Andar à gandaia

'Andar à gandaia' é uma expressão antiga portuguesa que tem mais do que um significado, mas o primeiro que conheci e que sempre ficou comigo é, justamente, 'andar ao lixo'.

Pois, ontem, ao fim do dia, enquanto ia a pé para a minha aula de dança, vi esta linda avioneta no chão, ao lado de um caixote do lixo, e pensei: "Gandaia!"

Sem qualquer pudor, trouxe-a comigo, porque a história dela ainda não terminou só porque alguém a deitou fora. Há muito mais para sonhar e voar na imaginação ao som do seu motor pachorrento que rasga os céus azuis do Verão.

A aventura continua e, só por causa disto, hoje vou rever um filme do Indiana Jones!
Está a precisar de uma hélice e umas pequeninas reparações, que irei fazer, e depois vou pendurá-la no tecto do quarto do L..

Os tesouros que as pessoas deitam fora.

À gandaia,

Obrigada, Senhor Lixo

Há quanto tempo é que não aparecia aqui um post sobre os meus achados do lixo, hã? 
Desde a Idade Média, pelo menos!

No fim-de-semana passado, achei esta deliciosa cadeira de baloiço que alguém deitou fora. 
Ah, era mesmo o que a minha varanda precisava.

Trouxe-a comigo para começar um novo capítulo na história da sua vida, que ainda não terminou. Ainda há muitas tardes de Sol para balançar ao som dos passarinhos e com um livro no regaço. Bem-vinda!

Na gandaia,

Poinsettia

Encontrada ontem no lixo.

É uma poinsettia, também conhecida como "planta-do-Natal". Veio trazer cor e alegria ao meu jardim-de-apartamento, que se está a reconstruir aos poucos. São os ciclos da vida...

A última poinsettia que tive, passou algum tempo sem mim, e não sobreviveu. Talvez porque fiquei triste com a perda, gosto de pensar que o Universo me quis compensar, trazendo-me esta nova amiga num dia de chuva e incertezas. Pois, mensagem recebida...

Muito grata, Senhor Lixus!

Beijos de vermelho escarlate,

Olho vivo no lixo!!


Trouxe esta banqueta [se não é assim que se chama, por favor, corrijam-me] do Senhor Lixus, e coloquei-a no Triângulo das Bermudas que é a minha arrecadação.

Caíu no esquecimento e ficou lá mais de um mês.
De repente, foi como se tivesse sido atingida por um relâmpago: "A banqueta!!!"

Desci às catacumbas e lá estava ela. Consegui recuperá-la de tal forma que nem eu mesma acreditava.



Aspirei, lavei com uma escova de dentes velha e detergente, e encerei.

Com o carinho com que merece ser tratada qualquer peça antiga.

À noite, cheia de charme e mistério...






Aqui está ela - acreditem ou não, é a mesma banqueta da primeira foto:


Resta-me sugerir:
- Queridos Leitores, olho viiiiivo aí no lixo da vossa cidade! :)))

Viva o lixo da rua do Rei!

Não é segredo que a serra de Sintra é a minha segunda casa.
Conheço-lhe os recantos mais secretos; sei onde se podem colher as amoras mais doces; onde há figueiras, pereiras, tangerineiras, castanheiros... Até um lugar onde por vezes aparecem fantasmas silenciosos e observadores eu conheço. uuUUUuuuuu...

Mas não sabia - pasmem! - onde vivia D. Duarte Pio, o Rei (que seria, se vivêssemos numa monarquia).

... agora já sei!

Não, não fui visitá-lo, mas aos seus amáveis vizinhos, que foram muito gentis em convidar-nos.
Muito obrigada, O. e M..

Claro que não deixei de apreciar o exterior dos aposentos de Sua Alteza. Ainda me pareceu ter visto o seu bigode por detrás das cortinas... ou seria uma aranha gigante? :))

E encontrei esta linda e antiga estátua angelical no lixo da sua rua. Tinha que ser. Acho sempre coisas!
Preciso de dizer que a adorei?

Eu sei... é algo fantasmagórica, eu sei... ainda gosto mais! ahahahah


Este bocadinho de Sintra antiga, que ia ter um destino inglório, está neste momento no meu escritório, no meio das plantas.
Viva o lixo da rua do Rei!

P.S. - Escusam de perguntar, que não vou revelar o nome da rua.
Tranquilizai-vos, Sua Alteza, que não tereis multidões a espreitar-vos pelos portões.
O segredo está bem guardado! (nunca se sabe, ele pode ser meu leitor, hã) :))

Vá, espreitem lá para dentro dos baús...

