Poção de Esquecimento


Após retiro prolongado, a (im)paciente da cama cinco agradece as visitas, as mensagens, as flores, os bolos doces sem açúcar, o envio de borboletas, os presentes, os convites e todo o afecto — que, sem dúvida, foi a mais regeneradora das panaceias.

Doutor Passarinho deixou-a ter alta com a advertência de que deverá prosseguir a dieta do tempo. Enquanto compõe o monóculo entre as penas e o bico amarelo-fogo, redige uma receita para levantar na botica hospitalar.

É-lhe entregue pelo boticário alado um frasco de líquido cor-de-musgo com a indicação "Poção de Esquecimento", que contém:

- Duas partes de novas experiências;
- Uma parte de medo diluída em duas de coragem;
- Um terço de excipiente vazio;
- Duas partes de contemplação do mundo (os sons, as luzes, as pessoas, os animais, as plantas, os edifícios, o céu);
- Uma parte de movimento físico, atendendo à máxima renascentista mens sana in corpore sano;
- Salpicos de audição apurada, para escutar a voz interior;
- Metade de amor-próprio, como elemento agregador dos restantes ingredientes.


«Agitar várias vezes ao dia para misturar bem o elixir. 
Tomar uma gota de manhã, de tarde e de noite até à cura completa.»

São-lhe restituídas roupas, sapatos, asas, caderno e lápis, para que volte a escrever.

Sentada numa paragem de autocarro, redige todo este texto no caderno que repousa no colo como um gatinho. Um desconhecido bem-parecido sorri-lhe. Ela retribui.

De asas estendidas em vôo panorâmico,

Hazel

41 anos!


O ponto de exclamação no título é como uma palmadinha de consolação no meu próprio ombro. Quarenta ainda vá, mas quarenta — e! — um. Valham-me os Deuses.

Este foi um ano de morte, de renascimento e de um grande salto de fé.
Apaixonei-me, casei, mudei de nome, continuei a escrever, a trabalhar naquilo que gosto e com quem gosto, a dançar, a fazer fotografias e a ver o meu filho ficar mais alto que eu.

Reencontrei amigos, fiz novos amigos e tenho que concluir que foi um ano algo rocambolesco, mas feliz.

E agora vou trabalhar! Hoje é dia de aula, desculpem escrever este post assim à pressa.
Estou no Espaço S, em Oeiras, a fazer aquilo que mais gosto: ensinar.

Obrigada aos que ainda me acompanham.

Até breve!

Hazel

Foto: pelo grande Mário Pires - Retorta!

Pista: 38.693449,-9.309771


Está decidido. Amanhã vou fugir. Já tenho a mala pronta. Caderno e lapiseira para algum rasgo de inspiração que possa surgir desavisadamente, uma muda de roupa para o caso de precisar de dormir fora, lápis preto para os olhos — terão de me perdoar a vaidade —, escova de dentes e desodorizante (pretendo ser uma fugitiva digna e asseadinha), e um telemóvel desligado. Acreditem em mim, vou fazê-lo. Dixit. Ninguém sabe; nem às paredes que me rodeiam confidenciei tão inusitado plano.
É segredo absoluto.

Não fujo à polícia. Tenho as contas em dia, actividade profissional legalizada, e apenas uma multa de estacionamento à espera de perdão divino, bem como o cartão de cidadão fora de prazo por casmurrice minha — porém, nada que justifique uma busca policial pela singela pessoa que vos escreve. Também não fujo de algum desgosto ou tristeza. Todos sabemos que a tristeza, quando quer apanhar alguém, agarra-o pelos artelhos e já nem à casa-de-banho o desgraçado consegue ir condignamente.

É do tempo que fujo, esse grande garganeiro. A mim não engana ele. Então, ainda há meia dúzia de dias nasci, até me lembro de estarem todos à espera que acabasse a “Gabriela, Cravo e Canela”, que estreava em Portugal, para fazerem o meu parto e agora, sem mais nem menos, diz que amanhã se completam quarenta anos que aqui estou? A areia da ampulheta gigante que mede a passagem do tempo anda certamente a ser desviada lá para as praias de São Pedro de Moel.

Chegados a este parágrafo, credes, amáveis leitores, que esta seja talvez uma crónica como as outras e que tudo isto é uma inocente metáfora. Contudo, sabem aqueles que me conhecem de perto que não gosto de fazer anos, é uma data que me causa sempre uma ansiedade irracional que me leva a desligar o telemóvel e a esconder-me em casa como quem se prepara para uma catástrofe nuclear. Por algum motivo, fico sempre assim no dia do meu aniversário, e esforço-me por fingir que estou contente para não ser uma bota-de-elástico desmancha-prazeres.

