A Grande Poda de Domingo à Tarde

Uma breve e inocente crónica sobre os prazeres da jardinagem.




FUI VIRGEM DE PODA durante muitos anos —, até há bem pouco tempo. 

Fiquei de tal modo surpreendida quando descobri os deleites da poda que agora a poda não me sai da cabeça. Dedico-me à poda de duas semanas em duas semanas. Parece pouco, mas afianço-vos: quando limpo o suor da testa no fim da poda, nem quero pensar em poda tão cedo. 

Sempre achei que a poda seria algo que se fizesse devagarinho, com delicadeza, parando de vez em quando para mudar de posição, ora de pé, ora de joelhos, ora apoiado só nos dedinhos-dos-pés. 

Foi com esta ideia ingénua e romântica que me preparei para a minha primeira poda. Prendi o cabelo, respirei fundo e decidi começar de pé. Logo passaria para outras posições consoante fosse ficando cansada ou me achasse já satisfeita. 

Confiante, agarrei o instrumento com ambas as mãos  — porque era grande — e movi-o delicadamente. Mas nada aconteceu. 

Querem lá ver que o instrumento está estragado?, pensei. 

Afinal não estava. Eu é que tinha falta de jeito para a poda, pois nunca tinha experimentado. 

Segurei-o com mais força, percebendo com espanto que afinal a poda nada tem de idílico ou de relaxante. Vá-se lá saber, a poda é uma actividade bruta. Requer destreza, preceito, agressividade. Para uma poda bem feita é preciso fazer movimentos firmes e secos. Diria mais, violentos, como se estivéssemos com ganas de amputar um membro a alguém. 

Quando a poda acabou, fiquei cheia de marcas no corpo. Valha-me Deus. Que poda. Foi então que esta vossa escriba tomou conhecimento de quatro grandes verdades sobre a jardinagem:

Verdade número 1: As buganvílias têm picos;

Verdade número 2: As buganvílias crescem que se farta;

Verdade número 3: As buganvílias grandes têm que ser podadas de duas em duas semanas;

Verdade número 4: O fado das tesouras de poda é que não podem ser manuseadas com mãos de fada. As maganas só podam se forem abertas-e-fechadas violentamente, como se quiséssemos matar alguém.

Se o leitor sentir os ânimos frouxos, falta de entusiasmo pela vida, ou moleza generalizada, poderá colher grandes benefícios se se dedicar à poda. 

Quem de tudo isto achar uma alarvice, que faça também a fineza de dirigir-se à poda e por lá permanecer.

E o mui nobre e condescendente leitor que abana a cabeça em apoquentamento,"Hazel, que vem a ser isto? Não podes escrever sobre a poda!"? A poda é o alegre e viçoso destino para onde recomendo que se desloque sem mais delongas.

Aquele que se ocupa da poda manual, sem assistência de equipamentos eléctricos, certamente estará solidário comigo. E se não estiver, que se dedique mais à poda para saber aquilo que a poda é.

No fundo, vão todos à poda. E eu vou também. Mas agora só daqui a duas semanas.

No fim da poda,

Hazel







Pureza e Sabão-Azul-e-Branco


É NECESSÁRIO PUREZA. Céu limpo e a certeza no amanhã azul e leve. Oxigénio. Ar puro. O canto das aves. O sorriso dos bebés. A inocência. A fé. O sagrado. A paz. Harmonia. O vento fresco e lúcido da manhã. Delicadeza. Calmaria. Serenidade.

O ritmo cadenciado das marés. O borbulhar da água salgada. O embalo dos braços da mãe. Silêncio. Luz. As estrelas, os sonhos e os desejos lançados num dente de leão. A pena que flutua no ar. Floresta virgem. Gotas de orvalho. A doçura das fadas. Pés descalços na terra aquecida pelo Sol. 

A simplicidade do copo de água que sacia a sede. Descansar. Regenerar. Equilíbrio nos pratos da balança. Espigas de trigo douradas nos campos. Um raio de Sol por entre as folhas. O nascer do dia. O regresso das andorinhas.

