Como dar uma bofetada num indesejável bloqueio criativo


Preparo um café simples (desta vez, sem os extraordinários obséquios aromáticos da canela e do açafrão) para servir de combustível milagro-epifânico. Deixo-o escorregar lentamente goela abaixo. E nada.

Quer isto dizer, ‘nada’ é uma forma de colocar a questão; em boa verdade, a Bic-laranja-escrita-fina gatafunhou uns metros de tinta que jazem apartados dos olhos do mundo, ao longo das linhas monocórdicas de um caderno fora-de-moda com capa do pato Donald.

Pintei o silêncio branco com as cores de Vivaldi. Depois, uns breves e delicados salpicos de Chopin. Nada ainda. Bato com a ponta do pé no chão como quem envia um discreto e contido (porém, não menos desesperado) pedido de socorro em código morse aos deuses telúricos.

Sorrio ao pensar que, no meu caso, os deuses telúricos seriam, na verdade, os vizinhos do andar em baixo, certamente a questionar-se porque caramba não descalcei hoje as botas quando cheguei. Porque há um texto para escrever, ora.
E asinha, asinha, que a vida não espera.

Bem se sabe que a pressa é o assassino a sangue-frio da criatividade, mata-a antes mesmo de ter chegado a nascer. O pé continua a bater ao de leve no soalho e o vernáculo sucede-se mentalmente, atiçando as ideias que se acabrunham com os nevoeiros do lusco-fusco. Descubro-me num terrível e infame bloqueio criativo que me atormenta o espírito e angustia o relógio.

Guardo o texto, meio alinhavado. Depois do pôr-do-Sol há menos distrações; terminá-lo-ei de pijama, quando não sobrar mais nada do dia e me encontrar mergulhada na bolha de silêncio que se instala quando todos dormem.

Rendo-me à noitada e eis que começam a surgir as primeiras ideias como estrelas tímidas, difusas no céu saturado pelos reflexos das luzes citadinas. Componho uma constelação lexical com cuidado e amor. Leio. Releio. Dezenas de vezes. Corrijo erros. Reordeno ideias. Corto aqui, coso ali, faço bainha acoli, e a modesta colcha de retalhos lá começa a ganhar algum jeito.

Mal envio o danado do texto ao Vítor Arsénio, responsável pela paginação, encontro-lhe um erro que não tinha visto em nenhuma das dezenas de vezes que o li. Corrijo-o e reenvio escrevendo no assunto do email “versão definitiva”. Suspiro de alívio.

Agora, sim. Releio, desta vez, por prazer, livre de pressão. Ai carapau, uma repetição de palavras. Volto a editar, torno a enviar o email, a “versão definitiva, final, finalíssima”. O bondoso Vítor, que me perdoa sempre, recebe as sucessivas e por vezes intermináveis versões definitivas das crónicas como uma mãe recebe os filhos, mesmo que cheguem tarde a casa. Depois de impresso, o jornal segue para as bancas e chega às mãos dos leitores.

Como é que um cronista sobrevive a um bloqueio criativo? Não sobrevive, meus senhores. Um cronista auto-flagela-se e deixa-se morrer chicoteado pelos próprios pensamentos enquanto o resto do mundo dorme o sono dos justos, sem dar por nada, incluindo o seu gato que ressona com exibicionismo ali mesmo aos seus pés. Um cronista sofre, atormenta-se, angustia-se e ainda assim não deixa de escrever.

Se alguma vez se cruzar com um cronista, chegue-lhe uma cadeira, estenda-lhe uma manta para os pés. Enfim, cuide dele com esmero. Ele merece, garanto. E nunca, mas nunca, lhe pergunte sobre o que será a sua próxima crónica.

O arcano Valete de Ouros ensina-nos que plantando, tudo dá. Havendo honestidade e dedicação, chegamos lá. Como um texto que um qualquer cronista se dispõe a escrever — e escreve —, mesmo sem saber por onde começar. Cof, cof.

Hazel
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Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1675
Foto: WikiImages, licença CC0

A Dama do Pechiché

Os frasquinhos de perfumes pecaminosos ocupavam quase todo o pechiché, reluzentes, tentadores. Uma serpente filiforme de odor amadeirado esgueirava-se sinuosa de uma tampa mal encaixada e evolava pelo ar, penetrando as narinas; incitando a destapar e cheirar o conteúdo de todos os vidros, embriagando os sentidos nas fragrâncias doces e exóticas, reveladoras de prazeres secretos e proibidos.

Uma taça de delicada porcelana antiga transbordava de maquilhagem comprada por catálogo, iluminada por um candeeiro com quebra-luz de franjas. Todo o quarto tinha uma atmosfera de boudoir, feminino, quente, íntimo, sedutor, onde certamente se passavam escândalos indizíveis.

As mulheres cumprimentavam-na com distância educada e prudente, numa cordialidade artificial, mas detestavam-na secretamente (porque, no fundo, a admiravam — ainda mais secretamente). Creio que a temiam e a todo o poder que provinha da sua pouco modesta auto-confiança. Os homens receavam-na também — mas não a detestavam. Pelo meu olhar de gaiata-de-soquetes-até-aos-joelhos, achava-a fascinante, rebuscada, majestosa; enorme e inacessível.

Via-a sempre sozinha, altiva, imponente, com um caminhar felino, como se deslizasse por uma estrada de veludo nos seus sapatos altíssimos. As ancas insinuavam prazeres ávidos de ser degustados. A postura, absolutamente perfeita e digna. O sorriso silencioso, de quem detém segredos impossíveis de deslindar, por muito que se perscrute; de alguém que sabe o valor que tem e não precisa que lho digam, atrevo-me a adivinhar.

Se era meretriz, como diziam, não sei. Era bonita. E uma não é sinónimo da outra, apesar do que as pessoas achavam. Eu nunca vi nada. Nem eu, nem ninguém. A feia verdade é que ninguém suportava a sua beleza e, por isso, inventavam-lhe histórias nunca comprovadas — e, ainda que o fosse, que tinham eles a ver com isso?

Vi-a no outro dia, quando fui ao Banco. O peso da idade diminuiu-lhe a altura dos saltos dos sapatos, afofou-lhe as pálpebras que caem agora cansadas e desenhou-lhe rugas como bigodes de gato matreiro à volta do sorriso que prevalece inalterado. Sempre sozinha, sempre cheia de si, de beleza, de insinuação, como se risse por dentro dos pensamentos escondidos daqueles que cruzam o seu caminho, onde o veludo se estende pela estrada à sua passagem, Deusa entre mortais.

