Peter Pan mora em Lisboa


Num quarto andar sem elevador, com intermináveis degraus de madeira antiga que rangem como uma velhinha cansada e rezingona apesar da leveza com que os seus ténis pretos os sobem todos os dias no regresso a casa.

Na solidão do seu quarto de paredes tristes e nuas, a porta pintada a branco-casca-de-ovo separa-o dos horrores do mundo tornando aquele singelo quadrado de chão uma ilha silenciosa e flutuante no céu lisboeta, palco de uma peça de teatro onde não existe público nem aplausos, mas apenas um actor que se sujeita a cumprir o papel que escreveu para si mesmo com a resignação paciente de quem cumpre um propósito de vida desconhecido.

Deixou de fumar, mas acendeu um cigarro e deixou-o consumir-se sozinho sobre o cinzeiro velho enquanto os seus olhos cor-de-mel viajam para lá dos riscos e marcas na pintura da parede, cicatrizes de outras vidas que ali foram felizes e infelizes conforme as circunstâncias o foram permitindo. 

Derrama no papel todo o sangue que lhe percorre o coração, numa transfusão feita em tinta azul de caneta Bic laranja. Escreve em caligrafia minúscula, tímida e insegura, como se falasse baixinho com receio de ofender as inquisidoras margens vermelhas da folha pautada. Cada verso do poema um minucioso trabalho de joalharia, onde palavras, métrica, ritmo e significado compõem uma filigrana perfeita.

Os dedos longos e draculinos dobram o papel e escondem-no no fundo de uma gaveta. Ali se encontra a sua vulnerabilidade, a sua nudez, a fragilidade e toda a magia da Terra-do-Nunca. Todo o conteúdo do seu coração, que é apenas um, como a vida, esta, é apenas uma; e um amor como aquele que o invade, que lhe permite esvaziar desta forma o coração e ainda assim, mantê-lo a transbordar sangue e esperança sem cessar, é apenas um também.

Na manhã seguinte, Pan, o Peter, acorda antes do Sol e desce a escadaria velha e queixosa em passos ligeiros. No bolso das calças, o papel dobrado que tirou apressadamente da gaveta. Como sempre, foi o primeiro a chegar ao escritório.

Transcreveu o poema para o computador, releu-o mais vezes do que alguma vez admitiria, censurou-se pela falta de qualidade que achava ter e enviou-o. Peter Pan estava apaixonado. Esperou ansiosamente durante aquilo que lhe pareceu demorar horas, dias, semanas, meses. Dez minutos depois, o tão desejado som de notificação de mensagem. Ela gostou. Talvez o seu poema não fosse tão mau assim. Talvez tudo fizesse finalmente sentido.

E fez. O poema foi publicado pela Chiado Editora na Antologia de Poesia Contemporânea “Entre o Sono e o Sonho”. O lançamento será no próximo Sábado. Peter estará lá, ainda incrédulo e tímido, a falar baixinho como a sua caligrafia. Assina com o nome Diogo Ribeiro — porque ninguém acreditaria que o Peter Pan mora em Lisboa.

Esta semana, o arcano Valete de Copas inspira-nos a nunca deixar de seguir o nosso coração e os nossos sonhos. No fim de tudo, é o que realmente importa. O mundo é dos que amam.

Hazel
Consultas em Oeiras e online

Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1649
Ilustração: Eyvind Earle 

Sabes que és um (neo) Pagão quando


Santinho!
Se alguém espirra, não dizes "Santinho!" nem "Jesus!". Seria, no entanto, apropriado dizer "Sagrado Pentagrama!", o que faria as delícias de qualquer pagão constipado.

Pentagrama
Usas ou usaste um pentagrama ao peito. Se fores ousado, talvez o tenhas tatuado numa parte escandalosa e pudibunda do teu corpo.

Altar
Tens um altar pagão em casa, com velas, cristais, pauzinhos, folhas e frutas. Sabes o que é um athame, mesmo que não tenhas.

Vidas passadas
Claro que te recordas das tuas vidas passadas e claro que foste um poderoso mago ou sacerdotisa. Quem se atrever a duvidar disso, não merece ser teu amigo.

Magos versus Muggles
Para ti, existem dois tipos de pessoas no mundo: os que acreditam em Magia. E os cépticos / leigos / muggles, esses bambis ingénuos, desinformados do que verdadeiramente se passa no mundo.

Vertentes do Paganismo
Os que acreditam em Magia, classifica-los em vários subtipos de acordo com as diferentes correntes: Wicca, Druidismo, Stregheria, Helenismo, Xamanismo, Asatru, Dianismo, Odinismo e outros.

Varinha mágica
Tens uma varinha mágica — e não é de moer a sopa.