Levantem a mão os que ficaram curiosos para saber como eram os baús por dentro!

Xi! Até parece que adivinho...

São forrados a papel branco antigo, com floreados azuis. Achei tão encantador e surpreendente, que não alterei nada.
(clique na foto, para ver ampliado)

Obrigada pelas vossas sugestões do que guardar lá dentro. Decidi colocar as minhas tralhas de coser, que sempre tive espalhadas e, pela primeira vez, estão arrumadinhas.

Quem veja isto, até parece que sou toda prendada e sei fazer muitas coisas.
Bem, saber, não sei, mas por vezes invento...

Antiguidades cheias de encanto... no "lixus"!

Caro Senhor de bigodes que vive no Junqueiro e deitou fora estes lindos baús, ei-los devidamente limpos, amados e instalados, tal como lhe prometi!

Foi assim mesmo.
Vi-os no lixo, parámos o carro e fui salvá-los. De bónus, achei também o dono!

- Tem a certeza que quer mesmo deitar estes baús fora? Olhe que está a deitar fora coisas muito bonitas...

- Sim, eu sei. Mas vou mudar de casa e não posso levar tudo comigo. Tenho duas filhas, mas elas não ligam a estas coisas... Tenho mesmo que deitar fora.

- Olhe, sendo assim, eu vou levar. [cara de pau] Não se importa?

- Leve, leve. Já vi que com o carinho com que está a pegar nos baús, depois de uma limpeza, vão ficar muito bonitos.

Conversámos um pouco mais, e despedimo-nos desejando saúde, sorte e felicidades.
Ah, porque é que não me lembrei de lhe deixar o nome do meu blogue?!
Que cabeça de vento!
Era tão engraçado que o Senhor os visse agora... Resta-me a esperança de que um dia o descubra por acaso.



Aqui estão eles, quando vieram.
Cheios de pó e de promessas de encantar-nos os olhos e o coração.








Aqui, a apanhar banhos de Sol.
Ainda não decidi o que guardar lá dentro.

Três vivas para o Sr. Lixus!

É fantástico, o Sr. Lixus!
Não só me oferece livros, que adoro, como ainda tem a doce gentileza de escolher bem. ;)

Como sabem aqueles que bisbilhotam o meu perfil (já regista 7.800 consultas - eh, tanta gente curiosa, assim é que é!), o brilhante Eça de Queiroz é precisamente o meu escritor português preferido. Pois e não é que o Sr. Lixus também sabe disso?

Graças a este maravilhoso achado, fiquei com a obra de Eça de Queiroz praticamente completa. Creio que já só me falta um...: "A Relíquia".

O meu prazer não reside apenas em "ter" e em contemplar as prateleiras da nossa biblioteca, mas em saber que os li todos. Essa é que é...

Ainda não estou nesse estágio, mas lá chegarei brevemente. Ou não; quando estou quase lá, o Sr. Lixus faz-me destas surpresas...!

Ora vejamos alguns dos títulos deste fabuloso achado que mais me alegraram:
- O Retrato de Ricardina - Camilo Castelo Branco (estava na minha lista de livros para ler!)
- O Livro de Cesário Verde
- Os Fidaldos da Casa Mourisca - Júlio Dinis (creio que já tenho)
- A Brasileira de Prazins - Camilo Castelo Branco
- Alfageme - D. Filipa - Almeida Garrett
- Obra Poética - David Mourão-Ferreira
- Frei Luís de Sousa - Almeida Garrett (já li, e já tenho)
- A Cidade e as Serras - Eça de Queiroz (já li, e já tenho)
- A Queda de um Anjo - Camilo Castelo Branco
- Eurico o Presbítero - Alexandre Herculano (já li)
- O Carpinteiro do Vale dos Fenos - George Eliot
- Mayombe - Pepetela
- A Cabana do Pai Tomás - Harriet Beecher Stowe
- As Minas de Salomão - Eça de Queiroz
- A Correspondência de Fradique Mendes - Eça de Queiroz (já li, e já tenho)
- Lendas de Santos - Eça de Queiroz
- O Malhadinhas - Aquilino Ribeiro
- O meu Pé de Laranja Lima - José Mauro de Vasconcelos
- Estrelas Propícias - Camilo Castelo Branco
- Eça de Queiroz - A sua Vida e a sua Obra

"O Carpinteiro do Vale dos Fenos" - George Eliot

Desconheço a obra e o autor, mas o livro, em si, é um encanto para os olhos.