A sua história não vo-la posso contar; permanecerá para sempre um mistério, excepto talvez para mim, que escutei os segredos sibilados em torno do meu pescoço pela serpente de perfume no seu boudoir — mas nunca os revelarei.

O arcano Rainha de Ouros inspira-nos a não detestar a Dama do Pechiché, mas a permitir-nos apreciá-la pela coragem de dedicar uma vida inteira à arte da beleza e dos prazeres dos sentidos.

Hazel
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Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1665
Imagem: Le Boudoir, Delphin Enjoiras



Boneca de porcelana


Veio de Paris, bien sûr. Os cabelos cor de trigo sarraceno emolduravam-lhe o rosto róseo e delicado, com olhos redondos e inocentes, sobrancelhas eternamente espantadas e lábios pequeninos, cheios de segredos tentadores. O vestido era uma harmonia de azul e alfazema, remetendo aos campos perfumados de Provence, e os sapatos brancos, assim como as meias.

Vinha dentro de uma caixa com uma espécie de janela em plástico transparente.
O mais belo e valioso presente da minha infância. Tão precioso que seria uma pena se se partisse e, por isso, foi guardada no topo de um armário, longe do meu alcance.

Quando ninguém estava a ver, às vezes encostava uma cadeira ao armário, subia e, em bicos de pés, esticava-me para abrir a porta e tirar a caixa com a boneca de porcelana. Não chegava a brincar com ela, não me atrevia. Deixava-me ficar a contemplar os seus detalhes em silêncio culpado, como se estivesse a mexer num brinquedo de outra menina qualquer que tinha tudo o que eu não era digna de ter — embora ela fosse minha.

Voltava a colocar a caixa com todo o cuidado no mesmo lugar sem deixar pistas que denunciassem a minha transgressão. Fiz isso regularmente até acabar por perder o interesse, com as hormonas da mudança de idade.

Mais do que o objecto obsoleto em que se tornou, era um defunto que não chegara a viver e que me foi finalmente entregue já adulta, quando tive a minha própria casa. Recebi-a com um desinteresse que não quis disfarçar. Deitei a caixa para o lixo e coloquei-a em cima do frigorífico, na cozinha, como um bibelot que não se sabe onde colocar.

O azul frio do seu vestido entristecia-me. Ali estava a minha boneca, desfasada no tempo, tarde demais para que eu pudesse brincar com ela, sempre a recordar-me que era boa demais para mim e que o meu tempo tinha passado. Desenvolvi uma revolta contra ela, como se fosse ela a culpada. Guardei a lambisgóia deslavada no fundo de uma gaveta para não ter de olhar para ela. Mas quando precisava de abrir a gaveta, lá estava ela, com um leve sorriso que me parecia sonso e cruel.

Numa limpeza de Primavera, decidi livrar-me dela. Coloquei-a à venda numa loja de antiguidades por tuta-e-meia. Saí de lá aliviada. Mas ainda a vejo. Onde quer que more, ela aparece-me, assombra-me, sorri em silêncio, recorda-me que era minha, mas nunca a pude ter; e quando a tive, já não a quis porque me magoava tê-la.

Esta semana, o arcano Cinco de Ouros leva-nos a reflectir sobre as cicatrizes antigas que por vezes nos moldam a personalidade com contornos que preferíamos não ter. Recordar é enfrentar. E enfrentar é curar.

Hazel
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Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1659
Foto: MabelAmber, licença CC0

Cantar de galo


Ainda o galo não abriu o gasganete para cantar os bons-dias e já se ouve o velho tractor a andar para-cá-e-para-lá. De ceroulas arrepanhadas até aos sovacos e olhos esbugalhados das noites mal dormidas, o homem anda desnorteado com o trabalho.

«Havia de ir ali pedir um tractor emprestado ao meu compadre, mas de certeza que ele não mo empresta», remói baixinho com azedume. O galo alonga o pescoço e espreguiça com satisfação as asas que reluzem douradas aos primeiros farrapos de luz matutina.

«Com tanto tractor que tem aquele gordalhufo capitalista, bem que me podia emprestar um; se tivesse dois tractores já conseguia dar conta de tudo.»

As patas do galo emproado, duras e rugosas da velhice, tacteiam o chão, encaminhando-se para cantar os bons-dias do alto do poleiro, mas este foge espavorido com o estrondo do motor subitamente engasgado, em convulsões com os últimos estertores da morte que se apresentou sem avisar com uma correia que rebenta.

Enraivecido, Zé Onofre pontapeia o pneu enlameado e atira com o chapéu para o chão. Só faltava isso; ficar sem o único tractor que tinha. Coxeia em direcção à vedação que o separa do terreno verdejante do compadre. «Aquele garganeiro, com tantos tractores, há-de estar a rir-se de mim agora.» Os dedos calejados levantam a tábua que prende a cancela e os cães do vizinho ladram em protesto, reclamando o território.

Os degraus de madeira rangem com queixume debaixo do peso das botas que caminham com a irregularidade de quem está de cabeça perdida. Sorve o ranho do nariz e bate à porta sem delicadeza. Ouvem-se passos no interior da casa.

O compadre surge, de chanatas nos pés e remelas nos olhos ensonados. «Bom d…», «Olhe! — corta o Zé Onofre, com uma voz que se lhe esganiça embaraçosamente com a irritação — Meta os tractores no cuuu!».

Sai de rompante, virando costas ao vizinho, sem que este consiga fechar a boca incrédula. Do outro lado da vedação, ouve-se o galo cantar.

Esta semana, o arcano Três de Ouros recorda-nos que nenhum homem é uma ilha. Trocando o orgulho pela boa-vontade, a impulsividade pelo bom-senso e o individualismo pelo trabalho de equipa, tudo se arranja. Juntos chegamos mais longe. O único que canta de galo sozinho é mesmo o galo.

Hazel
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Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1658
foto: Public Domain Imagens, licença CC0

No creo en brujas pero que las hay las hay


Sempre me intrigaram aquelas castanhas engelhadas, mais velhas do que eu, que nunca ganhavam bicho, no fundo das gavetas da roupa. É por causa das bruxas, dizia sem mais esclarecimentos a minha mãe. Lá em casa, ninguém gostava de bruxas. Pantominices!, É tudo uma pantominice, saía-se a minha avó enquanto compunha o cordão de ouro ao pescoço. Tinha mais de cem anos (não a minha avó, mas o cordão), e chegava até aos pés se ela não lhe desse as habituais três ou quatro voltas, o que não era caso para grande espanto, porque tinha, como se dizia, nascido nos dias pequenos.