Levitar. Imaginar. Sorrir. Crescer. Viver. Chegar a casa. O sono solto. Roupa acabada de lavar. Todas as cores do céu. O reflexo do arco-íris numa poça de água. Chuva doce pela madrugada. Os cabelos livres. Coração limpo. Ramos de alecrim perfumado. A justa medida. O deslizar da caneta no papel. 

Saquinhos de alfazema nas gavetas. Paredes caiadas de branco. A sineta das bicicletas. Banquinhos de jardim. Crianças a caminho da escola. Avós que contam histórias. A eterna infância. Aprender. Perceber. Criar. Pomares repletos de maçãs. 

A linha do horizonte. Mapas de tesouro. Caminhar. Saber. Escrever poesia. Água da fonte. Conchas da praia. Sabonetes. Bondade. Floreiras penduradas nas varandas. Estender os braços. Mergulhar e voar. Ser. Existir. Inteiro. 

Tudo isto é extremamente necessário.

Hazel
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Procuram-se Rebeldes em 2021


APESAR DOS AUGÚRIOS dos profetas-do-fim-dos-tempos que nos despertam aquele irresistível medo fascinado (ou fascínio amedrontado) capaz de fazer eriçar os pelinhos nos braços e no pescoço, terei de vos desiludir: 

Ainda não será em 2021 o fim da Humanidade. 

Se falhasse esta previsão também não estaria cá para ouvir reclamações, podeis afirmar, e com razão. Mas a verdade é que ainda vamos ter que nos aturar uns aos outros por muito tempo. E que bom é. 

Quem está vivo, a lidar com os problemas que tem, e a antecipar os que não tem através da fina arte masoquista da preocupação, está cheio de sorte.

O virar de página nos nossos calendários trar-nos-á, contudo, um ano de contra-sensos:

Estaremos gratos por estar vivos, mas em vez de sentirmos alívio pela superação da pandemia e das crises pessoais e colectivas, estar vivo parece ser causa da fonte de preocupações que nos provoca medo de viver.

PREVALECERÁ O MEDO (do Corona e de outras variações que surgirão entretanto), o medo de tomar decisões, o medo de gastar dinheiro que poderá mais tarde fazer falta, o medo de viajar, o medo do desconhecido, o medo do medo. 

O estado de sobressalto que transportamos de 2020 programou-nos a estar à espera do pior. Como se, se o pior viesse, fosse até um alívio para todos. E nenhum de nós vislumbra que o pior que nos pode acontecer é passar pela vida e não viver.

Teremos várias dimensões de realidade a operar em simultâneo; uma, aquilo que julgamos ser a verdade, porém, é-nos “instalado” através dos meios de comunicação social. Outra, aquilo que será o impacto directo e indirecto da nossa forma condicionada de ver e de agir. Outra ainda, as várias dinâmicas que realmente estarão a ocorrer.

AFASTADOS UNS DOS OUTROS por um longo período de tempo, desconfiados até de um espirro inofensivo como no tempo da Peste, com o vazio trazido pela perda de identidade individual e colectiva devido ao rosto tapado e inexpressivo, estaremos perante uma fase de quebra generalizada na confiança em nós mesmos, na vida, no futuro.

Haverá, assim, um enfraquecimento no questionamento das informações que nos são transmitidas. Seja por excesso de repetição, por pressão social, devido ao isolamento que marcou 2020, ou pelo impacto na economia e consequente sentimento de vulnerabilidade. Os rebeldes estarão cada vez mais ordeiros, o que é uma perda irreparável para a Humanidade, que sempre avançou graças aos que não se conformaram.

Teremos todas as condições reunidas para a vida avançar, mas aperceber-nos-emos realmente disso? Nada nos faltará em 2021 a não ser a ousadia de agarrar a vida pelos colarinhos, de arriscar a pele.

