualquer coisa acerca do relatório mensal. Sobre o braço direito dobrado junto à linha do umbigo que se afundava entre refegos suados, onde outrora brilhara o cristal rosa-choque de um piercing, assentava o seu bebé que acabava de lhe desenhar uma longa autoestrada branca bolsada pelas costas abaixo. Plim!, apita o microondas, que desliga com a mão esquerda. Já cheira a sopa de legumes, e não há tempo para comê-la.

Entre as sobrancelhas arranjadas à pressa que ficaram arqueadas demais conferindo-lhe uma expressão de espanto permanente, uniam-se dois vincos de pele como pontos de exclamação resultantes do esforço para manter um estado de alerta e concentração constantes.

Nunca relaxava. Quando dormia, preenchia folhas de cálculo, fazia gráficos, estatísticas e apuramento do IVA ao mesmo tempo que passava óleo de cedro nos móveis, raspava o queimado das torradas e estendia a roupa no varal colocando as molas por ordem de cores, o que lhe prorporcionava uma reconfortante ilusão de ordem no meio do reboliço que era a sua vida.

Fazia exactamente o mesmo quando estava acordada, o que por vezes lhe tornava difícil distinguir se estava desperta ou nos domínios de Morfeu. Cansada e distraída, acabava por frequentemente misturar roupa clara com roupa de cor, e terminava tudo tingido de cor-de-rosa, o que arreliava o marido, que tinha preconceito com a delicada e feminina cor que lhe ia aos poucos invadindo todas as suas camisas brancas.

Sentia-se um falhanço em todas as áreas. Como profissional, porque quase tinha de correr uma maratona para conseguir cumprir os prazos dos abomináveis relatórios mensais. Como mãe, porque não conseguia dar suficiente atenção ao seu filho. Como mulher, porque há meses que não fazia amor com o marido devido às enxaquecas, umas vezes reais, outras inventadas. Como dona-de-casa, porque estava tudo sempre desarrumado e tingido de cor-de-rosa. E como ser humano, porque se tinha esquecido que lhe era permitido tudo isso e ainda assim viver sem culpa.

Anacleta era uma mulher espantosa sem o saber, porque conseguia gerir um milhão de responsabilidades em simultâneo - tal como tantas outras mulheres e homens com quem nos cruzamos diariamente, cheios de vincos de preocupação e angústia porque estão a fazer tudo ao mesmo tempo, e por isso acham que não estão a conseguir ser suficientemente bons em nada.

Esta semana, a carta 2 de Ouros mostra-nos que é possível transcender os limites quando colocamos a noção de perfeição em perspectiva. Por vezes, a única forma de manter o equilíbrio ao longo do fio da vida é aceitar distribuir-nos em várias direcções, manter o ritmo e a flexibilidade, e não perder a fé em nós mesmos por vacilarmos quando o vento sopra. Afinal, mares tranquilos não fazem bons marinheiros.

Hazel
Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1595