Crime organizado entre panelas e peúgas


Há uma falha na massa entre dois azulejos ao lado do fogão por onde já vi deslizar silenciosamente um tentáculo da Máfia siciliana. A minha cafeteira é uma ladra contrabandista. Coloco-lhe a água em baixo, o café no depósito central, enrosco a parte de cima e acendo o lume. A gangster octogonal colabora sem oferecer resistência, como uma boa e honesta cafeteira acima de qualquer suspeita.

A água ferve e sobe, percorrendo a secção onde se encontra o café, até chegar ao compartimento superior — dizem os vrai connaisseurs que o café é mais saboroso se subir em vez de descer, por algum misterioso motivo. No entanto, mal desligo o lume, ela — a velhaca — chupa o café de volta e fica com ele no andar de baixo.

Não será pela necessidade de beber o meu café-levanta-mortos que a chupista o rouba, mas certamente porque a Cosa Nostra chega a todo o lado. Uma pouca-vergonha pegada com sotaque italiano.

Mais ao fundo da cozinha, insuspeita junto à janela, encontra-se a sua comparsa, a máquina de lavar roupa. Essa é mais imprevisível na metodologia criminosa.

Em breve reconstituição do último crime ocorrido, dirigiu-se esta vossa escriba com o alguidar da roupa para lavar na anca direita (toda a gente sabe que as ancas das mulheres servem para encaixar o alguidar), ajoelhou-se junto à máquina de lavar e colocou a roupa lá dentro: um pijama axadrezado, camisolas do gaiato, calças de ganga, dois vestidos, toalhas de banho, todo um arsenal de cuecas pretas e, por fim, as cobiçadas peúgas. Lembro-me perfeitamente de ter colocado para lavar aquele par de meias castanho-escuras com gatinhos que comprei para o meu filho (e que acabaram por ficar para mim).

Regulo a máquina para o programa da roupa escura e vou aos meus afazeres. Quando a dissimulada mafiosa termina de lavar, retiro a roupa do seu interior e, com grande espanto, constato que apenas se encontrava uma (1!) das meias dos gatinhos. Rodei o tambor, inspeccionei a roupa toda, mas a infeliz meia desapareceu como se nunca tivesse existido, deixando órfã a irmã gémea. O desaforo não acaba aqui: apareceram, não uma, nem duas, mas três outras meias pretas que não coloquei para lavar.

É do demo: roubou-me uma meia e deu-me outras três que tinha furtado noutras lavagens em troca, como quem permuta reféns menos valiosos por outros que interessam mais.

Estou profundamente indignada com a patifaria que se está a passar na minha cozinha. Tanto a cafeteira quanto a máquina de lavar são membros executantes da Máfia, essas filhas-da-mãe que não têm outro nome — bem, ter, têm, mas vou abster-me por decoro.

O arcano Cinco de Espadas surge-nos bruscamente como um gangster sem coração para nos levar as meias, o café e o bom-senso, numa batalha perdida onde ninguém é genuinamente vencedor.

Por vezes, o melhor é agir com distanciamento e não dar confiança à malandragem. Como vou fazendo com os atrevimentos dos mafiosos da cozinha: ignorar, evitar conflitos e conferir a roupa suja que se lava.

Hazel
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Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1632
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Pista: 38.693449,-9.309771


Está decidido. Amanhã vou fugir. Já tenho a mala pronta. Caderno e lapiseira para algum rasgo de inspiração que possa surgir desavisadamente, uma muda de roupa para o caso de precisar de dormir fora, lápis preto para os olhos — terão de me perdoar a vaidade —, escova de dentes e desodorizante (pretendo ser uma fugitiva digna e asseadinha), e um telemóvel desligado. Acreditem em mim, vou fazê-lo. Dixit. Ninguém sabe; nem às paredes que me rodeiam confidenciei tão inusitado plano.
É segredo absoluto.

