Viagem à Terra do Diabo — Parte 2

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OS PÉS DA VOSSA ESCRIBA avançam pela penumbra das ruas antigas. Perante os seus olhos emerge a ponta reluzente do pirilau do Cabrão (Diabo). 

A aldeia é decorada com pentáculos (estrela de cinco pontas que representa o equilíbrio dos elementos: água, fogo, terra, ar, éter).

O aroma reconfortante das castanhas assadas trepa pelas ruas 
em braços de fumo ondulantes e convidativos.

Vinhais, terra do Diabo, é também terra de castanheiros, árvore sagrada para os Druidas, símbolo de perseverança e abundância. 

No Outono transbordam ouriços e castanhas caídos das árvores junto às estradas que serpenteiam pelas serras. A vossa escriba não resistiu e trouxe alguns sacos com castanhas. Para investigação, claro está.

A festa é por ali, entrem à vontade — indica-nos um homem que enverga uma capa escarlate e chifres protuberantes com a admirável autoridade, naturalidade e satisfação de quem finalmente pode vestir aquilo que lhe apetece sem ter de lidar com julgamentos.

O ritmo folgazão dos bombos e gaitas-de-foles ecoa pelas encostas, rasgando o silêncio montanhoso à volta da aldeia de Cidões, num ritual que redesperta os velhos deuses telúricos do profundo sono secular.

O Canhoto.

A pilha de ramos e troncos reunida pela população arde no centro da aldeia, pronta para queimar o Cabrão no fim da festa. Ao lado, é cozinhada a Cabra, a sua mulher, em caldeirões. Diz a tradição que a lenha não arde se não tiver sido roubada. 

Os músicos e saltimbancos tocam e dançam à volta da fogueira, em torno da qual caminhamos no sentido anti horário para desfazer os males, e no sentido horário para trazer a abundância.

Aquecem-se os ânimos com o Ulhaque, bebida espirituosa de origem Celta, típica de Cidões. Contém bagaço, medronhos, infusão de ervas e outros ingredientes secretos, extraídos das encostas do Rio Tuela. É degustado gelado e promete ter um fino sabor. Digo “promete” porque não cheguei a provar, oh que diabo!

A poção do Druida.

Acompanhado pelas três faces da Deusa Tríplice (Mãe, Donzela e Anciã), o Druida esconjura a má sorte, os malefícios e o mau-olhado. 

Com o fogo como ingrediente principal, dentro e fora do caldeirão, prepara a Queimada, uma poção mágica de limpeza e protecção para o corajoso que a beber.

A chegada do Diabo. 

Este magano que dizem esconder-se atrás das portas, chega ataviado a rigor, fazendo-se transportar com grande alarido num carro de bois puxado por homens. 

Lança o terror sobre a população, representando assim os medos, a escuridão, as dificuldades da vida e a submissão do homem aos vícios e instintos.

Trava–se uma batalha entre o Druida e o Diabo, numa encenação do eterno conflito entre Bem e Mal, Luz e Trevas, Verão e Inverno. O confronto das polaridades gera o caos. E do caos renasce a harmonia e o equilíbrio universal.

Ao longo da noite, seguindo os diabólicos velhos costumes, os rapazes jovens roubam os vasos de flores que enfeitam as casas, rodam as cadeiras de pernas para o ar, desarrumam tudo e viram a aldeia do avesso.

As lendas do passado são-nos teatralizadas pelos próprios filhos da terra para que não sejam esquecidas. Devemos prestar toda a atenção, são as últimas vozes das almas antigas que ecoam. 

Festa da Cabra e do Canhoto marca a época do fim das colheitas, 
o término do ano velho e o início do ano novo pagão. 

A egrégora de velhos deuses pré-cristãos cultuados neste ritual ancestral, em tão remota e discreta aldeia tem as suas raízes deveras bem entranhadas na terra. 

Assim como os castanheiros, que proliferam na região, parecem ser divinamente protegidos resistindo às intempéries ao longo dos anos, também as divindades pagãs encontraram forma de se manter vivas e de resistir aos ventos inquisitórios que varreram da memória colectiva o culto da Terra-mãe.