O seu olhar verde-seco e aguarelado, esbatido pela idade, fixou-se num ponto suspenso no ar, como se observasse o fio invisível do tempo. Toda a sua expressão se suavizou, parecendo readquirir o viço dos vinte anos, vividos em Vila Boim, ali mesmo à beirinha do país, onde a pronúncia castelhana se mistura com a portuguesa como as águas de dois rios que se encontram. Alguém lhe entrara em casa durante a noite e furtou o cordão de ouro.

Não valia a pena ir à Polícia, naquele tempo —, foi à bruxa. Que lia o futuro em cartas de jogar ou com uma agulha pendurada em linha de coser; tirava o quebranto e o mau-olhado; fazia purgas e curava o bucho-virado e outras maleitas que os médicos não conseguiam tratar. Não acreditava nela, não gostava dela, mas precisava dela e, portanto, meteu-se a caminho sem contar nada a ninguém.

A mulher versada nas artes misteriosas recebeu-a numa sala sinistra e mal iluminada, com lamparinas acesas, santinhos e um previsível cheiro a arruda queimada. Deu-lhe uma oração para recuperar objectos roubados escrita num farrapo de papel e as seguintes indicações: dizê-la ab-so-lu-ta-men-te todos os dias e em seguida estar “atenta aos sinais”.

Passou-se cerca de um ano sem que a minha avó desistisse. De tantas vezes ler a oração, acabou por memorizá-la. Transcrevo-a tal como me foi transmitida, sem alterações, imaginando que pândega seria se todos os portugueses a lessem diariamente no intuito de recuperar o tanto que vai para impostos e taxas bancárias:

«Ó almas do Purgatório, Eu com nove tenho mistério, Três dos enforcados, Três dos mal-sentenciados, Três da morte a ferro frio, Para que todos os três, os seis, os nove, Vão ter ao coração dessa pessoa que me tirou (nome do objecto roubado), Não possa estar, nem dormir, nem descansar, Se as almas assim fizerem, Eu um terço lhes vou rezar.»

Depois da ladainha, a minha avó (que não era ainda avó nem mãe) ia para o quintal apanhar a aragem fresca do lusco-fusco alentejano enquanto atentava “aos sinais”. Passavam as pessoas que regressavam do trabalho e ia escutando fragmentos soltos de conversas aleatórias que se uniam como um puzzle sobrenatural, dando-lhe pistas que acabariam por guiá-la até ao cobiçado cordão. Este acabou por regressar às suas mãos e foi dela até ao último dia da sua vida.

O arcano Dez de Ouros recorda-nos que aquilo que é nosso por direito, e que verdadeiramente nos está destinado, a nós retornará no devido tempo (excepto os impostos e taxas bancárias). O universo encontra sempre forma de repor o equilíbrio, acertar contas e arrumar a casa.

Hazel
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Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1654
foto: smokefish, licença CC0

O Twist do Fundão


«Está com sorte, ainda há dois lugares livres», grasnou o senhor da bilheteira em voz laringofaríngea, «ficam é ao fundo». Entrei no autocarro já com o estômago embrulhado enquanto levava à boca um comprimido Vomidrine que engoli com um resto de água já tépida. Enfiei as malas no compartimento superior.

A placa que indicava a saída do Fundão passava ao meu lado, seguida das árvores que corriam à beira da estrada, os postes de electricidade onde os pássaros compunham pautas de música e as flores nas varandas que acenavam em despedida.

Nem dez minutos tinham passado e já estava disposta a vir a pé até Lisboa. O meu almoço subia e descia pelo esófago, qual teleférico do Parque das Nações. Ainda há quem acredite que a Terra é redonda. Pois nem redonda nem plana, ficais vós a saber. Garanto-vos que o planeta Terra é uma gigante espiral, tal como as molas das canetas de pressão, que se sobe quando se viaja ali para os lados do Fundão e desce quando regressamos a Lisboa — percurso este, acompanhado pelo estômago e seu conteúdo que dançam desencontrados em passo de twist, com luzes psicadélicas.

O motorista conduzia como um louco, ou como alguém a quem teriam sido diagnosticadas duas semanas de vida e, portanto, não havia muito a perder naqueles altos e baixos da Cova da Beira.

Tacteei nos bolsos por um singelo saco de plástico ou um portal espaço-temporal que me livrasse daquele tormento, mas apenas encontrei os bilhetes já amarrotados e um mísero lenço de assoar. Uma gota de transpiração escorria na parte de trás do pescoço.

À minha frente, pareceu-me ver os dois homens que estavam sentados — «Ai mais uma curva, agora é que é», mas sustive o vómito com um auto-controle olímpico — escorregarem pelo banco para colocar as cabeças a salvo, tão indefesas e asseadinhas, abençoados, do refluxo de pizza quatro-estações, mousse de chocolate (mal empregue) e café. Raios partam o Vomidrine, que não fez efeito.

Encolhi-me e aguentei o melhor que pude, entre solavancos e travagens indutoras de fazer o estômago vir parar-me às mãos. Havia de apresentar queixa do motorista. Aquilo não se fazia, transformar um autocarro no tambor de uma máquina de lavar roupa em centrifugação. Aliás, quando saísse, iria mandá-lo para o pénis. Até havia de lhe deixar cair a mala de viagem em cima dos pés — e não ia pedir desculpa. 

Ah grande velhaco, que lhe enfio o guarda-chuva no, olha, será que vi bem, ou é isto uma alucinação causada pelos ácidos gástricos? Lisboa. Ah Lisboa boa. Ai, finalmente cheguei. Ai obrigada, senhor motorista, Deus-Nosso-Senhor o cubra de bênçãos. Estive quase para beijar o chão, onde entretanto já desaguava um rio de vomitado e desespero de outras duas passageiras dobradas para a frente com as mãos apoiadas no autocarro.

Esta semana, o arcano Dois de Ouros mostra-nos que a vida às vezes sacode-nos, tira-nos a terra, o equilíbrio — e até a lucidez. Sentimo-nos como um par de calças de pijama às voltas dentro de uma máquina de lavar com uma perna enrolada nos lençóis e a outra sugada pelas toalhas de banho. Perdemos o chão. Mas não podemos perder a cabeça.

Hazel
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Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1643
Foto: StockSnap, licença CC0

É preciso ter tomates


1. Nasceram-me dois tomates. Que orgulhosa fiquei do reluzente e tentador par que se me insurgiu por entre os arbustos viçosos. Todas as manhãs os contemplava com regalo desejando que crescessem mais, mas os velhacos eram de raça pequena.

