41 anos!


O ponto de exclamação no título é como uma palmadinha de consolação no meu próprio ombro. Quarenta ainda vá, mas quarenta — e! — um. Valham-me os Deuses.

Este foi um ano de morte, de renascimento e de um grande salto de fé.
Apaixonei-me, casei, mudei de nome, continuei a escrever, a trabalhar naquilo que gosto e com quem gosto, a dançar, a fazer fotografias e a ver o meu filho ficar mais alto que eu.

Reencontrei amigos, fiz novos amigos e tenho que concluir que foi um ano algo rocambolesco, mas feliz.

E agora vou trabalhar! Hoje é dia de aula, desculpem escrever este post assim à pressa.
Estou no Espaço S, em Oeiras, a fazer aquilo que mais gosto: ensinar.

Obrigada aos que ainda me acompanham.

Até breve!

Hazel

Foto: pelo grande Mário Pires - Retorta!

Bilhete de ida


Está decidido. Já anotei nos alfarrábios estrelares quanto tempo vou querer viver. Que alívio isso me trouxe, por Láquesis!

De-agora-em-diante (quase escrevia ‘doravante’, mas encontrei a palavra cheia de pó por falta de uso, assim engavetei-a embaraçadamente neste parêntesis), não darei um passo sem que a terra se sinta beijada com sacralidade pelos meus pés.

As janelas de cada olhar serão diariamente abertas com cortinas diáfanas de contemplação. Cada gesto será desenhado com graça e musicalidade. Cada abraço uma torrente de amor no envelope de dois peitos que se colam.

Nada poderá ser em vão. Não pode haver desperdício. Sem talento algum particular que me seja fecundo, seja eu arte. Que seja pelo amor, pela sabedoria, pelo prazer.
No mínimo, pela beleza.

É certo que o incerto pode intrometer-se pelo meio e abrir um atalho mais cedo que o esperado. Não há quem seja imune às tropelias do acaso. Porém, tal não me detém nem distrai — pelo contrário — apenas me impele na viagem.

Afinal, ninguém está a salvo de lhe cair um piano em cima ao sair de casa. Ou de um elefante obstinado e fatídico se sentar sobre si recusando-se terminantemente a levantar. Se acontecer, logo-se-vê.

Para todos os efeitos, está tudo planeado. Tenho o bilhete comprado, as malas feitas e embarco no comboio. Não há tempo a perder.

Procuro no bolso do casaco um lenço branco com alguns macaquitos do nariz que ninguém repara visto de longe para vos acenar em despedida. Os que me querem bem, não lamentem a minha partida.

Aqueles com quem de alguma forma falhei, aceitem as minhas sinceras desculpas. Se não quiserem aceitar, desculpem não poder ficar a desculpar-me para sempre, mas tenho um comboio para apanhar. Os que pensam mal de mim, regozijem-se por me verem pelas costas e não reclamem mais. Está tudo bem, está tudo certo. Estão todos perdoados. Agora, vou.

Esta semana, o arcano Valete de Paus desafia-nos a ousar o extraordinário e a fazer planos impossíveis de garantir. Não é, afinal, toda a existência um plano impossível?

A natureza de tudo é a impermanência, a inexistência de garantia, o risco contínuo — e a paixão por acreditar na eternidade, ainda assim. Já nascemos com um bilhete para não-sei-onde e depois logo-se-vê. Eu apenas estou a usar o meu.

Muitas graças por tudo. O tchuque-tchuque do comboio anuncia a partida.
Vou-me embora, embora continue cá.

Contudo, acreditem, creiam-me: ainda que me vejam, que me escutem (id est, leiam) e que me toquem — já não estou mais aqui. Fui.

Até à vista!

Hazel
Consultas em Oeiras e online
Contacto: casaclaridade@gmail.com

Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1679
Foto: xunseru, licença CC0

A revolução dos cravos


“Se quiser, tome, um cravo oferece-se a qualquer pessoa”, respondeu Celeste Caeiro, 40 anos, ao soldado que lhe pediu um cigarro. Não tinha mais nada para oferecer senão os braços cheios de cravos vermelhos e brancos.

O restaurante onde trabalhava, em Lisboa, celebrava nesse preciso dia um ano de abertura, e tinham comprado uma quantidade considerável de cravos para oferecer às senhoras que lá entrassem.