Não fujo à polícia. Tenho as contas em dia, actividade profissional legalizada, e apenas uma multa de estacionamento à espera de perdão divino, bem como o cartão de cidadão fora de prazo por casmurrice minha — porém, nada que justifique uma busca policial pela singela pessoa que vos escreve. Também não fujo de algum desgosto ou tristeza. Todos sabemos que a tristeza, quando quer apanhar alguém, agarra-o pelos artelhos e já nem à casa-de-banho o desgraçado consegue ir condignamente.

É do tempo que fujo, esse grande garganeiro. A mim não engana ele. Então, ainda há meia dúzia de dias nasci, até me lembro de estarem todos à espera que acabasse a “Gabriela, Cravo e Canela”, que estreava em Portugal, para fazerem o meu parto e agora, sem mais nem menos, diz que amanhã se completam quarenta anos que aqui estou? A areia da ampulheta gigante que mede a passagem do tempo anda certamente a ser desviada lá para as praias de São Pedro de Moel.

Chegados a este parágrafo, credes, amáveis leitores, que esta seja talvez uma crónica como as outras e que tudo isto é uma inocente metáfora. Contudo, sabem aqueles que me conhecem de perto que não gosto de fazer anos, é uma data que me causa sempre uma ansiedade irracional que me leva a desligar o telemóvel e a esconder-me em casa como quem se prepara para uma catástrofe nuclear. Por algum motivo, fico sempre assim no dia do meu aniversário, e esforço-me por fingir que estou contente para não ser uma bota-de-elástico desmancha-prazeres.

Amanhã vou estar mais velha, mais flácida, mais sábia e ajuizada (pelos vistos, nem ao menos isso!) e um ano mais perto da morte. Uhu, que emoção. Assim, este ano, porque a idade é um estatuto e só se faz quarenta anos uma vez, decidi celebrar o meu aniversário de forma a que nunca mais esqueça, mesmo que um dia o Alzheimer me apanhe desprevenida, e fazer algo que realmente me divirta: uma charada.

O meu bilhete de fuga é, justamente, esta crónica e a primeira pista para alguém me encontrar é a sequência de números que está no título. Quando encontrarem o local, terão de responder a um enigma (o enigma será entregue apenas directamente no local, e não por telefone). Quem responder correctamente, terá outra pista onde poderá ser dada a minha localização. Os corajosos que conseguirem encontrar-me, receberão de presente uma leitura de Tarot. Boa sorte! 😃

Hazel
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Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1631

A cereja no topo

Os meus olhos fogem-lhe para as cuecas; procuro não olhar, mas é inevitável. Vocês também olhavam se aqui estivessem. Fotografo em palavras, correndo o risco de vos apresentar uma foto tremida: barba esparsamente semeada, cabelo rebelde a bater nos ombros, lábios trocistas.

Um Jim Morrison do século XXI, de pernas longas e magras, calças justas quase a cortar a circulação sanguínea, negligentemente caídas como se acabasse de sair da casa-de-banho e se tivesse esquecido de puxá-las para cima (a minha avó também andava assim por vezes, como estes mancebos de agora, mas devido à demência e não à moda).

‘Senha R65’, pisca o monitor pendurado junto ao tecto, para onde todas as cabeças se viram como cágados a espreitar de fora da água cada vez que o sinal sonoro dispara. Levanta-se o jovem Morrison, caminhando com atitude felina, apesar dos passos de estreita amplitude, presos pelo gancho das calças ao nível dos joelhos.

Todos os olhos entediados pela espera se lhe repousam nas nádegas sem que isso lhe cause qualquer beliscão. Seguro e confiante, exibe com desfaçatez o arredondado nalgal contornado pelas cuecas de elástico puído, com padrão de xadrez azul-turquesa-toalha-de-cozinha-mediterrânica.

Assina aqui, rabisca ali, molha o dedo na tinta, carimba este papel, depois aquele, compõe o cabelo para a foto. Vamos medir a altura, diz a senhora do Registo Civil na voz monocórdica e computorizada de quem repete as mesmas frases há mais de vinte anos. Algo muda subitamente nele. Há ali um torpor, uma emoção renovada.

