“Do Tempo da Maria Cachucha"

Ora deixem-me cá sacudir o pó com o espanador e compor o naperon de renda sobre a televisão enquanto vos falo da origem desta expressão castiça e antiquada que só podia mesmo existir na língua portuguesa.

Quem foi a Maria Cachucha?

O NOME "CACHUCHA" TEM ORIGEM numa música e respectiva coreografia, proveniente da Andaluzia, Espanha. Era dançada a solo por uma mulher, acompanhada de castanholas, em compasso ternário:


A adaptação da Cachucha espanhola tornou-se popular em Portugal no séc. XIX, dando origem à expressão "do tempo da Maria Cachucha", usada com o significado de 'muito antigo'.

Mas afinal, quem foi a Maria Cachucha?

Assim como as linhas de um naperon antigo se entrelaçam, também a História se rendeia misteriosamente de palavras, factos e expressões. A Maria Cachucha é uma coincidência que resulta do enlace aleatório entre o nome desta dança espanhola e uma invulgar mulher portuguesa que nasceu no dealbar do século passado.

Maria Purificação da Silva (Maria Cachucha)

Maria Purificação da Silva (1900-1960) popularmente conhecida por Maria Cachucha, era bem conhecida na região de Torres Vedras. Todos sabiam onde morava. 

Tinha um aperto de mão vigoroso, voz máscula e maneiras de mancebo que contrastavam com o lenço na cabeça atado sob o queixo.

O bigode de homem crescia-lhe sobre o lábio superior numa dignidade auto concedida, assentando pacatamente sobre os cigarros que as suas mãos grossas enrolavam com habilidade, fumegantes, esquecidos no canto da boca.

Não gostava de tarefas tipicamente femininas. 

De constituição forte e robusta como um touro, era a única mulher portuguesa que trabalhava no Matadouro Municipal, matando bois com tal firmeza que espantava o mais incrédulo dos observadores.

Por vezes confundiam-na com um homem, e isso divertia-a muito, mas chegou a ter um marido, de quem enviuvou, e foi mãe de um rapaz.

Preferia conviver com os homens, com quem falava de igual para igual, numa linguagem de taberna, em voz de bagaço. Não se dava com a família, por não aceitarem o seu modo de vida. 

VIVEU LIVRE E FELIZ à sua maneira atrevida e desempoeirada, como se soubesse que quando morremos rapidamente somos esquecidos, e por isso não devemos deixar de fazer o que queremos por medo do que os outros possam pensar. 

Precisamente por isso, o nome pelo qual era conhecida ficou para sempre gravado na memória colectiva do nosso país. 

A Maria Cachucha vive eternamente através daquilo que faz um país ser um país: as suas histórias e a sua língua. 

Cada vez que alguém repete a expressão "isso é do tempo da Maria Cachucha", a Maria Cachucha revive sorridente no seu bigode travesso e cigarro fumegante.

A sacudir naperons,

Hazel
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Poema: Rumar O Amor

FOI LANÇADA A Antologia de Poesia Contemporânea "Entre o Sono e o Sonho" - Vol. XIII, da Editora Chiado Books, que inclui este poema da vossa escriba:


RUMAR O AMOR
 

Dormem as estrelas no alto
E despertam-me num salto
Em nocturno sobressalto

Um navio que deslumbra
trespassa paredes de penumbra
Traz odor a maresia
e a açafrão, uma especiaria

Dançam as velas coloridas
cheias de música, entontecidas
A melodia da guitarra e do sitar
tocam o Amor que se faz anunciar

Entram pássaros pela janela
Puxam-me do vestido uma parcela
Desnuda, o peito desabotoado
A meus pés o navio ancorado

Traz de longe uma arca de tesouro
sem gemas, prata ou ouro
Nela encontro o meu coração
diáfano e leve, que admiração

Havia viajado pelo mundo
Mergulhado em oceano profundo

Ao meu seio retornou
Em doce paz se aninhou
Qual passarinho chegado a casa
Guardado Amor por baixo da asa
Assim deito a cabeça no teu peito

todas as noites no nosso leito.


Hazel

Foto: Hazel, por Mário Pires

Poema: Fantasma


Foi lançada hoje a Antologia de Poesia Portuguesa Contemporânea “Entre o Sono e o Sonho” - Volume X, da Chiado Books, onde consta este meu poema:

Fantasma

Liquefaz-se o vestido em
ondas
Água doce, limos verdes
Escorrem em regato
Pelos degraus
do Cais.