As notícias sobre a ocorrência do golpe de estado levaram a que o gerente tomasse a decisão de não abrir o estabelecimento. Celeste foi, como os restantes colegas, mandada para casa devido aos acontecimentos iminentes. Os cravos foram distribuídos pelos funcionários, para que os levassem consigo.

Curiosa e inquieta, quis ir ver a revolução que estava para acontecer com os seus próprios olhos. Após sair do metro, encontrou os tanques que se dirigiam para o Quartel do Carmo. Indagou os militares sobre o que estava a passar.

“Nós vamos para o Carmo para deter o Marcello Caetano. Isto é uma revolução!"
O soldado recebeu o cravo que Celeste lhe estendeu e enfiou-o no cano da espingarda. Celeste dos Cravos, como ficou depois conhecida, distribuiu as restantes flores que transportava pelos outros militares, que replicaram o gesto do camarada.

A revolução dos cravos trouxe a promessa da liberdade, que ainda falta cumprir.
O 25 de Abril ainda não acabou. Continua no dia 26, no 27, no 28 e por aí em diante — enquanto houver alguém com medo de sofrer retaliações por dizer aquilo que pensa. Enquanto houver alguém a abafar ou a deturpar a verdade. Enquanto houver desrespeito pelo livre arbítrio do outro.

A liberdade será conquistada quando todos aprendermos e integrarmos genuinamente os valores éticos; a honestidade absoluta, a confiança e a bondade desinteressada. Só então se poderá verdadeiramente chegar à Liberdade. Temos de merecê-la primeiro.

Até lá, continuamos todos os anos a comprar cravos vermelhos para celebrar a liberdade sem ter noção que o fazemos a partir de dentro da clausura em que nos encontramos, prisioneiros da ditadura da desonestidade, da corrupção, do desrespeito, da manipulação, da mentira e da falta de transparência, até mesmo por parte de quem trabalha em prol dela.

Nas pequenas e nas grandes esferas, a Liberdade ainda se encontra longínqua. Tanto quanto a verdade.

Avante, que a revolução ainda mal começou. Esta semana, o arcano Nove de Paus incita-nos a manter-nos lúcidos e alerta, a pensar por nós mesmos, a questionar tudo — e a não abandonar o barco. Se não formos nós, quem por nós?

Hazel
Consultas em Oeiras e online

Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1678
foto: Leonardo Negrão - Global Imagens

Ai Jeremias


Não há remédio que te cure essa urticária, Jeremias. Enfiou-se-te no intervalo dos dedos das mãos e dos pés (não vamos contar aos senhores sobre as zonas pudibundas onde ela também comicha, fica descansado, Jeremias), mas, em compensação, esses tiques de dedilhado de cordas de guitarra imaginária a vinte dedos para apaziguar o prurido salvam-te de futuras possíveis artroses, homem. Disso estás safo, hã.

Todo tu comichas em formigas-de-asas peludas e invisíveis que te alfinetam a cútis e o ânimo. Não te mexes, empastelado como um pastel-de-bacalhau frito há uma semana na tasca no Javardo. Esperas que alguém te apresente garantias para arriscar — e fazer algo da tua vida.

Ninguém o vai fazer, inocente pastel. As pessoas não querem saber. Estás por tua conta desde que nasceste. Mesmo que algum bom samaritano quisesse garantir o que quer que fosse, ninguém o poderia, em boa verdade, fazer.

Oh bom Jeremias, a única garantia que temos na vida é a morte (e os impostos, esses também são certos). E, Jeremias, não é já a morte, por si, garantia suficiente para te agarrares à vida com as mesmas ganas com que te agarras à testiculária quando a urticária assanha?

Não, dizes tu, os dedos dos pés
 a mexer freneticamente como se tocassem piano.

A morte passou de fantasia de capa preta em noite-de-bruxas a realidade bruta quando a viste no rosto lívido daqueles a quem já disseste adeus, mas nem assim aprendeste. Quando a memória metálica e fria da foice sinistra se dissipou do coração, voltaste ao de sempre: que a ossuda só leva os outros e se vai esquecer de ti. Lá no fundo, ninguém acredita nela, com excepção dos que receberam más notícias do médico, dos poetas e dos desesperados.