Como se tivéssemos acabado de sair de uma guerra, iremos avaliar cada passo antes de avançar, sempre na zona de segurança porque-nunca-se-sabe. A Humanidade estará meio morta mesmo estando viva, com a Natureza a espreitar-nos à janela, e hesitante em tomar parte no milagre que está a acontecer.

Claro que todos corremos o risco de morrer de Corona. Ou de qualquer outra maleita, acidente, catástrofe natural, de velhice ou por causas misteriosas. O que deveria servir de incentivo para abraçar a magia que é estarmos vivos parece ser, na verdade, um impedimento à vida. 

E não viver por medo de morrer é uma negação da própria vida.

O MEDO, QUANDO DOMINA, recria a paralisia da morte. É um travão da vida — mas não do tempo. O tempo, esse vilão sem coração, não espera que ganhemos coragem ou que prestemos atenção à sua passagem. Nem o Sol, nem a Lua, a chuva, as estações do ano, as andorinhas que voltam na Primavera e que partem após o fim do Estio. Tudo está como deve estar, a decorrer normalmente, e assim continuará, quer tomemos ou não parte da vida e dos seus ciclos.

2021 será um ano maravilhoso, cheio de novas oportunidades. Felizes os que não tiverem perdido a ousadia de viver, os rebeldes, os que arriscarem novos caminhos. 

A normalidade nunca será reposta — e ainda bem. Pois estar dentro do que é “normal” é seguir uma norma que outros definiram, encaixando-nos, formatados, normalizados, resignados, numa forma que moldaram para nós. É não questionar, e abdicar do infinito mundo de possibilidades que se encontra disponível para além das fronteiras da ‘normalidade’.

O primeiro semestre será ainda um período de recuperação do trauma deixado pela mudança de paradigma no ano 2020. Vamos precisar de tempo para voltar a confiar na vida, em nós mesmos, uns nos outros, e no desconhecido que nos espera. Mas muitos vão conseguir.

O uso de máscara será gradualmente facultativo e as novas vacinas irão dar que falar. O regresso dos eventos com público, como concertos, espectáculos e outros similares, retornará aos poucos, mas com menor afluência de pessoas. O medo demorará a desaparecer totalmente, até porque já faz parte da Humanidade desde, pelo menos, o Paleolítico Inferior.

O segundo semestre será mais leve e, ainda que a medida de tempo seja igual, os seis meses que encerrarão 2021 fluirão com maior celeridade que os primeiros. Não porque os ponteiros dos relógios avancem mais depressa, mas porque estaremos finalmente a começar a confiar na vida. 

Bem sei que a procissão ainda vai no adro, mas o grande ano de retoma e de progresso será 2022. Tudo o que fizermos em 2021 trará resultados exponenciais em 2022. Guardem esta página por mais um ano e depois digam-me se tive ou não razão.

Quem viver, verá.

Hazel
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Foto por: José Cavaco

A Barriga da Serpente


Está escuro aqui em baixo. O ar tem um odor acre e insinuantemente venenoso. Circula nas minhas narinas como a aragem inofensiva do fim de tarde nas janelas esquecidas.

Aconchegada no interior da terra, desloco-me devagar, abro caminho por entre a teia de raízes repletas de bichos da terra que caminham com agilidade em incontáveis patinhas minúsculas pelo meu corpo.

As raízes convergem para um bolbo. O subsolo é, até onde consigo vislumbrar, um reino penumbral de silêncio, frescura e sossego.

A planta está a testar-me, mostrando de onde vem, como nasceu. Sem resistência, repúdio ou medo, observo com respeito e humildade. Fundo-me nela, torno-me também planta.

Tudo se dissolve e transforma.

O eco distante dos ícaros indica a direcção. Não distingo se sou eu que percorro o caminho, ou se é o caminho que me percorre a mim.

Uma auto-estrada de padrões longitudinais castanhos e esverdeados abre e desenrola-se formando um universo feito de pele de serpente. Mergulhada nesta dimensão, a temperatura corporal desce, toda a camada superficial da pele exsuda humidade. O meu corpo metamorfoseia-se numa estrutura fria, reptilínea.

