Medo do que os outros possam pensar


Alzira preferia morrer a sujeitar-se ao vexame insuportável de se separar do marido, que desprezava secretamente, mantendo durante toda a vida um casamento falecido, sem jamais suspeitar que o objecto da afeição do seu consorte era o Peixoto do talho.

O Peixoto, robusto e hirsuto, nunca cheirava a carne, mas a colónia-de-bebé. Viu-se forçado a herdar o negócio do talho que era do pai, e já tinha sido do avô, mas o que sempre quis foi ser maquilhador como a Xana, a sua amiga lésbica. A Xana tinha (quase) tudo, a profissão dos seus sonhos e uma sexualidade livre e publicamente assumida.

Para evitar críticas e aborrecimentos, Xana nunca foi mãe, apesar de sempre o ter desejado ardentemente. Tornou-se madrinha de uma menina já adolescente que se encontrava num centro de acolhimento de crianças e que era demasiado crescida para que alguém a quisesse adoptar. Tinha sido deixada recém-nascida dentro de uma alcofa sem um bilhete sequer. Chama-se Anita.

Nunca ninguém suspeitou que Anita era filha da Alzira com o namorado que teve antes do marido (um cretino qualquer armado em fidalgo que não quis assumir a paternidade porque iria prejudicar os estudos e arruinar o estatuto de menino-de-bem).

Quem realizou o parto, com a máxima discrição, foi aquela que viria pouco depois a ser sua sogra; que arranjou maneira de casar Alzira às pressas com o filho, uma conveniência supostamente para Alzira não cair em desgraça — mas, na realidade, tinha visto pelo buraco-da-fechadura o filho agarrado ao Peixoto, e tinha medo das bocas-do-povo perante tamanho escândalo.

O inconsolável Peixoto passou anos a chorar enquanto cortava bifes e enchia salsichas frescas, sem que ninguém soubesse o motivo. Só Xana o conseguia animar quando o maquilhava e o transformava em mulher para irem sair à noite.

Por medo de cometer suicídio social, todos preferiram assassinar os seus próprios sonhos e desejos, convictos de que existe apenas um caminho possível e que este culminara num beco sem saída, onde se resignaram a permanecer, aprisionados pelo medo-do-que-os-outros-possam-pensar.

O arcano Oito de Copas questiona-nos: estamos onde realmente desejamos estar, ou onde os outros esperam que estejamos? Ficamos porque estamos felizes, ou porque temos medo de ir embora e do que os outros possam dizer ou pensar?

É mais importante agradar aos outros ou a nós? O que gostaríamos de mudar neste preciso momento?  E estamos à espera de quê, carago?

Hazel
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Email: hazelclaridade@gmail.com

Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1656
Foto: shawnrandall, licença CC0

O gato à janela


Lambe minuciosamente o corpo todo, enquanto as cortinas esgaçadas pelas unhas rodopiam ao sabor do vento fazendo a casa respirar pelas narinas da janela. Por fim, dobra as patas da frente com maciez, arrumando-as por baixo do focinho, estende os bigodes ao Sol e respira fundo.

Bonacheirão e gordo, persegue os que passam na rua com o seu olhar velhaco, cor-de-ervilha. Eles vão, ele fica. Talvez alguns não saibam para onde ir. Outros parecem não saber porque continuam a ir. Há os que vão porque não têm onde ficar.

Os que não vão nem deixam ir. Os que vão, mas anseiam por vir. Alguns nem sequer sabem que vão. Outros julgam ir, mas marcam passo sem sair do lugar. São, no entanto, cada vez menos os que sabem onde e porque vão — e querem realmente ir.

Porém, o gato permanece. Fica, porque tem uma taça a transbordar de comida e outra com água fresca; a torneira do bidé que pinga; ou algum copo de água esquecido sobre a mesa da cozinha, onde — shlép, shlép, shlép — mergulha a língua áspera quando ninguém está a ver. Fica, porque não tem testículos e no lugar deles nasceu-lhe a pacatez de não precisar de ir a lado algum. Os gatos à janela são a imagem da paz, da saciedade e da tristeza que é não ter sonhos nem ambição.