Elevo-me
nua
Magra como um pássaro
Branca gaivota.

Vai-e-vem o Tejo
Lambe os pés frios.

Entre as duas colunas
Navios-fantasma
trespassam a névoa
Com perfume de especiarias.

Nas pontas dos cabelos
Agitados pelo vento
Acenam lenços de mulheres
Humedecidos
pelas lágrimas.

Desabotoo o peito
Dele tiro o coração
Cai no convés de um navio
Entre redes, cordas
remos partidos.

Levem-no para longe
Tragam outro novo.

Os velhos marinheiros
tomam-me por sereia
Tapam os ouvidos.

Fiquei de peito vazio.

Hazel

Foto: Hazel, por José António Cavaco

Poção de Esquecimento


Após retiro prolongado, a (im)paciente da cama cinco agradece as visitas, as mensagens, as flores, os bolos doces sem açúcar, o envio de borboletas, os presentes, os convites e todo o afecto — que, sem dúvida, foi a mais regeneradora das panaceias.

Doutor Passarinho deixou-a ter alta com a advertência de que deverá prosseguir a dieta do tempo. Enquanto compõe o monóculo entre as penas e o bico amarelo-fogo, redige uma receita para levantar na botica hospitalar.

É-lhe entregue pelo boticário alado um frasco de líquido cor-de-musgo com a indicação "Poção de Esquecimento", que contém:

- Duas partes de novas experiências;
- Uma parte de medo diluída em duas de coragem;
- Um terço de excipiente vazio;
- Duas partes de contemplação do mundo (os sons, as luzes, as pessoas, os animais, as plantas, os edifícios, o céu);
- Uma parte de movimento físico, atendendo à máxima renascentista mens sana in corpore sano;
- Salpicos de audição apurada, para escutar a voz interior;
- Metade de amor-próprio, como elemento agregador dos restantes ingredientes.


«Agitar várias vezes ao dia para misturar bem o elixir. 
Tomar uma gota de manhã, de tarde e de noite até à cura completa.»

São-lhe restituídas roupas, sapatos, asas, caderno e lápis, para que volte a escrever.

Sentada numa paragem de autocarro, redige todo este texto no caderno que repousa no colo como um gatinho. Um desconhecido bem-parecido sorri-lhe. Ela retribui.

De asas estendidas em vôo panorâmico,

Hazel

O Baile do Vento

foto: Christian Schloe
Dançam as árvores, os arbustos e as flores. Dançam os meus cabelos embaraçados e a ponta do meu vestido azul. Dançam as borboletas, mariposas, vespas, abelhas e libélulas. As bandeiras e as velas dos barcos. Dançam as ondas do mar que lambem a areia da praia. Dançam as agulhas de crochet com o fio de lã.

Dançam os pensamentos que voam alto onde encontram as aves de asas largas.
Abro os braços na imaginação e subo em espirais de ar quente como se o mundo estivesse de pernas para o ar e as sementes caíssem do chão para o céu.

Dançam as fadas, os silfos, as sílfides e os outros seres invisíveis. Dançam as penugens dos dentes-de-leão sobre os campos queimados pelo Sol. Dançam folhas secas, em fúria. Dançam gafanhotos apanhados de surpresa num salto. Dançam os sinos e os espanta-espíritos. Dançam cheiros, fumos, círculos de incenso, o vapor da cafeteira de chá a arrefecer no parapeito da janela.

Dançam as vozes, as gargalhadas, o choro e os suspiros. Dançam os moinhos, os cata-ventos e os galos nos campanários. Dançam teias-de-aranha que baloiçam para trás e para a frente. Dançam as cortinas nas janelas e as portadas de madeira que batem com força. Dançam as roupas lavadas penduradas no estendal que ganham vida quando o vento as veste umas a seguir às outras e as faz esbracejar.

Dança a areia do deserto e as moedas douradas que tilintam nos lenços de seda que cobrem o corpo sinuoso das odaliscas. Dançam bilhetes de amor roubados pelo vento antes de serem lidos. Dançam labaredas nas fogueiras de Verão que iluminam os corpos nus à sua volta. Dançam fitas coloridas que se entrelaçam em torno do mastro.

Dança a ponta do lápis sobre uma folha de papel branco, desenhando palavras que não servem para nada. Dançam as páginas do jornal, folheado pelo vento. Dançam as pontas das gravatas dos homens de negócios, sérios e circunspectos, incapazes de dançar. Dança a varinha de condão sobre os elixires perfumados. Dançam migalhas de pão sacudidas da toalha do pequeno-almoço, que os pardais depenicam.

