Projecto "Faz-te à Vida"


Tens de riscar pelo menos 50 itens antes de morrer. Cria o teu próprio projecto e faz-te à vida!


1. Ver a Aurora Boreal .......

2. Passear num balão ....... Feito

3. Enterrar um tesouro .......

4. Mergulhar no mar em pleno Inverno .......

5. Visitar um país de cultura não-ocidental .......

6. Dormir numa casa assombrada ....... Feito.

7. Fazer karting .......

8. Voar de asa-delta .......

9. Andar pela Muralha da China .......

10. Passar uma semana a meditar num mosteiro .......

11. Travar amizade com uma pessoa excêntrica ....... Feito.

12. Trocar um emprego estável por um que pague menos ....... Feito.

13. Ficar nu em frente a desconhecidos ....... Feito.

14. Praticar canoagem ....... Feito.

15. Comer um peixe pescado por mim .......

16. Montar um elefante .......

17. Ficar uma semana sem tomar banho ....... Benzam-me os deuses. Mas sim. Feito.

18. Dormir no carro ....... Feito.

19. Observar de perto baleias nadar....... Feito. No Oceanário de Lisboa.

20. Dar sangue ....... Feito.

21. Andar de trenó .......

22. Acampar num lugar deserto (deserto mesmo) .......

23. Fazer um discurso para mais de cem pessoas ....... Feito.

24. Beijar numa roda gigante .......

25. Apanhar um táxi e dizer "Siga aquele carro!" .......

26. Beijar alguém à chuva ....... Feito.

27. Ir jantar sozinho num restaurante ....... Feito.

28. Escalar uma montanha .......

29. Ir a um cinema drive-in .......

30. Comer num restaurante seis estrelas ....... Feito.

31. Andar de Jetski .......

32. Ver um iceberg de perto.......

33. Flutuar no mar morto .......

34. Fazer uma tatuagem ....... Feito.

35. Jogar Paint Ball .......

36. Fazer um retiro de silêncio .......

37. Ir a um blind-date .......

38. Escrever um livro ....... Escrito. Ainda não publicado.

39. Visitar o Oráculo de Delfos .......

40. Dormir numa casa construída sobre uma árvore .......

4. Ser figurante num filme ou programa de televisão ....... Feito.

42. Fazer um piquenique no meio da cidade .......

43. Tomar banho numa cascata ....... Feito.

44. Aprender a coreografia do "Thriller" ....... Já aprendi, já me esqueci.

45. Declamar poesia .......

46. Fazer um cruzeiro .......

47. Viajar de mochila às costas .......

48. Visitar o cockpit de um avião ....... Feito. Na Kidzania! Também vale.

49. Fazer voluntariado ....... Feito.

50. Visitar um vulcão activo .......

51. Dar um presente valioso a um desconhecido ....... Feito.

52. Ver a troca de guardas em Londres .......

53. Saltar num trampolim .......

54. Pertencer a uma sociedade secreta ....... Não posso dizer. É secreto. Shhh.

55. Fazer um desejo na Fontana di Trevi, em Roma .......

56. Nadar com golfinhos .......

57. Adoptar um animal de um abrigo ....... Feito. Não de um abrigo, mas da rua.

58. Fazer esgrima ....... Feito. Com espadas de esponja no Toys r'us.

59. Cantar num grande festival de música ....... Rezem para que essa catástrofe nunca aconteça.

60. Fazer surf .......

61. Atravessar um país dentro de um carro ....... Feito.

62. Dormir nu sob as estrelas ....... Deuses me guardem. Ainda vinha um bicharoco atrevido imiscuir-se onde não devia.

63. Assistir a um parto ....... Feito.

64. Desligar totalmente do mundo virtual (incluindo telemóvel) por uma semana ....... Feito

65. Subir a uma árvore ....... Feito.

66. Comer algo que não comeria de maneira alguma .......

67. Ver o nascer do Sol e o pôr do Sol no mesmo dia ....... 

68. Organizar uma festa surpresa ....... Feito.

69. Nadar sem roupa na presença de outras pessoas ....... Feito.

70. Ver o dia nascer na praia ....... Feito.

71. Beber absinto ....... Feito.

72. Sair de casa sem roupa interior ....... Feito.

73. Assistir a um fenómeno paranormal sem ter medo ....... Feito.

74. Viajar de uma cidade a outra de bicicleta ....... Feito. Até às traseiras do prédio.

75. Perseguir um tornado .......

76. Praticar uma arte marcial ....... Feito.

77. Fazer um boneco de neve .......

78. Ler mil livros ....... Feito. Mais de uma vez.

79. Conhecer o Presidente da República .......

80. Aprender a dançar salsa ....... Feito. Mas desastroso.

81. Andar de gôndola pelos canais de Veneza .......

82. Fazer uma viagem nocturna de comboio ....... Feito.

83. Esquiar na neve .......

84. Ordenhar uma vaca .......

85. Provar tequilla no México .......

86. Dançar uma noite inteira num baile da terceira idade .......

87. Passar o Ano Novo num lugar exótico......

88. Voar de helicóptero......

89. Fazer uma doação anónima...... Feito.

90. Subir à Torre Eiffel, em Paris....

91. Comer pizza Margherita, em Nápoles.....

92. Viajar sozinho para uma cidade distante ....... Feito.

93. Convidar um desconhecido para sair .......

94. Plantar uma árvore ....... Feito. Muitas.

95. Visitar um apiário .......

96. Visitar um orfanato ....... Feito.

97. Visitar o deserto do Sahara .......

98. Ir ao supermercado usando apenas roupão .......

99. Passar uma noite sozinha numa floresta .......

100. Pedir conselhos a uma criança ....... Feito. Ao meu filho. 


Hazel

Casimiro


Breve história em três tempos, para leitores ávidos e impacientes.