Amanhã vou estar mais velha, mais flácida, mais sábia e ajuizada (pelos vistos, nem ao menos isso!) e um ano mais perto da morte. Uhu, que emoção. Assim, este ano, porque a idade é um estatuto e só se faz quarenta anos uma vez, decidi celebrar o meu aniversário de forma a que nunca mais esqueça, mesmo que um dia o Alzheimer me apanhe desprevenida, e fazer algo que realmente me divirta: uma charada.

O meu bilhete de fuga é, justamente, esta crónica e a primeira pista para alguém me encontrar é a sequência de números que está no título. Quando encontrarem o local, terão de responder a um enigma (o enigma será entregue apenas directamente no local, e não por telefone). Quem responder correctamente, terá outra pista onde poderá ser dada a minha localização. Os corajosos que conseguirem encontrar-me, receberão de presente uma leitura de Tarot. Boa sorte! 😃

Hazel
Consultas em Oeiras e online

Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1631

Espírito de aldeia num prédio


Pedi um raminho de louro, a minha árvore preferida, para temperar os cozinhados e para, de vez em quando, queimar como incenso délfico. Quis a generosidade, ainda existente entre seres humanos, que me fosse ofertado um ramo do tamanho de uma árvore.

Poderíamos ficar com louro para o resto da vida, mas sinto-me ainda mais satisfeita por ter louro só por uns bons tempos, e sentir o prazer de distribuí-lo por mais casas. Um gesto de bondade torna-se maior quando o fazemos crescer, e não o guardamos só para nós. Se há em abundância, o natural é partilhar.

Assim, hoje o L. e eu estivemos a fazer cones de cartolina verde, enchêmo-los de folhinhas de louro e, às escondidas, pendurámo-los nos puxadores das portas dos vizinhos do prédio com um bilhete nosso. Foi uma bela marotice!

Quem sabe se esta surpresa não irá animar alguém que se sinta triste ou sozinho, ou que se esquece sempre de comprar louro quando vai ao supermercado.


A pendurar coisas à socapa nas portas dos vizinhos,

Hazel


O que queres ser quando fores grande?


Aos 5 anos, vi uma telefonista com auscultadores a transferir chamadas desligando fios de um lado e ligando-os noutro. Fascinou-me a sua voz áspera, eficiente e monocórdica. Fumava como uma chaminé enquanto trabalhava na central que se assemelhava ao cockpit de um avião. Era o começo dos anos 80 e isto era tecnologia de ponta. 

Os telefones começavam aos poucos a ser instalados nas casas; dava-se 25$00 pela lista telefónica e falava-se alto nas chamadas regionais porque o interlocutor estava longe! Quis ser telefonista quando crescesse (ainda bem que não fui, dada a minha antipatia pela invenção de Meucci).

Aos 10, Yuri Gagarin foi o meu herói. Com ele, viajei de foguetão entre as estrelas e descobri os mistérios escondidos para lá das nuvens, onde a ausência de gravidade nos suspende no ar como pássaros livres. Ah, como quis ser astronauta. Estava disposta a sacrificar-me pela evolução do conhecimento. Não teria saudades da Terra, a Terra não teria saudades minhas. Seria perfeito.

Aos 11, quis ser modelo. Enfiava duas laranjas dentro do soutien da minha avó e vestia-o por baixo dos exóticos conjuntos que criava com as suas roupas - com que desfilava pela casa com grande seriedade e satisfação. Quando acabava o faz-de-conta, pendurava tudo impecavelmente nos cabides para que ninguém descobrisse.

Aos 12, quis ser dona de uma fábrica de perfumes, vestir tailleur cor-de-rosa, e ter uma secretária grande repleta de frasquinhos de vários formatos e tamanhos onde misturaria fragrâncias florais únicas. Nas janelas do meu escritório, haveria estores de lâminas que deixariam ver as palmeiras lá fora. Seria em Malibu?

Aos 14, quis ser vocalista de uma banda de rock. Vestiria cabedal preto e calças de ganga rasgadas. Seria moderadamente devassa. Teria uma Harley Davidson e tocaria guitarra eléctrica de forma estridente. Deuses, ainda bem que nunca aconteceu. Os que não ficassem surdos, ficariam loucos.