Dançam papagaios de papel, koinoboris e bandeiras tibetanas que espalham preces de paz pelo mundo, levadas pelo vento que sabe ler em todas as línguas. Dançam as vagens das ervilhas nas plantações. Dançam as écharpes das senhoras elegantes.

Dançam as maminhas descaídas e os falos rodeados de floresta púbica na praia dos nudistas. Dança a chama da vela que tremeluz e dançam as sombras na parede. Dançam as cortinas do teatro a seguir às pancadas de Molière. Dança a vassoura que varre o lixo do chão e o das ideias. Dançam os fantasmas que se escondem nas portas e corredores. Dança a colher de pau que mexe a sopa de legumes. Falando nisso, vou parar de dançar para ir almoçar.

Num dia de vento quente,

Hazel

Fadas, Pássaros e a Donzela-sem-nome


A noite é a senhora de todos os sonhos e pesadelos, assombros, deslumbramentos e horrores; guardiã das criaturas misteriosas, negras, doces e venenosas. As árvores assumem silhuetas sinistras e observadoras com braços magros que se alongam infinitamente para agarrar os mais incautos.

O gemido dos fantasmas que se deslocam através da neblina ecoa com a aragem fria e insinuante que serpenteia nos pescoços alvos e nus, onde o sangue quente lateja nas veias e atiça o apetite sôfrego dos vampiros, que escorrem saliva de desejo. O medo pressente os movimentos subtis, apenas perceptíveis pelo olhar vigilante da coruja. A loucura anda à solta de mãos dadas com as almas penadas.

Quando o último grão de areia desliza pela ampulheta, o vento muda de direcção e todos os círculos abertos na areia da praia se unem num só, criando uma passagem onde a cortina da realidade se desfaz. Os pássaros já o haviam pressagiado quando forraram o tecto do céu tornando o dia noite, em resposta ao chamado dela.

O veludo negro das horas nocturnas é trespassado pela luz delicada que se faz soberana abrindo caminho através das trevas. As árvores voltam a endireitar os ramos que perseguem quem foge e todas as criaturas tenebrosas se dissolvem como fumo no ar.

Tudo se encontra suspenso, cristalizado no tempo. O silêncio denso que a envolve e a clara percepção de uma presença sobrenatural que a observa de perto despertam-na do sono.

Senta-se na beira da cama, os cabelos escorrem como serpentes adormecidas nos ombros despidos e o olhar húmido prende-se na beleza translúcida e hipnótica de duas fadas envoltas num halo de luz etérea que se deslocam através do ar, ao seu encontro.

A donzela-sem-nome sucumbe inebriada de magia numa doce espiral de oblívio que ascende deixando para trás absolutamente tudo o que conhecia deste mundo.

Quem tem um encontro com as fadas, morre e volta a nascer meio-humano, meio-feérico, sem jamais esquecer o que viu. Nunca mais se volta a ser o mesmo.

A ponte de arco-íris entre este mundo de prazeres vãos e o outro de luz, claridade e silêncio, uma vez traçada, mantém-se para sempre. E as fadas regressam, em sonhos, para sossegar o medo de imaginar que são delírios ou sintomas de insanidade e, assim, confundir o ego demasiado frágil para admitir que elas são tão reais quanto uma partícula de ar: leves, flutuantes, subtis, inalcançáveis e, contudo, verdadeiras.

Neste pacto selado pelo amor e sem que alguma palavra houvesse sido proferida, estabelecido para toda a eternidade entre a donzela-sem-nome e as duas fadas, estas estenderam o seu halo de luz em seu redor, coroando-a com ervas e flores e tornando-a a terceira fada. E os anos passaram mais devagar para ela do que para as outras pessoas, mantendo sempre uma aparência mais jovem do que a idade, que se perdeu nos confins do tempo.

Desde então, as mãos delicadas e translúcidas das fadas desataram nós na teia-de-aranha, enviaram serpentes guardiãs que rastejam invisíveis em torno da donzela-sem-nome, sempre fiéis e vigilantes, e os seus lábios de néctar de madressilva sussurraram-lhe palavras sem som, que apenas podem ser escritas, mas nunca faladas.