[Tempo um]
Casimiro era um homem de certa idade.
Tinha uma marreca notável.
Usava sempre um casaco grande.
Nunca casou, embora sonhasse com tal felicidade.
Não se lhe conheceu família.

[Tempo dois]
Um dia, Casimiro morreu.
Oh Casimiro.

[Tempo três]
Então, descobriu-se
que Casimiro não tinha marreca.
O que escondia dentro do casaco grande
eram asas de anjo.

Hazel

Sabes que és um (neo) Pagão quando


Santinho!
Se alguém espirra, não dizes "Santinho!" nem "Jesus!". Seria, no entanto, apropriado dizer "Sagrado Pentagrama!", o que faria as delícias de qualquer pagão constipado.

Pentagrama
Usas ou usaste um pentagrama ao peito. Se fores ousado, talvez o tenhas tatuado numa parte escandalosa e pudibunda do teu corpo.

Altar
Tens um altar pagão em casa, com velas, cristais, pauzinhos, folhas e frutas. Sabes o que é um athame, mesmo que não tenhas.

Vidas passadas
Claro que te recordas das tuas vidas passadas e claro que foste um poderoso mago ou sacerdotisa. Quem se atrever a duvidar disso, não merece ser teu amigo.

Magos versus Muggles
Para ti, existem dois tipos de pessoas no mundo: os que acreditam em Magia. E os cépticos / leigos / muggles, esses bambis ingénuos, desinformados do que verdadeiramente se passa no mundo.

Vertentes do Paganismo
Os que acreditam em Magia, classifica-los em vários subtipos de acordo com as diferentes correntes: Wicca, Druidismo, Stregheria, Helenismo, Xamanismo, Asatru, Dianismo, Odinismo e outros.

Varinha mágica
Tens uma varinha mágica — e não é de moer a sopa.

O Natal
O Natal cristão é um enfado para ti, ovelha negra e incompreendida da família, mas lá vais tolerando com a ajuda dos presentes e dos doces.

Abraçar árvores
Abraças árvores. As árvores são sagradas para ti.

Animal de poder
Tens um animal de poder, que pode ser uma pantera, um falcão, um urso ou qualquer outro de grande imponência. O que muito entristece outros elementos do reino animal, que se sentem rejeitados, como o gafanhoto, a louva-a-deus ou a formiga-de-asas. É uma injustiça.

Crenças
Acreditas em elementais, deuses, semideuses, seres desencarnados, atlantes, unicórnios, e até simpatizas com O Meu Pequeno Pónei.

Fases da Lua
Sabes sempre quando há Lua Cheia, e tens os teus rituais lunares que nem sempre fazes porque não há tempo, mas no-mês-que-vem-não-falha.

Festa sem parar
Sentes-te mais afortunado que os outros que só celebram o Natal e a Páscoa, enquanto tu tens, pelo menos, 8 (oito!) festas ao longo do ano sem contar com os Esbats, seu grande maganão!

Capa com capuz
Tens uma capa com capuz e sentes-te um autêntico Merlin (ou Viviane) quando a vestes. Se pudesses, usava-la até para ir comprar pão ao supermercado.

Viagens espirituais
As tuas viagens de sonho têm de incluir Stonehenge, Escandinávia ou o Oráculo de Delfos (acuso-me!). Se não tiveres dinheiro para ir a Stonehenge, vais ali aos Almendres, e já é bem bom!

Nudez
Se és pagão, já celebraste, pelo menos, um ritual vestido de céu. Com ou sem companhia.

Um Deus com cornos
Acreditas num Deus Cornífero e sabes que ser cornífero não é vergonha nenhuma lá nas instâncias celestiais porque não significa que a Deusa tenha andado a pular a cerca.

Natureza
De bom grado trocas uma ida ao shopping por uma tarde no bosque (a não ser que os cristais estejam em saldos na loja esotérica que fica ali ao lado da Zara).

Livro das Sombras
Tens um Livro das Sombras que mais ninguém pode ver (Mas também, quem é que quer ver? Ninguém quer saber.).

Poderes
Acreditas que tens super poderes (o meu, por exemplo, é mexer as orelhas).

Música
Gostas de Lorena McKennitt, Omnia, Daemonia Nymphe, Dead Can Dance, Luar na Lubre, Wardruna. Roberto Leal faz-te sangrar dos ouvidos.