Acabei por comer um, o outro dei-o ao meu gaiato. Como nunca antes tinha tido tomates, não soube o que fazer quando uma praga de insectos me fez murchar o tomateiro. Rais’parta. Desmoralizada, deitei tudo fora e tirei os tomates da cabeça que, mau grado o sumarento fracasso agrícola, constituíram saborosa e tenrinha aprendizagem.

2. Transviada nos rigores matematicamente exactos e frios dos números, suspirei durante anos pela elasticidade das hipérboles, a delicadeza dos eufemismos e o encanto fantástico das prosopopeias. 

Traí as folhas quadriculadas com os cadernos de linhas quando reuni uma lista das editoras em Portugal. Enviei candidaturas para todas. Foram centenas. Sem qualquer cunha ou experiência comprovada na época; apenas cara-de-pau e a fé de que tinha de haver um lugar para mim no mundo das letras, mesmo que fosse na última fila. Uma editora respondeu. Após traduzir algumas páginas de teste em inglês, recebi o meu primeiro trabalho: realizar a revisão da tradução de um livro inteiro, que concluí antes do prazo previsto. Foi a primeira semente de várias frutas que vim a colher.

3. «Tens de plantar tomates», disse. A minha amiga, incrédula com o inusitado conselho espiritual, continuava a lamentar-se que já não suportava o emprego onde trabalhava há mais de vinte anos (e do qual não saía porque achava que não valia a pena procurar outro). «Devias plantar tomates», insisti. Às vezes, falo por parábolas como o outro hipster barbudo que tornou o esqui aquático um desporto bíblico.

Plantar tomates é uma experiência de valor incalculável pela qual todos deveriam passar. Ora, passo a explicar: é necessário comprar um vaso ou floreira espaçoso. Depois, vários litros de terra. Da boa, claro — não sejam sovinas. Por fim, em qualquer mercado local se pode adquirir por pataca-e-meia um pé de tomateiro para plantar. 

Trazemo-lo para casa e depositamo-lo na terra com amor e esperança, como quem aconchega um bebé nos lençóis. Certificamo-nos que o tomateiro recebe boa luz solar. Regamo-lo frequentemente. Espetamos um pau comprido onde o tomateiro se possa apoiar à medida que for crescendo (homessa, o Quim Barreiros é tolo se não aproveitar esta frase para um dos seus êxitos de Verão.). Cuidamos e vigiamos; os tomates acabarão por nascer.

Esta semana, o arcano Valete de Ouros diz-nos que não podemos ter tomates se não plantarmos tomates, e às vezes é preciso ter tomates para os plantar. Os lamentos não fazem nascer tomates, mas mais razões para lamentar. Plantando, tudo dá.

Hazel
Consultas em Oeiras e online

Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1642
Foto: Os próprios, os meus tomates

«Faz-me impressão o trabalho. Ô-o-ô.»


Estava aqui a pensar escrever uma história em torno de um preguiçoso convicto e dedicado, verdadeiro profissional no exercício do ócio; uma narrativa lenta, sem ritmo, onde nada aconteceria e o dito preguiçoso estaria inerte desde a primeira à última linha. Um monumental tédio que começaria com um pachorrento arrastar de chinelos pelo chão peganhento da cozinha e uma mão macia e indolente que se estenderia para abrir a gaveta das tralhas.

Todas as cozinhas têm uma gaveta dessas, para onde se atiram parafusos que aparecem caídos no chão até que se descubra aonde pertencem, uma bisnaga de pomada para as picadas de insecto com a tampa mal enroscada, algumas molas da roupa, rolhas de cortiça, tampas órfãs de caixas Tupperware, jornais velhos para limpar os vidros e — ora, ali está ela — uma corda.

Enfastiado com a própria existência, tencionaria suicidar-se num Domingo à tarde com a televisão a transmitir um daqueles documentários sobre a vida sexual dos primatas e a tábua de engomar aberta no centro da sala. A corda para se enforcar encontrar-se-ia mesmo ao fundo da gaveta, emaranhada.

«Que maçada, ter de tirar tudo cá para fora. 
Depois faço isso. Suicido-me para a semana.»

Prosseguiria existindo, com preguiça de viver e de morrer, numa casa cheia de pó, frascos vazios ao fundo da banheira-revestida-de-sarro — , comida fora de prazo no frigorífico, um calendário de há dezassete anos pendurado na cozinha e um relógio parado.

Tinha um emprego, no entanto: era funcionário público no Registo Civil, onde tratava dos cartões de cidadão. O expediente fechava às 16:00, mas às 12:00 já não havia senhas para os utentes, que reclamavam sem que isso o afectasse. Eles não entendiam a sua necessidade de repouso.

O preguiçoso era preguiçoso porque era mais fácil assim. Estava seguro. Era como se nunca tivesse saído do útero materno. Chegou a apaixonar-se algumas vezes, mas as relações dão trabalho para se conquistar e ainda mais para se manter. Tentara declarar os seus sentimentos à Inês e à Isabel (tinha uma inexplicável fixação por mulheres com nomes começados por I), mas chegava imperdoavelmente atrasado aos encontros — quando comparecia.

Não morreria virgem. Era, porém, um desastre nas artes de alcova, onde a outra interveniente teria de estar o tempo todo em-cima-do-acontecimento para que este acontecesse — se é que me entendem.

Que vontade de espetar alfinetes nas nádegas desse lamentável mandrião para acicatá-lo, não fosse o indivíduo uma personagem inventada que ganhou vida nas páginas de um caderno velho arrastadamente manuscrito a Bic laranja, numa tarde quente passada na varanda onde um enxame de moscas esvoaçava como pensamentos dispersos.

Esta semana, o arcano Cavaleiro de Ouros espreita languidamente por entre os cobertores desejando que ninguém o mace. A preguiça é um luxo; como qualquer outro, severamente criticado, mas maliciosa e secretamente cobiçado. Resta-nos perdoar (guardar ressentimento dá mais trabalho).

Ainda bem que não escrevi esta história. Daria muito trabalho e hoje tenho que ir ao Registo Civil — levantar o meu cartão de cidadão.

Hazel
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Email: casa.claridade@gmail.com

Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1636
foto: Wokandapix, licença CC0

Bem-viver


«Ai filha, é aqui, aqui mesmo ao fundo das costas, ai que dor», gemia a tia Carlota, enquanto esfregava as cruzes com a mão direita cheia de anéis de prata. Era uma mulher estupenda. Grande, forte, de ancas largas e seios fartos que denunciavam um gosto particular pelo erotismo vivido secretamente nos seus tempos de viço.

