Para uns anjo, para outros pior que o belzebú


Fugiram-me duas velas de casa. Tinha-as em cima da mesa de jantar, cada qual no seu castiçal, e desapareceram sem deixar pingo de cera nem de remorso. Corri atrás delas rua fora, mas no primeiro cruzamento virou uma para cada lado. As danadas. Voltei para casa de mãos a abanar.

Coloquei um anúncio no Encontra-me. Entre cães e gatos desaparecidos, lá estavam as minhas velas. Ambas brancas e simples, uma acesa e outra apagada. Ofereci alvíssaras a quem mas trouxesse de boa saúde e ainda por derreter.

Estas são velas especiais, têm de compreender. Velas que falam, que pensam, que têm opiniões e caprichos. Andaram desaparecidas durante vários dias e noites até finalmente dar com elas estafadas, caídas à porta de casa. A vizinha da frente levantou uma sobrancelha julgando que se tratasse de alguma reles feitiçaria, mas expliquei-lhe que “não, vizinha, isto são só as velhacas das minhas velas que me tinham fugido”.

Entraram de pavio tombado para a frente, receosas do ralhete que iriam levar. Encaixaram-se muito direitas e compenetradas nos castiçais enquanto viam puxar de uma cadeira para ouvir o que tinham a contar sobre a inusitada evasão.

Começou a acesa a falar. Vinha maravilhada. Por todas as ruas onde tinha passado, encontrou luz: reflectida nas montras das lojas, a cintilar nas paragens de autocarro, nos carros que circulavam na estrada; a dançar nos olhos das pessoas que cruzaram o seu caminho. Jamais imaginaria que houvesse tanta beleza no mundo, suspirava encantada.

Seguiu-se a apagada. Num suspiro profundo e tristíssimo, lamentou a malograda saída. Sentiu-se perdida, desajustada nas ruas afundadas em trevas. As pessoas eram obscuras e sinistras, tudo era desinteressante, escuro e vil. Nunca encontrou uma réstia de luz.

Homessa, que tontas, disse-lhes, enquanto fui buscar um espelho para colocar à frente dos castiçais, aquilo que viram foi uma projecção da vossa própria luz (ou da ausência dela).

A acesa sorriu enternecida. Amolecida pelo calor inclinou-se para o lado e acendeu a companheira apagada que num segundo começou a irradiar luz, alívio e alegria. Prometeram não tornar a fugir.

Nós somos para os outros um reflexo daquilo que eles são. Para os detentores de luz, teremos sempre alguma luz e virtude. Para os mais sombrios, seremos vício e escuridão.

Aqueles que nos olham com bondade encontrá-la-ão também em nós; seremos anjos para esses — e piores que o belzebú para os outros. Deixá-los ver-nos com os olhos que têm, que importa lá isso. O arcano Rei de Paus inspira-nos a não parar de brilhar — e iluminar aqueles que se cruzam connosco.

Hazel
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Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1687
Imagem: kellepics, licença CC0

Quatro casamentos e três funerais


A respeito do cartaz “Não matem os velhinhos”, lembrei-me de uma gaiata que conheci, bem mai’nova e desempoeirada que a sirigaita da frase. Sorridente e surpreendente no seu batom vermelho-malagueta e óculos-escuros-femme-fatale, assentia com a cabeça enquanto escutava a sua história ser-me contada pela amiga que fez as apresentações.

Que a jovem contava oitenta e duas primaveras. Sorri com admiração, duas vezes a minha idade.

Que o marido tinha morrido havia meia-dúzia de anos num acidente de viação; que era ela quem estava ao volante. O meu sorriso logo esmoreceu, dando lugar ao silêncio respeitoso, compadecido e atrapalhado de quem ficou subitamente sem saber como reagir.

Mas que continuava a conduzir. E que entretanto tinha casado novamente havia poucos meses, lançava a entusiástica amiga enquanto a moça de oitenta e dois anos ia acenando com a cabeça numa expressão travessa. O meu sorriso voltou aos poucos a estender-se aliviado, ora bem, a vida continua, está certo, tem que ser assim.

Que era a quarta vez que casava. As minhas sobrancelhas subiram em espanto.
E todos pela igreja. Homessa, como?, indaguei. Eles morrem todos!, exclamou sem grama-de-drama. Não aguentei. Levei as mãos à cabeça e ri-me incrédula. Os lábios vermelho-malagueta riram também, da tragicomédia que por vezes é a vida; e que se apresentava ali, simples, despreocupada e limpa na doce e divertida senhora que vivera o dobro de mim.

Compreendi no seu riso que não havia tempo a perder, culpas carregar, tristezas a alimentar, dramas para chorar. Havia tão somente um ponteiro de tempo a marcar tiquetaque e um apetite voraz pela vida como o de uma criança que apenas quer os doces sem passar pela sopa e pela salada. Tudo é relativizado. As tragédias, o que os outros pensam, as preocupações, os medos. Só há tempo para o agora e para a verdade que, no fundo, são quase sinónimos um do outro.

Ajudei-a a subir as escadas depois da consulta. Os olhos brilhavam-lhe. Ia com pressa, afinal estava casada há pouco tempo e o corajoso marido desafiador das funestas estatísticas esperava-a em casa. Despedi-me grata pelo privilégio da aprendizagem que trouxe aquele sorriso vermelho-malagueta, com uma admiração e afecto que duram até hoje.

Esta semana, o arcano Ás de Paus aponta-nos a luz da vida e diz-nos que podemos fazer com ela tudo aquilo que quisermos, a qualquer momento. E que bom que é. Tenhamos a idade que tivermos. Aconteça o que acontecer. Só depende de nós. Mesmo que os outros não entendam as escolhas imprevisíveis ou fora do que é considerado “normal”.

Que a centelha divina possa brilhar enquanto houver caminho para andar. Os velhinhos já não são como antigamente; estão mais vivos, mais rebeldes e mais jovens que muitos jovens que andam por aí a passear cartazes.

Hazel
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Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1685
foto: Mansellgrl5, licença cc0

"Segure-me aqui a Língua desta Menina."


Foi na Primavera tensa de mil-nove-e-noventa-e-nove que uma malfadada espinha de carapau me escorregou através da glote e se espetou bem lá no fundo da garganta.

(Se é sensível a descrições de teor visceral, não leia mais. Embora haja piores.)

Tentei tossir, mas não saiu. Comi pedaços de pão inteiro, na esperança de empurrá-la pelo aparelho digestivo abaixo, e-depois-logo-se-via (tentando desviar a memória daquela tia-avó que um dia foi parar ao Hospital com uma espinha de bacalhau atravessada no reto). — Nada.

Deitei-me desejando que a espinha demoníaca desaparecesse milagrosamente e tudo não tivesse passado de um sonho menos bom quando acordasse. A manhã chegou e, com ela — a facínora. Tomei duche com a espinha. Vesti-me com a espinha. Fui trabalhar com a espinha. Ao fim do dia, dei-me por vencida. Fui ao Hospital.