Queres aprender com as serpentes? — sussurra, cuidadosa e inocente, quase infantil, uma pequenina serpente que se aproxima.

Sim — respondo.

— Virá uma grande serpente para te ensinar. Vais aprender com o veneno da serpente. Não deves ter medo dela, nem do veneno. O veneno irá ensinar. Confia no professor. Não esqueças. Confia... 

Após sibilar esta advertência, a delicada serpente desaparece deixando-me mergulhada nas trevas. Aguardo curiosa, mas nada vejo. Tento perceber onde estou.

Há um movimento subtil a embalar-me. 

Descubro-me dentro da grande serpente. As suas entranhas latejam, movem-se à minha volta. Viaja comigo dentro da barriga, aninhando-me num útero alongado onde a luz filtrada revela o veludo vermelho-escuro das paredes húmidas em sucos íntimos.

— O medo é uma resistência à aprendizagem — declara, numa voz que reconheço de imediato: a voz dos meus pensamentos. A minha voz mental — Não se interrompe o professor com perguntas. Observa o que ele te mostra. As perguntas são uma árvore. O professor está a mostrar a floresta inteira.

Dentro da serpente apenas vejo as suas entranhas, e nas suas entranhas posso ver tudo, em qualquer lugar físico ou temporal. Aceder aos arquivos do mundo. Ao Todo.

Poderia colocar as questões que quisesse, mas fazer perguntas é uma necessidade de controlo e condiciona os ensinamentos. Tudo é irrelevante. É preferível observar sem nada esperar, com a humildade da serpente que rasteja.

A serpente dobra-se sobre si mesma, dobrando, assim, o tempo. Une passado e futuro. Molda a linha contínua do tempo numa circunferência. Não há princípio nem fim. Mostra-me que a partir deste círculo acedo ao futuro através de sonhos e pressentimentos enviados pelo meu eu de adiante.

Cada mulher é uma serpente, recordo-o agora. Esta força primordial tem estado comigo desde sempre, mas esteve sempre esquecida.

Pego num caderno e tento anotar 
esta torrente de ensinamentos. 

A caligrafia afasta-se do papel, flutua e move-se numa coreografia cheia de floreados e arabescos executada por formigas de tinta preta que dançam suspensas no ar.

Sento-me para beber um pouco de água e tudo se transmuta. Torno-me enorme, uma montanha com árvores, plantas, nuvens, céu. Toda eu serenidade, frescura, vastidão, profundidade. Feminina, fecunda, em constante dádiva.

A interligação de passado, presente e futuro é a serpente que, na sua imortalidade e na capacidade de gerar vida, acede a todas as dimensões temporais devorando-se a si mesma sem se extinguir. A partir do seu interior, onde viajo, e através da minha natureza feminina, acedo aos presságios, sibilos do futuro.

Deito-me e fecho os olhos para descansar, com a sensação de não ter terminado a viagem. Entro novamente na frequência límpida e silenciosa dos ensinamentos da planta.

Um ovo. Estou dentro dele. Os músculos adutores comprimem-no, empurram com delicadeza, expelem-me de dentro da serpente. A casca abre.

Lambuzada pelos sucos do nascimento, deparo-me comigo, acabada de regressar, recém-renascida, dentro de um ninho de pássaros.

Sob os vapores do veneno da serpente,

Hazel
Consultas em Cascais, Massamá, Oeiras, Santarém e online
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Marcação: casa.claridade@gmail.com

Ilustração: Kellepics, licença CC0

MetAMORfose


Do caos, a limpidez.
Da limpidez, a luz.
Da luz, a verdade.
Da verdade, o amor.

Do vento nas asas, o vôo planado.
Do vôo planado, a liberdade.
Da liberdade, a vida.
Da vida, a morte.

Da morte, a eternidade.
Da eternidade, o divino.
Do divino, o amor.