Quando a noite regressa com os seus assombros, demónios e outras criaturas tenebrosas, as fadas estão sempre no intervalo dos caminhos. Às vezes, surgem luzes azuis na ponta dos dedos da donzela-sem-nome, e à sua volta. Um dia, ela resolveu escrever para recordar quando os anos ultrapassarem a distância da memória.

Sobre as asas das fadas,

Hazel

Colaboração com programa de rádio

Lá do outro lado do oceano, no Brasil, existe um programa de rádio infantil chamado Vitrolinha da Rua, que tem o apoio da TV UFPB/TV BRASIL. 

Nesta rádio, contam-se histórias infantis, lendas, há trava-línguas, música, poesia e muita, muita magia. Este é um projecto inclusivo, desenvolvido a pensar nas crianças cegas.

Há algumas semanas, esta vossa escriba, que tem alma de Peter Pan, foi convidada para colaborar com a Vitrolinha, fazendo a narração de uma história infantil.

Sendo eu portuguesa, concebida, nascida e criada em Portugal, tive algum receio que a minha pronúncia talvez não fosse bem compreendida ou apreciada.

Mas o projecto é tão delicioso e cheio de amor, que resolvi mergulhar de corpo e alma... e o resultado desta união entre Portugal e Brasil não poderia ter sido mais divertido e encantador!

Partilho convosco o programa, com o título "A casa da bruxa", que pode ser escutado online, ou podem também fazer download e levar para ouvir no carro com os vossos gaiatos.

Quando ouvirem a pronúncia de Portugal (a partir do minuto 16)... já sabem quem é! grin emoticon



No espírito da Formiga-Rabiga,
Hazel

Dentro do meu Candeeiro mora um Fantasma


O candeeiro da minha mesa-de-cabeceira é uma antiguidade e, por isso, faz mau contacto. Todas as noites, quando o desligo, ele volta a acender-se sozinho. Eu volto a desligá-lo, e ele reacende-se. E torno a desligar, até ele acabar por aceitar que é hora de dormir. A maior parte das vezes, ele reacende-se umas sete ou oito vezes seguidas.

É assim todas as noites, nos últimos anos. Mas agora ele ficou caprichoso. Durante a madrugada, várias horas depois de o ter desligado, sou acordada pelo clarão no quarto. Abro os olhos e lá está ele, teimoso, aceso.

Tem sido sempre à mesma hora. Ele é uma antiguidade, e as antiguidades são assim.
Fazem mau contacto e têm as suas vontades e pertinências.

Só hoje reparei que ele nunca se reacende de dia. Nunca aconteceu, mesmo.
Aliás, quando o ligo de dia consigo sempre desligá-lo à primeira. Concluo que o maroto é um noctívago. Prefere brincar comigo à hora em que o Sol dorme e os mistérios e assombros tomam conta do mundo.

Podia trocar-lhe os fios e o interruptor, para que ele funcionasse como os candeeiros modernos, máquinas perfeitas e infalíveis, sem estes humores e contornos excêntricos de personalidade que assustariam muitas pessoas. Mas... eu gosto dele assim.  
smile emoticonsmile emoticonsmile emoticon
(Mantenho-vos informados, caso ele se lembre de me surpreender com novas habilidades!)

Encantada com antiguidades caprichosas,

Hazel

O Feitiço da Serpente


O manto escorregou-lhe ao longo das costas nuas em direcção ao chão, no entanto, parece continuar sobre a pele. Quase se poderia contar o ar partícula a partícula.
A electricidade no ambiente parece antecipar a chegada de uma trovoada.

Os seus pés caminham através das lajes pretas e brancas, como uma peça de xadrez que desliza ao longo do tabuleiro. Silencioso e inexorável como a Torre e, contudo, directo e fatal como a Rainha.

O som oco do bambu toca a melodia ordenada pelo vento seco que se esgueira por uma janela no extremo oposto, entrecortado por cortinas pesadas de veludo cor-de-sangue, que se movem subtilmente ― revelando fantasmagóricas formas femininas que dançam à sua passagem.

Toda a sala parece um útero profundo, macio e enigmático, que aguarda a sua chegada com a inevitabilidade de uma profecia. O fumo do incenso eleva-se, entontecendo-o, embriagando-o. A visão estende-se em flashes, estranhamente sincronizadas com o pulsar do sangue nas veias dilatadas pela excitação.

Através das cortinas de fumo revela-se o corpo de uma mulher, que se move de forma sinuosa como uma serpente, dançando lentamente ao ritmo dos bambus.
A Deusa. Aquela que Tudo Vê. Inspira profundamente, capaz de sacrificar a própria vida para poder eternizar o momento. De matar ou de morrer.