O Natal
O Natal cristão é um enfado para ti, ovelha negra e incompreendida da família, mas lá vais tolerando com a ajuda dos presentes e dos doces.

Abraçar árvores
Abraças árvores. As árvores são sagradas para ti.

Animal de poder
Tens um animal de poder, que pode ser uma pantera, um falcão, um urso ou qualquer outro de grande imponência. O que muito entristece outros elementos do reino animal, que se sentem rejeitados, como o gafanhoto, a louva-a-deus ou a formiga-de-asas. É uma injustiça.

Crenças
Acreditas em elementais, deuses, semideuses, seres desencarnados, atlantes, unicórnios, e até simpatizas com O Meu Pequeno Pónei.

Fases da Lua
Sabes sempre quando há Lua Cheia, e tens os teus rituais lunares que nem sempre fazes porque não há tempo, mas no-mês-que-vem-não-falha.

Festa sem parar
Sentes-te mais afortunado que os outros que só celebram o Natal e a Páscoa, enquanto tu tens, pelo menos, 8 (oito!) festas ao longo do ano sem contar com os Esbats, seu grande maganão!

Capa com capuz
Tens uma capa com capuz e sentes-te um autêntico Merlin (ou Viviane) quando a vestes. Se pudesses, usava-la até para ir comprar pão ao supermercado.

Viagens espirituais
As tuas viagens de sonho têm de incluir Stonehenge, Escandinávia ou o Oráculo de Delfos (acuso-me!). Se não tiveres dinheiro para ir a Stonehenge, vais ali aos Almendres, e já é bem bom!

Nudez
Se és pagão, já celebraste, pelo menos, um ritual vestido de céu. Com ou sem companhia.

Um Deus com cornos
Acreditas num Deus Cornífero e sabes que ser cornífero não é vergonha nenhuma lá nas instâncias celestiais porque não significa que a Deusa tenha andado a pular a cerca.

Natureza
De bom grado trocas uma ida ao shopping por uma tarde no bosque (a não ser que os cristais estejam em saldos na loja esotérica que fica ali ao lado da Zara).

Livro das Sombras
Tens um Livro das Sombras que mais ninguém pode ver (Mas também, quem é que quer ver? Ninguém quer saber.).

Poderes
Acreditas que tens super poderes (o meu, por exemplo, é mexer as orelhas).

Música
Gostas de Lorena McKennitt, Omnia, Daemonia Nymphe, Dead Can Dance, Luar na Lubre, Wardruna. Roberto Leal faz-te sangrar dos ouvidos.

Outros pagãos
Reconheces logo quando encontras outro pagão.

Sinais do Universo
Acreditas em sinais do Universo, que está sempre a comunicar contigo-e-só-contigo, porque a tua missão de vida é a mais importante de todas.

Estações do ano
Celebras as mudanças de estação do ano, enquanto os outros não. A-ha!

Podes (quase) tudo
Não existem pecados, mandamentos, Diabo ou Inferno para ti. É um regabofe pegado, apostam os católicos, enquanto dão por si a transgredir o 10º mandamento.

Politeísmo
És politeísta e tens um deus ou uma deusa preferida que é quase uma espécie de teu alter ego. Seu vaidoso.

Reconhecimento de almas
Quando gostas de alguém, é porque já estiveram juntos em vidas passadas. E quando não gostas, também estiveram juntos — mas nesse caso o/a sacana lixou-te.

Nome mágico
Tens um nome mágico. Que pode, ou não, ser secreto.

Fazer amor
Se és pagão, tens de fazer amor na Natureza. Mesmo correndo o risco de apanhar carraças atrás das orelhas.


Não gostas que te contradigam ou que façam graçolas em relação às tuas crenças.

Esta escriba bem sabe que está a arriscar a pele e, em sua defesa, invoca a Lei tríplice, traça o sagrado pentagrama e implora por clemência fazendo-se rodear de um círculo de sal grosso e uma vela acesa em cada quadrante. Benza-me a Deusa!

Esta escriba é também neopagã, helénica de coração, druida de vivência. Com um sentido de humor algo insolente que deverás perdoar quando abraçares uma árvore e transmutares a energia negativa em positiva. Que assim seja. Que assim se faça.

A correr pela floresta descalça até ao pescoço,

Hazel

«Quem boa cama fizer, nela se há-de deitar»


Ainda parece que a oiço, cítrica e com um travo amargo de laranja seca; profética, com uma intuição que roçava o sobrenatural. Uma autêntica bruxa que, no entanto, desprezava bruxas e as desacreditava. Mas que as havia, havia — sempre haverá.