Acredito que enquanto houver fumo de castanhas assadas no fim dos Outonos, regozijam-se os Deuses e os genii loci (os espíritos do lugar), proporcionando-nos estes, em retribuição, um Pequeno Verão dentro da estação fria e chuvosa.

O sensor-hiper-sensível da vossa escriba concluiu que há algo de muito especial e impossível de traduzir por palavras acerca da Aldeia de Cidões

O local parece ter uma Consciência per se, inteligente, activa, astuta, que é nutrida pela população, e que a nutre de volta, não deixando que morra a aldeia, os costumes, a coesão — e, em última análise, a Consciência, para onde tudo retorna.

O Cabrão.

Atirando com as botas de investigação por cima da cabeça, dou por concluída a diabólica jornada respondendo a algumas dúvidas que recebi por telepatia:

Onde fica Cidões?
Cidões é uma pequena aldeia de dezoito habitantes que pertence ao município de Vinhais, Bragança, região de Trás-Os-Montes.

Quantos quilómetros de Lisboa a Cidões?
Cerca de 500 quilómetros.

E do Porto a Cidões?
Cerca de 220 quilómetros.

E de Faro a Cidões?
Cerca de 730 quilómetros.

Vale a pena ir lá?
Hell yes. Sem dúvida que, pelo menos uma vez na vida, vale a pena ir à “Terra do Diabo”. Nada é o que imaginamos encontrar. Esta é uma experiência que devemos vivenciar procurando sentir e compreender o significado subliminar de tudo, sem nos condicionarmos pelas aparências ou pelo preconceito. É um testemunho histórico irrefutável e um privilégio imenso fazer parte desta viagem no tempo.

O Diabo existe?
Certamente que sim. O Diabo é tão real quanto as emoções sombrias do ser humano; quanto a força opositora que mantém vivo o fluxo do Universo. O Diabo é a mais crua e autêntica alegoria criada pelo Homem.

Deus vai castigar-me se eu for à Festa da Cabra e do Canhoto?
Vai. Deus nos livre dos seus seguidores. A Festa da Cabra e do Canhoto é para pessoas não-chatas, que não têm medo de sorrir, de se divertir, de Viver. 

A poção “Queimada” do Druida, é mesmo mágica?
A vossa escriba investigou profundamente (até ao fundo da caneca de barro, bem-entendido), e afiança-vos que faz ficar com a voz mais grossa e o álcool etílico passa a parecer uma bebida para bebés. 

Paga-se entrada?
A entrada é livre. As bebidas e petiscos são justa e merecidamente pagos.

Quando haverá a próxima Festa da Cabra e do Canhoto?
Na Noite das Bruxas, 31 de Outubro.

Links úteis:

💚 Agradeço ao Luís Castanheira, organizador da Festa, referido na Parte 1 desta crónica-em-dois-capítulos, pelo caloroso acolhimento e pelo simpático e divertido convite para ajudarmos a acender as velas da festa na ponte de Cidões. 

Nas labaredas do Diabo,

Hazel
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Viagem à Terra do Diabo — Parte 1

A TERRA DO DIABO fica muito longe, para lá dos montes. Poucos ousam ir lá, menos são os que sabem da sua existência, e mais raros os que lá moram.

Diz a lenda que uma vez por ano, na noite de 31 de Outubro, o Diabo anda à solta numa pacata e remota aldeia nortenha. Tudo fica virado do avesso. 

Celebram nessa noite a Festa da Cabra e do Canhoto, uma tradição pagã antiquíssima que sobrevive há mais de dois mil anos, o aclamado genuíno Samhain (Halloween) português, passando praticamente despercebido pelo resto do país.

Que inquietante tradição é esta, cheia de rituais misteriosos, onde a personagem principal é o Cabrão, bebe-se uma poção flamejante feita pelo Druida no caldeirão onde se esconjura o mau-olhado e afasta as trevas, e a lenha só arde se for roubada? E que diabo é isso do Canhoto? 