Outros pagãos
Reconheces logo quando encontras outro pagão.

Sinais do Universo
Acreditas em sinais do Universo, que está sempre a comunicar contigo-e-só-contigo, porque a tua missão de vida é a mais importante de todas.

Estações do ano
Celebras as mudanças de estação do ano, enquanto os outros não. A-ha!

Podes (quase) tudo
Não existem pecados, mandamentos, Diabo ou Inferno para ti. É um regabofe pegado, apostam os católicos, enquanto dão por si a transgredir o 10º mandamento.

Politeísmo
És politeísta e tens um deus ou uma deusa preferida que é quase uma espécie de teu alter ego. Seu vaidoso.

Reconhecimento de almas
Quando gostas de alguém, é porque já estiveram juntos em vidas passadas. E quando não gostas, também estiveram juntos — mas nesse caso o/a sacana lixou-te.

Nome mágico
Tens um nome mágico. Que pode, ou não, ser secreto.

Fazer amor
Se és pagão, tens de fazer amor na Natureza. Mesmo correndo o risco de apanhar carraças atrás das orelhas.


Não gostas que te contradigam ou que façam graçolas em relação às tuas crenças.

Esta escriba bem sabe que está a arriscar a pele e, em sua defesa, invoca a Lei tríplice, traça o sagrado pentagrama e implora por clemência fazendo-se rodear de um círculo de sal grosso e uma vela acesa em cada quadrante. Benza-me a Deusa!

Esta escriba é também neopagã, helénica de coração, druida de vivência. Com um sentido de humor algo insolente que deverás perdoar quando abraçares uma árvore e transmutares a energia negativa em positiva. Que assim seja. Que assim se faça.

A correr pela floresta descalça até ao pescoço,

Hazel

Comer em Silêncio


O silêncio, observado por comunidades religiosas no mundo inteiro, tem por finalidade concentrar toda a atenção no acto da alimentação, sem dispersão de energia.

Assim, a digestão requer uma menor actividade na área do plexo solar, tendo como resultado uma considerável economia energética e nervosa de que os exercícios contemplativos e meditativos precisam para que sejam genuinamente frutíferos.

Shhh,

Hazel
Foto: worak, licença CC2.0

O Breviário do Homem: tudo o que se espera de um macho man


Se és homem, vais emocionar-te por finalmente alguém do sexo oposto reconhecer as exigências que se esperam de ti desde que o biberão deu lugar à garrafa de cerveja. Porém, não verterás uma lágrima. Porque acreditaste quando alguém te disse que "os homens não choram".

Em casa
Tens de sacrificar espaço no roupeiro. Quando digo espaço, refiro-me a muito espaço. O ideal é que coloques as tuas camisas todas num só cabide e cedas todo o resto do roupeiro. 
Quando aparecem baratas, aranhas, centopeias ou cobras-cascavel em casa, és tu que resolves. E, porque és homem, não podes ter medo — medo, que é lá isso? 
És tu que tratas das tarefas domésticas nojentas, como desentupir o sifão da cozinha (ou a sanita, abençoado). Além disso, também tens de saber reparar torneiras que pingam, trocar o silicone bolorento da banheira e fazer puxadas de electricidade.

Carros
Consegues estacionar à primeira em lugares impossíveis. Com uma mão no volante.
Não necessitas de GPS; tu és o GPS. Sabes sempre o caminho e nunca te perdes nem precisas de parar para pedir direcções. Espera-se também, sempre que necessário, que saibas mudar e calibrar pneus, verificar o óleo e percebas de mecânica — no mínimo. 

Com as mulheres
Tens de defender a honra da tua mulher (mesmo que ela tenha uns bíceps iguais aos do Salgueiro), estando sempre pronto para andar à porrada, independentemente do outro tipo — o prevaricador — ser um latagão de dois metros e tu não chegares ao metro e sessenta. 
Abdicas sem pestanejar do teu casaco se ela estiver com frio, mesmo que tenha 3 camisolas polares, e tu fiques com uma pneumonia a seguir. Homem que é homem, não tem frio. Arrr!
Tens de ceder passagem às mulheres todas, feministas incluídas (aguenta).

Personalidade
Não podes chorar. Tens de ser corajoso, seguro de ti, independente, protector e forte como o Tarzan Taborda. És tu que carregas as compras, a bilha do gás e tudo o que for pesado; além de abrires frascos. Tens de saber fazer fogueiras. E perceber de futebol. E de tudo em geral.
É também sensato que desenvolvas capacidades telepáticas; vai facilitar muito na relação com o sexo oposto. Por exemplo:

— O que tens, minha biscoitinha linda? — tu para ela.
— Nada — responde ela, secamente, com a cara número vinte sete. Tu aí sabes que "nada" é tudo. E tens de te safar a ler pensamentos.