Engoliu sem ter saliva, enquanto uma gota salgada de suor escorre pelas têmporas.
Os olhos ardem e desfocam-se numa névoa. Absolutamente rendido, o corpo nu, transpirado, a latejar de desejo, incapaz de pensar com clareza.

Talvez seja um sonho, uma alucinação, uma obsessão que foi longe demais. Os cabelos longos e ondulados da mulher beijam-lhe provocadoramente os seios como serpentes vivas, lânguidas e famintas.

Desloca-se sem hesitar, movido pelo desejo que não se consegue conter e nos leva a saltar, não se sabe se para o céu, se para o abismo. É na loucura que está a razão.

Beija com devoção os seus pés brancos de flor de lótus. Os olhos de ágata-de-fogo aprisionam-no num transe hipnótico. Entrega-se.

Sente-se asfixiar, enquanto o prazer lhe invade o corpo; enquanto a serpente o devora. O seu sibilar penetra-lhe os ouvidos como uma corrente eléctrica. Nada mais importa. Aqui está Tudo. O Alfa e o Ómega. A Grande Iniciação.

Gradualmente, todos os seus dedos foram sendo sugados, os lóbulos das orelhas, o pescoço, os mamilos, o sexo, a ponta da língua. Tudo ficou completamente escuro.

...

Acordou com os lençóis enrolados à volta das pernas. Senta-se na beira da cama, confuso. Teria sido tudo um sonho?

O coração disparou quando olhou para baixo e se depara com uma pequena tatuagem de serpente que apareceu misteriosamente no interior da coxa esquerda.

Sob os auspícios da Ssssserpente,

Hazel

A mulher que guardou o Verão em frascos de vidro


Bastava que um delicado fio de Sol lhe incidisse nos olhos castanhos para revelar a chama alaranjada de ágata de fogo que se escondia no fundo da sua alma. Tinha as fogueiras, as danças e os ritos de Beltane dentro de si, sob a insuspeitada e enigmática serenidade do cisne branco que desliza sobre um espelho de água.

O sopro dos Invernos fazia esta luz tremeluzir como uma vela que ameaça extinguir-se, mergulhada na melancolia dos dias escuros. A chegada da nostalgia dos dias frios era como um casaco cinzento de malha fina e gasta, ensopado pela chuva, que se cola à alma e a gela.

Decidiu que a tristeza peganhenta e invernosa não iria mais agarrá-la. Essa velha traiçoeira de dedos longos e ossudos não voltaria a apanhá-la desprevenida. As ágatas de fogo iriam reluzir nos seus olhos ao longo de todo o Inverno. Podemos ser felizes para sempre, sim. Como nas histórias. É só querer. Querer muito, e nunca parar de querer, aconteça o que acontecer. E ela queria-o em cada célula do seu corpo.

Então, passou o Verão inteiro a armazenar partículas de ar quente e feliz dentro de frascos de vidro. Sempre que queria preservar um momento de alegria acabado de viver, abria um frasco, movimentava-o à sua frente traçando uma lemniscata, e fechava-o de imediato, aprisionando aquele ar doce e frutado. Às vezes, guardava gargalhadas que pareciam não ter fim dentro de frascos onde colava o rótulo "Euforia".

Acumulou vários frascos de vidro ao longo de um Verão pleno de dias felizes, que etiquetou cuidadosamente e armazenou num baú de madeira de cedro, para quando viesse o Inverno.

As pessoas viam os frascos vazios a entrarem naquele baú e comentavam entre si que era louca, por achar que podia guardar o Verão dentro deles. Excêntrico. Absurdo.

Os dias frios chegaram e, com eles, começou a sentir ao longe o passo arrastado da velha traiçoeira que ameaçava entrar sorrateiramente com o vento frio que uiva pelas frinchas das janelas. "Já estava à tua espera", disse ela.

A tampa do baú rangeu ao ser levantada pelas suas mãos sábias, que abriram os frascos todos, um por um. Gotas de transpiração escorreram-lhe na parte de trás do pescoço.

Torrentes de luz brotavam, queimando-lhe a pele. As labaredas das ágatas de fogo dançavam nos seus olhos. Ouviam-se gargalhadas, vozes alegres e desconcertantes, o bater das asas de pássaros, o som do mar, o sopro do vento que corre as searas...