Continuo sem compor pela manhã o delicioso leito onde Morfeu todas as noites me engole inteirinha com languidez, gula e oblívio, sem conseguir já deslindar se será por indolência ou insolência tardia; se por inofensivo e inconsequente exercício da liberdade de escolha; se por consideração ao bem-estar dos ácaros que se comprazem em deitar-se na minha almofada a ler o jornal de patinhas traçadas com os cobertores meio caídos; ou se pelo hábito de quatro décadas a defender que é bem mais prazeroso desfazer uma cama do que fazê-la — interpretem como quiserem, seus malandrões, bem vos conheço.

O infame provérbio sempre me apoquentou, dada a fatalidade que lhe é inerente, aprisionando-nos para sempre às nossas escolhas, negando-nos o direito de mudar de ideias, num castigo inevitável e eterno digno de Némesis grega.

Ovelha ronhosa (e ranhosa também, mas só mais lá para meados da Primavera, quando começam as alergias) que sou, continuo a desafiar a norma instituída. Longe vão os tempos em que se acreditava que as coisas eram como eram e nada se podia fazer senão carregar-uma-cruz-às-costas sem hipótese de redenção ou salvação, em resultado de um provérbio cruel e ditatorial.

Porque quem boa cama fizer, nela se há-de deitar — OU NÃO.
A qualquer momento, podemos sempre trocar os lençóis frios de algodão por outros aconchegantes de flanela, até mesmo a meio da noite. Ou ir buscar mais um cobertor.

Ou tirar tudo, atirar pela janela soltando um grito de Tarzan (não o Taborda, mas o outro) e dormir em cima do colchão. Ou virar os pés da cama para a cabeça e dormir de pernas para o ar. Ou, em vez de deitar, ficar sentado, de cócoras, de pé ou com um pé na cama e outro no chão. Podemos reformular tudo a qualquer momento, apesar de termos sido programados para acreditar que estamos condicionados.

Esta semana, o arcano O Imperador confronta-nos com a autoridade cega a que fomos (e somos) tantas vezes sujeitos, as verdades ‘inquestionáveis’, as normas, o dever de encaixar e obedecer sem questionar regras que não sabemos já quem criou e porque o fez, mas que vão sendo papagueadas de geração em geração perpetuando uma herança de medo da mudança e de submissão.

Mudam-se os tempos, actualizem-se os provérbios.
Não façam a cama: reinventem-na.

Hazel
Consultas em Oeiras e online

Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1648
foto: Pexels, licença CC0

Reprogramação com Reiki


A Reprogramação com Reiki é uma técnica de cura que se destina ao tratamento de traumas, fobias, baixa auto-estima, padrões de comportamento causadores de sofrimento, auto-limitações resultantes de experiências de violência física e psicológica, abusos sexuais (*) e outros.

A memória do indivíduo mantém-se inalterada, contudo, a inserção de novas informações através de Pararregressão irá permitir-lhe regressar ao seu quotidiano sem a dor que o acompanhava e que condicionava as suas escolhas, ou com um nível de dor francamente mais reduzido, o que, em última análise, resultará numa maior qualidade de vida, segurança, liberdade e auto-confiança.

Esta terapia é realizada com o paciente deitado (vestido) e de olhos fechados.
Não existe qualquer contacto físico entre terapeuta e paciente.

Locais: Carcavelos e Oeiras
Valor: 50 € (*)
Marcações/informações: casaclaridade@gmail.com

(*) Esta terapia é gratuita para indivíduos que tenham sido vítimas de abusos sexuais.

Hazel Evangelista
Mestrado em Reiki Essencial

Cuspir ou Engolir


«Se houver alguém que se oponha, que fale agora ou cale-se para sempre.»
A gaveta da cozinha deslizou para fora e uma mão pesada tacteou por uma faca afiada que emergiu, gélida e reluzente, reflectindo a luz mortiça da lâmpada fluorescente e uns olhos raiados de sangue. A casca do limão caiu delicadamente sobre a bancada.

O silêncio sepulcral foi interrompido pelo som da torneira a encher o fervedor de aço inoxidável. Um riscar de fósforo. Sentou-se à espera que o chá acabasse de ferver enquanto limpava demoradamente a sujidade das unhas com a ponta da faca e a imaginava a escarafunchar por entre a terceira e a quarta vértebra do sacana do Ermelindo. Teria de fazer força para perfurar a pele e de fazê-lo com agilidade suficiente para evitar que ele se conseguisse defender a tempo. O cretino havia de revirar os olhos e esticar o pernil em minutos.

Espremeu o limão como quem expele o próprio desdém e juntou o sumo ao chá acabado de ferver. Adoçou com mel, mexeu com a colher e levou a caneca aos lábios. Estendeu o jornal à frente, sobre a mesa. Na primeira página, pareceu-lhe ler o título “Engoliu uma espada e foi parar às urgências”, mas a tosse e a febre causada pela garganta inflamada turvavam-lhe a visão e o entendimento; devia ser uma espécie de alucinação. Que importa, as notícias nunca trazem nada de novo.