Aos 15, quis ser professora de inglês. Organizada, sóbria e picuinhas, de casaco de bombazine castanho, uma pasta simples onde guardaria os livros para as aulas e uma maçã vermelha sobre a mesa. Teria giz de várias cores para escrever no quadro negro. Os meus alunos fariam muitos ditados e cópias. Seria chata, e teria prazer nisso.

Aos 17, quis ser repórter de viagens. De chapéu de palha e sandálias, iria mostrar o mundo ao mundo. Deixaria tudo e todos para trás. Iria sozinha. O mundo seria a minha casa. Escreveria sobre as minhas viagens e teria um programa de televisão que seria transmitido a partir de qualquer lugar inesperado.

Isto talvez explique porque me sinto realizada se fizer várias coisas diferentes. 
Os astrólogos diriam que é porque tenho Júpiter em Gémeos. Como as Matrioskas, há várias mulheres dentro de mim e cada uma é feliz a fazer a sua parte: blogger, tradutora, revisora, cronista, taróloga, terapeuta, professora, bailarina, orientadora de meditações, curadora, poetisa que não rima, mãe, contadora de histórias.

Fechei a porta dos sonhos durante muitos anos. Talvez achasse que sonhar tem prazo de validade e o meu estivesse ultrapassado. Contudo, nos últimos anos, os sonhos voltaram. Sonho em segredo e escrevo os meus desejos em bocadinhos de papel que dobro e escondo onde ninguém possa encontrá-los e rir de mim por ainda me atrever a sonhar.

Entretanto, finalmente decidi o que quero ser quando for grande. Quero ser eu. Completa.

A caminho da realização,

Hazel

39 anos!

Há dias, estava atrasada para ir buscar o meu filho à escola. Tinha acabado de tomar banho, só tive tempo de enfiar umas calças de ganga e uma camisola, e saí a correr, de cabelos molhados. Encontrei-o sentado no chão com os colegas a jogarem nos telemóveis. Ele levantou a cabeça, olhou para mim e continuou o que estava a fazer.
- Então?!, disse eu.
- Ah, és tu! Pensava que eras uma adolescente, exclamou o meu gaiato.
Ainda que escandalosamente bem conservada, hoje faço 39 anos. 39!
Ai minha nossa. Não sei como é que isto aconteceu.

Estou atónita por ter chegado aqui tão depressa - eu, que ainda ontem colava pastilhas elásticas debaixo da mesa na escola.

Aos 39 anos, temos mesmo de deixar-nos de merdas e agarrar a vida, porque ela escoa-se como areia numa ampulheta. Não há uma gaveta extra de tempo para onde possamos atirar os sonhos e guardá-los enquanto esperamos nem sei o quê.
Não dá para ignorar o que sentimos por baixo da pele. É agora. Ou nunca.

Aos 39 anos, não podemos mais olhar para trás, mas caminhar em frente, fazer planos, atirar-nos à loucura que sempre amordaçámos por receio do que os outros possam pensar. Afinal, nesta idade, já ninguém nos pode obrigar a comer a sopa.
A nossa felicidade está exclusivamente por nossa conta.

No ano que vem, não sei como me sentirei com a mudança de "inta" para "enta", mas, até lá, prometo solenemente a mim mesma, com todos vós como testemunhas, que darei o meu melhor para fazer tudo aquilo que me traz alegria!

Em palco com as minhas queridas colegas, no último espectáculo de dança oriental de 2015.

Uf!
Uma enorme e sentida vénia, de nariz a tocar nos dedos dos pés.

Pronta para soprar as velas,
Hazel

Fadas, Pássaros e a Donzela-sem-nome


A noite é a senhora de todos os sonhos e pesadelos, assombros, deslumbramentos e horrores; guardiã das criaturas misteriosas, negras, doces e venenosas. As árvores assumem silhuetas sinistras e observadoras com braços magros que se alongam infinitamente para agarrar os mais incautos.

O gemido dos fantasmas que se deslocam através da neblina ecoa com a aragem fria e insinuante que serpenteia nos pescoços alvos e nus, onde o sangue quente lateja nas veias e atiça o apetite sôfrego dos vampiros, que escorrem saliva de desejo. O medo pressente os movimentos subtis, apenas perceptíveis pelo olhar vigilante da coruja. A loucura anda à solta de mãos dadas com as almas penadas.