A funcionária da entrada parecia farejar algo embaraçoso no motivo da minha ida às Urgências, a avaliar pelo meu aspecto saudável e ao mesmo tempo inegavelmente acanhado. Não, não tinha objectos entalados nas cavidades vaginal nem anal (apre!).

Tenho uma espinha espetada na garganta — sussurrei.
Tem o quê? — rosnava a redonda senhora com olhos maliciosos, de dentro do guichet. A fina arte da velhacaria consiste em fazerem-nos repetir em bom som, numa sala cheia de pessoas atentas (ou assim a nossa timidez faz parecer), o motivo do nosso embaraço.

TENHO UMA ESPINHA ESPETADA NA GARGANTA — respondi, agora alto, para deleite da curiosidade mórbida que me rodeava.

Fui atendida pelo Otorrinolaringologista, um sujeito de bigode fininho, calma anestésica e paciência infinita, que espreitou cá para dentro decidindo mentalmente que instrumentos (de tortura) iria utilizar. Chamou o enfermeiro:

— Segure-me aqui a língua desta menina.

O jovem enfermeiro arrepanhou-me a língua enquanto o médico segurava uma pinça suficientemente grande para agarrar a parte mais larga da tromba de um elefante.

Conforme a pinça zoológica abria caminho goela abaixo, constatei no quão parecidos os humanos podem ser com os gatos em espasmos pré-vómito. Julguei que fosse vomitar na cara do enfermeiro que me continuava a esticar a língua como se fosse a passadeira vermelha dos Óscares.

Foram várias as investidas para chegar à espinha. As lágrimas escorriam-me pelos cantos dos olhos, enquanto tentava encontrar algum lado positivo naquilo, “vai que tinha ficado espetada à saída”.

Por fim, a super-mega-pinça caçou a diaba. Depois de tanto tempo enterrada nas minhas carnes tenrinhas e indefesas, esperava uma espinha gigante. Tinha menos de um centímetro. Muito pequenina. Mas velhaca, bem velhaca, a danada.

A minha zanga com os carapaus durou anos. Olhava-os com um desprezo que mais ninguém entendia, a não ser a minha glote, que ainda guarda memórias funestas. Raramente comi carapau depois disso, até esta semana. Assados no forno. Tenho que admitir: estavam deliciosos.

O arcano Cavaleiro de Paus recorda-nos que nada é definitivo. Em particular, quando se trata de algo que sabemos não pertencer onde está. É sempre melhor moderar os impulsos e degustar os prazeres da vida com algum cuidado.

Tudo o que não se encontra na sua devida natureza, mais tarde ou mais cedo acabará por partir. Restam as experiências vividas, a aprendizagem e o desapego.

A sentir-me um autêntico carapau-de-corrida,

Hazel
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Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1681

Bilhete de ida


Está decidido. Já anotei nos alfarrábios estrelares quanto tempo vou querer viver. Que alívio isso me trouxe, por Láquesis!

De-agora-em-diante (quase escrevia ‘doravante’, mas encontrei a palavra cheia de pó por falta de uso, assim engavetei-a embaraçadamente neste parêntesis), não darei um passo sem que a terra se sinta beijada com sacralidade pelos meus pés.

As janelas de cada olhar serão diariamente abertas com cortinas diáfanas de contemplação. Cada gesto será desenhado com graça e musicalidade. Cada abraço uma torrente de amor no envelope de dois peitos que se colam.

Nada poderá ser em vão. Não pode haver desperdício. Sem talento algum particular que me seja fecundo, seja eu arte. Que seja pelo amor, pela sabedoria, pelo prazer.
No mínimo, pela beleza.

É certo que o incerto pode intrometer-se pelo meio e abrir um atalho mais cedo que o esperado. Não há quem seja imune às tropelias do acaso. Porém, tal não me detém nem distrai — pelo contrário — apenas me impele na viagem.

Afinal, ninguém está a salvo de lhe cair um piano em cima ao sair de casa. Ou de um elefante obstinado e fatídico se sentar sobre si recusando-se terminantemente a levantar. Se acontecer, logo-se-vê.

Para todos os efeitos, está tudo planeado. Tenho o bilhete comprado, as malas feitas e embarco no comboio. Não há tempo a perder.

Procuro no bolso do casaco um lenço branco com alguns macaquitos do nariz que ninguém repara visto de longe para vos acenar em despedida. Os que me querem bem, não lamentem a minha partida.

Aqueles com quem de alguma forma falhei, aceitem as minhas sinceras desculpas. Se não quiserem aceitar, desculpem não poder ficar a desculpar-me para sempre, mas tenho um comboio para apanhar. Os que pensam mal de mim, regozijem-se por me verem pelas costas e não reclamem mais. Está tudo bem, está tudo certo. Estão todos perdoados. Agora vou.

O arcano Valete de Paus desafia-nos a ousar o extraordinário e a fazer planos impossíveis de garantir. Não é, afinal, toda a existência um plano impossível?

A natureza de tudo é a impermanência, a inexistência de garantia, o risco contínuo — e a paixão por acreditar na eternidade, ainda assim. Já nascemos com um bilhete para não-sei-onde e depois logo-se-vê. Eu apenas estou a usar o meu.

Muitas graças por tudo. O tchuque-tchuque do comboio anuncia a partida.
Vou-me embora, embora continue cá.

Contudo, acreditem, creiam-me: ainda que me vejam, que me escutem (id est, leiam) e que me toquem — já não estou mais aqui. Fui.

Até à vista!

Hazel
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Contacto: casa.claridade@gmail.com

Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1679
Foto: xunseru, licença CC0

A revolução dos cravos


“Se quiser, tome, um cravo oferece-se a qualquer pessoa”, respondeu Celeste Caeiro, 40 anos, ao soldado que lhe pediu um cigarro. Não tinha mais nada para oferecer senão os braços cheios de cravos vermelhos e brancos.

O restaurante onde trabalhava, em Lisboa, celebrava nesse preciso dia um ano de abertura, e tinham comprado uma quantidade considerável de cravos para oferecer às senhoras que lá entrassem.

As notícias sobre a ocorrência do golpe de estado levaram a que o gerente tomasse a decisão de não abrir o estabelecimento. Celeste foi, como os restantes colegas, mandada para casa devido aos acontecimentos iminentes. Os cravos foram distribuídos pelos funcionários, para que os levassem consigo.

Curiosa e inquieta, quis ir ver a revolução que estava para acontecer com os seus próprios olhos. Após sair do metro, encontrou os tanques que se dirigiam para o Quartel do Carmo. Indagou os militares sobre o que estava a passar.