Do amor, o Amor.

Hazel

"Nada importa."


Serão dois. Um, com a compilação das crónicas e de outros textos inéditos que nunca saíram do meu caderno. O tal que vos devo há muitos anos.

Mas é sobre o outro que penso hoje. Aquele com que espero horrorizar-vos. Quinhentas páginas em branco. Na última folha, uma singela frase:

"Nada importa."

Excêntricos, visionários, filósofos, lunáticos e aqueles que-têm-preguiça-de-ler talvez aplaudam a audácia.

Os restantes, poderão fazer aviões e barquinhos de papel, arremessá-lo para a lareira, ou levar à mesa como base para as panelas fumegantes. Quiçá se lancem protestos e acusações de insolência, de desrespeito para com o leitor, de obscenidade, excesso de rebeldia e atrevimento.

No primeiro, escrevo tudo o que alguma vez desejei ler.

No segundo, escrevo aquilo que todos procuramos sem verdadeiramente querer encontrar: a verdade sobre o Universo. Servida num prato limpo, branco, honesto. Sem tristeza associada, ou qualquer sentimento que não o de paz absoluta.

Nas páginas em branco, os leitores são escritores. São livres para nelas redigir o diário das suas vidas, receitas de culinária, listas de compras no supermercado, fazer desenhos, ou enumerar todos os insultos alguma vez inventados e dirigi-los à autora das folhas brancas, em justo e isento protesto. A escolha é de cada um. Cada página, uma nova decisão. O que fazer com ela, com todas as possibilidades que a vida nos oferece a cada nascer-de-dia?

Façam o que fizerem, no fim de contas, na última página do livro da vida, todos chegaremos juntos — ou separados — à mesma conclusão: nada importa.

Oh sim, eu posso fazer isso.

Hazel 

P.S. — Uma das mais valiosas regras da escrita consiste em nunca subestimar a inteligência do leitor, que, sei, compreenderá que todo este texto é uma metáfora.
Este post scriptum serve apenas para tranquilizar os que vieram aqui parar por engano. 😃 Sinto-me tentada, mas não vou publicar um livro com uma só frase.
Já foi tão divertido imaginar a situação como se esta tivesse efectivamente ocorrido.

Foto: Vítor Vargas / Produção: Ana Luar Vaz / Modelo: Hazel Evangelista

Manual de Sobrevivência ao Dia dos Namorados | para Solteiros

Jovem!  Se te estás a sentir um desgraçadinho, um miserável encalhado, um cachorrinho abandonado, isto é para ti:


HOJE É DIA DOS NAMORADOS e o mundo está dividido num Tratado de Tordesilhas Valentiniano que separa casais românticos-doces-e-indutores-de-diabetes, apaixonados, amantizados e enamorados mete-nojo; dos solteiros, mal-amados, abandonados, separados, divorciados, viúvos, celibatários e chupadores do limão-que-é-a-realidade.

Estás no lado mais incompreendido do Tratado de Tordesilhas Valentiniano e não sabes o que fazer, apesar de não quereres dar parte de fraco. Este Manual é para ti:

1. Estou encalhado. Coitadinho de mim.
Falso. Estar solteiro não é sinónimo de estar encalhado. Encalhado é estar numa relação onde não és amado e respeitado. Estás, sim, livre para todas as possibilidades. Quem sabe um destes dias não saltas para o outro lado da Linha de Tordesilhas Valentiniana e passas a ser mais um enamorado mete-nojo. Todos os caminhos estão em aberto. Estás, por isso, tudo menos encalhado.

2. Todos estão a receber presentes menos eu. 
Não precisas de ninguém para receber presentes, para ir jantar fora, para passar uma noite romântica. Faz tu isso! Por ti.

3. O que fazer no Dia dos Namorados, estando sozinho?
O que te apetecer. Tu podes tudo e não precisas de alguém a agarrar-te pela mão para achares que és capaz. Em todo o caso, aqui tens um roteiro seguro, se receias ficar deprimido:

Vais fugir de ver filmes românticos hoje. O melhor mesmo é não ligar a televisão (aliás, quem é que precisa realmente de uma televisão?).

