Previsão meteoro(i)lógica


Chove sem parar. O cheiro doce da água, que se sente no fundo da língua, encontra-se em todas as ruas, embora se tenha tornado imperceptível como um perfume que se usa há demasiado tempo.

Podemos deitar fora os chapéus-de-palha, os fatos-de-banho, os colares de conchas. São inúteis também os chinelos-de-enfiar-no-dedo, as sombrinhas de papel que se mergulham entre as pedras de gelo nas bebidas à beira-mar, bem como as toalhas de praia com desenhos de palmeiras. E os gritantes flamingos rosa-choque insufláveis. Porque vai chover — para sempre.

Prevê-se que o chão das casas irá atapetar-se de musgo fofo e que a humidade cresça pelas paredes, raiada em tentáculos finos de verde-esmeralda. Pingentes de avenca suspendem-se nos tectos sobre camas feitas de lençóis de água.

À mesa, serve-se o jantar em pratos de vieira e vertem-se as bebidas de dentro de náutilos que ecoam o som das ondas distantes e pensativas. Trombas-de-água percorrem as ruas da cidade como crianças que brincam sem hora marcada para fazer os deveres de casa.

Vai chover para sempre. 

Quando o Estio colorir a pincel de cerdas de luz as ervas nos campos em tons sobrepostos de amarelo-seco. Quando o estrídulo das cigarras penetrar o silêncio quente de fim-de-tarde submerso no céu azul-ciano com riscos de avião.

Quando, nas viagens de férias, virmos caminhar árvores cansadas como donas-de-casa vindas da mercearia, os ramos carregados de frutos açucarados pelas ondas radiantes do Sol que não concede tréguas. — Ainda assim, a chuva continuará a cair.

Mesmo que não a vejam. Ainda que não vos molhe a roupa no estendal, tesa e ressequida pelo calor, cairá torrencialmente sobre a terra. Encontrá-la-emos nas lágrimas de riso, no suor, na saliva, nos fluidos de amor que trespassam as camas desfeitas.

Sempre a chuva. Em todo o tempo, águas que lavam, que purificam, que inundam, que viajam incessantemente pelo interior dos corpos, enquanto houver um coração a bater, enquanto houver sangue a correr, enquanto houver amor para viver.

Vai chover para sempre, com os deuses no Olimpo reunidos num opíparo banquete, brindando néctar em taças maiores que todos os oceanos fundidos num só, e uma pequena gota derramada equivale a uma vida inteira de chuvas torrenciais, abundantes, nutritivas. Assim é.

Esta semana, o arcano Dois de Copas salpica-nos em água doce e límpida, como o brilho aquático dos olhos sinceros que desaguam no fundo dos nossos, numa confluência livre de obstáculos e hesitações — a jorros —, de dois rios cristalinos; o amor que torna dois, um. A chuva veio para ficar.

Mais vos digo; a quem segue as previsões meteoro(i)lógicas: precipitem-se nesta precipitação e deixem ficar o chapéu-de-chuva em casa.

Hazel
Consultas em Oeiras e online

Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1676
Imagem: Thommas68, licença CC0

Como dar uma bofetada num indesejável bloqueio criativo


Preparo um café simples (desta vez, sem os extraordinários obséquios aromáticos da canela e do açafrão) para servir de combustível milagro-epifânico. Deixo-o escorregar lentamente goela abaixo. E nada.

Quer isto dizer, ‘nada’ é uma forma de colocar a questão; em boa verdade, a Bic-laranja-escrita-fina gatafunhou uns metros de tinta que jazem apartados dos olhos do mundo, ao longo das linhas monocórdicas de um caderno fora-de-moda com capa do pato Donald.

Pintei o silêncio branco com as cores de Vivaldi. Depois, uns breves e delicados salpicos de Chopin. Nada ainda. Bato com a ponta do pé no chão como quem envia um discreto e contido (porém, não menos desesperado) pedido de socorro em código morse aos deuses telúricos.

Sorrio ao pensar que, no meu caso, os deuses telúricos seriam, na verdade, os vizinhos do andar em baixo, certamente a questionar-se porque caramba não descalcei hoje as botas quando cheguei. Porque há um texto para escrever, ora.
E asinha, asinha, que a vida não espera.