“Nós vamos para o Carmo para deter o Marcello Caetano. Isto é uma revolução!"
O soldado recebeu o cravo que Celeste lhe estendeu e enfiou-o no cano da G3. Celeste dos Cravos, como ficou depois conhecida, distribuiu as restantes flores que transportava pelos outros militares, que replicaram o gesto do camarada.

A revolução dos cravos trouxe a promessa da liberdade, que ainda falta cumprir.
O 25 de Abril ainda não acabou. Continua no dia 26, no 27, no 28 e por aí em diante — enquanto houver alguém com medo de sofrer retaliações por dizer aquilo que pensa. Enquanto houver alguém a abafar ou a deturpar a verdade. Enquanto houver desrespeito pelo livre arbítrio do outro.

A liberdade será conquistada quando todos aprendermos e integrarmos genuinamente os valores éticos; a honestidade absoluta, a confiança e a bondade desinteressada. Só então se poderá verdadeiramente chegar à Liberdade. Temos de merecê-la primeiro.

Até lá, continuamos todos os anos a comprar cravos vermelhos para celebrar a liberdade sem ter noção que o fazemos a partir de dentro da clausura em que nos encontramos, prisioneiros da ditadura da desonestidade, da corrupção, do desrespeito, da manipulação, da mentira e da falta de transparência, até mesmo por parte de quem trabalha em prol dela.

Nas pequenas e nas grandes esferas, a Liberdade ainda se encontra longínqua. Tanto quanto a verdade.

Avante, que a revolução ainda mal começou. O arcano Nove de Paus incita-nos a manter-nos lúcidos e alerta, a pensar por nós mesmos, a questionar tudo — e a não abandonar o barco. Se não formos nós, quem por nós?

Hazel
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Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1678
foto: Leonardo Negrão - Global Imagens

Os malmequeres que nos querem bem


Ai o que eu gosto de malmequeres. Reconfortantes e malcheirosos, aparecem todos os anos quando já ninguém espera por eles, no momento em que se perdeu a esperança de que o Inverno vá alguma vez terminar e nos rendemos quebrados pela chuva mole, teimosa e eterna, um regozijo para o bolor que se imiscui pelos roupeiros bafientos e trepa paredes e ânimo.

Junto duas colheres de café solúvel, uma de açafrão e outra de canela em pó. Misturo água quente, mexo e levo aos lábios a velha caneca, fumegante e aromática; tem, por certo, muito mais de trinta anos. Era eu gaiata — foi quase ontem. É a minha caneca preferida.

A minha mãe tinha uma prima que não tomava banho. Poderia chamar-se Vera (prima-Vera), mas era Bárbara o seu nome — e bárbaro o tule odorífico em sua volta, quase visível, quase palpável. Paz à sua alma, já há muitos anos liberta do corpo que raras vezes terá entrado num chuveiro. Não importa, estimávamo-la na mesma.

Sorvo devagar o café-com-açafrão-e-canela na caneca com o desenho do texugo oferecida pela prima Bárbara numa das suas visitas e deixo a música tocar alto como que a exorcizar as últimas sombras nebulosas do Inverno: “A Primavera” de Vivaldi, interpretada pelo violinista Itzhak Perlman.

Era muito boa senhora, mau grado a falta de esmero na higiene pessoal. Os cabelos pintados de azeviche, impecavelmente ordenados com laca, o sorriso sereno e acolhedor, sempre amorosa e paciente. Falava baixinho, a dentadura ficava-lhe larga. Não me consigo lembrar sobre o que conversava, mas recordo a sua generosidade e bondade.

A prima Bárbara nunca avisava quando vinha visitar-nos. Aparecia sempre de surpresa, pela Primavera; como os malmequeres, reconfortantes e malcheirosos. Inesperados rasgos de luz invadem a casa, ou é isto ou é a mistura do açafrão e da canela no café. Olho pela janela e vejo malmequeres lá fora, um espectáculo para a alma oferecido pela Natureza, que escapa à atenção de quem passa. Pouso a caneca vazia e termino a crónica com a alma cheia de pétalas.

O arcano Ás de Paus aparece num súbito e inesperado impulso, como os malmequeres salpicam de luz os campos verdes e encharcados pelas chuvas, inspirando-nos a deixar o Inverno para trás e, junto com ele, as sombras, a indecisão, os receios. Assim, sem mais nem menos; a renovação e a novidade chegam para quem se dispuser a colher os malmequeres.

Hazel
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Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1673
Foto: Couleur, licença CC0

Monstros debaixo da cama


Não acredito em Deus. Mas sei que Deus existe; disso não duvido, benza-me Deus. Existe para aqueles que acreditam n’Ele. Quem diz Deus, diz o Diabo.

A crença numa ideia torna-a real, verdadeira. Qualquer ideia. Os monstros debaixo da cama são inegavelmente palpáveis para os que neles creem, a ponto de chegarem mesmo a sentir a fria e subtil electricidade causada pela antecipação das mãos trémulas, gélidas e ossudas a agarrar os seus pés. Sim, os monstros debaixo da cama existem. Mais ninguém os pode ver, mas para aquele que acredita neles, são bem visíveis e tangíveis.

O meu gaiato, quando era mais pequeno, assegurava-me todas as noites que havia uma sombra que o espreitava pela porta do quarto e por vezes nem a luz de presença a dissuadia de aparecer. Eu insistia que não existia ali nada, mas ele continuava com medo.

Então percebi que era eu que estava errada; claro que existia algo. Não para mim, mas para ele. Quando tomei consciência do meu erro, fui buscar dois panos da loiça à cozinha para apanhar o monstro (caso não saibam, os monstros, sombras e outros assombros semelhantes apanham-se com panos da loiça).

Anda, vamos apanhá-lo. O relógio marcava dez para a meia-noite. Apaguei todas as luzes em casa. Eu levava o sabre de luz da Guerra das Estrelas, e o meu gaiato uma lanterna. Cada um tinha um pano da loiça preso na parte de trás da camisola com uma mola-da-roupa, como uma capa de super-herói.

«Quando o apanharmos, damos-lhe 
com o sabre nos cornos.» 

Pronto, eu não disse cornos, embora a miudagem agora conheça palavras bem mais escabrosas. Acho que disse trombas. Ou fuças. Ou ventas.

Corremos a casa toda de-fio-a-pavio. Os monstros existem e precisam de ser caçados. O medo torna-os reais, poderosos. Mas a coragem de olhá-los de frente fá-los dissolverem-se, transformarem-se em nada. Matámos, assim, o monstro — quando matámos o medo. Nunca mais foi preciso ligar a luz de presença.

O arcano Oito de Paus inspira-nos a ver para além do visível, a acreditar em algo mais. Qualquer impossível pode tornar-se possível por acreditarmos nele. Monstros existem, monstros deixam de existir, num estalar de dedos.

