"Aos homens nada parece mal"

quinta-feira, fevereiro 16, 2017


Uma mulher às vezes tem que se calar, mesmo quando tem razão - aconselhava a minha mãe no tom pragmático de quem cresceu no tempo da ditadura antes da Revolução dos Cravos e aprendeu a evitar chatices. Poucos conselhos segui, como compete a uma ovelha ronhosa.
Fui uma gaiata travessa, que respondia mal, que questionava, quase sempre de trombas - e levava nelas algumas vezes também. Nasci e cresci danada com o mundo.

Contrariada, tenho de admitir que ela estava correcta quando afirmava que aos homens nada parece mal: podem ter pêlos nas pernas, a floresta amazónica a enfeitar as virilhas, o peito e as costas, um matagal debaixo de cada braço e até podem ter uma única e longa sobrancelha como o Becas da Rua Sésamo. Podem ter barriga e afagar com orgulho a sua eterna gravidez alimentar. Se estiverem aflitos, há sempre um canto numa rua onde não parece muito mal que um homem alivie a urgência da micção. Em casa, podem fazer chichi de pé e salpicar a tampa da sanita, que alguma mulher há-de limpar a seguir.

Ó estreeela, queres co’meta? - podem meter-se com as mulheres que passam, mudar de companheira quantas vezes quiserem, e usar cuecas feias, com os elásticos relaxados, que deixam caídas no chão junto com as meias e o resto. Se andarem desmazelados, a culpa é das mulheres (que “são” umas desmazeladas).

Podem não saber cozinhar, nem gostar, nem querer aprender, porque não é preciso. Contar anedotas ordinárias, dizer palavrões, gabar-se à boca-cheia das mulheres com quem estiveram e até daquelas com quem não estiveram - mas gostavam de ter estado. Sentar-se de pernas abertas, assim como coçar e escarafunchar a genitália em público (vá lá uma mulher atrever-se a fazer o mesmo). Mostrar as mamas na rua, na internet, na praia, na piscina, ou no quintal enquanto conversam com o vizinho do lado. Ninguém liga.

Podem ter caspa, calvície e até carrapatos atrás das orelhas. Não há escândalo, porque são homens. Safam-se sempre; eles sabem-na toda. Contudo, em caso de catástrofe natural, são as mulheres as primeiras a ser salvas.

Bem sei que este retrato é um exagero, uma hipérbole, um descabimento - mas só por conta dos carrapatos. O resto é-como-é por responsabilidade das mulheres, porque todo o homem é filho de uma. O meu filho é filho de uma mãe (que engraçado seria se a frase acabasse assim) que não se quis calar. Perdoem-me.

Esta semana, o arcano Rei de Espadas inspira-nos a questionar as regras do universo que nos rodeia e a não aceitar que nos imponham uma verdade que não é a nossa. Porque é que uns podem tudo e os outros não podem nada? Isto, para quem é do sexo feminino. Já os leitores portadores do cromossoma xy, olhem, escondam este jornal e não o mostrem às vossas mulheres.

Hazel
Consultas em Oeiras e online
Email: hazelclaridade@gmail.com

Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1619
foto: madairainitaly, licença CC0

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