Arriscar a vida
Atiras-te de peito para a frente, sempre pronto para arriscar a vida. Se houver um barulho esquisito a meio da noite, és tu quem se levanta. Se houver uma guerra, vais tu primeiro. Animais ferozes, metes-te à frente para proteger a tua mulher. Catástrofes naturais — calma!, onde é que vais com tanta pressa? Nesse caso, vão as mulheres, as crianças e os idosos à frente. Tu és o último a ser resgatado. Desculpa aí, macho man. 😃

[Escrito para me redimir desta crónica sobre os homens. Embora, se calhar fiz pior!]

Às voltas com a tampa de um frasco,

Hazel

As gordas e as magras


Com excepção daquelas sacanas d'um raio que não são magras nem gordas, todas as mulheres vão compreender:

Barriga
Se és gorda e tens barriga, ficam na dúvida se é por seres gorda ou se estás grávida.
Se és magra e tens barriga, têm a certeza que estás grávida, mesmo que seja de uma feijoada.

Críticas
Se és gorda, criticam-te porque és gorda.
Se és magra, criticam-te porque és magra.

Roupas que não te servem
Se és gorda, vais ter sempre aquelas roupas que te ficam justas e por isso se fazem sentir desconfortável, que guardas na esperança de vir a emagrecer um dia.

Se és magra, vais ter sempre aquelas roupas que te ficam largas e por isso se fazem sentir desconfortável, que guardas na esperança de vir a engordar um dia.

As de tamanho diferente
Se és gorda, achas que as magras não te compreendem verdadeiramente.
Se és magra, achas que as gordas não te compreendem verdadeiramente.

Sonhos
Se és gorda, gostavas de ser mais magra. Mais do que ter uma casa com piscina.
Se és magra, gostavas de ser mais gorda. Mais do que ter uma casa com piscina.

Pijama
Se és gorda, achas que ficas mal de pijama.
Se és magra, achas que ficas mal de pijama.

Mas quem é que alguma vez fica bem de pijama, com excepção, talvez, das sacanas d'um raio que não são magras nem gordas?

Como se referem a ti
Se és gorda, estás habituada que se refiram a ti como aquela que é forte. Ou mesmo a gorda
E acham sempre que és mais velha do que és.

Se és magra, estás habituada que se refiram a ti como aquela magrinha. Ou a magricelas
E acham sempre que és mais nova do que és (não, nem sempre isso é uma vantagem).

Os olhares das outras
Se és gorda e uma magra olha para ti, julgas que te está a criticar.
Se és magra e uma gorda olha para ti, julgas que te está a criticar.

Às vezes não está. Só está a olhar para ti porque estás ali. Porque existes.

Novamente, as roupas
Se és gorda, tentas sempre escolher roupas que te façam parecer mais magra.
Se és magra, tentas sempre escolher roupas que te façam parecer mais gorda.

Os nomes que já te chamaram
Se és gorda, já te chamaram nomes que ainda hoje magoam quando te lembras.
Se és magra, já te chamaram nomes que ainda hoje magoam quando te lembras.

Planos nunca concretizados
Se és gorda, já ouviste milhões de vezes - sem contar com aquelas que foste tu a dizê-lo a ti mesma - "tens que emagrecer".

Se és magra, já ouviste milhões de vezes - sem contar com aquelas que foste tu a dizê-lo a ti mesma - "tens que engordar".

Elogios
Se és gorda, já ganhaste o dia quando alguém comenta: "Estás mais magra!" 
Até pode estar tudo a correr mal, mas tu estás mais magra. Viva!

Se és magra, já ganhaste o dia quando alguém comenta: "Estás mais gorda!" 
Até pode estar tudo a correr mal, mas tu estás mais gorda. Viva!


Escrito por uma mulher magra que espera que um dia todas as mulheres se amem, respeitem e aceitem a si próprias e umas às outras exactamente como são. 

Porque as gordas são iguais às magras. E as magras às gordas. 
E gordas e magras são iguais às sacanas d'um raio que não são gordas nem magras.

Com amor, para todas as mulheres,

Hazel

O Ladrão de Estrelas


Esta tarde de Domingo, um ladrão de estrelas esgueirou-se silenciosamente pelas escadas do meu prédio, matreiro e rasteirinho ao chão como um gato vadio quando avista a presa, e roubou a estrela que esteve durante muitos meses pendurada na minha porta de entrada.

Oh Senhor Ladrão de Estrelas, porque fez isso? 

A minha porta, que é uma porta sensível, está inconsolável, despida, solitária. Era apenas uma simples estrela, como as que se penduram nas árvores de Natal; não era valiosa - mas era nossa.
Para consolo da minha porta que chora lágrimas de orvalho, assegurei-lhe que irei fazer uma nova estrela para ser sua amiga e confidente.

Cuide com amor a estrela que levou sem pedir permissão. Que ela o guie no caminho para a felicidade (entendo que não seja feliz, caso contrário, porque necessitaria de surripiar uma estrela indefesa, alheia?).

Quando - e se - encontrar a sua própria luz, por favor, devolva a nossa estrela.

Um pouco triste,

Hazel

P.S. - Seja antes um Ladrão de Beijos. 
Deve ser mais emocionante roubar beijos que estrelas. 

Sabes que és de Carcavelos quando


Só quem é de Carcavelos para entender.

