DORMI TÃO PROFUNDAMENTE esta noite, que me perdi nos anais do tempo e despertei aturdida, em 1725, em Portugal antigo, com estradas de terra batida e cavalos presos a um poste.
Havia uma casa de porta aberta e o anfitrião decidia, com uma simples frase, se a visita que ia receber seria breve, ou se haveria lume aceso, pão na mesa e conversa para muitas horas.
O código de cortesia era claro. Se o anfitrião desejava que a visita fosse rápida, o cavalo ficava à porta, à chuva ou ao Sol. Mas, se queria que o visitante permanecesse bastante tempo, dizia-lhe:
Pode tirar o cavalo da chuva.
Ou seja: ”Leve o cavalo para um abrigo; não vai embora tão cedo.” – Um gesto de hospitalidade.
Mas a língua é uma criatura caprichosa que se move em direcções imprevisíveis. Aquilo que outrora foi um convite caloroso, transformou-se, com o passar do tempo, numa recusa:
Achas que vou emprestar-te dinheiro?
Podes tirar o cavalinho da chuva.
- Não contes com isso;
- Esquece essa ideia;
- Não vai acontecer.
A frase passou a ser usada tantas vezes em contextos de negação, que o significado original foi lançado ao oblívio de um baú de sótão cheio de pó e quinquilharias que já ninguém usa.
A linguagem é um rio com vontades próprias: viva, inquieta, molda-se ao tempo e desbrava sempre novos caminhos na complexa teia das relações humanas.
Por entre a nuvem de poeira levantada pelas patas do meu cavalo lusitano, vejo um jovem cavaleiro apear-se junto à casa da donzela que pretende pedir em casamento.
O velho pai assoma à porta, olha para ele e diz:
Meu bom jovem…
podes tirar o cavalinho da chuva.
E foi assim, num instante fatal, que o rio da língua seguiu um curso diferente.
iii-háááá!
A galope pelas brumas do tempo,
Hazel
Consultas de Tarot em Oeiras e Online
Tarot | Reiki | Reprogramação Emocional | Terapia Multidimensional | Regressão
Contacto: casa.claridade@gmail.com
Consultas de Tarot em Oeiras e Online
Tarot | Reiki | Reprogramação Emocional | Terapia Multidimensional | Regressão
Contacto: casa.claridade@gmail.com