Cala-te, cão

quarta-feira, janeiro 11, 2017


Fui o quarto ou quinto Mike. Os pêlos do Mike anterior a mim sugerem-me que era mais escuro e cerdoso que eu, e que apreciava dormir enroscado no canto do sofá da sala, onde bate o Sol à tardinha. Os meus donos foram parcos de imaginação na escolha de nomes, mas têm muito amor para dar, ah se têm.

Ora lá vai um prato, zás, contra a parede. E mais outro. De vez em quando vão renovando a loiça. Até a minha taça da ração anda num virote. As mãos ásperas e calejadas acercam-se do pescoço anafado da Palmira. Os olhos esbugalhados ameaçam saltar das órbitas.

A sogra-cobra, que ouviu a gritaria, galga as escadas cheia de genica, de garfo em riste, preparada para cravá-lo onde conseguir, desde que acerte na nora. O Mesquita urra de dor pela dentada que acabei de lhe ferrar nas nalgas, e a Palmira lá se safou. São boa gente, tratam-me bem. Lutam muito, mas amam-se que nem lobos.

Até o Amâncio gostava de mim, esse bom malandro que nunca mais nos visitou. Trazia sempre salsichas para partilhar connosco. Só uma vez me tratou mal, quando me deu com o sapato porque lhe fui cheirar o rabo enquanto ele estava a acasalar com a minha dona (o Mesquita estava emigrado na Suíça).

Quando o Mesquita regressou, a mãe — que, de lá do andar de baixo, escutava com ouvidos de tísica os mais despudorados suspiros que viajavam pelos tubos da canalização (refiro-me à canalização da casa-de-banho contígua ao quarto, bem-entendido) — denunciou os encontros furtivos. Nunca mais houve um conjunto de loiça completo nesta casa. Valia mais comprarem pratos de inox como a minha taça.

Com a idade, foi-se conformando com a mágoa, embora ainda passe pelas portas com a cabeça de lado, numa silenciosa alusão à envergadura que sustenta sobre a cabeça, mas já ninguém liga. 

A mãe, que foi ficando caduca e falava sozinha, finou-se engasgada com uma ervilha. Chamaram os bombeiros. Para constrangedora surpresa de todos — até eu meti o rabo entre as pernas — apareceu o Amâncio, que era socorrista; fez tudo o que pôde, mas não chegou a tempo.

Depois do funeral a Palmira comprou um serviço de jantar novo. Em loiça. Esta gente não aprende, pensei enquanto coçava a pulga que me comichava a orelha direita.

Hoje vão levar-me ao veterinário para levar uma injecção. O meu coração velho já não aguenta esforços. O sexto Mike não tarda a chegar. Vou feliz. Nunca conheci família com tanto amor para dar e com tão pouco jeito para isso. Boas pessoas com feridas. Quem não as tem. Até eu, que sou cão. Mas lambo as minhas — não mordo os outros.

O arcano Cinco de Paus inspira-nos a distanciar-nos dos focos de tensão para que possamos concentrar-nos no que realmente importa. Os conflitos, vistos de uma perspectiva mais elevada, podem ter a dimensão de uma ervilha: pequeninos e, contudo, intragáveis, se não soubermos respirar fundo no momento certo.

Hazel
Consultas em Oeiras, Carcavelos e online

Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1614
Foto do canito: hotphotosfree.com

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