Encosta-se à parede onde está a régua e apercebo-me dos espantosos ténis de sola de porta-aviões. Estica-se o máximo que pode levantando discretamente os calcanhares do chão, como quem não quer a coisa, enquanto sorri com a satisfação matreira de quem acaba de enganar o sistema em bicos-de-pés e cuecas de fora — debaixo das barbas de todos. Bem somado, deve ter ganho mais uns sete centímetros de altura. Para ele, um metro e oitenta não devia ser suficiente.

‘Senha R66’, fecha-se um jornal e levanta-se um homem baixo e compenetrado. Os mesmos procedimentos, assina, molha o dedo, fotografa, mede. A régua desce a pique até cerca de metade da altura para apurar a altura do senhor, que levava sapatos rasos e tinha os calcanhares pacificamente assentes.

O arcano Nove de Copas leva-nos a reflectir sobre a necessidade de estar grato e de valorizar o que temos. Querer sempre mais é estar desfasado do aqui e do agora, com a atenção focada um passo à frente do espaço que realmente ocupamos, num estado de carência e de gulodice insaciável; mesmo que nos oferecessem aquele pedaço de bolo que julgamos precisar, seria uma grande frustração se não houvesse uma cereja no topo — embora saibamos que um bolo não deixa de ser um bolo ainda que não tenha a cereja vermelha.

‘R67’, chegou a minha vez. Capricho na assinatura. Um metro e sessenta e nove (sem intenções maliciosas, garanto-vos por tudo o que há de mais sagrado). As sandálias rasas também não se afastam um milímetro do chão.

Hazel
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Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1630
imagem vectorial, licença CC0

Voando sobre um ninho de ratos


O ninho de ratos foi surgindo aos poucos, formado pelo emaranhado de cabelos abandonados, que não eram reordenados pela escova havia várias semanas. Cada fio, um fino ramo de árvore que se contorceu até ao limite à procura da luz em todas as direcções e, não conseguindo alcançá-la, acabou por se embaraçar com os outros fios que se fechavam sobre si como uma flor que murchou.

Não havia olhos, expressão, rosto ou corpo. O espelho mostrava-me apenas o ninho de ratos sem ratos, feito de cabelos que coroavam um vazio fantasmagórico.

A notícia tinha sido transmitida por telefone durante a madrugada com a frieza de uma bofetada dada por uma mão gelada. Tinha-me comprometido a ir para ajudar nas burocracias que fossem precisas. Falhei — não consegui. Consigo rever tudo, pelos olhos de clorofila das plantas que me observavam nos seus vasos, em silêncio vegetal, únicas testemunhas, que guardam memória de tudo o que se passa à sua volta. 

Deitada em posição fetal, o telefone caído no chão, assistia de olhos fechados às imagens que iam sendo projectadas como um filme antigo com a fita a rodar ao contrário, mostrando toda a minha vida em reverse: momentos antes, a dormir em sobressalto; essa tarde, quando ‘estertor’ deixou de ser uma palavra lida algures para se transformar numa violência pacífica partilhada sem palavras; os meses anteriores; o ano anterior; as zangas; as mágoas; as frases ditas sem medir estragos; um único abraço; a adolescência em calças de ganga e t-shirt com as mangas enroladas; a rebeldia da infância; a primeira boneca; os primeiros passos junto aos cravos que nasciam no quintal; o nascimento; a não-existência. 

Vivi tudo às arrecuas, até me encontrar encolhida no chão de polegar na boca, com uma poça de lágrimas debaixo da cara. Então era ali o fundo do poço, onde, buscando o neologismo a José Mário Branco, se desnasce. O não-lugar onde se cai desprevenido como Alice na toca da lebre branca, sem um país de maravilhas para descobrir, mas apenas o vácuo, o escuro e a dor que nos come por dentro, mastigando-nos com dentes de rocha. O fundo do poço é um lugar assombrado e solitário, onde ficamos por tempo indeterminado a flutuar em águas putrefactas.

O mundo cá fora continuou a girar, na indiferença egoísta e abençoada que restabelece a ordem após o caos. Tudo foi, com os auspícios de Cronos, o Tempo, arrumado aos poucos dentro de um baú que empurrei com a ponta dos dedos para um canto escondido algures dentro de mim. 