Um dia, distraído com um pássaro, escorregou da janela e foi parar à rua. Comeu do lixo, andou debaixo de carros, lutou com outros gatos e até fez umas safadezas com uma gata esguia de três cores. Teve fome, sede e medo. Gastou sete das nove vidas e até sabia o caminho de casa, mas seguiu na direcção contrária sem olhar para trás, com grande desgosto da dona, que colou a sua foto em todos os postes e candeeiros.

O arcano Três de Paus desperta-nos a fome e a sede de viver, desafiando-nos a deixar a janela a partir de onde, qual Tareco com uma coleira e guizo ao pescoço, observamos passiva e confortavelmente o que se passa à nossa volta. A janela de casa e a janela do computador. A da televisão e a do telemóvel. Está tudo a acontecer lá fora, meus gatinhos. Vão por mim — que acabei de escorregar janela abaixo.

Hazel
Consultas em Oeiras e online

Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1655

No creo en brujas pero que las hay las hay


Sempre me intrigaram aquelas castanhas engelhadas, mais velhas do que eu, que nunca ganhavam bicho, no fundo das gavetas da roupa. É por causa das bruxas, dizia sem mais esclarecimentos a minha mãe. Lá em casa, ninguém gostava de bruxas. Pantominices!, É tudo uma pantominice, saía-se a minha avó enquanto compunha o cordão de ouro ao pescoço. Tinha mais de cem anos (não a minha avó, mas o cordão), e chegava até aos pés se ela não lhe desse as habituais três ou quatro voltas, o que não era caso para grande espanto, porque tinha, como se dizia, nascido nos dias pequenos.

O seu olhar verde-seco e aguarelado, esbatido pela idade, fixou-se num ponto suspenso no ar, como se observasse o fio invisível do tempo. Toda a sua expressão se suavizou, parecendo readquirir o viço dos vinte anos, vividos em Vila Boim, ali mesmo à beirinha do país, onde a pronúncia castelhana se mistura com a portuguesa como as águas de dois rios que se encontram. Alguém lhe entrara em casa durante a noite e furtou o cordão de ouro.

Não valia a pena ir à Polícia, naquele tempo —, foi à bruxa. Que lia o futuro em cartas de jogar ou com uma agulha pendurada em linha de coser; tirava o quebranto e o mau-olhado; fazia purgas e curava o bucho-virado e outras maleitas que os médicos não conseguiam tratar. Não acreditava nela, não gostava dela, mas precisava dela e, portanto, meteu-se a caminho sem contar nada a ninguém.

A mulher versada nas artes misteriosas recebeu-a numa sala sinistra e mal iluminada, com lamparinas acesas, santinhos e um previsível cheiro a arruda queimada. Deu-lhe uma oração para recuperar objectos roubados escrita num farrapo de papel e as seguintes indicações: dizê-la ab-so-lu-ta-men-te todos os dias e em seguida estar “atenta aos sinais”.

Passou-se cerca de um ano sem que a minha avó desistisse. De tantas vezes ler a oração, acabou por memorizá-la. Transcrevo-a tal como me foi transmitida, sem alterações, imaginando que pândega seria se todos os portugueses a lessem diariamente no intuito de recuperar o tanto que vai para impostos e taxas bancárias:

«Ó almas do Purgatório, Eu com nove tenho mistério, Três dos enforcados, Três dos mal-sentenciados, Três da morte a ferro frio, Para que todos os três, os seis, os nove, Vão ter ao coração dessa pessoa que me tirou (nome do objecto roubado), Não possa estar, nem dormir, nem descansar, Se as almas assim fizerem, Eu um terço lhes vou rezar.»