A vossa escriba, que nunca testemunhou este relicário vivo do misticismo antigo, vestiu a capa preta de investigação, botas altas e lupa, e foi indagar que coisas fixes se fazem para lá dos montes, que é como quem diz, em Cidões, Município de Vinhais, Trás-Os-Montes. Sobrevivi ao encontro com o Diabo e voltei para contar a história:

Chegámos duas horas antes da festa começar. Cidões é uma pequena aldeia silenciosa com casas de pedra adornadas com inúmeros vasinhos de flores, perdida na imensidão verdejante das serras. Tem apenas dezoito habitantes.

O Cabrão

Estava previsto chuva forte e trovoada, no entanto a força dos elementos tem as suas próprias vontades que andam de mão dada com a população, e o clima esteve inexplicavelmente ameno.

O Cabrão, colocado na entrada, dá as boas-vindas em todo o seu esplendor. [Sempre quis ter uma desculpa para escrever isto numa crónica e sair impune, oube lá. 😃] 

A imponente escultura de madeira com sete metros é queimada (pirilau incluído) ritualisticamente na enorme fogueira — o Canhoto — juntamente com a má sorte, o mau olhado e as dificuldades. Diz a lenda que esta lenha só arde se tiver sido roubada.

Marca-se, assim, a celebração do fim do ciclo agrário, despedindo-nos da metade clara do ano e entrando na metade escura e nas noites longas e frias. 


Os caldeirões cozinham a Cabra, mulher do Cabrão, dizem eles, enquanto repetem o antigo adágio que aprenderam com os seus avós: 

«Quem da Cabra comer e ao Canhoto se aquecer, 
um ano de muita sorte vai ter.»

Resolvemos sair da aldeia e respeitar o espaço e a privacidade dos cidanenses para se organizarem ao seu jeito sem se sentirem observados por dois forasteiros. Forasteiros, escrevi eu? Estava prestes a aprender a primeira grande lição desta incursão: No Norte, nunca é forasteiro aquele que vem por bem. É da terra também.

Travou repentinamente um carro ao nosso lado. A janela desceu:
— Andais perdidos?
— Estamos só a passear, viemos para a festa.
— Querem vir comigo ajudar a acender velas na ponte?

De um momento para o outro, com o Sol a morrer para dar lugar ao lusco-fusco, deslizámos para dentro do carro do desconhecido de olhos vivos e resplandecentes como os de uma criança. Havia um cajado com o que pareceu ser a cabeça do Diabo no banco de trás, assim como uma boa quantidade de velas vermelhas. Ele há horas do Diabo.

O Luís, é o seu nome, conduzia apressadamente pelas curvas e contracurvas que conhece desde que nasceu, e conversava como se nos conhecesse desde sempre. 

Contou que a festa é organizada por um grupo de amadores entusiásticos, filhos da terra, descendentes das gerações pagãs que ali habitaram. Não têm patrocínios, preferem preservar a identidade e a tradição. 

Unem-se esforços e dos seus próprios bolsos, com simplicidade e amor, compram tudo para proporcionar a quem visitar a aldeia nesta noite, uma celebração acolhedora e inesquecível, à boa e hospitaleira maneira do Norte.

Acendemos as velas vermelhas e distribuímo-las dos dois lados ao longo da pequena ponte que dá acesso a Cidões.

— Logo quando chegar a meia-noite venham aqui para o meio da ponte. Deixem-se ficar de pé, fechem os olhos e fiquem a sentir uma presença, uma energia, aqui com esta natureza toda à volta. Depois irão perceber. Façam as vossas preces e lancem os vossos pedidos ao rio.

Na voz do Luís, que não precisou de dar mais explicações, vinham as vozes de todos os antepassados que há mais séculos do que conseguimos sequer imaginar, dão continuidade a este misterioso ritual na ponte que liga Cidões ao resto do país, da mesma forma que o mundo terreno se liga ao mundo sobrenatural.

Eis que chega o bater das sete da noite. Escuridão total. A festa vai começar. 