Foi o Inverno mais quente de sempre. E o mais feliz.

A destapar frascos de vidro,

Hazel

Devoção


No dia que atravessou o portal dos mistérios, encontrou, do outro lado da bruma, um segredo que transportou consigo por toda a vida.

Um segredo impossível de contar, porque não existia linguagem que permitisse sequer verbalizá-lo. Era esse o segredo que guiava o seu caminho, como um ponto de luz difusa que se segue na escuridão.

O segredo que tornava possível o impossível, a chave-mestra que abria todas as portas, trancas, fechaduras, alçapões e cadeados.

Que penetrava até a mais ínfima partícula da alma humana, como um enigmático manto de veludo que desliza silenciosamente pela pele nua, rendida, em devoção a uma força superior.

Ela sucumbiu à sua presença mágica, e perguntou: "O que se espera de mim?"
Os ventos sopram. Os Deuses falam. E ela escuta, envolta em Luz.

Shhhh...

Hazel

Serpente de Fogo

[Ficção]

Há um fogo que me envolve e consome incessantemente, sem que eu me transforme em cinzas. Desde as entranhas do meu ventre, eleva-se uma serpente maior do que eu, arrepiando-me as costas e roçando levemente os seios, numa ondulação sinuosa que os meus cabelos de medusa acompanham nesta dança simultaneamente diabólica e divina.

A sua língua bifurcada de labaredas lambe-me a parte de trás do pescoço, apoderando-se de mim enquanto os dentes afiados se enterram na minha pele sem que seja derramada uma única gota de sangue.

Nenhum segredo lhe é velado.
Os seus olhos hipnóticos, escondidos por trás dos meus, desvendam mistérios enquanto o meu sorriso mefistofélico se compraz de satisfação.

Sussurra-me ao ouvido o seguinte: "Há um fogo que me envolve e consome incessantemente, sem que eu me transforme em cinzas..."

No sibilar da serpente,

Sedução


E todo o Universo parecia converger para um único ponto: os seus lábios proibidos, que traziam promessas de beijos húmidos como o gotejar do mel, doces como o néctar da madressilva e, contudo, venenosos como o cianeto.

[Que foi? O post acabou aqui. Não há mais texto. Ah. Queriam mais.]

Beijos venenosos,

Hazel


História inacabada - parte 2











Mais um dia começa a despontar, com a claridade lilás a surgir timidamente no horizonte. A terra amolecida pela humidade da noite afunda-se sob a passada ritmada das suas velhas botas castanhas.

Inspira o ar frio e perfumado da manhã como se o bebesse pelo nariz, e caminha guiada por uma música inaudível, com o cesto de colher frutas e ervas enfiado no braço direito, cumprindo um ritual que ninguém sabe quando começou.

Pelo caminho, vai colhendo flores de acácia, ramos de louro e algumas maçãs vermelhas, da mesma cor da fita de seda que atou há anos no pulso esquerdo. Através do nevoeiro com cheiro de madeira que envolve o seu corpo como um vestido esvoaçante de algodão, contempla o sulco na terra, marcado por tantas vezes que fez o mesmo percurso silencioso.

Onde os pássaros não cantam e o silêncio se adensa como dentro de uma bolha, ergue-se o carvalho centenário que tudo viu desde o começo dos tempos. Pousa a cesta no chão e, com respeito e devoção, aproxima-se da entrada para o buraco no tronco do carvalho. Afasta as teias de aranha como quem abre duas cortinas e senta-se dentro da árvore.

O ar húmido gela-lhe o rosto. As suas mãos magras retiram do bolso da saia o papel grosseiro e amarelado e a caneta. Estou pronta. A vertigem começa a fazer-se sentir, como se estivesse a flutuar e o mundo parece parar de rodar para que as vozes ditem o destino. Os sons sibilados por elas são transformados em palavras escritas na sua caligrafia irregular.

A sua respiração pára e, no entanto, as mãos não cessam de escrever. Os anos passam enquanto ela escreve lentamente, em transe, rodeada pelas aranhas que voltam a entrelaçar as suas teias de fios esbranquiçados à sua volta, que se confundem com a brancura dos seus cabelos, como se ela fosse uma aranha gigante dentro de um casulo no interior da árvore.

Quando as vozes se silenciam, a caneta volta para o bolso da saia, as teias são novamente rasgadas e...

To be continued...