Quando sentimos que estamos preparados para enfrentar o obstáculo, já o ultrapassámos e, se o ultrapassámos, é porque, na verdade, ele nunca existiu. Foi apenas a nossa percepção que deu um salto para a frente, e que alterou a realidade. Simples de entender, ainda mais fácil de executar. Porque embora todos tenhamos algum tipo de monstro debaixo da cama, e acreditemos nele, mesmo sabendo que o sacana não existe… olha, foi-se embora.

Hazel
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Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1669
Imagem: kellepics, licença CC0

Conte-me a sua história


Não fosse a escassez de topete para tal arrojo e sentar-me-ia na Baixa Lisboeta com a tabuleta “Todas as pessoas têm uma história. Conte-me a sua”, à espera que alguém se sentasse à minha frente e o fizesse, qual Marina Abramović, a artista performativa sérvia, irmã-gémea sem grau de parentesco (cara de um, rosto do outro) do magnífico senhor cronista que mora na última página deste jornal.

Pelo-me por uma boa história. Quando era gaiata, entrei num livro e nunca mais de lá saí. Cresci a andar de baloiço nas linhas brancas que cosem as páginas em grupos de quatro. Refastelo-me no espaço aconchegante que separa as palavras, com uma vírgula redonda e macia a fazer de almofada. Às vezes, saio para apanhar ar entre parágrafos. Ou fico na linha, agitada, ponto-exclamada. Raras vezes me perco em reticências, que evito. Não confio nelas... Seduzem-me, porém, o ponto-e-vírgula e o travessão, vilões da monotonia.

Foi uma tristeza quando a carrinha da Biblioteca Itinerante de Oeiras deixou de se deslocar à rua que me viu crescer como um esparguete (mais para cima que para os lados), porque não compensava, visto ser a única leitora.

Para me consolar da perda, e porque os livros que tinha contavam-se pelos dedos, refugiei-me no regaço do enorme Dicionário Ilustrado de Português, forrado a tecido cor de café-com-leite, que li de fio a pavio, tendo encontrado, certa vez, um erro de ortografia (!) — o que muito me indignou. Completava compulsivamente as palavras-cruzadas que saíam nos jornais e comia canja com massa de letras.

Correspondi-me (antes da internet) com uma idosa inglesa, minha penfriend, a quem enviava longos testamentos sobre os dilemas da adolescência e fi-lo até ela acabar por falecer (espero que não de tédio).

Tenho algumas paredes em casa forradas com páginas de livros, que vou colando uma-a-uma, como se cada folha fosse mais um pedaço de caminho que não sei onde irá terminar, mas suspeito que no horror da senhoria quando descobrir.

Não tenho televisão. Nem quero. Contudo, há sempre espaço para mais um livro. Fiz bookcrossing. Apanhei livros do lixo. Comprei muitos. Doei bastantes. Devo ter roubado algum livro por velhacaria, que eu não sou santa. Tenho a certeza que sim. Mas devolvo os que me emprestam. Fui uma “Book Loving Girl” no projecto com o mesmo nome, do fotógrafo Mário Pires, exposto na Fnac.

Sinto-me culpada se desistir de um livro, como aconteceu com “As Ondas” de Virginia Woolf, que me deixaram mareada de aborrecimento e com “O Mundo de Sofia” de Jostein Gaardner, que me induziu num estado semi narcótico — do qual despertei-de-olhos-arregalados com o governo do “Papillon” de Henri Charrière.

Há sempre um livro na minha mesa-de-cabeceira. E caderno-e-lápis no carro e na mala. Escrevi mais de mil textos, publicados nos últimos dez anos, no meu blog(ossauro). A árvore de Natal aqui em casa é uma torre de livros empilhados com uma estrela de cartolina em cima.

Traduzi e revi livros de outros autores. Nunca escrevi o meu. Talvez nunca aconteça. Sinto-me satisfeita por degustar o que os outros escrevem, e quando não escrevem o que me apetece ler, escrevo-o eu, aqui e acoli. E está bem assim.

O arcano Três de Paus incita-nos a abrir as gavetas e a banhar os apontamentos e rascunhos com a luz do dia. A arriscar, a encontrar o nosso próprio caminho à medida que o percorremos. Ora aí está. Vou escrevendo, até escrever.

Hazel
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Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1660

O gato à janela


Lambe minuciosamente o corpo todo, enquanto as cortinas esgaçadas pelas unhas rodopiam ao sabor do vento fazendo a casa respirar pelas narinas da janela. Por fim, dobra as patas da frente com maciez, arrumando-as por baixo do focinho, estende os bigodes ao Sol e respira fundo.

Bonacheirão e gordo, persegue os que passam na rua com o seu olhar velhaco, cor-de-ervilha. Eles vão, ele fica. Talvez alguns não saibam para onde ir. Outros parecem não saber porque continuam a ir. Há os que vão porque não têm onde ficar. Os que não vão nem deixam ir. Os que vão, mas anseiam por vir. Alguns nem sequer sabem que vão. Outros julgam ir, mas marcam passo sem sair do lugar. São, no entanto, cada vez menos os que sabem onde e porque vão — e querem realmente ir.

O gato permanece. Fica, porque tem uma taça a transbordar de comida e outra com água fresca; a torneira do bidé que pinga; ou algum copo de água esquecido sobre a mesa da cozinha, onde — shlép, shlép, shlép — mergulha a língua áspera quando ninguém está a ver. Fica, porque não tem testículos e no lugar deles nasceu-lhe a pacatez de não precisar de ir a lado algum. Os gatos à janela são a imagem da paz, da saciedade e da tristeza que é não ter sonhos nem ambição.

Um dia, distraído com um pássaro, escorregou da janela e foi parar à rua. Comeu do lixo, andou debaixo de carros, lutou com outros gatos e até fez umas safadezas com uma gata esguia de três cores. Teve fome, sede e medo. Gastou sete das nove vidas e até sabia o caminho de casa, mas seguiu na direcção contrária sem olhar para trás, com grande desgosto da dona, que colou a sua foto em todos os postes e candeeiros.

O arcano Três de Paus desperta-nos a fome e a sede de viver, desafiando-nos a deixar a janela a partir de onde, qual Tareco de coleira-e-guizo ao pescoço, observamos passiva e confortavelmente o que se passa à nossa volta. A janela de casa e a janela do computador. A da televisão e a do telemóvel. Está tudo a acontecer lá fora, meus gatinhos. Vão por mim — que acabei de escorregar janela abaixo.

Hazel
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Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1655

A Ratinha


Lá vai a Ratinha toda espevitada. Viram-se cabeças à sua passagem, desviam-se os prédios meio decrépitos, inclinam-se os degraus da Bica, debruçam-se os candeeiros da rua. Não há quem não se espante ao vê-la, tão viva e airosa.

O Elias do talho conhece-a bem, esse magano, assim como a Virgínia florista que nunca mais recuperou do susto quando lhe entrou na loja para elogiar o esmero com que esta lhe tinha composto o arranjo de coroas imperiais.