A5
Sais nas portagens da A5 em S. Domingos de Rana e quando fazes a curva do Stand J. Iglésias (se fores mesmo de Carcavelos, sabes que o 'J' não é de Júlio, mas de José), respiras fundo e relaxas porque já te sentes em casa.

"Banco dos Pich@s Murchas"
Recordas-te dos bancos de pedra - e das palmeiras - no Largo de S. Domingos de Rana para os velhinhos se sentarem, onde um dia um engraçadinho qualquer se lembrou de escrever a graffiti: "Banco dos Pichas Murchas" (desculpem a citação!). Ainda te ris disso. Não se faz; é errado, muito errado, hum (ainda mais agora, com o Viagra)?

Marginal e praias ao fim-de-semana
Esquece. Se fores a casa de alguém, vais sempre "por dentro". Evitas a Marginal e a praia nos fins-de-semana à tarde porque estão lá todos os habitantes da linha de Sintra, que são 377.835 e vêm sempre nervosos por causa do trânsito.

Habitantes
Carcavelos tem 23.437 habitantes e todos se conhecem, pelo menos, de vista.

Feira de Carcavelos
Às quintas-feiras de manhã já sabes que há sempre confusão e carros estacionados por todo o lado à volta do recinto da feira de Carcavelos - que deixou de ser o local de trabalho predilecto dos carteiristas desde que a Polícia passou a estar presente. Entretanto, o contrabando reduziu substancialmente - não se pode ter tudo, ora.

Redes sociais
Sabes que a rede social mais antiga que existiu foram os tanques da Rebelva e os cafés de bairro. O facebook é um bebé ao pé da velocidade com que aquelas senhoras faziam circular informação, tão fidedigna quanto as notícias do 'Inimigo Público'.

Vinho de Carcavelos
Sentes orgulho pelo Vinho de Carcavelos, de tradição secular e reconhecido internacionalmente, e não te conformas por ter mudado o nome para Villa Oeiras. Bolas!

Noites de Verão
Ninguém dorme durante o Verão com a música dos arraiais dos santos populares, maçada que se suporta alegremente enquanto se petiscam umas sardinhas assadas na brasa acompanhadas por um copito de sangria. Chateia mais aturar os adolescentes imberbes que estão de férias e se juntam na rua a fazer barulho até raiarem os primeiros alvores - mas no dia seguinte o Sol é esplendoroso e esquece-se tudo.

Cleópatra de Carcavelos
Provavelmente, já viste a funcionária dos Correios de Carcavelos (que agora funcionam na Rebelva), que é a reencarnação da Cleópatra, com um cabelo negro como a noite, liso e espelhado como a superfície do Nilo e mitologicamente saudável e brilhante. A senhora é realmente enigmática, uma personagem que escapou dos livros e foi ali parar por acidente.  

Quinta dos Ingleses
A tua mãe avisava-te para não passares pela mata da Quinta dos Ingleses, como se fosses encontrar ali o lobo mau. Ias sempre pela estrada. Aquilo não era para brincadeiras. Mesmo.

Calado
Sabes quem é o Professor Calado. Se calhar, preferias não saber. Haha!

Passarada
É normal que tenhas gaivotas a sobrevoar a tua rua. Se moras na Rebelva, estás habituado ao canto esganiçado (grito talvez seja mais adequado) dos pavões. Por toda a freguesia, voam melros, pardais, pombos e rolas. E algures, ninguém sabe bem onde, há sempre um galo que não falha o nascer do dia. Todos o ouvimos, estejamos onde estivermos.

Barcos na cama
Sabes quando está nevoeiro mesmo antes de te levantares porque consegues ouvir as buzinas de nevoeiro dos barcos como se eles estivessem a navegar junto à tua cama. OOOMMM!

Plim! 
Ainda te lembras do Plim, o centro comercial alternativo, meio punk, meio underground, onde o fumo de tabaco e de outras substâncias era tanto que não conseguias ver um palmo à frente do nariz. Ainda existe, agora sem fumo, com cabeleireiros afro, lojas de tatuagens e piercings, de instrumentos musicais, esotéricas e de indianos que reparam telemóveis. Colado ali mesmo ao lado, está o Centro Comercial de Carcavelos, com o cinema Atlântida Cine, que funciona há mais de 30 anos - embora nunca te lembres de lá ir.

Betinhos da linha
És visto como um betinho, mesmo que tenhas usado calças "Leve's" compradas na feira de Carcavelos durante a adolescência.

Droga
Lembras-te que os foguetes lançados à noite não eram para anunciar festas, mas para avisar que tinha acabado de chegar a droga às Marianas - que hoje já não existem.

Carteiros
Não costumas reparar, mas todos os carteiros em Carcavelos são simpáticos, reflexo da atitude afável, educada e voluntariosa da grande maioria dos habitantes. Não existem carteiros antipáticos nesta freguesia.

Legrand
Sabes que a Legrand se chamava SIPE antes de ter sido comprada pelos franceses.