Locais a evitar: floristas, lojas de lingerie, sex shops, restaurantes, cinemas e praias à hora do pôr-do Sol.

Locais seguros: oficina, dentista, registo civil, segurança social, banco, lavandaria, ginásio. É uma boa ocasião para resolver assuntos pendentes! Pesquisas realizadas em laboratórios-independentes-do-amor indicam que a probabilidade de encontrar alguém solteiro são maiores nestes locais, neste dia em particular. Quem sabe se o amor da tua vida não está mesmo à tua frente aí na lavandaria.

4. "Este Manual não me está a ajudar, Hazel. Buááá!"
Isso é porque não estás a querer colaborar e preferes ser um bebé chorão.
Limpa as lágrimas: criei um Kit de Emergência como medida de último recurso. Reúne todos os itens indicados abaixo que, usados em conjunto, são o equivalente a ter alguém que te ame (para além de ti):

💥 KIT DE EMERGÊNCIA (usar em caso de desespero!) 💥
- Espuma de banho;
- Vinho e morangos;
- Meias quentes (não precisas de ninguém para te aquecer os pés frios);
- Bons filmes (mas não românticos);
- Cobertores extra na cama;
- Pizza;
- Café.

5. Devo ir para o Tinder?
Tem juízo. Vais cair nas teias do Tinder no Dia dos Namorados, essa floresta de lobos esfaimados e capuchinhos vermelhos que-sabem-ao-que-vão? Hoje o Tinder transborda de fome e desespero. Reúne o Kit de Emergência, relê tudo o que escrevi e partilha com os teus amigos solteiros - nunca se sabe o que pode acontecer!

Directamente do banho de espuma,

Hazel

A noite mais escaldante dos últimos tempos | Playboy Late Night!


Rodei a chave na fechadura, pousei a mochila do ginásio e descalço os ténis sem desatar os atacadores, como faço sempre. O silêncio da casa é interrompido por um ruído subtil vindo do meu quarto.

Como conseguiste entrar?, penso com um sorriso.

Nem deste tempo para me despir. Não hesito. Salto para a cama, rubra de excitação. Afastas-te como se não percebesses, mas sabes que é uma questão de tempo.
Quero-te e tu sabes. 

A nossa relação é destrutiva, mas eu não consigo resistir; quanto mais voltas dás, mais atiças a minha vontade. Nem o casaco tirei, que loucura esta. Tiras-me do sério.

Poderia fingir que não estás aqui, mas não sou capaz de dormir sabendo que estás mesmo ao meu lado, tão perto da minha pele nua, e que me podes tocar enquanto durmo. Mexes tanto comigo. Olha o estado em que me pões, estou a transpirar.

Persigo-te pelo quarto, eu e tu, tu e eu, junto às paredes, contra a cabeceira da cama. O candeeiro cai no chão, mas eu não páro. Não vou parar. É mais forte que eu. E tu estás a pedi-las. Provocaste-me o dia todo, foste embora e agora regressas à noite para mais. Ah, não fujas, porque fazes isso?

Brincas comigo, mas hei-de sentir o teu corpo a ferver, a queimar.
O cansaço parece tomar conta de ti. Apanhei-te. Adios. Mosca filha-da-mãe.


[Sabes que a tua vida sexual escalou para um outro nível quando o teu momento alto de excitação na cama é isto. 😃]

De mata-moscas na mão,

Hazel

Projecto "Faz-te à Vida"


Tens de riscar pelo menos 50 itens antes de morrer. Cria o teu próprio projecto e faz-te à vida!