«Instalaram-me uma antena ‘paroloca’ no quintal, diz que é para apanhar mais canais, mas eu tenho lá tempo para ver televisão, filha». Padecia de todas as maleitas conhecidas e mais algumas ainda-por-inventar — mas jamais de desânimo, abençoada —, que desapareciam como gelo em dia de Sol mal subia os degraus do autocarro, de mala de viagem pela mão.

Nunca se sabia por onde andava. Viajava com a sofreguidão de um fugitivo que leva a foice da morte atrás de si. Poucas vezes privei com a inquietante senhora; via-a quase sempre nos funerais e, até mesmo em tão circunspectas ocasiões, a sua presença era um vendaval quente e colorido, abundante de beijos lambuzados e repenicados que distribuía sem poupar saliva, enquanto relatava, a uma conveniente distância do finado e dos que o choravam, as novidades da última excursão a Benidorm, a Paris, a Fátima, a Ceuta, a Marrocos.

De tez bronzeada, como se tivesse condensado dentro de si o Sol do deserto do Saara, a sua alegria vibrante fazia-me acreditar que só pela sua chegada tinha começado uma festa. As suas roupas tinham padrões que nunca combinavam entre si, como pessoas de diferentes nacionalidades a falar ao mesmo tempo em diversas línguas. Nela, fazia sentido.

Esta semana, o arcano Rainha de Ouros inspira-nos a temperar a vida com especiarias, a rodopiar com o seu perfume extasiante e a deliciar-nos com todos os pequeninos prazeres que conseguirmos alcançar, nutrindo o corpo e a alma. Urge devorar a vida com volúpia. Aqui, agora. Já. Pela nossa felicidade e pela dos outros.

Imagine o que seria se cada leitor decidisse hoje fazer algo simples, prazeroso e diferente. Mesmo que esteja a ter um dia difícil. Melhor: não imagine, faça. Prove a si próprio que consegue sair da norma e permitir-se um momento de prazer, tenha a idade que tiver: recorte esta crónica, faça um avião de papel com ela, escreva com um marcador “Abrir em caso de tédio”, e atire-o pela janela!

Que esse avião de papel represente para si um pequeno prazer que dará início a muitos outros (com pontuação a dobrar se alguém abrir o avião para ler). Desafio-o.

Hazel
Consultas em Oeiras e online

Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1626
Foto: Wetmount, licença CC0

Advertência: crónica imprópria para aracnofóbicos convictos


Tenho uma aranha na sala. Não sei bem onde, mas anda por lá, umas vezes encolhida e introspectiva no canto entre o tecto e a parede do sofá, outras feita lambisgóia atrevida suspensa sobre a porta de entrada, como quem se prepara para pregar um susto aos que entram desprevenidos.

É meio cigana; anda sempre para cá e para acolá sem endereço fixo. A Dona Urraca — é assim que lhe chamo — não faz teia-de-aranha. Com muita pena minha, que aprecio a impecável engenharia de fios de seda entrelaçados com exactidão matemática e individualmente afinados como cordas de violino. Esta é uma aranha afoita, de nariz empinado se o tivesse, que não troca a liberdade pela segurança e nunca há-de assentar. É uma filósofa, uma aventureira, das que caçam para se alimentar em vez de ficar pacientemente sentada sobre as oito patas na teia à espera que o almoço lhe caia por distracção mosquitídea.

Já a do espelho lateral do meu carro — paz à sua alma, que se finou na última ida à lavagem automática — fazia belíssimas teias-de-aranha que resistiam à chuva, ao vento e à velocidade. Mais do que uma companheira de viagem, era um valoroso sidecar aracnídeo que conhecia todos os meus caminhos, atalhos e desvios; possuía as capacidades místicas de um oráculo animal na antevisão de engarrafamentos; para além de fazer com despudorada habilidade aquele gesto com duas patas aos automobilistas que se impacientavam comigo nas raras ocasiões que me atrevi a conduzir em Lisboa. Só comia fast-food, consoante a fauna voadora dos locais por onde viajámos se ia escarrapachando velozmente contra a teia. É certo que fiquei com o veículo mais digno e limpo, sem teias-de-aranha no espelho, porém passei a perder-me mais vezes.

Talvez a aranha de casa fosse mais feliz a viajar no carro, e a do carro tivesse encontrado maior conforto sossegadinha na sua teia sem ninguém que a apoquentasse ali no cantinho da sala junto ao sofá. Explicou-me a Dona Urraca, que me viu acabrunhada neste desvario existencialista, tragicamente a transpor para mim a analogia —, que a nossa casa é dentro de nós. A Dona Urraca é uma aranha batida; já viajou muito na vida, desde a parede do sofá até à porta de entrada da sala. Logo deduzi que até no meio dos meus livros essa saltimbanca andou, pois era o Mário Quintana que dizia “eu moro em mim mesmo”. Sorrio constatando que as minhas aranhas sabem mais que eu.

O arcano Dez de Ouros incentiva-nos a observar o local onde vivemos sob diferentes perspectivas e a ordená-lo, afiná-lo com delicadeza aracnídea, encontrando o lugar para cada coisa - e um sentido para tudo.

Dentro de casa e, como diz a Dona Urraca, que gosta de Mário Quintana — dentro de nós.

Hazel
Consultas em Oeiras e online
Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1622
foto: bernswaelz, licença CC0

Em busca do tesouro esquecido


O olhar insinuante e furtivo de Ofélia é, reflectido em mim, apanhado de flagrante pelos olhos matreiros do cavalheiro sentado na mesa atrás e, de imediato, ela fecha-me e atira-me para o fundo da bolsa, de onde retira um leque perfumado, que abana com petulância. O seu peito de pomba, empoeirado com pó-de-arroz, palpita como se o espartilho lhe empurrasse o coração para perto da boca.

Concede-me a honra desta dança?, arrulha o indivíduo ao seu ouvido. O vestido rodado parecia flutuar pelo salão, roçando nos outros vestidos de cores pastel, que deslizavam entre notas musicais, rendilhados e sussurros.

Saí do compartimento da bolsa bordada sempre em grandes ocasiões: lábios retocados com discrição em bailes onde se decidiam destinos apenas com a cumplicidade de um olhar; lágrimas comovidas em casamentos, que eram educadamente secas com lenços monogramados; o tule preto que se puxava com circunspecção do chapéu num ou noutro funeral.

No quarto de Ofélia, as paredes rosa-escândalo não raras vezes me viram abandonar em suspiros aos Nocturnos de Chopin entre as fiadas de colares de pérolas perfumadas com eau de toilette e a escova de prata com cerdas de crina de cavalo branco, sobre a penteadeira de madeira marchetada.