Não há piropos
É verdade. Os homens já não mandam piropos às mulheres em Carcavelos. Isso era antigamente. Hoje, se tal acontecer, é porque eles não são de cá (também pode haver a hipótese de eu já estar fora de prazo para receber piropos; nesse caso, desconsiderem este item).

Feira de tralhas em segunda mão
Sabes que à quarta-feira de manhã existe mercado no Centro Comunitário de Carcavelos, onde podes comprar roupa, livros, brinquedos, bricabraque e todo o tipo de cangalhada engraçada por valores simbólicos. Sabes também que tens de ir cedo para apanhar as melhores pechinchas.

Trânsito Zen
Estás habituado a conduzir pacatamente e com respeito pelos outros automobilistas em Carcavelos. É assim que se conduz aqui, mas não podes fazer o mesmo em Lisboa, senão és fustigado, insultado, cilindrado e talvez até mesmo esbofeteado.

O Crocodilo da Alagoa
Existe um crocodilo de pedra em tamanho real no fundo do lago da Quinta da Alagoa, mas só o viste se fores um dos habitantes mais antigos.

O Pitrolino
Aliás, se fores mesmo muito antigo, até te lembras do "Pitrolino", o simpático senhor que tinha uma mercearia inteira enfiada dentro de uma carrinha e parava em todas as ruas para as donas-de-casa fazerem as suas compras, antes do surgimento das grandes superfícies comerciais. Não tinha caixa registadora, as contas eram feitas num bloco de papel às riscas verdes e brancas.

Gatos
Se fores um gato esperto, vens viver para Carcavelos. Aqui safas-te com as taças de comida que há sempre escondidas nos cantinhos e no meio dos arbustos junto aos prédios, para os bichanos que vivem na rua.

Casas assombradas
Já ouviste várias histórias de casas e apartamentos assombrados onde ninguém consegue morar, todas contadas por alguém-que-conhece-alguém-que-conhece-alguém-que-conhece-o-dono.

Biblioteca Itinerante
Havia também a carrinha da Biblioteca Itinerante, mas dessa já só eu me devo lembrar, pois era a única leitora que ia requisitar livros, e acabaram por deixar de circular na minha rua porque não compensava. Snif.

Santini
Estás radiante por ter o Santini ao pé de casa. Viva! Agora sim, tens a certeza que moras no melhor lugar do mundo (não fui paga para escrever isto, embora, se os senhores do Santini quiserem, aceito agradecimentos em forma de bolas de gelado e crepes, e até alinho em provar todos os sabores e em dar a minha opinião - tudo pelo bem da freguesia, claro está!).

Por muitos lugares bonitos que conheças, se és de Carcavelos, é sempre a Carcavelos que regressas.

Ah Carcavelos. 💗

Hazel

O Cu dos Portugueses

Um cu infiltrado nos azulejos da minha cozinha

Os portugueses são o povo que mais expressões possui relacionadas com o cu. Deve ser por uma questão geográfica, afinal estamos no cu da Europa, e o cu torna-se fonte de inspiração, sendo usado para exemplificar todo o tipo de emoções.

Anotei a lápis no caderno-onde-escrevo-tudo as expressões sobre o cu de que me lembrei e - feita cagarolas - nunca cheguei a publicá-las. Andei com o texto do cu para cá e para lá, indecisa se publicaria ou não, acanhada (ou acunhada, permitam-me o neologismo) com receio que alguém pudesse ofender-se por ver aqui escrita a palavra c-u. Bem-entendido, qualquer assunto sobre o qual se escreva pode e vai sempre ofender alguém; isso é tão certo como o risco que separa a nádega esquerda da direita.

Em defesa do cu, porque há-de ele ser menos digno que o nariz, os cotovelos ou os dedinhos dos pés? Existe, logo merece que se escreva sobre ele sem lhe chamarmos "rabo", o termo educado que se usa para-não-parecer-mal - e que nos faz subitamente nascer uma cauda.

Ora, devo advertir, caso ninguém tenha
ainda notado, que a palavra cu se vai 
repetir inúmeras vezes ao longo deste post


Aqueles que se escandalizarem com tão pequeno, porém, não menos digno vocábulo é favor colocarem as mãos nas vossas costas e irem descendo devagar, devagarinho. Antes de chegarem às pernas, existe ali uma zona fronteiriça que é geralmente fofinha e exala odores insuportáveis de vez em quando. É o vosso cu! Também conhecido por nádegas, nalgas, bufunfo, traseiro. Agora que descobriram essa terra-de-ninguém, assumam a sua existência. 😃

O cu dos portugueses está na boca de todos, de Norte-a-Sul-e-Ilhas, e tenho a certeza que as expressões com o cu não se ficam por aqui:

De cu alçado.
Preparado para.

Andar de cu tremido.
Ir de carro.

Nascer com o cu virado para a Lua/com a Lua no cu.
Ter sorte.

Querer o cu lavado com água de malvas.
Querer tudo feito sem ter trabalho.

Ser um cu de sono.
Ser dorminhoco.

Cara de cu!
Insulto moderado, usado em tom de brincadeira.

Estar de cu apertado.
Estar preocupado, aflito.

