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A mostrar mensagens com a etiqueta Crónicas

Os Macacos com as minhas Cuecas e o Médico que prova Urina

S ão agora 6:39. O dia está a nascer e os Himalayas acordaram varridos pelo vendaval que levou metade das meias e cuecas que tinha lavado ontem e colocado na varanda a secar. Por esta hora já os macacos andam com as minhas cuecas vestidas. Nesta terra esquecida pelo resto do mundo, o…

Yoga a Horas Indecentes + Templos que nos Devoram!

A ÍNDIA ESTÁ-SE-ME A ENTRANHAR de tal forma que uma dorminhoca olímpica como eu acordou hoje às seis da manhã voluntariamente e sem ser por causa de alguma catástrofe natural, para uma longa e íngreme caminhada em jejum até ao centro de yoga.  Nem me reconheço. Pela tromba de Ganesha, es…

A Aldeia das Crianças Tibetanas

N OS ANOS SESSENTA , a irmã do Dalai Lama mandou construir esta escola para as crianças que fogem para a Índia, pelas montanhas, separadas das suas famílias que morreram ou ficaram cativas devido à invasão do Tibete pela China.  Nesta localidade, o governo é  independente e foi cedido pel…

McLeod Ganj, Monges Tibetanos e os Picos dos Himalayas

O S DIAS NA ÍNDIA PARECEM ter a duração de setenta e duas horas. Por volta das seis da manhã, apanhámos um vôo interno para Dharamsala, uma cidade rodeada de floresta à beira dos picos dos Himalayas, também conhecida como “Little Lhasa”,  onde reside o Dalai Lama . Esperava-nos um avião m…

O Taj Mahal, Vrindavan e os Indianos a Roubar Fotos com as Mulheres dos Outros

ACORDÁMOS DE MADRUGADA para nos anteciparmos ao trânsito frenético e imprevisível de Delhi. Balvinder Singh, o nosso driver de turbante sikh, levou-nos até Vrindavan, uma cidade religiosa.   POR SER UMA CIDADE SAGRADA, os autocarros não podem entrar e isso significa que, de um momento…

"No problem"

P ARAGEM SEGUINTE: Nova Delhi, Índia. Todos sãos e salvos. Depois de feito o check-in no Hotel, recebemos as boas-vindas do nosso amigo, o monge budista tibetano Tensy, que trouxe oferendas e bençãos para todos. Acompanhou-nos no autocarro para uma tour no trânsito caótico e i…

“Sou a vossa guia e estou perdida. Sigam-me. É por aqui.”

D ENTRO DE POUCOS MINUTOS  vou levantar vôo. Vou, é como quem diz, vai o avião. Do meu lado direito está uma chinesa com máscara anti-Corona-vírus-e-outras-calamidades-microbiológicas. Do lado esquerdo, o lugar está vazio. Por razões inesperadas, imprevisíveis e inexplicáveis, mal po…

O Exercício da Indiferença

T ento esconder o ramo que se assoma de dentro da manga do casaco, empurrando-o de forma desajeitada antes que alguém veja. Espero que ninguém tenha reparado.  Um restolhar igual ao que se escuta quando caminhamos pelos bosques no Outono persegue-me enquanto fujo do café, trapalho…

Siga aquele Táxi

"V ai ficar com medo de sofrer para o resto da vida? Então, mas não é o medo de sofrer também uma forma de sofrimento?" Nisto, o condutor do táxi Mercedes interrompeu-se e guinou para a direita desviando-se do carro cinzento-tédio que apareceu inesperadamente pela esquerda…

Obsessão

R OUBEI UMA COLHER de sopa. Está escondida debaixo do meu colchão. Quando vêm mudar os lençóis, coloco-a atrás da sanita. Esta colher que tenho há duas semanas é o meu passaporte para a liberdade. Na parede junto à cama há um ponto de fragilidade onde todos os dias escavo com a colhe…

MetAMORfose

D o caos, a limpidez. Da limpidez, a luz. Da luz, a verdade. Da verdade, o amor. Do vento nas asas, o vôo planado. Do vôo planado, a liberdade. Da liberdade, a vida. Da vida, a morte. Da morte, a eternidade. Da eternidade, o divino. Do divino, o amor. Do a…

"Nada importa."

S erão dois. Um, com a compilação das crónicas e de outros textos inéditos que nunca saíram do meu caderno. O tal que vos devo há muitos anos. Mas é sobre o outro que penso hoje. Aquele com que espero horrorizar-vos. Quinhentas páginas em branco. Na última folha, uma singela frase: …

Manual de Sobrevivência ao Dia dos Namorados | para Solteiros

Jovem!  Se te estás a sentir um desgraçadinho, um miserável encalhado, um cachorrinho abandonado, isto é para ti. V EM AÍ O DIA DOS NAMORADOS e o mundo está dividido num Tratado de Tordesilhas Valentiniano que separa casais românticos-docinhos-e-indutores-de-diabetes, apaixonados, amanti…

A noite mais escaldante dos últimos tempos | Playboy Late Night!

R odei a chave na fechadura, pousei a mochila do ginásio e descalço os ténis sem desatar os atacadores, como faço sempre. O silêncio da casa é interrompido por um ruído subtil vindo do meu quarto. Como conseguiste entrar? , penso com um sorriso. Nem deste tempo para me desp…

Poema: Fantasma

Foi lançada hoje a Antologia de Poesia Portuguesa Contemporânea “Entre o Sono e o Sonho” - Volume X, da Chiado Books, onde consta este meu poema: Fantasma Liquefaz-se o vestido em ondas Água doce, limos verdes Escorrem em regato Pelos degraus do Cais. Elevo-me nua Magra c…

Poção de Esquecimento

A pós retiro prolongado , a (im)paciente da cama cinco agradece as visitas, as mensagens, as flores, os bolos doces sem açúcar, o envio de borboletas, os presentes, os convites e todo o afecto — que, sem dúvida, foi a mais regeneradora das panaceias. Doutor Passarinho deixou-a ter al…

Hospital de Corações

A CABEI DE INVENTAR  ESTE NOME. Quem está doente do corpo vai para o hospital “comum”, quem está doente da cabeça vai para o hospital psiquiátrico e quem está doente do coração vai para o Hospital de Corações. É um edifício semelhante aos outros por fora, mas com pessoas mais simpátic…

Para uns Anjo, para outros pior que Belzebú

F ugiram-me duas velas de casa. Tinha-as em cima da mesa de jantar, cada qual no seu castiçal, e desapareceram sem deixar pingo de cera nem de remorso. Corri atrás delas rua fora, mas no primeiro cruzamento virou uma para cada lado. As danadas. Voltei para casa de mãos a abanar. Colo…

A louca da camisa de dormir

A louca da camisa-de-dormir todos os dias faz o mesmo percurso que se cruza com o meu, ora de manhã, ora pela tardinha. Contemplo a visão onírica da senhora de meia-idade que atravessa a estrada sem pressa, a chinelar nas suas chanatas de quarto com borlas emplumadas em seda rosa-péta…

Quatro Casamentos e Três Funerais

A respeito do cartaz “Não matem os velhinhos”, lembrei-me de uma gaiata que conheci, bem mai’nova e desempoeirada que a sirigaita da frase. Sorridente e surpreendente no seu batom vermelho-malagueta e óculos-escuros- femme-fatale , assentia com a cabeça enquanto escutava a sua história…