Crime organizado entre panelas e peúgas

quinta-feira, maio 11, 2017


Há ali uma falha na massa entre dois azulejos ao lado do fogão por onde já vi deslizar silenciosamente um tentáculo da Máfia siciliana. A minha cafeteira é uma ladra contrabandista. Coloco-lhe a água em baixo, o café no depósito central, enrosco a parte de cima e acendo o lume. A gangster octogonal colabora sem oferecer resistência, como uma boa e honesta cafeteira acima de qualquer suspeita.

A água ferve e sobe, percorrendo a secção onde se encontra o café, até chegar ao compartimento superior — dizem os vrai connaisseurs que o café é mais saboroso se subir em vez de descer, por algum misterioso motivo. No entanto, mal desligo o lume, ela — a velhaca — chupa o café de volta e fica com ele no andar de baixo.

Não será pela necessidade de beber o meu café-levanta-mortos que a chupista o rouba, mas certamente porque a Cosa Nostra chega a todo o lado. Uma pouca-vergonha pegada com sotaque italiano.

Mais ao fundo da cozinha, insuspeita junto à janela, encontra-se a sua comparsa, a máquina de lavar roupa. Essa é mais imprevisível na metodologia criminosa. Em breve reconstituição do último crime ocorrido, dirigiu-se esta vossa escriba com o alguidar da roupa para lavar na anca direita (toda a gente sabe que as ancas das mulheres servem para encaixar o alguidar), ajoelhou-se junto à máquina de lavar e colocou a roupa lá dentro: um pijama axadrezado, camisolas do gaiato, calças de ganga, dois vestidos, toalhas de banho, todo um arsenal de cuecas pretas e, por fim, as cobiçadas peúgas. Lembro-me perfeitamente de ter colocado para lavar aquele par de meias castanho-escuras com gatinhos que comprei para 'o meu filho' (e que acabaram por ficar para mim).

Regulo a máquina para o programa da roupa escura e vou aos meus afazeres. Quando a dissimulada mafiosa termina de lavar, retiro a roupa do seu interior e, com grande espanto, constato que apenas se encontrava uma (1!) das meias dos gatinhos. Rodei o tambor, inspeccionei a roupa toda, mas a infeliz meia desapareceu como se nunca tivesse existido, deixando órfã a irmã gémea. O desaforo não acaba aqui: apareceram, não uma, nem duas, mas três outras meias pretas que não coloquei para lavar.

É do demo: roubou-me uma meia e deu-me outras três que tinha furtado noutras lavagens em troca, como quem permuta reféns menos valiosos por outros que interessam mais.

Estou profundamente indignada com a patifaria que se está a passar na minha cozinha. Tanto a cafeteira quanto a máquina de lavar são membros executantes da Máfia, essas filhas-da-mãe que não têm outro nome — bem, ter, têm, mas vou abster-me por decoro.

Esta semana, o arcano 5 de Espadas surge-nos bruscamente como um gangster sem coração para nos levar as meias, o café e o bom-senso, numa batalha perdida onde ninguém é genuinamente vencedor.

Por vezes, o melhor é agir com distanciamento e não dar confiança à malandragem. Como vou fazendo com os atrevimentos dos mafiosos da cozinha: ignorar, evitar conflitos e conferir a roupa suja que se lava.

Hazel
Consultas em Oeiras e online
Email: hazelclaridade@gmail.com

Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1632
Foto: andreas160578, licença CC0

PODERÁ TAMBÉM GOSTAR DE LER

1 COMENTÁRIOS

Obrigada pelo seu comentário ♥