Depois da ladainha, a minha avó (que não era ainda avó nem mãe) ia para o quintal apanhar a aragem fresca do lusco-fusco alentejano enquanto atentava “aos sinais”. Passavam as pessoas que regressavam do trabalho e ia escutando fragmentos soltos de conversas aleatórias que se uniam como um puzzle sobrenatural, dando-lhe pistas que acabariam por guiá-la até ao cobiçado cordão. Este acabou por regressar às suas mãos e foi dela até ao último dia da sua vida.

O arcano Dez de Ouros recorda-nos que aquilo que é nosso por direito, e que verdadeiramente nos está destinado, a nós retornará no devido tempo (excepto os impostos e taxas bancárias). O universo encontra sempre forma de repor o equilíbrio, acertar contas e arrumar a casa.

Hazel
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Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1654
foto: smokefish, licença CC0

A Princesa Ranhosa, um conto de fadas moderno


Era uma vez uma bela princesa que vivia numa torre de apartamentos remodelados ali para os lados das florestas luxuriantes de Mem Martins, mesmo antes de chegar a Sintra. Bela é como quem diz: a voz de bagaço, o buço que lhe crescia junto aos cantos dos lábios, o acne, as olheiras profundas e os dentes podres dos tempos da heroína não a deixavam ser muito bem-apessoada; mas era a princesa de lá da rua, isso era.

Bela (diminutivo de Belarmina) suspirava por um mancebo escorreito da Amadora, que trabalhava na loja de reparação de telemóveis do Centro Comercial Babilónia.

Sonhava com o dia em que ele apanhasse a IC19 montado na acelera de cromados reluzentes e viesse salvá-la da reclusão da sua torre húmida, solitária e assombrada pelo fantasma da vizinha de cima (que ainda não se tinha finado, mas matava-lhe a paciência com o feitio desgraçado e o arrastar de móveis à noite).

Para seu desgosto, o gaibéu gostava de outra, uma flausina qualquer do Estoril, de cabelo-alisado-a-ferro-quente e unhas de gel cintilantes, espetadas como garras de gata assanhada. Cansada de esperar por um salvador que nunca chegava, fez uma longa trança com os seus cabelos e atirou-a pela janela.

Os transeuntes, que caminhavam em passo apressado para apanhar o comboio na interface Algueirão-Mem Martins, desviaram-se repudiados com o cheiro nauseabundo das melenas que não viam água há anos, onde os piolhos já tinham construído uma autêntica metrópole com arranha-céus, vias rápidas e edifícios com elevadores panorâmicos que iam dar à parte de trás das suas orelhas.

Vencida pela indiferença cruel do mundo ao seu sofrimento, atirou-se para a cama e enterrou o rosto no travesseiro. Havia de chorar até morrer.
Ou até lhe caírem os olhos.
Ou até o ranho lhe começar a entrar na boca.
Foi a terceira: quando as ranhocas começaram a empastar no buço, sentou-se na beira da cama e mergulhou as mãos nos bolsos do vestido à procura de um lenço para se assoar.

Encontrou um pente desdentado, um isqueiro Bic sem gás e, quando puxou com a ponta dos dedos pelo lenço ouviu o som metálico de algo a cair no chão. Uma chave! — tinha estado sempre no seu bolso. O tempo todo.

Limpou o ranho da cara com a manga do vestido, rodou a chave na fechadura e abandonou a torre onde se tinha fechado a si mesma, dando por findo o conto.

O arcano 8 de Espadas surge-nos com a clareza fria de uma mão que toca o próprio reflexo no espelho, mostrando-nos em simultâneo a vítima e o autor. De pouco adianta esperar por dias melhores, por alguém, por uma sorte que nos saia, pelo raio que nos parta, o diabo que nos carregue ou um deus que nos acuda.

Não vem ninguém porque ninguém nos pode salvar de nós mesmos.