Nem uma palavra foi escrita sobre o assunto durante sete anos. Na proximidade de celebrar quatro décadas de estadia entre-a-terra-e-o-céu — com muitas deslocações à Lua, que frequento com grande prazer —, atrevo-me a abrir caminho por entre as teias-de-aranha que tão zelosamente escondem o baú dos fantasmas, e encontro-o entreaberto, revelando as memórias, quase surreais à distância do tempo, do dia em que a minha mãe morreu, eu morri com ela, e com as duas morreu o nome que partilhávamos.

Esta semana, o arcano 9 de Espadas leva-nos a reflectir sobre os momentos em que o tecto do mundo se estilhaça sobre a nossa cabeça e não há nada nem ninguém que nos possa valer. Somos vítimas e agressores de nós mesmos; só o tempo e a reinstalação da rotina, aos poucos, nos podem dar a força que precisamos para sair do fundo do poço pelas próprias mãos, desfazer os ninhos de ratos e resgatar olhos, rosto, uma expressão — de paz — e corpo. Tudo passa. Também isto passará.

Hazel
Consultas em Oeiras e online

Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1629
Foto: AlexSky, licença CC0

Bem-viver


«Ai filha, é aqui, aqui mesmo ao fundo das costas, ai que dor», gemia a tia Carlota, enquanto esfregava as cruzes com a mão direita cheia de anéis de prata. Era uma mulher estupenda. Grande, forte, de ancas largas e seios fartos que denunciavam um gosto particular pelo erotismo vivido secretamente nos seus tempos de viço.

«Instalaram-me uma antena ‘paroloca’ no quintal, diz que é para apanhar mais canais, mas eu tenho lá tempo para ver televisão, filha». Padecia de todas as maleitas conhecidas e mais algumas ainda-por-inventar — mas jamais de desânimo, abençoada —, que desapareciam como gelo em dia de Sol mal subia os degraus do autocarro, de mala de viagem pela mão.

Nunca se sabia por onde andava. Viajava com a sofreguidão de um fugitivo que leva a foice da morte atrás de si. Poucas vezes privei com a inquietante senhora; via-a quase sempre nos funerais e, até mesmo em tão circunspectas ocasiões, a sua presença era um vendaval quente e colorido, abundante de beijos lambuzados e repenicados que distribuía sem poupar saliva, enquanto relatava, a uma conveniente distância do finado e dos que o choravam, as novidades da última excursão a Benidorm, a Paris, a Fátima, a Ceuta, a Marrocos.

De tez bronzeada, como se tivesse condensado dentro de si o Sol do deserto do Saara, a sua alegria vibrante fazia-me acreditar que só pela sua chegada tinha começado uma festa. As suas roupas tinham padrões que nunca combinavam entre si, como pessoas de diferentes nacionalidades a falar ao mesmo tempo em diversas línguas. Nela, fazia sentido.

Esta semana, o arcano Rainha de Ouros inspira-nos a temperar a vida com especiarias, a rodopiar com o seu perfume extasiante e a deliciar-nos com todos os pequeninos prazeres que conseguirmos alcançar, nutrindo o corpo e a alma. Urge devorar a vida com volúpia. Aqui, agora. Já. Pela nossa felicidade e pela dos outros.

Imagine o que seria se cada leitor decidisse hoje fazer algo simples, prazeroso e diferente. Mesmo que esteja a ter um dia difícil. Melhor: não imagine, faça. Prove a si próprio que consegue sair da norma e permitir-se um momento de prazer, tenha a idade que tiver: recorte esta crónica, faça um avião de papel com ela, escreva com um marcador “Abrir em caso de tédio”, e atire-o pela janela!

Que esse avião de papel represente para si um pequeno prazer que dará início a muitos outros (com pontuação a dobrar se alguém abrir o avião para ler). Desafio-o.

Hazel
Consultas em Oeiras e online

Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1626
Foto: Wetmount, licença CC0