Quando fazia um passeio pelo campo acompanhada do cavalheiro dos olhos matreiros, Ofélia deixou-me cair para o chão sem que desse conta. Passei o Outono e o Inverno entreaberto debaixo das folhas castanho-dourado dos plátanos. Conheci a doçura do orvalho que escorria por mim todas as madrugadas, o cheiro da terra molhada e o despertar dos pássaros -, a mais bela sinfonia.

Um caracol fez de mim abrigo e, durante muitos dias, partilhámos a solidão e o silêncio. Ofélia, os bailes e os colares de pérolas pareciam-me agora tão distantes e pequeninos em comparação com a grande alegria que foi para mim conhecer este outro pedaço do mundo.

Ao romper da Primavera, uma mulher com um chapéu de abas largas caminhava à sombra dos plátanos sem quase fazer barulho, tendo como única companhia duas borboletas de asas brancas. Estendeu as mãos, que me descobriram por entre as ervinhas verdes. Os seus olhos sorridentes, reflectidos em mim, tinham sulcos que pareciam bigodes de gato. Eram sinceros, bondosos.

Observou-me e deixou-me ficar. Não precisava de tesouros. Nos seus olhos, o Sol brilhava a partir de dentro. Um baile de flores que dançavam com a brisa morna cobriu-me totalmente. Nunca me senti tão feliz.

O arcano Nove de Ouros inspira-nos a olhar para dentro e descobrir tesouros perdidos, esquecidos ou mesmo abandonados. Já temos tudo o que precisamos, aqui, agora. Dentro de nós. Quem duvidar, que procure bem.

Hazel
Consultas em Oeiras e online
Email: casa.claridade@gmail.com

Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1620
foto: imediacreatives.it

Jardinar como um verdadeiro jardineiro


Observar um jardineiro a trabalhar é um verdadeiro tranquilizante natural, uma panaceia para os sobressaltos que nos chocalham a paz de espírito. Nos jardins municipais, eles são quase invisíveis, vestidos de farda verde como se fossem uma discreta e respeitosa extensão da natureza circundante - e são-no, deveras. 

Espelhada no seu rosto, a doce e serena ausência de quem viaja ao sabor do vento em pensamentos enquanto as mãos se fazem dotar de vida própria cortando folhas secas e atando os ramos verdes-claro, ainda tenros, às estacas que lhes guiam e orientam o crescimento - como um paciente mas firme professor que ensina o caminho ao aluno. 

É apaziguador contemplar a forma como os jardineiros aconchegam a terra húmida à volta das raízes da alfazema replantada no fim da Primavera, como quem prepara a cama de um bebé e lhe compõe os cobertores para que não apanhe frio nas costas. Raramente os vejo correr no cumprimento das suas funções. Um dente-de-leão não tem pressa de ser arrancado. Pode ser agora ou daqui a duas horas; não vai fazer diferença. E está certo assim. O imediato é inútil e irrelevante no crescimento de um jardim. Que o diga a hera, constante, lânguida e sinuosa.

Eles, os cuidadores do verde, sabem que tudo leva o seu tempo e, mesmo assim, esse tempo pode até nunca chegar. Afinal, uma planta pode acabar por nem medrar. De nada adianta tentar pressioná-la para que brote mais depressa e para que dê frutos. Semeia-se com a fé na mão esquerda e o desapego na direita. Sabe-se colocar a semente na profundidade certa e na exposição solar mais favorável. Rega-se, aduba-se, cuida-se. Faz-se o melhor que é possível fazer e depois o resto é com a Natureza. É ela, senhora soberana do compreensível e do inatingível, que dá o veredicto final.

Saber esperar é uma virtude rara e imensamente admirável que os jardineiros, possuidores de sabedoria forte e telúrica como raízes de cedro, dominam com mestria. Tudo se deve fazer no momento certo para ser feito. E depois espera-se enquanto se cuida, e cuida-se enquanto se espera, sem que se dê pela espera a decorrer.

Esta semana, a carta Valete de Ouros inspira-nos a colocar as mãos na terra e a sermos jardineiros da nossa própria vida. Sem ceder a pressões. Sem dar um passo maior do que a perna. Sem necessitar que alguém nos motive. Trabalhando em harmonia com o todo, para um propósito concreto, mesmo que não saibamos se esse objectivo alguma vez será atingido.

Como um jardineiro, temos de semear, cuidar, nutrir, aprender a arte da paciência, e esperar pelo melhor. Se tudo correr bem, colheremos os frutos um dia, quando o tempo certo chegar. Senão, livramo-nos dos ramos secos, e voltamos a plantar - quando regressar a Primavera.

Hazel
Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1602
foto: Foundry, licença CC0

Profissão: equilibrista


Anacleta segurava o telemóvel entalado entre o ombro e a orelha, escutando a voz monocórdica do chefe que balbuciava qualquer coisa acerca do relatório mensal. Sobre o braço direito dobrado junto à linha do umbigo que se afundava entre refegos suados, onde outrora brilhara o cristal rosa-choque de um piercing, assentava o seu bebé que acabava de lhe desenhar uma longa autoestrada branca bolsada pelas costas abaixo. Plim!, apita o microondas, que desliga com a mão esquerda. Já cheira a sopa de legumes, e não há tempo para comê-la.

Entre as sobrancelhas arranjadas à pressa que ficaram arqueadas demais conferindo-lhe uma expressão de espanto permanente, uniam-se dois vincos de pele como pontos de exclamação resultantes do esforço para manter um estado de alerta e concentração constantes.

Nunca relaxava. Quando dormia, preenchia folhas de cálculo, fazia gráficos, estatísticas e apuramento do IVA ao mesmo tempo que passava óleo de cedro nos móveis, raspava o queimado das torradas e estendia a roupa no varal colocando as molas por ordem de cores, o que lhe prorporcionava uma reconfortante ilusão de ordem no meio do reboliço que era a sua vida.

Fazia exactamente o mesmo quando estava acordada, o que por vezes lhe tornava difícil distinguir se estava desperta ou nos domínios de Morfeu. Cansada e distraída, acabava por frequentemente misturar roupa clara com roupa de cor, e terminava tudo tingido de cor-de-rosa, o que arreliava o marido, que tinha preconceito com a delicada e feminina cor que lhe ia aos poucos invadindo todas as suas camisas brancas.

Sentia-se um falhanço em todas as áreas. Como profissional, porque quase tinha de correr uma maratona para conseguir cumprir os prazos dos abomináveis relatórios mensais. Como mãe, porque não conseguia dar suficiente atenção ao seu filho. Como mulher, porque há meses que não fazia amor com o marido devido às enxaquecas, umas vezes reais, outras inventadas. Como dona-de-casa, porque estava tudo sempre desarrumado e tingido de cor-de-rosa. E como ser humano, porque se tinha esquecido que lhe era permitido tudo isso e ainda assim viver sem culpa.