É enorme (engraçado como na foto parece tão pequeno) e está completamente amarelecido pelo passar dos anos.
Vai para a secção de antigos.


Um pormenor delicioso:

Os dois livros desta foto ("Eça de Queiroz, A sua vida e a sua Obra" e "Estrelas Propícias", de Camilo Castelo Branco) têm dezenas de anos, mas... nunca foram lidos.

Nunca...!
Como é que sei?


Porque vêm com a parte de cima das folhas unida, para que o primeiro leitor as corte com um abre-envelopes à medida que lê.

Ambos estão assim. Virgens.
E a sua primeira leitora serei eu.
Beleza!

Não ficarei com todos. Os livros repetidos, aqueles cujos temas não me interessam (e que não referi na lista acima), e mais alguns que eram meus e já não quero, serão doados, para enriquecer as prateleiras da Biblioteca Municipal.

Livros NUNCA são lixo.
Deitá-los fora é um crime, um desrespeito para com os seus autores, revisores, editores e, em última análise, as árvores que foram sacrificadas para produzir papel.

Mesmo que não lhe interessem, poderão ser úteis a mais alguém.
Se não tem a quem dar, as Bibliotecas Municipais são o destino ideal.

Caneca/vaso



Não tenho justificação para isto.

Acho-lhe graça, e pronto.

;)









Adenda:
Sim, é uma caneca verdadeira.
Sim, é pequena.

E sim, estimula-me o imaginário de forma divertida:

O frade ébrio sorri ante a afirmação: "Alguém andou a beber do meu licor..."

O móvel que fala

Sou um móvel velho com uma história de que já ninguém se lembra.
Se calhar, servi para guardar loiça em alguma cozinha antiga... não sei.
Depois de uma vida inteira, fui deitado para o lixo.

Mas houve alguém que me viu, e se encantou pelas minhas gavetas pequeninas e pela minha simplicidade.

Meteram-me no porta-bagagens de um carro e lá fui para destino incerto.

Nesta foto, ainda estava triste e meio perdido na nova casa.

Então, fui muito bem limpo e pintaram-me os puxadores da gaveta de baixo de cor de ouro antigo. Ganhei outro ânimo.

Os outros puxadores foram tirados e, bem ao estilo Zé Carioca, enfiaram cordas* nos buracos com um nó por dentro e outro por fora.

Tenho os puxadores mais económicos e originais do mundo!

Eu cá gosto! Não sou um móvel vaidoso, e divirto-me com as coisas simples.

Como companhia, tenho várias plantas misteriosas que falam baixinho numa linguagem que só elas entendem. Nas minhas gavetas guardo botões, tecidos, fitas de seda, missangas, lápis-de-cor...

Estou feliz por ter uma nova vida!

Ouvi dizer que um dia destes ainda vou ser todo lixado e pintado de novo. Mal posso esperar! Que cor me ficará melhor?

*Trad. Brasil: cordas = barbante

A nova sede da Casa Claridade

Há algum tempo que eu queria uma secretária nova, mas não uma dessas modernices que por aí se vêm à venda. Preferia uma peça antiga, com história e encanto. Com gavetas. Única. E também queria que fosse barata, já agora. Ora... porque não?

Impossível de encontrar, dizem-me?
Nada é impossível para quem acredita, respondo.

Há umas 2 semanas atrás, encontrei exactamente aquilo que tinha traçado na minha mente.
Ia levar o L. à escolinha, quando, no fundo da minha rua, a vejo lá. No lixo.

Bingo!
Estava em perfeitas condições, com excepção do tampo, que estava bastante riscado; nada que uma boa lixadela não resolvesse.

Esta mãozinha que vêm na foto é do meu pequenino L., que quis ajudar, e trabalhou lado-a-lado com a sua mamã. E lixou mesmo a sério.

Depois de eliminar os riscos, em vez de envernizar o tampo, decidi encerá-lo.

A cera para madeiras tem inúmeras vantagens:

- é muito barata;
- é mais rápido de aplicar e de secar do que o verniz;
- cheira bem;
- basta usar um trapo velho (em contrapartida, com o verniz, o pincel depois fica inutilizado e acaba sempre por ir para o lixo);
- não há perigo de pingar ou de salpicar;
- pode entrar em contacto com a pele - depois, é só lavar normalmente...

Ora aqui está, depois de cerca de duas horas de trabalho árduo, porém compensador, a nova sede da Casa Claridade...

Vivó Sr. Lixus! Consegui! (clique na foto para ampliar)