1. Ver a Aurora Boreal .......

2. Passear num balão ....... Feito.

3. Enterrar um tesouro .......

4. Mergulhar no mar em pleno Inverno .......

5. Visitar um país de cultura não-ocidental ....... Feito.

6. Dormir numa casa assombrada ....... Feito.

7. Fazer karting .......

8. Voar de asa-delta .......

9. Andar pela Muralha da China .......

10. Passar uma semana a meditar num mosteiro .......

11. Travar amizade com uma pessoa excêntrica ....... Feito.

12. Trocar um emprego estável por um que pague menos ....... Feito.

13. Aprender a dançar sevilhanas ou flamenco .......

14. Praticar canoagem ....... Feito.

15. Comer um peixe pescado por mim .......

16. Visitar o Tibete .......

17. Ir a um Temazcal ....... 

18. Dormir no carro ....... Feito.

19. Festejar no Carnaval de Veneza (vestida a rigor)....... 

20. Pisar uvas para fazer vinho ....... 

21. Andar de trenó .......

22. Ser agente secreta do SIS ou da PJ ....... Não posso dizer, é secreto.

23. Fazer um discurso para mais de cem pessoas ....... Feito.

24. Beijar numa roda gigante .......

25. Apanhar um táxi e dizer "Siga aquele carro!" .......

26. Apanhar uma chuvada deitada na relva ...….

27. Ir jantar sozinho num restaurante ....... Feito.

28. Ir a uma festa do pijama .......

29. Ir a um cinema drive-in .......

30. Flutuar num Centro de Microgravidade .......

31. Andar de Jetski .......

32. Conhecer o Stephen King.......

33. Flutuar no mar morto .......

34. Fazer uma tatuagem ....... Feito.

35. Jogar Paint Ball .......

36. Fazer um retiro de silêncio .......

37. Acordar de manhã, colocar os pés na areia e ir directamente tomar um banho no mar .......

38. Escrever um livro ....... Escrito. Ainda não publicado.

39. Visitar o Oráculo de Delfos ....... Feito.

40. Dormir numa casa construída sobre uma árvore .......

41. Comprar umas galochas para poder andar nas poças de água da chuva .......

42. Fazer um piquenique no meio da cidade .......

43. Tomar banho numa cascata ....... Feito.

44. Aprender a coreografia do "Thriller" ....... Já aprendi, já me esqueci.

45. Fiar lã numa roda de fiar .......

46. Fazer um cruzeiro .......

47. Viajar de mochila às costas .......

48. Visitar o cockpit de um avião ....... Feito. Na Kidzania! Também vale.

49. Fazer voluntariado ....... Feito.

50. Visitar um vulcão .......

51. Ser convidada para ir a um baile de máscaras ....... Feito.

52. Fazer girar as Rodas do Dharma na Índia ....... Feito.

53. Saltar num trampolim .......

54. Pertencer a uma sociedade secreta ....... Não posso dizer. É secreto. Shhh.

55. Fazer um desejo na Fontana di Trevi, em Roma .......

56. Nadar com golfinhos .......

57. Viajar no Expresso do Oriente .......

58. Fazer esgrima ....... Feito. Com espadas de esponja no Toys r'us.

59. Cantar num grande festival de música ....... Rezem para que essa catástrofe nunca aconteça.

60. Fazer surf .......

61. Atravessar um país dentro de um carro ....... Feito.

62. Dormir nu sob as estrelas ....... Deuses me guardem. Ainda vinha um bicharoco atrevido imiscuir-se onde não devia.

63. Participar na celebração do Ano Novo Chinês, e tocar no dragão .......

64. Desligar totalmente do mundo virtual (incluindo telemóvel) por uma semana ....... Feito.

65. Subir a uma árvore ....... Feito.

66. Aprender a tocar um instrumento musical ....... A decorrer.

67. Ver o nascer do Sol e o pôr do Sol no mesmo dia ....... Feito.

68. Organizar uma festa surpresa ....... Feito.

69. Nadar sem roupa na presença de outras pessoas ....... Feito.

