«Se houver alguém que se oponha, fale agora ou cale-se para sempre.»
A casca do limão caiu delicadamente sobre a bancada. O silêncio sepulcral foi interrompido pelo som da torneira a encher o fervedor de aço inoxidável. Um riscar de fósforo.
Sentou-se à espera que o chá acabasse de ferver enquanto limpava demoradamente a sujidade das unhas com a ponta da faca, e a imaginava a escarafunchar por entre a terceira e a quarta vértebra do sacana do Ermelindo. Teria de fazer força para perfurar a pele, e de fazê-lo com agilidade suficiente para evitar que ele se conseguisse defender a tempo. O cretino havia de revirar os olhos e esticar o pernil em minutos.
Espremeu o limão como quem expele o próprio fel e juntou o sumo ao chá acabado de ferver. Adoçou com mel, mexeu com a colher e levou a caneca aos lábios.
Espremeu o limão como quem expele o próprio fel e juntou o sumo ao chá acabado de ferver. Adoçou com mel, mexeu com a colher e levou a caneca aos lábios.
Estendeu o jornal sobre a mesa. Na primeira página, pareceu-lhe ler o título Engoliu uma espada e foi parar às urgências, mas a tosse e a febre causada pela garganta inflamada turvavam-lhe a visão e o entendimento –, devia ser uma espécie de alucinação. Que importa, as notícias nunca trazem nada de novo.
Fechou o jornal, engoliu o resto do chá e arrastou os chinelos até à cama. Há sapos que nem um homem com goelas de pelicano consegue engolir. Quando se obriga a tal, fere-se por dentro. As palavras que quis dizer queimam-lhe as vísceras. Não admira que tivesse ficado com a garganta neste estado.
Na manhã seguinte...
A noite foi um tormento de ranho, suor e pesadelos que se dissiparam com a luz da manhã. A febre passou, mas a tosse persistia. A faca continuava pousada sobre a mesa-de-cabeceira, testemunha silenciosa do plano homicida da noite anterior, que agora se revelava ridículo e tresloucado.
O arcano Ás de Espadas recorda-nos que se tivermos de escolher entre ficar mal com os outros e ficar mal connosco, vale mais optar pela primeira. Afinal, somos nós que nos aturamos a nós mesmos desde o primeiro até ao último dia.
Fechou o jornal, engoliu o resto do chá e arrastou os chinelos até à cama. Há sapos que nem um homem com goelas de pelicano consegue engolir. Quando se obriga a tal, fere-se por dentro. As palavras que quis dizer queimam-lhe as vísceras. Não admira que tivesse ficado com a garganta neste estado.
Na manhã seguinte...
A noite foi um tormento de ranho, suor e pesadelos que se dissiparam com a luz da manhã. A febre passou, mas a tosse persistia. A faca continuava pousada sobre a mesa-de-cabeceira, testemunha silenciosa do plano homicida da noite anterior, que agora se revelava ridículo e tresloucado.
O arcano Ás de Espadas recorda-nos que se tivermos de escolher entre ficar mal com os outros e ficar mal connosco, vale mais optar pela primeira. Afinal, somos nós que nos aturamos a nós mesmos desde o primeiro até ao último dia.
«Bom dia. Quero falar com o Ermelindo, se faz favor.
Sim, é urgente.»
As mãos seguravam o telefone firmes como as de um cirurgião. A vontade também. Teria de encontrar um novo emprego. Aliás, dois empregos, para suportar a indemnização que teria de pagar ao ex-sócio a quem acabara de enviar para a genitália da respectiva tia.
De alma lavada e a tosse finalmente curada, o homem que tinha engolido uma espada jurou a si mesmo que nunca mais se deixaria rebaixar por ninguém.
A beber chá de limão,
Hazel
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Marcação: casa.claridade@gmail.com
Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1647
foto: Free-Photos, licença CC0