(Continuação na próxima crónica: Viagem à Terra do Diabo - Parte 2)

Em terras do Diabo,

Hazel
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Poema: SETE CHAVES E TRÊS RÃS

JÁ ESTÁ NAS LIVRARIAS a Antologia de Poesia "Entre o Sono e o Sonho" - Vol. XIV, da Editora Chiado Books, com este poema da vossa escriba:


SETE CHAVES E TRÊS RÃS

Se viveis triste pelos cantos
Trocai os prantos por encantos
Sentai-vos aqui bem junto a mim
Escutai a história até ao fim

Todas as Bruxas são iguais
Aparentemente seres normais
Mas conversam com animais
Plantas, estrelas e cristais

Têm cabelos d’teia-de-aranha
Sábia língua de serpente
Olhos de coruja castanha
Unhas de gato e um Crescente

Escondem livros de feitiços
Fazem magias, desfazem enguiços
Dança a colher no caldeirão
Arruda, Vinca e Sangue-de-Dragão

No mistério do sobrenatural
Cosem amuletos e talismãs
Adivinham o futuro, espantam o mal
Têm sete chaves e três rãs

Seu coração, uma caixa de jóias
Forrada a seda e a veludo
Guarda sonhos e memórias
Quem nele entrar, há-de amar tudo.



Hazel
Foto: Hazel, por Raúl Santos

“Do Tempo da Maria Cachucha"

Ora deixem-me cá sacudir o pó com o espanador e compor o naperon de renda sobre a televisão enquanto vos falo da origem desta expressão castiça e antiquada que só podia mesmo existir na língua portuguesa.

Quem foi a Maria Cachucha?

O NOME "CACHUCHA" TEM ORIGEM numa música e respectiva coreografia, proveniente da Andaluzia, Espanha. Era dançada a solo por uma mulher, acompanhada de castanholas, em compasso ternário.

A adaptação da Cachucha espanhola tornou-se popular em Portugal no séc. XIX, dando origem à expressão "do tempo da Maria Cachucha", usada com o significado de 'muito antigo'.

Mas afinal, quem foi a Maria Cachucha?

Assim como as linhas de um naperon antigo se entrelaçam, também a História se rendeia misteriosamente de palavras, factos e expressões. A Maria Cachucha é uma coincidência que resulta do enlace aleatório entre o nome desta dança espanhola e uma invulgar mulher portuguesa que nasceu no dealbar do século passado.

Maria Purificação da Silva (Maria Cachucha)

Maria Purificação da Silva (1900-1960) popularmente conhecida por Maria Cachucha, era bem conhecida na região de Torres Vedras. Todos sabiam onde morava. 

Tinha um aperto de mão vigoroso, voz máscula e maneiras de mancebo que contrastavam com o lenço na cabeça atado sob o queixo.

O bigode de homem crescia-lhe sobre o lábio superior numa dignidade auto concedida, assentando pacatamente sobre os cigarros que as suas mãos grossas enrolavam com habilidade, fumegantes, esquecidos no canto da boca.

Não gostava de tarefas tipicamente femininas. 

De constituição forte e robusta como um touro, era a única mulher portuguesa que trabalhava no Matadouro Municipal, matando bois com tal firmeza que espantava o mais incrédulo dos observadores.

Por vezes confundiam-na com um homem, e isso divertia-a muito, mas chegou a ter um marido, de quem enviuvou, e foi mãe de um rapaz.

Preferia conviver com os homens, com quem falava de igual para igual, numa linguagem de taberna, em voz de bagaço. Não se dava com a família, por não aceitarem o seu modo de vida. 

VIVEU LIVRE E FELIZ à sua maneira atrevida e desempoeirada, como se soubesse que quando morremos rapidamente somos esquecidos, e por isso não devemos deixar de fazer o que queremos por medo do que os outros possam pensar. 

Precisamente por isso, o nome pelo qual era conhecida ficou para sempre gravado na memória colectiva do nosso país. 

A Maria Cachucha vive eternamente através daquilo que faz um país ser um país: as suas histórias e a sua língua. 

Cada vez que alguém repete a expressão "isso é do tempo da Maria Cachucha", a Maria Cachucha revive sorridente no seu bigode travesso e cigarro fumegante.

A sacudir naperons,

Hazel
Consultas em Cascais, Oeiras, Cacém, Santarém e online
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