[Ler a parte 1]


História inacabada

Existe um local secreto, recôndito e misterioso, inacessível ao resto do mundo.
Uma casa... que pulsa vida em cada parede e respira através das cortinas esvoaçantes.
Todos os objectos estão lá desde sempre, cobertos por uma fina camada de poeira.

Nos cantos do tecto, repousam as aranhas nas suas teias que baloiçam ao sabor da aragem que entra pelas frestas das janelas.

Sobre o fogão, está sempre uma chaleira que expira nuvens de vapor perfumadas de ervas e especiarias.

Através dos vidros embaciados das janelas, ela observa a madrugada.

Acorda pouco antes do nascer do dia, coloca um vestido velho com padrões e cores que se confundem com os tons do bosque, botas e uma capa que abotoa junto ao pescoço, e sai para saudar o Sol, escutar os primeiros cantos tímidos das aves e colher algumas ervas e frutos.

Ao fim do dia, quando o Sol começa a descer, acende velas e lamparinas, fecha as cortinas e encontra um espaço no tecto da cozinha para pendurar mais um ramo de arruda. Os vultos fantasmagóricos passam junto às portas, atarefados nos seus afazeres.

Caminha pelo chão de madeira em direcção ao seu quarto de paredes forradas a papel antigo com flores de cor-de-rosa velho. Despe as suas roupas que trazem o cheiro a chuva e a terra molhada. Veste uma camisa de dormir branca, debruada a renda e...

To be continued...



O casamento da Elvira


Antigamente, namorava-se à janela. Ou por carta! O primeiro beijo dava-se de fugida, após longo tempo de namoro sempre sob o controle apertado dos mais velhos.

Que os vizinhos nunca o soubessem!
Depois de beijada, uma moça já não tinha o mesmo valor, pois já tinha "sido mexida".

Até que a mão da Elvira era pedida em casamento, sempre com grande formalismo.
O enxoval, reunido desde criança pela família, era lavado para tirar o cheiro da naftalina e preparado para a nova etapa da sua vida junto de um homem que, na realidade, mal conhecia.

Elvira ia nervosa com tantos olhares virados para si no grande dia e gelava de pânico com a perspectiva dos lençóis sujos de sangue que seriam orgulhosamente ostentados pela mãe às pessoas como prova da perda da sua virgindade na noite-de-núpcias (em último recurso, havia sempre o molho de tomate, conforme lhe tinham ensinado as amigas casadas, para safar-se das críticas das velhas alcoviteiras).

[Tudo isto era tão sério e tão pouco sexy]
Foi, como mandava a tradição, vestida de branco e com um bouquet de flores de laranjeira, símbolo de pureza e castidade.

Na realidade, as flores de laranjeira estavam ali com um propósito muito mais específico e útil do que apenas mostrar que Elvira era uma moça virgem.
O neroli, nome pelo qual é conhecida a laranja amarga, produz flores brancas (a flor de laranjeira) cujo perfume tem propriedades calmantes.

O objectivo das flores de laranjeira seria acalmar os nervos pré-noite-de-núpcias da pobre Elvira, que viria a divorciar-se anos depois, quando concluiu que afinal não tinha nada em comum com aquele rapaz com quem namorava à janela.
Bem, na realidade, até tinha: ambos gostavam de homens!

Hoje, a Elvira, senhora com mais de sessenta anos e de espírito de vinte, é activista dos direitos das mulheres, queimou o soutien na última manifestação e não perde oportunidade de viajar para destinos paradisíacos acompanhada das suas amigas tresloucadas.

O rapaz com quem namorava à janela, actualmente vive muito feliz com os seus três gatos e o seu companheiro, um enfermeiro mais jovem que conheceu quando colocou um piercing nas suas zonas privadas e correu mal. Auch!

Os poucos que restam vivos da família nunca lhes perdoaram tamanha devassidão!
E a laranjeira, que continua a dar flor, tem um lindo baloiço onde os netos da Elvira costumam brincar durante as férias de Verão.

NOTA: Esta história é pura ficção!

Beijos de neroli,

Hazel

Cisne Negro


Na torre do lago mora um cisne negro com mais de 100 anos.
Já vivia naquele lago quando todas as pessoas que existem hoje no mundo nasceram.
Nos dias cinzentos, desliza silenciosamente sobre a água.
Espera por alguém.
Dizem que na Lua Azul levanta vôo, assumindo a forma de mulher com um vestido preto.
Quem tiver a audácia de a observar... não sei o que lhe acontece.
Na próxima Lua Azul conto-vos. Ou não.