Anacleta era uma mulher espantosa sem o saber, porque conseguia gerir um milhão de responsabilidades em simultâneo - tal como tantas outras mulheres e homens com quem nos cruzamos diariamente, cheios de vincos de preocupação e angústia porque estão a fazer tudo ao mesmo tempo, e por isso acham que não estão a conseguir ser suficientemente bons em nada.

Esta semana, a carta 2 de Ouros mostra-nos que é possível transcender os limites quando colocamos a noção de perfeição em perspectiva. Por vezes, a única forma de manter o equilíbrio ao longo do fio da vida é aceitar distribuir-nos em várias direcções, manter o ritmo e a flexibilidade, e não perder a fé em nós mesmos por vacilarmos quando o vento sopra. Afinal, mares tranquilos não fazem bons marinheiros.

Hazel
Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1595

Dinheiro, mulheres e carros

foto: sutterstock



“Carros, mulheres e dinheiro nunca se emprestam.” 

Há lá afirmação mais machista que esta, que reduz o valor de uma mulher ao de um bem material que se possui, como um carro ou um maço chorudo de notas. Todos nós crescemos a ouvir esta frase e muitos até já a repetimos em alguma ocasião, sem pensar bem no que estamos realmente a dizer, perpetuando uma programação mental de desvalorização humana que atravessa gerações de pessoas convencidas que evoluem nuns sentidos, mas involuem noutros.

Tempos houve em que os homens se juntavam para jogar a dinheiro e perdiam tudo o que tinham, acabando por apostar as próprias mulheres. E não foi há tanto tempo assim. No entendimento de quem criou o provérbio, talvez pretendesse tecer um generoso elogio ao sexo feminino como tesouro que é, tão valioso quanto um Jaguar, essa bela máquina que desliza por curvas sinuosas, onde o condutor se agarra à manete das mudanças num êxtase quase sexual enquanto mete a quarta a fundo para passar o sinal laranja, o limite entre os que ficam e os que vão, entre os que ousam e os que se resignam. O carro, a conta recheada e a beldade sentada no banco do lado, é ou não é o epítome do sucesso para a grande maioria dos elementos do sexo masculino?

Para que ninguém me acuse de feminismo extremo ou ingratidão, há que reconhecer a boa intenção, ainda que gorada, por trás de tal conjunto de palavras: o que nos é precioso deve ser protegido e preservado. Vamos tentar esquecer que os carros podem ser comprados, trocados, experimentados, abandonados ou entregues para a sucata. Que o dinheiro pode ser transaccionado. E que até pode haver algumas mulheres que se vendam por dinheiro. É um mundo cão.

Ainda assim, ninguém é obrigado a viver como um asceta e a abraçar os valores que inspiram as ideologias mendicantes, renegando os prazeres da matéria. Quase ninguém o faz, ainda que todos censurem aqueles que assumem o materialismo com naturalidade. Somos feitos de carne e osso, de fome e sede, de erotismo e de vaidade. E quase sempre desdenhamos nos outros aquilo que negamos a nós mesmos.

Esta semana, a carta Rei de Ouros inspira-nos a encontrar um equilíbrio entre os valores visíveis e os invisíveis. Uns não têm de anular os outros. Carros, mulheres e dinheiro nunca se emprestam - mas preservam-se. Os carros e o dinheiro, pelo risco de não serem restituídos, ou de serem devolvidos danificados (no caso dos carros) - um direito incontestável naqueles que trabalharam para o conseguir. As mulheres, porque não são de ninguém para poder ou não emprestar. 


Próspero é aquele que sabe amar e sabe fazer-se amar, conseguindo distinguir o valor das pessoas do das coisas. A abundância, sob todas as suas formas, é um direito de todos; negá-la ou mantê-la sob o peso da culpa não garantem conquista espiritual. Que o diga a instituição religiosa mais rica do mundo e que mais recomenda a pobreza como via da virtude.

Hazel
Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo

Elogio da preguiça


A preguiça, um dos sete pecados capitais, ganhou uma má reputação atribuída pela Igreja Católica desde há tantos séculos que nem valeria a pena contá-los, tornando culposo o simples e inocente prazer de estar parado sem nada fazer.

Seria religiosamente obrigatório o movimento constante - e desgastante - sem permissão moral para nos entregarmos ao ócio, ao vazio, à doçura semi-erótica de um corpo que se estende sobre uma cama com lençóis macios que se moldam à nossa volta num abraço digno de Morfeu.

Contudo, se fôssemos culpados por nos abandonarmos à preguiça, também o seria a Terra, que repousa ciclicamente para que possa voltar a dar frutos. Contrariar as necessidades básicas humanas seria uma arrogância da nossa parte; equivaleria a tentar impor-nos às forças da Natureza.

Dir-se-ia que a preguiça não é um pecado, mas, pelo contrário, um bem de primeira necessidade, do qual se deve usufruir com esmero, delicadeza e parcimónia. Tomá-lo em excesso tornar-nos-ia flácidos de carácter, destemperados de ambição, cadáveres vivos, perfumados e de faces rosadas, sem expectativas ou anseios. Na medida certa, é salutar e regenerador.

A carta Cavaleiro de Ouros leva-nos a reflectir sobre a necessidade de abrandar a velocidade, parando para apreciar a paisagem, tirar os sapatos e sentir o contacto dos pés descalços com a terra fresca, regressando, assim, à nossa essência.

É preciso deixar que a poeira das atribulações do dia-a-dia possa ter tempo para voltar a assentar, para que a alma se apazigue e o coração aprenda a saber esperar, a ter paciência - a dar tempo ao tempo. Que seja restituída a merecida dignidade à tão desprezada e simultaneamente cobiçada preguiça.

A tranquilidade, que caminha de mãos dadas com a paz de espírito, é uma arte que se aprende quando nos permitimos parar sem que nos sintamos culpados por isso. É que, ao contrário do que se diz, nem sempre parar é morrer. Às vezes, parar é crescer por dentro e estender raízes alimentadas pelo conforto e pela segurança da rotina que se instala.

A preguiça é uma droga que cura, embora possa tornar-se viciante e letal no momento em que a pacatez encontra a acomodação, e esta última toma o seu lugar. Nesse instante, devemos despedir-nos graciosamente da preguiça como se de uma visita se tratasse, daquelas que se tornam incómodas por ter ficado tempo demais, e marcamos novo encontro dentro do prazo necessário para que lhe voltemos a sentir a falta.