À sua maneira, a Ratinha é uma lenda viva que um dia foi uma vizinha comum, como tantas outras; baixinha e bombástica como uma pequena mulher-nitroglicerina, sempre com a ponta do lenço a espreitar do bolso para limpar o ranho à canalha, as mãos calejadas de tantas escadas varrer e a preocupação diária de ter o jantar do marido pronto a horas.

Sofria dos nervos e de pés chatos. Pelava-se por grão com mão-de-vaca. Não ela, o marido. E não podia ser grão de lata, tinha que ser do outro, o raio do homem era minhoquinhas. A boa Ratinha, que na época era chamada pelo seu nome de nascimento, o qual nem eu nem ninguém já se lembra, pôs o grão a cozer na panela-de-pressão, danada com a vida, com os pés, com a vizinha do rés-do-chão-esquerdo e com o gaiato do meio que tinha arranjado chatices na escola.

A pressão da panela subia e o crescendo do apito ia acompanhando os seus gritos que se ouviam ao fundo da rua. O miúdo saiu cabisbaixo depois do ralhete e a Ratinha voltou a entrar na cozinha no fatídico momento em que uma pele de grão entupiu o pipo da panela, a pressão acumulou até ao limite e CABUM!, deu-se uma violenta explosão de grão, molho a ferver e pedaços de mão de vaca que voavam em todas as direcções. Foi fatal para a Ratinha. Parou-lhe o coração.

O funeral foi igual a tantos outros. O padre celebrou as Exéquias, as vizinhas choraram com gosto, os gaiatos estavam inconsoláveis e o Elias do talho, que sempre fora seu admirador, depositou uma coroa de rosas-cor-de-rosa escandalosa e denunciadoramente maior que as restantes, mas já nada disso importava.

Eis que era chegado o momento rude e frio de se atirar com uma pá de cal antes de fechar a tampa do caixão. Assim que a cal lhe cai em cima do rosto lívido, a Ratinha dá um salto do caixão como se tivesse acabado de receber a descarga eléctrica de um relâmpago, para grande horror de todos.

Ficou com os olhos mirrados e arrepanhados, pequeninos como os de um rato, queimados pela cal, mas estava mais viva e satisfeita que nunca. Quem lá estava, não esqueceu; muitos nem pregaram olho nessa noite. Saiu a cambalear do cemitério, directa para casa e a primeira coisa que fez foi atirar com o que restava da panela de pressão pela janela. Nunca mais se enervou, nunca mais se comeu grão naquela casa.

O arcano 10 de Paus alerta-nos para as panelas de pressão que ameaçam explodir a qualquer momento, esgotando-nos a paciência, a energia e o tempo. Porque nem todos podem ter a sorte da Ratinha, é mais sensato respirar fundo, descomprimir, e o resto que espere.

Hazel
Consultas em Oeiras, Carcavelos e online

Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1640
Foto: Leroy_Skalstad, licença CC0

A vida louca


As sevilhanas de vestidos rodados e cintura estreita ganhavam vida dançando à minha volta num baile hipnótico de pássaros e flores de todas as cores. Debaixo do chapéu-de-palha que me protegia dos quarenta tórridos graus de Sol alentejano, os meus olhos tímidos e curiosos — sob inexplicável feitiço, ou quiçá motivado pelas elevadas temperaturas — viam os pássaros de papel descerem em vôo picado para me virem pousar nos ombros com chilreios de alegria. 

As flores bailavam em espirais que se elevavam pelo ar ao compasso da música contagiante. Os homens de patilhas farfalhudas e calças-à-boca-de-sino bebiam cerveja fresca e faziam gracejos que escapavam à minha compreensão, enquanto as mulheres de sandálias às tiras se abanavam com leques e refrescavam a sede com Sumol. A fronteira que separava Portugal de Espanha desaparecia; éramos um só, com primos que hablaban castellano, uma bisabuela chamada Esperanza e pais que falavam português.

Tinha cinco anos, cabelo curto e um espanto maior do que eu perante todas as flores que forravam as ruas de maravilha, de encanto e de fantasia alegórica. O som das castanholas e o peito cheio de ganas de viver ficaram para sempre num baú forrado com tecido de cores garridas que guardei na arrecadação das memórias doces. Um dia. Um dia vou ser assim como aquelas mulheres de papel colorido, sorriso largo, cabelos compridos, a música nas ancas, saia rodada e sapatinhos de atrevimento. 

Ainda não regressei às festas de Campo Maior, mas este Verão reencontrei a magia das sevilhanas de papel a dançar-me nos olhos enquanto subia a Calçada da Bica, em Lisboa, com as fitas de bandeiras coloridas a ziguezaguear o longo rectângulo de céu entre as duas filadas de prédios baixos de onde espreitam varandas com xailes de franjas, vasos com manjericos, estendais com cuecas penduradas que ali se tornam obras de arte e rapazes debruçados de cigarro pendurado na ponta dos dedos. Ali estava o meu baú metade português, metade espanhol, escancarado junto à linha do eléctrico.

Admiradora confessa dos filmes de Pedro Almodovar; simples, crus e intensos, onde os dramas da existência são vividos pelas personagens com lágrimas, garra, desespero, volúpia e pinceladas de vermelho; onde a tristeza, as tentações e a dor pintam os lábios de cor-de-sangue e se unem numa trégua para dançarem de mãos dadas como a melancolia portuguesa se tempera de paixão ali junto à fronteira com Espanha, descubro com prazerosa surpresa que em qualquer rua onde encontrarmos flores, música a tocar e todas as maravilhas que o Verão tem para oferecer, a vida pode mesmo, por instantes, ser tão bela como um filme espanhol.

Esta semana, o arcano 4 de Paus desafia-nos a sair de casa para dançar e encontrar o conforto e o suco da vida junto daqueles que nos fazem sorrir e rodopiar. Sai um Sumol ali para a mesa 11!

Hazel
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Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1638
foto: na Calçada da Bica

O fio do tempo - parte II


Fiquei suspensa por um fio como uma aranha de pernas longas, a baloiçar para um lado e para o outro, desde a crónica escrita na edição anterior deste jornal. O fio do tempo tem brincado às escondidas, serpenteando através do mecanismo do relógio de parede, ora espreitando, ora ocultando-se por trás das rodas dentadas. 

Os braços sinuosos que tecem a trama do tempo trabalham com misterioso ardil; cortam o fio de uns e logo de seguida abrem as mãos de dedos draculinos libertando delicados novelos de fio de algodão que descem pelas encostas verdejantes, para deleite dos que aguardam pacientemente ao longo de nove luas.

O ponteiro dos segundos marca a contagem decrescente para que o novelo de fio alvo e macio esteja pronto a desenrolar-se devagarinho estendido pelo cordão umbilical de um bebé.