Encher o cu.
Comer muito.

A mesma coisa é pôr dois dedos no cu e cheirar; cheira-se um, cheira-se outro, e é a mesma coisa.
Para explicar quando duas coisas são realmente iguais, e não parecidas.

Ficar com o cu na cama.
Ficar a dormir.

Não levantar o cu para fazer nada.
Ser preguiçoso.

Dar o cu e oito tostões.
Querer muito.

Custou o olho do cu.
Foi caro.

Não valer um cu.
Não ter qualquer valor.

Se não é do cu é das calças.
Se não é disto, é daquilo.

O que é que o cu tem a ver com as calças?
O que tem uma coisa que ver com a outra?

Quem tem cu tem medo.
Todos têm medo.

Roçar o cu pelas paredes.
Não fazer nada.

Cair de cu.
Cair em si.

Com o fogo no cu.
Com pressa.

Parece que saiu do cu do burro.
Tem a roupa amarrotada.

Lambe-cus.
Graxista.

No cu de Judas.
Muito longe.

Mete-o no cu!
Quando, numa zanga, não queremos saber de algo sobre o qual outra pessoa se está a gabar.

Contar com o ovo no cu da galinha.
Ter algo como garantido.

Não há cu que aguente.
Não há paciência.

Não tem cu para as calças.
Pessoa muito magra.

Não lhe cabe um feijão/uma palhinha no cu.
Está muito contente.

Tem pernas até ao cu.
Pessoa muito alta.

Quando mais uma pessoa se agacha, mais o cu se lhe aparece.
Quanto mais uma pessoa permite uma situação injusta, pior ela fica.

Pimenta no cu dos outros é refresco.
Focar-se em si mesmo sem querer saber dos outros.

És mesmo cu aberto.
Pessoa que fala demais.

Andar de cu para o ar à procura de.
Para dar ênfase ao esforço e tempo despendidos a procurar algo.

Cu-cu!
Quando estávamos escondidos e nos revelamos a alguém. A sério: Cu-cu. Só em Portugal. 

Vira cu.
Cambalhota.

Óculos cu de garrafa.
Óculos com lentes muito grossas.

Acordar de cu para o ar/ com o cu de fora.
Acordar mal-disposto.

Deram-lhe água de cu lavado.
Está enfeitiçado.

A cara de um é o cu do outro.
Quando queremos dizer que duas pessoas não são parecidas.

Andar com o cu num guilho.
Estar com medo/assustado.

É o teu cu!
Quando se repele um insulto para quem o proferiu.

O cu está em todo o lado. Mesmo. No outro dia, estava sentada sobre o meu e, quando olhei em volta, vi-me rodeada de cus, cus por todo o lado, cus à volta de toda a minha cozinha. Disfarçados de pêssegos, mas tenho a certeza que são cus (regressem à foto no topo deste post e confirmem!):


Se alguém desejar contribuir com mais expressões sobre o cu, não se acunhe em partilhar.

Sentada sobre o meu,

Hazel

Plano de fuga da loiça por lavar


Quando me distraio, perco-me dentro de mim. A última vez que tal aconteceu, foi enquanto lavava a loiça. Abençoada distracção, que me salvou dos restos de molho de tomate ressequido colado no fundo do tacho. Enquanto as minhas mãos, lá longe, esfregavam com o lado verde da esponja em movimentos circulares que corriam contra o sentido dos ponteiros do relógio, o resto de mim caminhava de pés nus por um longo corredor cheio de portas dos dois lados.

Todas entreabertas, à espera que eu escolhesse uma para entrar. Talvez noutra ocasião.
O corredor parecia estender-se infinitamente à minha frente. Uma passadeira de cor verde-seco crescia e serpenteava como uma língua de musgo fofo, abafando o som dos meus passos.

Subiam trepadeiras como braços que ondulavam e beijavam em silêncio as paredes antigas.
O ar quase se liquefazia, fresco, húmido e doce como a manhã a nascer junto de uma fonte de água corrente. Suspensos no tecto, os candelabros cintilavam como silfos luminosos.

Não queria que aquele corredor acabasse e, ao mesmo tempo, ansiava por descobrir que deslumbres encontraria no fim. Sobre a minha cabeça voavam passarinhos pequenos e coloridos, que me acompanhavam em bando e uma coruja branca, que pousou no meu ombro e falou:
- Então, não fechas a torneira?
- Então, não fechas a torneira?
- Então, não fechas a torneira?

Surpreendida com a inesperada pergunta, virei o rosto, e era o meu filho com o pano da loiça aos quadradinhos à espera que eu acabasse de passar o tacho por água.

Hazel
foto: Peter Oswald, licença CC0

O que querem as mulheres?


Ao longo de séculos, as mulheres lutaram ferozmente para ter o direito de usar calças, fumar, tomar a pílula anticoncepcional, trabalhar fora de casa, ser promovidas nas empresas, votar, entrar no mundo da política, ter poder de decisão.

Queimaram soutiens, andaram à tareia, insultaram e foram insultadas.
E conseguiram - nos países considerados civilizados, bem-entendido.

