Sapatinhos de veludo pretos

quarta-feira, janeiro 18, 2017


Pela calada da noite, enquanto a coruja piava do alto da torre da igreja solitária, guardiã derradeira de uma fé perdida nas brumas enganadoras do tempo e das vontades, os sapatinhos de veludo preto calcorreavam a calçada de pedra com a agilidade silenciosa de um felino.

As pernas rapadas a gilette apareciam por baixo do casaco cintado, deixando adivinhar prazeres e paixões, e os cabelos compridos, descolorados com água oxigenada, dançavam ao ritmo cadenciado da caminhada, como se uma música inaudível a acompanhasse. Todas as noites apanhava o autocarro e depois o comboio para o Cais do Sodré, e dali prosseguia para uma segunda vida, secreta e proibida, onde ninguém a conhecia.

Quando for grande, quero ter uma profissão normal de dia, e à noite quero ser prostituta. 
Ninguém respondeu. Continuámos a brincar com as bonecas. Nenhuma sabia exactamente o que fazia uma prostituta, mas percebemos que seria algo emocionante, mau e delicioso, quiçá ao nível de riscar a caneta o livro de ponto da professora, às escondidas. Nenhuma tinha mais de dez ou onze anos. 

A profecia concretizou-se. Durante uma meia-dúzia de anos, a miúda confiante-e-delambida dos cabelos oxigenados devotou-se à profissão mais antiga do mundo, onde conheceu as várias faces da volúpia, da excitação, da submissão, da mentira, das drogas, da sujidade e do roubo. Perdeu os dentes e o sorriso, mas manteve a atitude altiva, cheia de si para preencher o espaço vazio que a assolava.

A coruja vigilante observava de lá do alto o caminho de calçada agora deserto e os sapatinhos de veludo que um dia acabaram abandonados no contentor do lixo. 

O dia nascia e a fila de carros para entrar na A5 começava a formar-se, cheia de expressões amargas e carrancudas, cigarros pendurados displicentemente na ponta dos dedos, telemóveis freneticamente dedilhados em mensagens inúteis, as notícias do trânsito e, finalmente, a música. No seu Opel Corsa bordeaux, o porta-chaves com um ursinho de peluche pendurado na ignição balançava como um pêndulo enquanto aumentava o volume do som. Tocava “Girls just wanna have fun” da Cyndi Lauper, a sua música preferida. No banco de trás, a sua filha segurava na boneca enquanto marcava o ritmo com a perna direita na cadeira de viagem.

Esta semana, o arcano Sete de Espadas leva-nos a reflectir sobre os contornos mais sombrios da existência. A nossa, não a dos outros. Desengane-se quem se acha acima de qualquer mácula. Ninguém está a salvo da imperfeição, da desonestidade, dos sentimentos de inveja, de cobiça, de despeito - embora vejamos sempre as falhas dos outros, e nunca as nossas.

Hazel
Consultas em Oeiras e online
Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1615

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