Pelas barbas de Zeus, desviai os olhos da barriga desta vossa escriba, que se encontra já fora de prazo-de-validade para tal laçada. O contributo ao mundo está rematado com o meu gaiato travesso e meigo que vai, também ele, percorrendo o fio do tempo com ténis número 38. Se houver algum volume abdominal que dê azo a suspeitas, desfaçam-se já as mesmas: é, por certo, flatulência!, que às vezes sucede quando me esqueço do motivo pelo qual tinha deixado de comer papas-de-aveia. Nada que uma infusão de funcho e hortelã não possa resolver com dignidade.

O bebé que aí vem é de uma minha amiga, que me pediu para assistir e acompanhar o nascimento. Esta vossa corajosa escriba, que se desfalece quando alguém corta um dedo numa lata de atum, aceitou tamanha honra grata e prontamente, sem hesitar — a minha amiga que não leia isto, ai senhores, e se ler, que fique tranquila, porque as técnicas de respiração que hão-de servir para uma, servirão para a outra. Força na peruca, estamos juntas nisto. 

Dizia o outro cavalheiro: “Para os amigos, tudo”. Serei amiga, irmã, mãe, confidente, treinadora de basket, malabarista, domadora de leões e tudo o que mais for preciso para ajudar o fio do tempo a nascer triunfante.

O arcano Oito de Paus diz-nos que não há tempo a perder nem fio a desperdiçar. Urge viver. Desatam-se nós, caminha-se para a frente. O milagre do impossível torna-se possível quando menos se espera, mais depressa do que se imagina. Como o choro de um bebé acabado de nascer.

Hazel
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Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1633

Cala-te, cão


Fui o quarto ou quinto Mike. Os pêlos do Mike anterior a mim sugerem-me que era mais escuro e cerdoso que eu, e que apreciava dormir enroscado no canto do sofá da sala, onde bate o Sol à tardinha. Os meus donos foram parcos de imaginação na escolha de nomes, mas têm muito amor para dar, ah se têm. Ora lá vai um prato, zás!, contra a parede. E mais outro! Paf! 


De vez em quando, a Palmira vai renovando a loiça, coitada. Até já a minha taça da ração anda num virote. As mãos ásperas e calejadas do Mesquita acercam-se do pescoço anafado da Palmira cujos olhos se esbugalham ameaçando saltar das órbitas. A sogra-cobra, que ouviu a gritaria, galga as escadas cheia de genica, de garfo em riste, preparada para cravá-lo onde conseguir, desde que acerte na nora. O Mesquita urra de dor pela dentada que acabei de lhe ferrar nas nalgas, e a Palmira lá se safou.

Eles são boa gente, tratam-me bem. Lutam muito uns com os outros, mas amam-se que nem lobos. Até o Amâncio gostava de mim, esse bom malandro que nunca mais nos visitou. Trazia sempre salsichas para partilhar connosco, e só uma vez me tratou mal, quando me deu com o sapato porque lhe fui cheirar o rabo enquanto ele estava a acasalar com a minha dona (o Mesquita estava emigrado na Suíça). Tinha o hábito engraçado de tirar as calças e deixar ficar as meias e os sapatos, porque tinha pé-de-atleta - e porque eu lhe roía os sapatos e os escondia junto com os do Mesquita. 

Quando o Mesquita regressou, a sogra-cobra - que morava no andar de baixo e escutava com ouvidos de tísica os mais despudorados e libidinosos suspiros que ecoavam pelos tubos da canalização (refiro-me à canalização da casa-de-banho contígua ao quarto, bem-entendido) - denunciou-lhe os encontros furtivos. Nunca mais houve um conjunto de loiça completo nesta casa. Valia mais comprarem pratos de inox como a minha taça.

O Mesquita, com a idade, foi-se conformando com as mágoas. De vez em quando, ainda passa pelas portas com a cabeça de lado, numa silenciosa e desdenhosa alusão à envergadura que sustenta sobre a cabeça, mas já ninguém liga. 

A sogra-cobra, que foi ficando caduca e falava sozinha, finou-se engasgada com uma ervilha. Chamaram os bombeiros e, para constrangedora surpresa de todos - até eu meti o rabo entre as pernas - apareceu o Amâncio, que era socorrista; fez tudo o que pôde, mas não chegou a tempo. Depois do funeral, a Palmira comprou um serviço de jantar novo. Em loiça. Esta gente não aprende, pensei enquanto coçava a pulga que me comichava a orelha direita.

Hoje vão levar-me ao veterinário para levar uma injecção. O meu coração velho já não aguenta esforços, e o sexto Mike não tardará a chegar. Vou feliz. Nunca conheci uma família com tanto amor para dar e com tão pouco jeito para tal. Boas pessoas com feridas. Quem não as tem. 
Até eu, que sou um cão. Mas lambo as minhas - não mordo os outros.

Esta semana, o arcano Cinco de Paus inspira-nos a distanciar-nos dos focos de tensão para que possamos concentrar-nos no que realmente importa. Os conflitos, vistos de uma perspectiva mais elevada, podem ter a dimensão de uma ervilha: pequeninos e, contudo, intragáveis, se não soubermos respirar fundo no momento certo.

Hazel
Consultas em Oeiras e online

Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1614
Foto do canito: hotphotosfree.com

Bigodinho retorcido e olhos malandros



Uma gota de água gelada escorria lentamente ao longo do copo alto de vidro. Aníbal, de bigode negro retorcido, ria-se com gosto e semicerrava os olhos de mafarrico com as piadas atrevidas da menina Ivone; baixinha, roliça, de vestido rodado com flores estampadas e cabelo castanho, era a graça em pessoa. Ai menina Ivone, menina Ivone, você tira-me do sério, ronronava Aníbal. Ela ria-se. As velhinhas na mesa ao lado abanavam os leques com indignação ante a pouca-vergonha que se passava ali, aos olhos de todos, espalhando no ar uma nuvem de cheiro a naftalina e a perfume que já passou o prazo de validade.

Os dois cubos de gelo ficaram a dançar em espirais no copo de Ginger Ale, bebido até meio. De mão dada e passo apressado, Aníbal do bigodinho retorcido e a menina Ivone saíram sem olhar para trás, movidos pelo arrebatamento que urge ser saciado. Um dos leques inquisidores caiu ao chão, fazendo o empregado tropeçar quando se aproximou da mesa para conferir se a conta foi paga. As marcas de batom rosa-quente riam-se provocadoras no guardanapo abandonado.

Ai Aníbal. Ai menina Ivone. Os ais sucediam-se à medida que a roupa lhes ia desaparecendo dos corpos e os dois se entrelaçavam no sofá da sala, aconchegados pela colcha de patchwork onde se manteve enroscado o gato Tareco que viu, aos solavancos, tudo o que a natureza tem de mais cru, belo e escandaloso.

