As Vozes do Útero
Chego agora doutro tempo
Antes do mês de Setembro
Como patrícia alquimista
Matrícia, mater, mátria, matriz
Sangue meu, e genes vis
Sentada num trono de arame
Nesta noite sem Lua
Em estrelas imensas suspensas
Onde está o fio?
Perdi-o por um triz
Muito antes de ter nascido.
De que vale ter umbigo
Não me quiseste, nem eu quis
Foi um erro infeliz
Foi e fui, e foste e fomos
Foi escrito a sangue
Pelas vozes do útero
Das avós e dos nós
Que sussurram no escuro,
No silêncio e a sós
Do silêncio, só nós
Até que a todas escute
Até que lhes dê voz
Até que se calem, enfim.
Só assim
Descansam as avós
Se desfazem os nós
Na roda das mós
Sempre, sempre a sós.
A Natureza lenta
Meus olhos amamenta
Que se estendem ao longe
Pelos seios das montanhas
Em leite terno, eterno, materno
De verde clorofila
Terra-Mãe e eu filha
E da minha alma
As dores se fazem flores
Pestanas que semicerram
Em persianas radiantes
Nada será como dantes
Ao meu lado caminham árvores
Eu permaneço e pertenço
Tudo faz sentido para mim
À hora das pétalas do jasmim
Quando entranço os cabelos
Em campos de milho e cetim.
Hazel
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Contacto: casa.claridade@gmail.com
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