Aconchegado no sofá que já tem o molde do teu corpo pesado e indolente, ficas a olhar para a porta da rua à espera de ouvir bater:

«Abre, por favor!, Sou a Vida e aqui trago as garantias que precisas, ilustre Jeremias, para que possas apostar em mim com segurança. A meu lado, vêm a Fada-dos-Dentes, o Pai Natal e o Coelho-da-Páscoa, como minhas testemunhas. Trago também uma bacia de água-de-malvas. 
Para o prurido.»

Só que não. Enquanto estiveres vivo, estás a jogo e podes sempre reformular as tuas escolhas. Que esperas? A vida não te vai bater à porta, porque ela já vive na tua casa. Além de que as portas são propriedade da morte. E as janelas, da vida.

Esta semana, o arcano Sete de Copas aparece como uma urticária inesperada em zonas indecentemente impróprias, atiçando-nos a agir, a tomar decisões e a fazer escolhas.

A ver se, quando chegar a hora de atravessar a porta de saída, os anjos (que andam, segundo fontes que preferiram manter anonimato, a tomar Rivotril) não se deprimem mais por ver a costumeira expressão (desa)finada — de lamento, por morrer sem ter vivido; de quem permaneceu na espera eterna da divina garantia de que viver não seria arriscado demais. Acorda e abre as cortinas, Jeremias. Ai Jeremias, Jeremias.

Hazel
Consultas em Oeiras e online

Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1677
Foto: StockSnap, licença CC0

Previsão meteoro(i)lógica


Chove sem parar. O cheiro doce da água, que se sente no fundo da língua, encontra-se em todas as ruas, embora se tenha tornado imperceptível como um perfume que se usa há demasiado tempo.

Podemos deitar fora os chapéus-de-palha, os fatos-de-banho, os colares de conchas. São inúteis também os chinelos-de-enfiar-no-dedo, as sombrinhas de papel que se mergulham entre as pedras de gelo nas bebidas à beira-mar, bem como as toalhas de praia com desenhos de palmeiras. E os gritantes flamingos rosa-choque insufláveis. Porque vai chover — para sempre.

Prevê-se que o chão das casas irá atapetar-se de musgo fofo e que a humidade cresça pelas paredes, raiada em tentáculos finos de verde-esmeralda. Pingentes de avenca suspendem-se nos tectos sobre camas feitas de lençóis de água.

À mesa, serve-se o jantar em pratos de vieira e vertem-se as bebidas de dentro de náutilos que ecoam o som das ondas distantes e pensativas. Trombas-de-água percorrem as ruas da cidade como crianças que brincam sem hora marcada para fazer os deveres de casa.

Vai chover para sempre. 

Quando o Estio colorir a pincel de cerdas de luz as ervas nos campos em tons sobrepostos de amarelo-seco. Quando o estrídulo das cigarras penetrar o silêncio quente de fim-de-tarde submerso no céu azul-ciano com riscos de avião.

Quando, nas viagens de férias, virmos caminhar árvores cansadas como donas-de-casa vindas da mercearia, os ramos carregados de frutos açucarados pelas ondas radiantes do Sol que não concede tréguas. — Ainda assim, a chuva continuará a cair.

Mesmo que não a vejam. Ainda que não vos molhe a roupa no estendal, tesa e ressequida pelo calor, cairá torrencialmente sobre a terra. Encontrá-la-emos nas lágrimas de riso, no suor, na saliva, nos fluidos de amor que trespassam as camas desfeitas.

Sempre a chuva. Em todo o tempo, águas que lavam, que purificam, que inundam, que viajam incessantemente pelo interior dos corpos, enquanto houver um coração a bater, enquanto houver sangue a correr, enquanto houver amor para viver.

Vai chover para sempre, com os deuses no Olimpo reunidos num opíparo banquete, brindando néctar em taças maiores que todos os oceanos fundidos num só, e uma pequena gota derramada equivale a uma vida inteira de chuvas torrenciais, abundantes, nutritivas. Assim é.

Esta semana, o arcano Dois de Copas salpica-nos em água doce e límpida, como o brilho aquático dos olhos sinceros que desaguam no fundo dos nossos, numa confluência livre de obstáculos e hesitações — a jorros —, de dois rios cristalinos; o amor que torna dois, um. A chuva veio para ficar.

Mais vos digo; a quem segue as previsões meteoro(i)lógicas: precipitem-se nesta precipitação e deixem ficar o chapéu-de-chuva em casa.

Hazel
Consultas em Oeiras e online

Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1676
Imagem: Thommas68, licença CC0