Nu em frente ao Espelho

quarta-feira, abril 13, 2016

A cor dos olhos pode diferir de indivíduo para indivíduo, mas as pupilas são sempre pretas, em todos os seres humanos.

Se nos aproximarmos o suficiente, conseguimos ver o nosso reflexo nas pupilas de alguém, exactamente como se estas fossem um pedaço de espelho de obsidiana.

A obsidiana é um mineralóide resultante da lava vitrificada dos vulcões. São-lhe atribuídas propriedades mágicas em todo o mundo, desde tempos imemoriais, por se dizer que revela aquilo que está escondido.

Da mesma forma que a lava brota das profundezas da terra, acreditava-se que também os segredos e as respostas guardadas nos locais mais obscuros e recônditos da alma poderiam emergir na superfície brilhante de um espelho negro de obsidiana. Os sacerdotes Aztecas, por exemplo, utilizavam-na para prever o futuro, curar feridas, mitigar a dor e espantar demónios.

Se olharmos para um espelho mágico de obsidiana, a única imagem que conseguimos ver reflectida… somos nós. Esta é uma das mais belas metáforas da história da magia. Todas as respostas estão em nós, e não neste enigmático objecto que apenas devolve a nossa imagem, como outro espelho qualquer.

Não é a obsidiana, em si, que tem o poder de curar as feridas ou de responder às nossas inquietações, mas o acto da auto-observação num espelho negro, tão negro quanto a contraparte luminosa que todos possuímos. Como uma pupila gigante que nos vê por dentro, à lupa.

Assim, desmistificando as propriedades mágicas do espelho negro acima referidas...

Como se podem curar feridas? Tendo a coragem de olhá-las com os nossos próprios olhos, com amor e compaixão; parando de tentar varrê-las para baixo do tapete, fingindo que não existem.

Como se pode prever o futuro? Avaliando o presente, todas as nossas escolhas até ao momento actual, e dando espaço para uma larga margem de erro - porque, às vezes, o Universo tem outros planos para nós.

Como se pode mitigar a dor? Olhando-a de frente. Assumindo-a sem cobardia, devorando-a, digerindo-a e tornando-a parte de nós como uma cicatriz que conta uma parte da nossa história.

Como se espantam demónios? Então, mas os demónios existem? Se existem...
Moram todos dentro de nós. Chamam-se medo, ganância, arrogância, auto-sabotagem, inveja, ciúme, ira, e mais uma série interminável de nomes que não são estranhos a ninguém. A única forma de espantá-los é assumindo a sua existência e domesticando-os, compreendendo que são um leão feroz que nem sempre fica sossegado como um gatinho numa cesta com uma manta macia.

Esta semana, a carta A Força surge-nos reveladora como um espelho negro de obsidiana. Observemo-nos pelos olhos dos outros, nas suas pupilas negras, e vejamos o melhor e o pior de nós. As fraquezas, as vaidades, os orgulhos, os medos, as fúrias.

Podemos prever e até mesmo mudar o futuro, como um autêntico sacerdote Azteca, se tivermos a ousadia de observar com sinceridade e lucidez o nosso comportamento actual e devolvermos flores quando a vida nos oferece pedras. É neste detalhe que mora a magia; “Gentileza gera gentileza”, já dizia o profeta brasileiro José Datrino, aquele que se dizia "amansador dos burros homens da cidade que não tinham esclarecimento”.

Porque aquilo que damos, recebemos.

Hazel
Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, 14 Abril

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1 COMENTÁRIOS

  1. Minina, como é bom esse modelo de postar ! Gostaria de deixar um comentário bem grande!
    Gostei muito do post, beijos!

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