70. Ver o dia nascer na praia ....... Feito.

71. Beber absinto ....... Feito.

72. Sair de casa sem roupa interior ....... Feito.

73. Assistir a um fenómeno paranormal sem ter medo ....... Feito.

74. Viajar de uma cidade a outra de bicicleta ....... Feito. Até às traseiras do prédio.

75. Perseguir um tornado .......

76. Praticar uma arte marcial ....... Feito.

77. Fazer um boneco de neve .......

78. Ler mil livros ....... Feito. Mais de uma vez.

79. Trabalhar barro numa roda de oleiro .......

80. Aprender a dançar salsa ....... Feito. Mas desastroso.

81. Andar de gôndola nos canais de Veneza .......

82. Fazer uma viagem nocturna de comboio ....... Feito.

83. Esquiar na neve .......

84. Ordenhar uma vaca .......

85. Provar tequilla no México .......

86. Dançar uma noite inteira num baile da terceira idade .......

87. Passar o Ano Novo num lugar exótico...... Feito.

88. Voar de helicóptero......

89. Fazer uma doação anónima...... Feito.

90. Subir à Torre Eiffel, em Paris....

91. Comer pizza Margherita, em Nápoles.....

92. Viajar sozinho para uma cidade distante ....... Feito.

93. Conduzir de uma cidade a outra sem roupa .......

94. Plantar uma árvore ....... Feito. Muitas.

95. Visitar um apiário .......

96. Visitar a NASA .......

97. Dormir numa tenda no deserto do Sahara .......

98. Ir ao supermercado usando apenas roupão .......

99. Passar uma noite sozinha numa floresta .......

100. Pedir conselhos a uma criança ....... Feito. Ao meu filho. 


Hazel

41 anos!


O ponto de exclamação no título é como uma palmadinha de consolação no meu próprio ombro. Quarenta ainda vá, mas quarenta — e! — um. Valham-me os Deuses.

Este foi um ano de morte, de renascimento e de um grande salto de fé.
Apaixonei-me, casei, mudei de nome, continuei a escrever, a trabalhar naquilo que gosto e com quem gosto, a dançar, a fazer fotografias e a ver o meu filho ficar mais alto que eu.

Reencontrei amigos, fiz novos amigos e tenho que concluir que foi um ano algo rocambolesco, mas feliz.

E agora vou trabalhar! Hoje é dia de aula, desculpem escrever este post assim à pressa.
Estou no Espaço S, em Oeiras, a fazer aquilo que mais gosto: ensinar.

Obrigada aos que ainda me acompanham.

Até breve!

Hazel

Foto: pelo grande Mário Pires - Retorta!

Casimiro


Breve história em três tempos, para leitores ávidos e impacientes.

[Tempo um]
Casimiro era um homem de certa idade.
Tinha uma marreca notável.
Usava sempre um casaco grande.
Nunca casou, embora sonhasse com tal felicidade.
Não se lhe conheceu família.

[Tempo dois]
Um dia, Casimiro morreu.
Oh Casimiro.

[Tempo três]
Então, descobriu-se
que Casimiro não tinha marreca.
O que escondia dentro do casaco grande
eram asas de anjo.

Hazel

Rosa dos Ventos


Desço o ribeiro a baloiçar até ao mar
na canoa do teu abraço.

Beijos ébrios de maresia.
A madressilva dos teus olhos.

Abres estrelas do mar
das tuas mãos frias
no corpo de nevoeiro
perdido na bruma.

Enrolados em tentáculos de vontade
Navega-me em ondas de lençóis brancos
que vão e que vêm,
na maré que enche.

Velas da camisa desfraldadas
lambem o mastro, que se eleva húmido
Afundado no gemido das tábuas
Trémulas, rendidas à tormenta.

Desaguam os cobertores
escorridos aos pés da cama,
Entre as conchas e búzios
da roupa naufragada no chão.

Secreto, o tesouro de colares
Pérolas de leite doce e rubi vermelho
encharcado no marulhar do sémen das ondas.
Suspiras a bonança e o cansaço.

Sou o vento
Tu a rosa
que me sabe as direcções
que me encontra o sentido.

Hazel