Quando o último grão de areia desliza pela ampulheta, o vento muda de direcção e todos os círculos abertos na areia da praia se unem num só, criando uma passagem onde a cortina da realidade se desfaz. Os pássaros já o haviam pressagiado quando forraram o tecto do céu tornando o dia noite, em resposta ao chamado dela.

O veludo negro das horas nocturnas é trespassado pela luz delicada que se faz soberana abrindo caminho através das trevas. As árvores voltam a endireitar os ramos que perseguem quem foge e todas as criaturas tenebrosas se dissolvem como fumo no ar.

Tudo se encontra suspenso, cristalizado no tempo. O silêncio denso que a envolve e a clara percepção de uma presença sobrenatural que a observa de perto despertam-na do sono.

Senta-se na beira da cama, os cabelos escorrem como serpentes adormecidas nos ombros despidos e o olhar húmido prende-se na beleza translúcida e hipnótica de duas fadas envoltas num halo de luz etérea que se deslocam através do ar, ao seu encontro.

A donzela-sem-nome sucumbe inebriada de magia numa doce espiral de oblívio que ascende deixando para trás absolutamente tudo o que conhecia deste mundo.

Quem tem um encontro com as fadas, morre e volta a nascer meio-humano, meio-feérico, sem jamais esquecer o que viu. Nunca mais se volta a ser o mesmo.

A ponte de arco-íris entre este mundo de prazeres vãos e o outro de luz, claridade e silêncio, uma vez traçada, mantém-se para sempre. E as fadas regressam, em sonhos, para sossegar o medo de imaginar que são delírios ou sintomas de insanidade e, assim, confundir o ego demasiado frágil para admitir que elas são tão reais quanto uma partícula de ar: leves, flutuantes, subtis, inalcançáveis e, contudo, verdadeiras.

Neste pacto selado pelo amor e sem que alguma palavra houvesse sido proferida, estabelecido para toda a eternidade entre a donzela-sem-nome e as duas fadas, estas estenderam o seu halo de luz em seu redor, coroando-a com ervas e flores e tornando-a a terceira fada. E os anos passaram mais devagar para ela do que para as outras pessoas, mantendo sempre uma aparência mais jovem do que a idade, que se perdeu nos confins do tempo.

Desde então, as mãos delicadas e translúcidas das fadas desataram nós na teia-de-aranha, enviaram serpentes guardiãs que rastejam invisíveis em torno da donzela-sem-nome, sempre fiéis e vigilantes, e os seus lábios de néctar de madressilva sussurraram-lhe palavras sem som, que apenas podem ser escritas, mas nunca faladas.

Quando a noite regressa com os seus assombros, demónios e outras criaturas tenebrosas, as fadas estão sempre no intervalo dos caminhos. Às vezes, surgem luzes azuis na ponta dos dedos da donzela-sem-nome, e à sua volta. Um dia, ela resolveu escrever para recordar quando os anos ultrapassarem a distância da memória.

Sobre as asas das fadas,

Hazel

O Silêncio do Inverno


Hoje o tempo encontra-se tão musgoso quanto os muros centenários de Sintra. A chuva cai sem pressa, teimosa e lânguida, enquanto a humidade se alastra pelas paredes e tectos transbordantes de água e sedentos de Sol. Deixou de se ouvir o canto dos pássaros, agora recolhidos sabe-se lá onde. Parece que vai chover para sempre.

A chuva ensina-nos a ser pacientes. A saber esperar. A ajustar-nos. Espero, mas não sei o quê. Ajusto-me a algo que ainda desconheço. Nada anseio. Nem tenho saudades de nada. Estou a ocupar exactamente o meu espaço no mundo, nem um milímetro para a frente, nem para trás. O centro de gravidade perfeito.

Estamos na estação do silêncio. Da quietude e do olhar no vazio, esse lugar onde repousamos a alma das inquietações que não têm razão de ser, como o são todas as inquietações.

Oiço a voz do Inverno no vento que viaja como um dragão uivante através dos ramos das árvores e nas gotas de água espertas e brincalhonas que batem contra os vidros das janelas. Escuto a sabedoria da velha mulher de cabelos de teia-de-aranha e mãos calejadas, com a paciência das sementes que aguardam no interior da terra.

Nunca pensei dizê-lo, mas passei a gostar do Inverno. Talvez porque deixei de tentar esticar os últimos raios de Sol até não conseguir mais, numa luta onde os dias escuros sempre fazem cheque-mate.