Bem se sabe que a pressa é o assassino a sangue-frio da criatividade, mata-a antes mesmo de ter chegado a nascer. O pé continua a bater ao de leve no soalho e o vernáculo sucede-se mentalmente, atiçando as ideias que se acabrunham com os nevoeiros do lusco-fusco. Descubro-me num terrível e infame bloqueio criativo que me atormenta o espírito e angustia o relógio.

Guardo o texto, meio alinhavado. Depois do pôr-do-Sol há menos distrações; terminá-lo-ei de pijama, quando não sobrar mais nada do dia e me encontrar mergulhada na bolha de silêncio que se instala quando todos dormem.

Rendo-me à noitada e eis que começam a surgir as primeiras ideias como estrelas tímidas, difusas no céu saturado pelos reflexos das luzes citadinas. Componho uma constelação lexical com cuidado e amor. Leio. Releio. Dezenas de vezes. Corrijo erros. Reordeno ideias. Corto aqui, coso ali, faço bainha acoli, e a modesta colcha de retalhos lá começa a ganhar algum jeito.

Mal envio o danado do texto ao Vítor Arsénio, responsável pela paginação, encontro-lhe um erro que não tinha visto em nenhuma das dezenas de vezes que o li. Corrijo-o e reenvio escrevendo no assunto do email “versão definitiva”. Suspiro de alívio.

Agora, sim. Releio, desta vez, por prazer, livre de pressão. Ai carapau, uma repetição de palavras. Volto a editar, torno a enviar o email, a “versão definitiva, final, finalíssima”. O bondoso Vítor, que me perdoa sempre, recebe as sucessivas e por vezes intermináveis versões definitivas das crónicas como uma mãe recebe os filhos, mesmo que cheguem tarde a casa. Depois de impresso, o jornal segue para as bancas e chega às mãos dos leitores.

Como é que um cronista sobrevive a um bloqueio criativo? Não sobrevive, meus senhores. Um cronista auto-flagela-se e deixa-se morrer chicoteado pelos próprios pensamentos enquanto o resto do mundo dorme o sono dos justos, sem dar por nada, incluindo o seu gato que ressona com exibicionismo ali mesmo aos seus pés. Um cronista sofre, atormenta-se, angustia-se e ainda assim não deixa de escrever.

Se alguma vez se cruzar com um cronista, chegue-lhe uma cadeira, estenda-lhe uma manta para os pés. Enfim, cuide dele com esmero. Ele merece, garanto. E nunca, mas nunca, lhe pergunte sobre o que será a sua próxima crónica.

O arcano Valete de Ouros ensina-nos que plantando, tudo dá. Havendo honestidade e dedicação, chegamos lá. Como um texto que um qualquer cronista se dispõe a escrever — e escreve —, mesmo sem saber por onde começar. Cof, cof.

Hazel
Consultas em Oeiras e online

Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1675
Foto: WikiImages, licença CC0

Casimiro


Breve história em três tempos, para leitores ávidos e impacientes.

[Tempo um]
Casimiro era um homem de certa idade.
Tinha uma marreca notável.
Usava sempre um casaco grande.
Nunca casou, embora sonhasse com tal felicidade.
Não se lhe conheceu família.

[Tempo dois]
Um dia, Casimiro morreu.
Oh Casimiro.

[Tempo três]
Então, descobriu-se
que Casimiro não tinha marreca.
O que escondia dentro do casaco grande
eram asas de anjo.

Hazel

Estupendo Idiota


Olá, idiota. Como tens passado? Espero que o mundo te esteja a tratar bem.
Pensei em ti ontem: estava a abrir uma lata de milho para a salada e lembrei-me daquela vez em que roubámos duas maçarocas de milho numa horta.

Eu era tão pequena que ninguém me via no meio das espigas. Chegámos a casa esbaforidos. Passámos as maçarocas no lume, barrámos manteiga e comêmo-las à dentada. Não sei se por terem sido roubadas, nunca comi nada tão delicioso. Se calhar já não te recordas. Nessa época, ainda não eras um idiota total, mas só meio-idiota, disso lembro-me bem.

Depois fomos crescendo, tu sempre o meu herói. Eram os anos 80 e eu escutava as tuas cassettes do Russ Ballard, do Rod Stewart (fiquei com essa, não vale a pena procurares por ela, desculpa!), os “Hit Parade” — que rebobinava com uma caneta.