Quando as circunstâncias da vida nos encurralam a um canto, só nos resta sair pelos próprios pés. Entre arriscar tomar uma decisão, ou permanecer insatisfeito por uma não-decisão, é preferível deixar de ser uma princesa, limpar o ranho — e sair da torre.

Hazel
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Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1653
Foto: cocoparisienne, licença CC0

Laboratório do Amor


O amor é urgente, desajuizado e ridículo. Eventualmente, causa até um bocado de nojo, podendo mesmo chegar a induzir em gregorianos espasmos pré-vómito aos que, frustrados nas suas ilusões, deixaram de acreditar porque o tomaram por uma âncora que estanca a fragata em alto mar, quando o segredo está nas velas que a fazem deslizar, engolindo céu, sol, estrelas, mar e vento.

É uma carga de trabalhos, disso não há dúvida. Não se pode amar em part-time, ou tirar férias do amor. É um trabalho para escravos que se deixam capturar de livre vontade e que apenas podem ser remunerados com amor. Quem for mal pago, começa a desmazelar-se no serviço.

Nada sabendo de comprovado sobre tão misterioso e hermético tema, reservado aos poetas e aos loucos, e incluíndo-me nos últimos (primeiro, porque não sei rimar e segundo, porque só alguém sem juízo poderia, nos tempos que correm, atrever-se a amar), publico o resultado de uma longa e minuciosa pesquisa realizada em laboratórios da-mais-fina-e-excelsa-qualidade sobre as transformações dos vinte aos quarenta anos nas artes de l’amour:

Aos vinte anos, já sabemos o que queremos — ou julgamos saber.
Aos quarenta, sabemos o que não queremos.

Aos vinte, preocupamo-nos em agradar à família.
Aos quarenta, que se lixe o que pensa a tia, a prima ou o periquito. Quem sabe da nossa vida somos nós, ora.

Aos vinte, acreditamos em príncipes encantados.
Aos quarenta, voltamos a acreditar neles, porque no intervalo conhecemos sapos — e se há sapos, tem de haver, pelo menos, um príncipe (segundo dados avançados pelo cientista Walt Disney).

Aos vinte, não temos medo de amar.
Aos quarenta, somos uns cagarolas, cheios de miaúfa, mas amamos na mesma.

Aos vinte, julgamos que vamos viver para sempre e que não precisamos de dormir.
Aos quarenta, não temos tempo a perder e só fazemos uma directa em troca de amor eterno.

Aos vinte, confiamos.
Aos quarenta, desconfiamos.

Aos vinte, não gostamos de ouvir conselhos.
Aos quarenta, desejaríamos ter quem no-los pudesse dar.

Aos vinte, temos a pele esticada e viçosa.
Aos quarenta, temos que aproveitar antes que isto caia tudo (!), benza-nos Afrodite.

Aos vinte, achamos que já sabemos tudo.
Aos quarenta também.

Se o digníssimo e marotíssimo leitor tiver idade compreendida entre os vinte e os trinta, já sabe com que contar quando chegar aos longínquos quarenta. Estatísticas e experiências laboratoriais indicam que tudo tem a tendência a melhorar, apesar de às vezes parecer que não.

Se tiver entre quarenta e cinquenta, venham de lá esses ossos num sentido e compreendido abraço. Força aí.

Se tiver mais de sessenta, peço que colabore neste estudo, a bem do destino da Humanidade e da preservação de tão raro e valioso bem — l’amour — enviando para o meu email a sua história de vida e de amor para ser apreciada pelos nossos cientistas-do-amor.

Esta semana, o arcano Dois de Copas abraça-nos como uma balada dos anos 80, inspirando-nos a encontrar o amor, primeiro dentro de nós, depois nos olhos de alguém. Abençoados os que já o encontrámos. Boa sorte aos que o procuram.

Hazel
Consultas em Oeiras e online

Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1652
Ilustração: Kaz, licença CC0