Aprendi a amar o vazio, o silêncio, a espera e até mesmo o frio. E, por amá-los, encontrei a plenitude no primeiro, a sabedoria no segundo, a serenidade no terceiro e a força no último.

De cabelo molhado pela chuva,

Hazel

Coisas fixes que já quase toda a gente fez, menos eu.


Eu nuncaaaaaa...

... fui às festas dos santos populares de Lisboa. Mas gostava. Sardinhas, vinho e bailarico incluídos!

... dancei à chuva. Acho que há previsões de precipitação para daqui a duas semanas.

... fui ao Porto. Já estive várias vezes para ir, mas houve sempre algum imprevisto. Será que o Porto não me quer? Riscado! Feito em 30 de Maio de 2016.

... ​comi percebes. Os "understands" são esquisitos e, aparentemente, difíceis de encontrar, mas deliciosos, segundo aqueles que já provaram. Parecem patinhas de monstros marinhos, que se chupam. iaics!, que macabro. Mas não se pode ficar na ignorância.  Riscado da lista! Feito em 5 de Maio de 2016.

... fingi ser uma turista e visitei Lisboa. No Verão, de chapéu de palha e máquina fotográfica pendurada ao pescoço, pelas colinas, elevador da Bica e com passeio de eléctrico.

... fui à Feira da Ladra. Logo eu, que gosto tanto de ver tralhas e velharias. Quero mesmo ir, antes de eu própria me tornar uma velharia.

... fiz uma aula de Ballet. Mas ainda é tempo de experimentar. Não sei é fazer um carrapito com o cabelo.

... fiz Yoga na praia ao nascer do dia. Nem Yoga, nem nada, agora que penso bem!

... lavei o cabelo num rio. Nesta, não devo ser a única a dizer nunca. Mas é algo romântico que sempre quis experimentar (até levo o shampoo e condicionador comigo! Ah!).

... fui a uma reunião da Tupperware. Vamos manter isto assim.

... fui a um cinema drive in. Isso faz-me sempre lembrar os filmes americanos, onde os jovens imberbes faziam marotices no banco de trás do carro enquanto "viam" o filme. E quem está aqui a julgá-los. Eu não.


Fazei também a vossa lista, senhoras e senhores. E sonhai sonhos pequeninos; pois é nos pequenos momentos que encontramos a felicidade.

Regressarei a este post para riscar os itens da lista que concretizar!

À espera da chuva (ou dos percebes - whatever comes first),
Hazel

Uma página solta no diário de uma mãe


O meu filho este ano anda na mesma escola onde estudei. No dia da apresentação, não pude deixar de sentir uma certa estranheza quando pensei: agora venho aqui como mãe, não como aluna. Senti-me como o Marty McFly, numa viagem ao futuro, ao ver-me, agora crescida, e com um filho pela mão.

Uma mãe -  contudo - que ainda ouve os AC/DC alto, toca uma guitarra eléctrica imaginária e tem uma tatuagem no braço. A tradição já não é o que era, graças aos Deuses. A-ha!

De vez em quando, ainda sonho que estou atrasada a caminho da escola, subo as escadas a correr, entro na sala de aulas onde está a decorrer um teste escrito para o qual não estudei, e acabo por não conseguir fazê-lo, porque já terminou o tempo. Há mais de 20 anos que tenho sempre o mesmo sonho, na mesma sala.

Depois da escola ter sido demolida e reconstruída, tinha alguma curiosidade em ver como são as salas de aula agora, em pleno séc. XXI.

Quando entrei para a apresentação, durante uma fracção de segundo, o mundo parou.
Era exactamente a mesma sala de aula dos meus sonhos.
Que momento twilight zone! Quão estranho é isto? Ainda não estou em mim.
Apetecia-me dizer a toda a gente: "Hey, esta é a sala com que tenho andado a sonhar nos últimos 20 anos! Já posso acabar o raio do teste?"
Mas não vou envergonhar o meu filho já no começo do ano lectivo.

Agora tudo é controlado através da internet, palavra desconhecida no meu tempo.
Os quadros negros de ardósia onde se escrevia com giz deram lugar a imaculados quadros brancos, com projector de imagens ligado ao computador do professor.

(Onde terão ido parar as centenas e centenas de quadros de ardósia que havia pelas escolas do nosso país todo, alguém sabe?)