Bebíamos Capri-Sonne, eu tinha cadernos do Pierrot e tu usavas calças estrelicadas. Víamos o Espaço 1999, os Jovens Heróis de Shaolin, o Alf e, mais tarde, o Michael Knight. Tudo era incrivelmente fascinante, mas nada era tão incrível como tu, sempre confiante e conhecedor do mundo, ao contrário de mim, que era atada e passava demasiado tempo agarrada aos livros. Era natural que troçasses, pois.

Mas não importava; deixava-te rir da minha falta de destreza com as coisas elementares, da minha cara, da minha voz, do meu corpo esguio e desajeitado, do cheiro pestilento dos meus ténis. Desde que isso te fizesse gostar de mim.

A idade adulta chegou e comecei a cansar-me de representar um papel que me deixava vazia e despedaçada como um pássaro que amputava as próprias asas. Afinal, por uma migalha de simpatia tua, eu é que acabava a não gostar de mim mesma.

Parei, então. Tratei de reconstruir a minha dignidade. Nunca mais curvei as costas para me tornar pequena. Atrevi-me a ser eu mesma; quem gostasse de mim, havia de gostar a sério e quem não gostasse, pois paciência. Afinal, um repolho não se vai transformar num bife para agradar a alguém que não gosta de verdura, não é verdade? E eu, meu caro, assumi o repolho que sou. Desculpa não ser um bife.

Quando me permiti ser eu, deixei de vez de existir para ti. Nunca me telefonaste no meu aniversário (durante quase todos estes anos, tenho detestado fazer anos). Despachavas-me quando te ligava. Nunca disseste que gostavas de mim. Nunca quiseste saber se estou viva, se estou segura, se estou feliz. Nunca quiseste sequer olhar para mim.

Sei, no fundo, que preferias que eu não existisse. Tornei-me a pedra que sempre esteve no teu sapato. E eu, que até era capaz de descalçar os meus e andar descalça por ti, seu palerma.

Foste um idiota, mas um idiota estupendo, que tanto me ensinou sobre o amor-próprio, o amor incondicional e a rejeição. Muitas graças por tudo isso. Prefiro tê-lo aprendido contigo do que com qualquer outra pessoa de quem gostasse menos.

Vimo-nos pela última vez no funeral da mãe. Soube pelo gelo nos teus olhos que não nos voltaríamos a ver. Aceitei a derrota. Desisti. Estilhaçada de dor, arranquei o meu próprio coração, comi-o, vomitei-o, voltei a comê-lo, a vomitá-lo e a comê-lo e a vomitá-lo e a comê-lo, até já não ter mais nada. E segui com a minha vida.
E!, sou feliz! Ora toma.

Contudo, não te minto: sou feliz — mas faltas-me tu. Não esqueço o teu aniversário, embora já não te telefone. Tentei odiar-te, porque era mais fácil assim, mas não consegui. A verdade é que nunca deixei nem deixarei de te amar. E vou esperar por ti até ao último dos meus dias, porque sou uma idiota, seu idiota.

Esta semana, o arcano Oito de Copas leva-nos a reflectir sobre os momentos de viragem, em que, pelo bem da vida que impera ser vivida e da paz interior que impera ser sentida, devemos desistir daquilo que nos fere e seguir por um caminho diferente. Porque todos temos o direito inato de ser felizes.

Hazel
Consultas em Oeiras e online

Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1674
Foto: StillWorksImagery, licença CC0

Rosa dos Ventos



Desço o ribeiro a baloiçar até ao mar
na canoa do teu abraço.

Beijos ébrios de maresia.
A madressilva dos teus olhos.

Abres estrelas do mar
das tuas mãos frias
no corpo de nevoeiro
perdido na bruma.

Enrolados em tentáculos de vontade
Navega-me em ondas de lençóis brancos
que vão e que vêm,
na maré que enche.

Velas da camisa desfraldadas
lambem o mastro, que se eleva húmido
Afundado no gemido das tábuas
Trémulas, rendidas à tormenta.

Desaguam os cobertores
escorridos aos pés da cama,
Entre as conchas e búzios
da roupa naufragada no chão.

Secreto, o tesouro de colares
Pérolas de leite doce e rubi vermelho
encharcado no marulhar do sémen em ondas.
Suspiras a bonança e o cansaço.

Sou o vento
Tu a rosa
que me sabe as direcções
que me encontra sentido.

Hazel

foto: Pexels, licença CC0