Hazel

Crédito foto
Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição de 23 Junho

Querer não é poder. É preciso fazer também.

A excêntrica actriz norte americana Bette Midler afirmou, certa vez: “Quero tudo, e quero entregue em minha casa.” Que atire a primeira almofada de plumas quem nunca desejou, nem que fosse por um inocente segundo, que todos os seus desejos fossem instantaneamente realizados sem qualquer esforço, num estalar de dedos. 

Envolto numa nuvem sobrenatural de fumo, não se sabe se de incenso de sândalo ou nevoeiro igual ao das manhãs frias de Inverno, elevava-se o lendário génio da lâmpada mágica com um turbante de seda púrpura, barbas longas e negras, e toda a generosidade para oferecer. Bastaria desejar para ter. Nem saberíamos por onde começar!

Entretanto, toca o despertador às sete da manhã, carregamos no botão de snooze, e acabamos por apanhar um trânsito infernal. Chegamos atrasados ao emprego e tentamos passar de fininho enquanto os colegas erguem o pulso e olham para o implacável relógio num tom de propositadamente mal disfarçada censura. 

Na vida real, não existem lâmpadas mágicas, e a Bette Midler também nunca chegou a ter tudo. Em todo o caso, ninguém disse que não podemos conquistar o que desejamos. Se o fez, mentiu-nos descarada e imperdoavelmente.

Esta semana, a carta 8 de Ouros leva-nos a reflectir sobre as nossas próprias capacidades, que devemos pôr em prática, não a meio-gás, mas a pleno vapor quando temos um objectivo em mente. Não podemos obter resultados sem genuína e honesta dedicação, minúcia, atenção ao detalhe, tempo de permanência, ritmo, esforço e amor pelo trabalho que desempenhamos. 

Uma floresta não cresce de um dia para o outro. Nós também não nascemos de um dia para o outro. Tudo requer tudo. Se apenas entregamos um pouco, de má vontade e com falta de fé, teremos de contentar-nos com pouco também.

Podemos conquistar o que desejamos, se estivermos realmente dispostos a fazê-lo acontecer, se houver amor e perseverança suficientes. Não pode haver pressa, ansiedade ou tempo para duvidar - e ainda menos para olhar para o lado e tentar ver se o vizinho já o conseguiu antes de nós. Fixemos o olhar em longas distâncias, não curtas. 

O percurso em direcção aos nossos objectivos pode revelar-se exaustivo e desprovido de motivação externa. Por esse motivo, muitos desistem, desmotivam-se, e ficam pelo caminho a lamentar a falta de sorte.

Enquanto dependermos das palmadas nas costas dos outros para andarmos para a frente, nunca conseguiremos avançar mais que uns passos hesitantes. Os outros, provavelmente, até irão levantar obstáculos ou tentar fazer-nos duvidar de que conseguiremos ou de que somos dignos de conseguir seja o que for na vida. Por vezes, esses outros até são os que estão mais próximos de nós. 

Temos de ser nós a impulsionar-nos continuamente para conseguir um milagre. Porque os milagres existem, se estivermos dispostos a trabalhar para merecê-los. O génio da lâmpada mágica somos nós.

Hazel

Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, 16 Junho
Foto: Cylla von Tiedemann

Como Passar de Besta a Bestial


Todas as histórias são histórias de amor. Umas, de amor sentido. Outras, de amor não sentido. Porque um rio que não consegue desaguar no mar, não deixa de ser um rio. 

Quando não nos sentimos apreciados e a nossa existência se torna indiferente àqueles que valorizamos, podemos cair no precipício de questionar o nosso próprio valor e, ao fazê-lo, despedaçamo-lo - e a nós mesmos. Há partes de nós que deveriam permanecer intocáveis, fechadas a sete chaves num baú de adamantino, por uma questão de segurança. - E nós somos os seus maiores usurpadores.

A maior parte dos problemas de relacionamento, sejam estes entre amigos, vizinhos, familiares, cônjuges ou colegas de trabalho, têm a mesma raiz: o sentimento de desvalorização. Lamentamo-nos porque não nos valorizam, sem perceber que este poço sem fundo irá acompanhar-nos para onde quer que nos desloquemos, porque ele é nosso, e não dos outros, que apenas replicam a nossa relação connosco.

Mas de onde vem isto? Este buraco na alma é a dor causada pelo amor que não sentimos por nós mesmos. Desejamos que sejam os outros a amarem-nos, em proporções desmesuradas, por eles e por nós. Para que consigamos amar-nos e acreditar que temos valor, têm de ser os outros a demonstrá-lo. - É isto que pensamos sem pensar, quando nos sentimos desvalorizados.

Contudo, os outros não entendem tal necessidade. Por muito que nos amem, nunca será o suficiente para fazer mudar de opinião o nosso obstinado grupo de jurados interno, que já nos condenou ao desvalor, enviando-nos para os calabouços da auto-comiseração!

E cresce a insatisfação, o ressentimento, a frustração. Os outros fartam-se de nós. Quem pode censurá-los, se até nós já nos fartámos de nós mesmos. Estamos por nossa conta.

Ainda que tenhamos as mais refinadas e admiráveis qualidades humanas, ninguém nos amará, se não o fizermos primeiro. Em boa verdade, “não há amor como o primeiro”. Esta expressão, que tem sido pobremente interpretada desde sempre, significa que não existe amor que se possa equiparar àquele que sentimos por nós mesmos. Logo, nenhum tipo de amor externo, por mais profundo e idílico, poderá compensar tal inexistência.

A carta 5 de Ouros, esta semana, confronta-nos com as nossas fragilidades e ensina-nos que temos de ser nós a automotivar-nos, porque mais ninguém o fará. Mesmo que tenhamos de fazer das tripas coração para conseguir perdoar os outros pela sua incapacidade de nos amarem como achávamos que merecíamos. 


Porque só quando reconhecemos que, afinal, o nosso vazio era um rio de amor que não tinha para onde desaguar, conseguimos compreender que os outros nos amaram na medida exacta que precisamos para encontrarmos o amor por nós mesmos.

É tempo de partir espelhos e de ver-nos a partir de dentro, sem recear uma maldição de sete anos de azar, mas, pelo contrário, preparando-nos para muitos anos de amor pleno. 


Ensinemos o mundo a amar-nos pelo exemplo: amando-nos a nós mesmos. E se, mesmo assim, o mundo não entender de imediato a lição, não devemos, jamais, parar de ensiná-la. Tomemo-lo como missão de vida. E deixemos que aqueles que insistem no desamor tenham tempo e espaço para que também o encontrem dentro de si mesmos.

Hazel
Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, 24 Março