Existe um homem de chapéu e fato preto, acinzentado pelo tempo, que caminha há séculos sem parar. Vai em silêncio e sem pressa. Não leva bagagem.
Descobriu que a tristeza são partículas de pó que pousam nos seus ombros se ele se sentar a pensar e a olhar para trás. É uma poeira fina e cinzenta-escura que pesa como o chumbo.
E, portanto, nunca pára. Caminha há séculos, ligeiramente inclinado para a frente, cortando o vento com a determinação de quem sabe que o segredo está no movimento, que o espaço é limitado e o tempo não existe.
Já deu muitas voltas ao mundo, sempre a caminhar. Umas vezes, em contraluz, e outras atravessando nuvens de pó, que se assemelham às tempestades de areia no deserto.
Semicerra os olhos e atravessa-as, sempre sem parar. Quando chega ao fim, sacode a poeira dos ombros, deixando para trás a tempestade e prossegue no mesmo compasso.
Não sei onde vai nem quando irá parar.
Talvez o mundo que ele já percorreu tantas vezes se limite à sua sala de estar.
Talvez até seja ele que levanta o pó com os pés a caminhar.
Deixem-no ir, não atrapalhem a sua marcha. Porque se alguém lhe toca, nem que seja com a ponta de um dedo, ele desfaz-se... em pó.
Hazel