Hazel

A Casa Assombrada

Pelos muros acima, correm lagartixas apressadas, que assustam as senhoras de vestidos de rendas e folhos brancos.

Os cavalheiros, que fumam charuto reclinados nas cadeiras de baloiço, discutem em tom grave o mistério da casa assombrada.

Acham que é o espírito da tia-avó Alvina que faz ressoar pancadas nos muros durante as noites de Lua Cheia.

Ofereceram-lhe flores, rezaram missas e até houve quem fizesse promessas para que ela se fosse embora. E nada.

Mandaram vir o Padre, que encolheu os ombros e disse nada mais havia a fazer senão rezar muito pela alma extraviada.

Chamaram depois a Bruxa, que entrou discretamente pela porta das traseiras, para os vizinhos não verem. Vinha de xaile pelas costas e trazia uma mala antiga na mão direita.

"Vou precisar de passar aqui a noite para o apanhar."
Olharam todos uns para os outros num misto de desagrado e resignação.

Nessa noite, ninguém pregou olho. O fantasma, não deram por ele. E ela passou a noite seguinte. E a seguinte. E a seguinte. Ninguém queria deixar a Bruxa ir embora, por acharem que o fantasma tinha medo dela.

Os anos passaram-se, os mais velhos da família foram partindo, os mais jovens envelheceram e acabaram depois por partir também. A Bruxa ainda hoje continua a viver lá. Tem cabelos brancos e longos que se arrastam atrás de si pelo chão como um vestido de noiva, os olhos perderam a cor e a voz parece o som de ranger de portas.

O carteiro tem medo dela. Os cães uivam quando ela passa. E as pessoas benzem-se.
Dizem que tem mais de 300 anos e vai viver para sempre.

Ah, o fantasma, já me esquecia dele. Era o gato da casa, que saía nas noites de Lua Cheia para caçar ratos e fazia bater os ramos da árvore no muro quando saltava.
Quando a Bruxa foi para lá, deixou-se de caçadas e passava as noites enroscado aos seus pés, sobre a manta de lã colorida. Gatos!...



Viajar através da Luz

O silêncio é um pedaço de tecido muito fino e translúcido, uma malha de luz entrelaçada pelas Fadas, que flutua, envolve-se suavemente em torno de mim e eleva-me no ar.

Os sons calam-se e resta apenas o vazio que me preenche. O nada que é tudo.

Não falo. A comunicação dá-se a um nível mais elevado e etérico.
A Luz flui através de mim.
Tornei-me translúcida, leve e serena.

Fecho os olhos e continuo a ver as cores todas do espectro, que dançam, expandem-se e formam combinações perfeitas, divinas.

Viajo. Atravesso as cortinas que separam os mundos de olhos fechados, sentindo a brisa morna através dos meus cabelos.

Encontro-me nua. Não levo absolutamente nada. A Luz que irradia a partir do centro de mim expande-se, atravessa a malha tecida de silêncio e invade todo o Universo.
Eu estou em cada fio de luz.
Eu não sou Eu.
Eu não Sou.
O Eu não existe. Apenas... a Luz.

 

O homem que atravessa o tempo


Existe um homem de chapéu e fato preto, acinzentado pelo tempo, que caminha há séculos sem parar. Vai em silêncio e sem pressa. Não leva bagagem.

Descobriu que a tristeza são partículas de pó que pousam nos seus ombros se ele se sentar a pensar e a olhar para trás. É uma poeira fina e cinzenta-escura que pesa como o chumbo.

E, portanto, nunca pára. Caminha há séculos, ligeiramente inclinado para a frente, cortando o vento com a determinação de quem sabe que o segredo está no movimento, que o espaço é limitado e o tempo não existe.

Já deu muitas voltas ao mundo, sempre a caminhar. Umas vezes, em contraluz, e outras atravessando nuvens de pó, que se assemelham às tempestades de areia no deserto.

Semicerra os olhos e atravessa-as, sempre sem parar. Quando chega ao fim, sacode a poeira dos ombros, deixando para trás a tempestade e prossegue no mesmo compasso.

Não sei onde vai nem quando irá parar.
Talvez o mundo que ele já percorreu tantas vezes se limite à sua sala de estar.
Talvez até seja ele que levanta o pó com os pés a caminhar.
Deixem-no ir, não atrapalhem a sua marcha. Porque se alguém lhe toca, nem que seja com a ponta de um dedo, ele desfaz-se... em pó.

Hazel