O candeeiro no tecto da vizinha de baixo, que era viúva e muito religiosa, dançava de um lado para o outro. Benzeu-se enquanto suspirou de saudades do falecido, que nunca lhe faltou nos deveres matrimoniais, apesar de ter a mania das limpezas e uma obsessão por números ímpares. Sabia a abençoada senhora que era sempre uma vez, três, ou, em dias de festa, cinco vezes.

No andar de cima, o vestido da menina Ivone tinha voado sobre o abat-jour de franjas, as calças de Aníbal jaziam no chão e os dois tinham percorrido todo o glorioso caminho desde a entrada até às catacumbas da existência humana.

- Sai da frente! Olha para este, deve ter a mania que é taxista em Lisboa.
- Com licença, abram alas, se faz favor.
- Olha lá, eu estava primeiro, julgas que és mais esperto que os outros?

Foi assim que o espermatozóide mais rápido passou à frente de todos, porque não parou para perder tempo a discutir.

Trinta anos depois, Frederico - Fred para os amigos - o espermatozóide feito homem, estava a dirigir o seu próprio negócio, uma startup hipster na área das telecomunicações. Aníbal deixou de usar bigode, mas mantinha o mesmo olhar malandro. A menina Ivone, agora de cabelo grisalho e curto, passava as tardes a fazer colchas de patchwork que vendia nas feiras de artesanato por bom dinheiro. E todos eles foram um dia o espermatozóide mais veloz, o vitorioso.

O arcano Seis de Paus recorda-nos o segredo para vencer todos os problemas, batalhas e corridas: não perder tempo a discutir ninharias e seguir sempre em frente, sem olhar para trás!

Hazel
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Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1608
foto: Nat Farbman

A-das-três-mamas


Os meus olhos curiosos esgueiravam-se sorrateiramente como um gato vadio pelo muro caiado do seu quintal. Às vezes, via-a de relance. Bruta, carrancuda, zangada com o mundo e todos os seus habitantes — em particular, os que moravam perto de si. A língua da vizinhança era viperina. Cochichavam as alcoviteiras à boca pequena que a antipática mulher tinha três mamas.

Ninguém gostava dela. No percurso desde a escola até casa, era-me inevitável desviar o olhar, ainda não domado pela hipocrisia dissimulada das conveniências sociais. A volumosa e rotunda senhora de buço escuro e sobrolho carregado ignorava-me sempre. O nome da rua onde morava fora esquecido por todos, ainda que permanecesse legível na placa de mármore encardida pela passagem do tempo. Para aquela gente, era “a rua da-das-três-mamas”.

Estariam em fila? Será que colocava a terceira arrumada junto com a da direita no soutien, ou com a da esquerda? Ou iria alternando? Seriam todas do mesmo tamanho? A minha curiosidade era desprovida de leviandade, mas crua e sincera.

A boa mulher criava galinhas e vendia ovos, mas as vizinhas deixaram de lhos comprar, porque, enfim, ela tinha três mamas e ninguém gostava disso. Talvez tivessem medo que a mama extra fosse contagiosa e se pudesse pegar através dos ovos. Nesse ano, falecia o António Variações de uma doença então desconhecida, e as pessoas andavam acometidas por medos medievais.

Ainda gaiata demais para ter tido tempo de aprender a palavra preconceito, mas já uma observadora silenciosa, interiormente sentia que era errado o azedume das pessoas. Creio que gostava da intrigante senhora porque era solitária e forte, uma espécie de heroína em terra de vilões que, em vez de capa e espada, tinha uma mama extra.

Compreendia, ainda que de forma inconsciente, a sua atitude defensiva, e não tive dificuldade em discernir que o mundo pode ser um lugar cruel sem razão plausível — alguma vez a haverá? — e que as pessoas se podem tornar velhacas umas para as outras, não porque as outras o mereçam, mas porque precisam de alguém vulnerável em quem aliviar os seus amargores.

Recordo-a por oposição às mulheres actuais que vêem o mundo sob um longo e insinuante toldo de extensão de pestanas, agarram a vida com unhas de gel e sentem o vento através do cabelo alisado a ferro quente sem que este se despenteie, permanecendo impecavelmente alinhado. Espartilhadas dentro de cintas adelgaçantes como bonecas saídas de uma linha de montagem concebida para lhes remover a identidade. Perfeitas, idênticas, sem poesia.

O arcano Cinco de Paus leva-nos a observar a celeridade com que nos revoltamos com os outros quando são desagradáveis connosco, sem fazer um esforço para perceber os seus motivos. É certo que ninguém tem o direito de maltratar outros porque a vida lhe foi ingrata, contudo, se devolvemos bílis a quem no-la oferece, acabamos por tornar-nos iguais ou mesmo piores que o alvo da nossa censura, alimentando um ciclo destrutivo que nunca mais termina.

Recordo a-das-três-mamas com respeito e nostalgia. Sinto-me humilde perante uma mulher que aguentou com dignidade a crueza de uma vida inteira de marginalização. A fealdade não existe quando é amada. Torna-se um poema triste, doce e belo. Ainda que escrito em prosa.

Hazel
Consultas em Oeiras, Carcavelos e online
Email: casa.claridade@gmail.com


Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1599
Foto: Miguel Pires da Rosa, licença CC2.0

Bofetadas e soutiens queimados

Foto: Pinterest

O país anda à bofetada. As pessoas de Trás-os-Montes que querem desdentar Nuno Markl e José Cid. O anterior Ministro da Cultura com as prometidas carícias faciais em grande velocidade. Os pais dos alunos das escolas públicas versus os colégios privados. 

Os clubes de futebol e os seus adeptos enraivecidos. Os activistas dos direitos das minorias, dos animais e dos oprimidos. As feministas. Os machistas. Os ambientalistas. 
Os bairristas que rivalizam entre si, esquecendo-se que somos todos um país e não um conjunto de cidades. Os religiosos fervorosos de Belas versus o Projecto Casa Assombrada. Os intolerantes à intolerância. As redes sociais estão a ferro e fogo. 

Paf! Voam dentes pelo ar, queimam-se soutiens e reputações, saltam os olhos das órbitas, a saliva ácida escorre nos cantos das bocas que cospem impropérios e maldições e as mesas são socadas com revolta.

Não somos mais um nobre povo de brandos costumes. Esta nostálgica característica ficou adormecida nos livros de História que repousam empoeirados nas bibliotecas, tornou-se uma memória longínqua e difusa, quase fantasiosa. 

Talvez as pessoas tenham perdido a capacidade de amar, de desculpar e de pedir desculpas, de compreender os pontos de vista dos outros. Talvez não tenham tempo para isso; porque está trânsito; porque chegam tarde a casa; porque estão cansados e com carências vitamínicas; porque os vizinhos têm a música alta e já não suportam mais o ritmo infernal da kizomba; porque estão com alergia ao pólen, de narinas entupidas, ranho a ameaçar sair e os nervos à flor da pele. Apetece gritar, apetece mandar tudo e todos para o raio que os parta.