Fechou o jornal, engoliu o resto do chá e arrastou os chinelos até à cama. Há sapos que nem um homem com goelas de pelicano consegue engolir. Quando se obriga a isso, fica ferido por dentro, as palavras que quis dizer e não lhe saíram para não maçar os outros queimam-lhe as vísceras. Não admira que tivesse ficado com a garganta neste estado.

A noite foi um tormento de ranho, suor e pesadelos que se dissiparam com a luz limpa e fresca da manhã. A febre tinha passado, mas a tosse ainda persistia. Na mesa-de-cabeceira encontrava-se a faca, testemunha silenciosa do plano homicida da noite anterior, que agora se revelava ridículo e tresloucado.

Esta semana, o arcano Ás de Espadas recorda-nos que se tivermos de escolher entre ficar mal com os outros e ficar mal connosco, mais vale optar pela primeira. Afinal, somos nós que nos aturamos a nós mesmos desde o primeiro até ao último dia.

«Bom dia. Quero falar com o Ermelindo, se faz favor.
Sim, é urgente.»

As mãos seguravam o telefone firmes como as de um cirurgião. A vontade também. Teria de encontrar um novo emprego. Aliás, dois empregos, para suportar a indemnização que iria ter de pagar ao ex-sócio a quem acabara de enviar para a genitália da respectiva tia. De mãos a abanar, alma lavada e com a tosse finalmente curada, o homem que tinha engolido uma espada jurou a si mesmo que nunca mais se deixaria rebaixar por ninguém.

Hazel
Consultas em Oeiras e online

Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1647
foto: Free-Photos, licença CC0

Beldade de labaredas pintadas


O Tragédias olhou em frente, mordeu o lábio inferior e contraiu o esfíncter como se isso o fizesse encolher e passar despercebido ao carro da polícia parado no cruzamento com a Rua Artilharia 1. Safou-se, o marialva de cabelo lambido. Por segundos de distracção policial quase era mandado parar por circular sem farol traseiro na mota e com o escape meio solto, a dar-a-dar, montado à pressa como fazia todas as manhãs para ir trabalhar.

«Esta ninguém m'a tira», pensava enquanto dava um estalo de satisfação com a língua. Depois de, nos últimos três anos, lhe terem roubado pela calada da noite quatro motorizadas seguidas que muito suou para pagar, tomou medidas drásticas — e criativas. A última aquisição, uma Honda CG 125 vermelha, antiga mas com umas labaredas desenhadas que lhe davam estilo e personalidade, era todos os fins de dia desmontada num tempo record de dezasseis minutos. Os gaiatos da rua sentavam-se no passeio a apreciar a velocidade com que as peças saíam, de olhos brilhantes e cronómetro na mão.

A porta de casa escancarava-se como se esta acabasse de ser invadida por uma trovoada trôpega com cheiro a cerveja e uma cacofonia metálica de escape, amortecedores, espelhos, faróis, manetes de travão, selim, depósito e tudo o que conseguisse enfiar dentro da cozinha, para garantir que o pouco da beldade-com-labaredas que pernoitasse na rua não valeria aos larápios o esforço de partir correntes e cadeados, e ainda lá estaria ao raiar do dia.

Os gritos e o vernáculo desesperado do Tragédias à procura das peças eram o despertador da Rua da Bica todas as manhãs nos dias de semana; era uma cómica tragédia, porque nunca encontrava as peças todas. Desmontar era fácil, mas voltar a montar a Honda era outra conversa. «Ai homem, tu matas-me!», os chinelos da Edite, que começava o dia a correr afogueada com os faróis apertados contra o peito montanhoso para não caírem ao chão, ouviam-se apressados escada-acima-escada-abaixo no prédio.

«‘té logo!» Lá ia ele. Dobrava a esquina triunfante por ter levado a melhor aos ladrões, ainda que isso implicasse ter todos os dias o fadário de desmontar e montar a motorizada.

Esta semana, o arcano 7 de Espadas surge-nos como um vil malandro à espera da ocasião que o revelará patife sem coração, capaz mesmo de tentar preencher o próprio vazio com a segurança do colchão alheio, por maldade ou mesquinhez de alma empobrecida que nunca conseguirá, por isso, encontrar um vislumbre de luz.

Resta-nos, tal como o genial e persistente Tragédias, separar por peças toda a nossa estrutura, reinventar-nos, recriar-nos diariamente. Todos os dias são dias para começar de novo.

Hazel
Consultas em Oeiras e online

Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1646
foto: Free-Photos, licença CC0