Já ninguém passa bilhetinhos por baixo da mesa. Os telemóveis proliferam. Pergunto-me se ainda se escreverão mensagens nas portas das casas-de-banho. Provavelmente, não.
Quem é que precisa de uma porta para escrever, quando existe o facebook? Haha!

Os alunos alinham-se em fila sobre uma risca branca pintada no chão e seguem ordenados para a sala de aula atrás do professor. Não sei como me sentir em relação a isso. Por um lado, compreendo a necessidade de organização, por outro, pareceu-me ter ouvido uma voz longínqua cantar dentro de mim o refrão "All in all, you're just another brick in the wall".

O primeiro passo para a formatação requerida por uma Sociedade onde tudo deve ser ordeiro e obedecer a um estereotipo ideal. Talvez seja eu que sou uma bota-de-elástico, por ainda sonhar com o Peter Pan e a Terra do Nunca, onde não existem linhas rectas, mas vôos em espiral. Perdoem-me pelo desalinhamento.

Curiosamente, desde o dia em que vi materializada a sala que visitei em sonhos durante mais de 20 anos... nunca mais sonhei com ela.

Ao som de Pink Floyd,
Hazel

Mensagem numa Garrafa


Tenho um caderno velho que me acompanha sempre. É o meu caderno das ideias.
Escrevo muito lá, mas a maior parte dos meus gatafunhos nunca chega a sair do papel. Alguns, estão há anos entregues ao esquecimento, entalados entre a página anterior e a seguinte à espera de um dia ganharem vida ao serem lidos em voz alta.

No outro dia, levei o caderno para a praia, não fosse dar-se o caso de me surgir uma ideia luminosa como as tardes de Agosto e precisasse urgentemente de anotá-la antes que alguma nuvem trapaceira a levasse. Escrevinhei umas frases soltas, que me iam nascendo saltitantes e aleatórias como as pulgas-da-areia.

As ideias acabaram por fugir com a corrente para longe, e eu resolvi mergulhar no fundo do mar e reler os apontamentos que estavam para trás no meu caderno. Foi quando encontrei algo que um dia escrevi para mim, com o objectivo de ser uma espécie de mensagem numa garrafa, enviada pelos mares do tempo para o meu próprio futuro, caso um dia precisasse de um mapa de tesouro que me trouxesse de volta a mim mesma.

Dizia assim, a minha mensagem na garrafa:

O meu vazio é a minha sombra. Às vezes, tenho de me encontrar com ele.
Faz parte de mim também. Neste vazio, onde tudo cabe, posso ser tudo o que eu quiser. Posso fazer tudo o que eu quiser. Porque sou livre. Enfim, livre!
E, para ser feliz, preciso de salpicar este vazio com umas pitadas ocasionais de:

uma dose de aventura
mistério
riso
alegria
entusiasmo
comida saborosa
vinho tinto
cheiro de terra, árvores e plantas
vento morno
dançar
sonhar
verde, muito verde!
Sol
alongamentos
estudo e descobertas
viajar

Não precisa ser tudo ao mesmo tempo. Nem sei se aguentaria tanta felicidade. Pode ser um destes ingredientes de cada vez.

Quando estiver triste e me esquecer, basta-me vir aqui, e reler a minha mensagem na garrafa.

A velejar ao sabor do vento,
Hazel

Colaboração com programa de rádio

Lá do outro lado do oceano, no Brasil, existe um programa de rádio infantil chamado Vitrolinha da Rua, que tem o apoio da TV UFPB/TV BRASIL. 

Nesta rádio, contam-se histórias infantis, lendas, há trava-línguas, música, poesia e muita, muita magia. Este é um projecto inclusivo, desenvolvido a pensar nas crianças cegas.

Há algumas semanas, esta vossa escriba, que tem alma de Peter Pan, foi convidada para colaborar com a Vitrolinha, fazendo a narração de uma história infantil.

Sendo eu portuguesa, concebida, nascida e criada em Portugal, tive algum receio que a minha pronúncia talvez não fosse bem compreendida ou apreciada.

Mas o projecto é tão delicioso e cheio de amor, que resolvi mergulhar de corpo e alma... e o resultado desta união entre Portugal e Brasil não poderia ter sido mais divertido e encantador!

Partilho convosco o programa, com o título "A casa da bruxa", que pode ser escutado online, ou podem também fazer download e levar para ouvir no carro com os vossos gaiatos.

Quando ouvirem a pronúncia de Portugal (a partir do minuto 16)... já sabem quem é! grin emoticon



No espírito da Formiga-Rabiga,
Hazel