Esta semana, a carta 5 de Paus chama-nos a atenção para as batalhas, conflitos e rivalidades, e a forma como tudo isso nos absorve a energia e o romantismo, deixando-nos cansados e intratáveis.

“Em casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão”. Nesta casa que habitamos, estamos a alimentar-nos de migalhas. Erguem-se as vozes acusadoras, a culpa é dos governos! - dirão. Seja. Os governos - que, a propósito, fomos nós que escolhemos - podem ser os responsáveis pelo estado de crise económica - pela falta de pão para o corpo. Mas o pão para a alma, ninguém pode procurar por nós. Erguem-se novamente as vozes acusadoras, mas eu não acredito em religiões! Não precisamos de religião para alimentar a alma. Precisamos, sim, de alegria, amor, perdão para aqueles que o merecem e paixões. 

Cada um que procure a sua forma de lá chegar, sem se contentar com migalhas, sem atacar os outros e sem aceitar que os outros o desrespeitem. Porque se observarmos com algum distanciamento emocional, veremos que é exactamente isso que temos andado a fazer. Quem sabe se, de alma alimentada e com uma maior verticalidade espinal, não recuperaremos a nobreza de alma, a coesão, a paz e até mesmo a economia. Ainda acredito nisso.

Hazel


Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, 09 Junho

À Velocidade da Luz!


Quanto tempo demora o arco-íris a aparecer no céu quando o primeiro raio de luz incide sobre a chuva? Quanto tempo irá passar até que alguém repare nele? 
E quanto tempo até que alguém o considere um presságio de felicidade, de boa sorte? 
A resposta para todas as perguntas: um instante.

É disto que somos feitos. De instantes. A nossa própria existência surge num instante - podemos ter de esperar nove luas para nascer, mas a fecundação, no momento em que o espermatozóide penetra o óvulo, dá-se em segundos. 

Está na nossa essência a urgência, o imediato, o agora em movimento. Por esse motivo, a espera impacienta-nos, o saudosismo entristece-nos e a ansiedade mata-nos. 
Estar longe do presente é estar apartado de nós mesmos, do nosso centro, da centelha divina que nos habita.

Quando o Sol espreita através das nuvens chuvosas e forma um breve e tímido arco-íris, há sempre alguém que olha para ele e volta a acreditar no sentido da vida, na predestinação - que tudo obedece a um plano superior. 

E tudo isso passa a existir porque alguém acreditou. No mesmo instante decisivo, resolve virar para a esquerda em vez de virar para a direita como era seu velho hábito e, por fazê-lo, encontra o caminho certo, aquele onde a luz brilha com mais intensidade.

Os instantes decisivos são as intersecções na teia da vida, que nos fazem ziguezaguear por desvios inimaginados, como viajantes do cosmos que seguem o caminho luminoso das estrelas, sabendo que quem pára, fica estagnado na escuridão e no vazio, mas, para aqueles que estão dispostos a prosseguir, existem tantas possibilidades quanto há estrelas espalhadas pelo céu. E isso é maravilhoso.

Esta semana, a carta Ás de Paus cai-nos em cima como um fulgurante feixe de luz, para incentivar-nos a seguir os nossos instintos. Cada um de nós tem um mapa interno onde estão registados todos os percursos, atalhos, pontes, intersecções e desvios, a que só acede quando une o pensamento à intuição, sem que um atrapalhe, sobreponha ou anule o outro, mas numa fusão perfeita.

Estejamos atentos aos nossos ímpetos, às certezas que não sabemos explicar, mas que sentimos no âmago, à criatividade que necessita de brotar para que encontremos a nossa própria voz e expressão, ambas únicas e intransmissíveis. 

As oportunidades pairam no ar, cabe-nos captar o momento em que os finos fios de luz se cruzam, e voltamos a acreditar que, afinal, nada é aleatório no Universo, mas tudo cumpre um plano superior. Porque que ele existe, existe.

Hazel

Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, 31 Março

Uma Questão de Atitude

A auto-confiança é uma peça de roupa absolutamente impecável, sem vinco nem mácula, que assenta como uma luva sobre a nudez humana. 

É de tal forma valiosa, que todas as lojas de roupa oferecem a ilusão de proporcioná-la. As marcas mais caras elevam a fasquia - quanto mais inflaccionado o artigo, maior a imagem de poder e segurança em si próprio que o seu portador irá transmitir. 
As pessoas não têm feito outra coisa nas últimas décadas, senão comprar auto-confiança com prazo de validade - que dura até ao fim da estação, quando as roupas passam de moda. 

Para que sejamos felizes, amados e bem-sucedidos, temos de ser confiantes. 
É um ingrediente essencial. Na sua falta, prevalece uma fragilidade que nos isola e faz sentir incapazes. Se avaliarmos com um distanciamento quase estrelar, todo este jogo de espelhos em torno da imagem cria a ilusão de auto-confiança ao mesmo tempo que no-la retira e mantém reféns de uma aprovação que achamos precisar.

Mas, afinal, o que é a auto-confiança? Consiste em confiar em nós mesmos, não nas roupas que usamos, ou no carro que temos. Confiar no interior, sem depender do exterior. Teoricamente, deveria ser assim. Na prática, não é. Na essência, continua a ser.

Isto remete-me a uma entrevista de emprego a que assisti certa vez, numa multinacional igual a tantas outras. O jovem entrevistado apareceu de calções com padrão colorido havaiano, t-shirt e chinelos de enfiar no dedo. Enquanto dissertava sobre as suas anteriores experiências profissionais, de perna esquerda traçada sobre a direita, brincava distraidamente enfiando o dedo indicador entre os dedos do pé.

É interessante recordar o contraste entre o rapaz que trazia as pernas cheias de areia da praia e os funcionários da empresa, que caminhavam de forma muito séria e profissional, desprovidos de expressão corporal, como autómatos. Todos usavam o mesmo corte de cabelo, curto, higiénico e discreto, e os mesmos sóbrios fatos de executivo que, na casual friday, davam lugar a uma camisa de corte perfeito e calças de modelo chinos.

Acreditavam-se tão seguros de si que, nos seus olhares jocosos para com o jovem entrevistado, se revelava o quão escravizados estavam pelas normas instituídas. O rapaz nunca se apercebeu. Ou, se se apercebeu, não se incomodou. Ele vestia a verdadeira roupa da auto-confiança. - E ficou com o emprego.

O Rei de Paus, esta semana, desafia-nos a ser quem somos, sem precisar da aprovação de ninguém. A irmos mais longe, desbravando caminho para além das multidões despersonalizadas, manifestando a nossa unicidade. A transformar chumbo em ouro, sendo alquimistas de nós mesmos, pois somos feitos de luz - e nascemos para brilhar.


Hazel
Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, 17 Março