As mulheres quiseram poder fazer tudo o que os homens fazem e, de preferência, de forma mais criativa e arrojada. Quiseram mostrar-se mais capacitadas, melhores que os homens em todos os aspectos, num compreensível exercício eufórico de liberdade com retroactivos, para compensar séculos de opressão patriarcal.

Ainda que haja aprimoramentos a fazer, a igualdade foi conquistada.
O rótulo do sexo fraco foi arrancado com revolta e despedaçado.

Excepto quando uma porta se abre. Nesse caso, os homens continuam a ceder passagem às mulheres para que estas entrem primeiro. Somos iguais, mas vocês, os portadores penianos, entram a seguir. Tomem.

Ou, se houver poucos lugares sentados, são os homens que continuam a ter de prescindir do conforto em prol das mulheres, mesmo que estas não sejam idosas, grávidas ou tragam uma criança de colo. Também em caso de catástrofe, são as mulheres as primeiras a ser resgatadas.


Os homens já não sabem o que fazer connosco. Estão confusos.
Afinal, o que queremos nós?


Não posso responder pelas outras. Falando apenas em meu nome, quero poder usar calças, votar, ter poder de decisão, trabalhar fora de casa, ser promovida.

Continuo a usar soutien em declarado e empinado protesto contra a lei da gravidade.
Quero também ser salva primeiro em caso de catástrofe. E entrar à frente nos edifícios, especialmente se for para ir às Finanças, que está sempre uma grande fila para tirar senha.

Se ninguém se importar nem levar a mal, eu quero tudo.

Desculpem, homens!

Hazel

Procura-se aranha viajante


CENTRO DE EMPREGO DAS ARANHAS
Anúncio afixado na Delegação da Sala - Canto da Parede Junto à Janela

Procuro:
Aranha aventureira e leal, com total disponibilidade para viajar curtas distâncias.

Ofereço:
Estadia no espelho lateral esquerdo do meu carro, música de boa qualidade (tenho sempre um duplo álbum dos The Doors no porta-luvas e, ocasionalmente, também lá canta o Bryan Ferry) e alimentação diversificada consoante o tipo de fauna que esvoaça nas localidades onde nos iremos deslocar.

Funções:
Deverá conhecer todos os meus caminhos, desvios e atalhos; saber guiar-me nas encruzilhadas e antever engarrafamentos. São valorizadas capacidades de orientação a estacionar em lugares apertados. Terá de suportar com heróica bravura ouvir-me cantar quando viajarmos sozinhas (os ouvidos humanos não possuem, lamentavelmente, imunidade para a minha voz).

Desafios da profissão:
Não poderá enjoar nas viagens de automóvel, nem ter propensão a ficar com a garganta inflamada devido às correntes de ar (é permitido usar cachecol, mas não muito comprido - vd. o caso da bailarina irlandesa Isadora Duncan).

Terá de ser resistente e musculada, com uma capacidade de sobrevivência superior à da sua antecessora, a minha saudosa companheira que era um autêntico sidecar aracnídeo, mas, infelizmente, não sobreviveu na última ida à lavagem automática (o risco é moderado, pois apenas lavo o carro uma, ou, no máximo, duas vezes por ano - e este ano já foi lavado).

Lidará diplomaticamente com comentários desmotivadores ocasionais, de pessoas que não compreendem os perigos, a emoção e o valor da profissão de aranha-viajante, que poderão por vezes viajar comigo e exclamar algo como: "Que nojo, já viste a teia-de-aranha que tens aí no espelho? Tens de limpar isso, dá mau aspecto."

Compreenderá sem ressentimentos que seremos amigas íntimas, porém, sem qualquer contacto físico. Viveremos uma relação platónica, embora de grande fidelidade.

Regalias:
Comprometo-me a não danificar as instalações aracnídeas, vulgo, teia-de-aranha.

É permitido constituir família, desde que as crias se mantenham na teia e não andem a fazer sapateado no interior do carro.

Será autorizada a dizer adeus às outras aranhas que viajam nos espelhos dos outros carros, conversar com elas quando pararmos na fila de trânsito e ter uma vida social preenchedora.

O meu carro é um carro onde se canta. Assim, a aranha que me acompanhar terá permissão para cantar os clássicos das viagens de autocarro, como "Aguarrás, aguarrás..." e outros êxitos semelhantes.

O vernáculo é permitido, aliás, dentro do meu veículo é considerado 'terminologia técnica' à qual se recorre, seja para fazer referência à condução alheia, seja para fins terapêuticos de alívio da tensão emocional.

Perfil:
A aranha que viajar comigo será mais que um mero co-piloto. Será uma companheira de aventuras, uma amiga, uma conselheira, um oráculo animal, e terá da minha parte toda a consideração e reverência dignos do mais nobre e fino corcel.

Poderão enviar por email os vossos curricula com nome, cartas de referência provenientes de outras aranhas mais experientes e indicação dos três últimos espelhos de carro onde viajaram.

Expectante das vossas respostas,
Uma viajante solitária,

Hazel
Foto: Efraimstochter, licença CC0