A madona das maminhas tristes


Tudo estava a cair à sua volta. O estuque no tecto da casa-de-banho, a roupa pendurada nas costas da cadeira, o copo de água que resvalou da mesa e se estilhaçou no chão, as maminhas que olhavam tristes para os pés quando desapertava o soutien para vestir o pijama-às-riscas.

Lá fora, a chuva batia nas pedras da calçada formando diferentes tons numa melodia fúnebre e descompassada que, de alguma forma inexplicável, batia certo com o ritmo descontrolado do seu coração.

As paredes brancas do corredor dos quartos pareciam duas prensas gigantes que se moviam para esmagá-la, reduzi-la a líquido, a puré. O telefone não parava de tocar. Incapaz de ouvir mais uma palavra, atirou-o contra a parede. Aquele foi o dia em que o mundo - o seu mundo - parou.

Todos tinham morrido. Uns porque faleceram, outros porque, ainda que permanecessem vivos, deixaram que lhes morresse a última gota de amor e só tinham fel para oferecer. Até uma ovelha negra se cansa de tentar explicar que o problema não é ela ser negra e as outras brancas, mas o pasto ser pouco e a estupidez muita.

Despiu-se e encheu a banheira de água quente. Deixou-se escorregar. De olhos fechados, pediu com todas as forças ao seu corpo e a Deus, se esse cretino existisse mesmo, que o coração lhe parasse de bater - porque era demasiado cobarde para se matar.

Na manhã seguinte, acordou com uma valente constipação acompanhada de uma humilhante crise de hemorróidas que saltavam espavoridas quando os acessos de tosse lhe fustigavam todas as cavidades do corpo. O coração continuava a bater, ainda que desordenadamente, como se tivesse leões a correr dentro do peito. Mas a dor da alma parecia já um pouco mais branda.

Dentro daquela casa onde morava a solidão e a loucura, longe do mundo e dos seus habitantes, conseguiu acabar por curar as feridas de um coração despedaçado e atormentado. Durante muito tempo, ninguém soube o seu paradeiro - nem ela própria.

Às vezes, tudo o que nos resta fazer é esperar, e deixar que o planeta continue a girar sobre si mesmo; ver os nasceres e pôres do Sol sucederem-se até acabarmos por perceber o sentido da vida, a grande mensagem cósmica, o mistério dos mistérios: o mundo está-se nas tintas para nós. De tão insignificantes que somos.

Colocou a cafeteira ao lume com água e chá de folhas de verbena para espantar a tristeza, e decidiu que já chegava. Como um longo resfriado que finalmente se consegue curar, também a mágoa ficou sanada. Estava pronta para partir. De malas feitas, alma lavada e maminhas arrebitadas, mudou de casa, de nome e de vida.

Esta semana, o arcano quatro de espadas inspira-nos a abrandar a velocidade e a afastar-nos para observar o mundo à distância, sempre que sentirmos que precisamos de um tempo para nós. Não necessitamos de viajar para Marte; podemos fazê-lo mesmo enquanto cumprimos as nossas responsabilidades, concentrando-nos em manter o silêncio exterior e interior e voltando-nos para dentro - de forma a ouvir a voz dos nossos próprios pensamentos.

Hazel
Consultas em Oeiras e online
Email: hazelclaridade@gmail.com

Coluna semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1609

Sugestão musical da semana:

foto: Lee Price

Bigodinho retorcido e olhos malandros



Uma gota de água gelada escorria lentamente ao longo do copo alto de vidro. Aníbal, de bigode negro retorcido, ria-se com gosto e semicerrava os olhos de mafarrico com as piadas atrevidas da menina Ivone; baixinha, roliça, de vestido rodado com flores estampadas e cabelo castanho, era a graça em pessoa. Ai menina Ivone, menina Ivone, você tira-me do sério, ronronava Aníbal. Ela ria-se. As velhinhas na mesa ao lado abanavam os leques com indignação ante a pouca-vergonha que se passava ali, aos olhos de todos, espalhando no ar uma nuvem de cheiro a naftalina e a perfume que já passou o prazo de validade.

Os dois cubos de gelo ficaram a dançar em espirais no copo de Ginger Ale, bebido até meio. De mão dada e passo apressado, Aníbal do bigodinho retorcido e a menina Ivone saíram sem olhar para trás, movidos pelo arrebatamento que urge ser saciado. Um dos leques inquisidores caiu ao chão, fazendo o empregado tropeçar quando se aproximou da mesa para conferir se a conta foi paga. As marcas de batom rosa-quente riam-se provocadoras no guardanapo abandonado.

Ai Aníbal. Ai menina Ivone. Os ais sucediam-se à medida que a roupa lhes ia desaparecendo dos corpos e os dois se entrelaçavam no sofá da sala, aconchegados pela colcha de patchwork onde se manteve enroscado o gato Tareco que viu, aos solavancos, tudo o que a natureza tem de mais cru, belo e escandaloso.

O candeeiro no tecto da vizinha de baixo, que era viúva e muito religiosa, dançava de um lado para o outro. Benzeu-se enquanto suspirou de saudades do falecido, que nunca lhe faltou nos deveres matrimoniais, apesar de ter a mania das limpezas e uma obsessão por números ímpares. Sabia a abençoada senhora que era sempre uma vez, três, ou, em dias de festa, cinco vezes.

No andar de cima, o vestido da menina Ivone tinha voado sobre o abat-jour de franjas, as calças de Aníbal jaziam no chão e os dois tinham percorrido todo o glorioso caminho desde a entrada até às catacumbas da existência humana.

- Sai da frente! Olha para este, deve ter a mania que é taxista em Lisboa.
- Com licença, abram alas, se faz favor.
- Olha lá, eu estava primeiro, julgas que és mais esperto que os outros?
- Os cães ladram e a caravana passa!

E foi assim que o espermatozóide mais rápido passou à frente de todos, porque não parou para perder tempo a discutir.

Trinta anos depois, Frederico - Fred para os amigos - o espermatozóide feito homem, estava a dirigir o seu próprio negócio, uma startup hipster na área das telecomunicações. Aníbal deixou de usar bigode, mas mantinha o mesmo olhar malandro. A menina Ivone, agora de cabelo grisalho e curto, passava as tardes a fazer colchas de patchwork que vendia nas feiras de artesanato por bom dinheiro. E todos eles foram um dia o espermatozóide mais veloz, o vitorioso.

Esta semana, o arcano Seis de Paus recorda-nos o segredo para vencer todos os problemas, batalhas e corridas: não perder tempo a discutir ninharias e seguir sempre em frente, sem olhar para trás!

Hazel
Consultas em Oeiras e online

Coluna semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1608
foto: Nat Farbman

Perna de porco com batatas


À primeira vista, todas as famílias pareciam equilibradas; sem escândalos, tragédias ou histórias que apenas pudessem ser contadas com voz baixa e olhares furtivos. Nesta farsa sem acordo estabelecido, todos eram coniventes, fingindo acreditar no verniz de normalidade que pintava a vida de uns e de outros. Cada qual sabia das suas vergonhas e lamentos; raros eram os que perdiam o controlo do seu teatro de fantoches onde as roupas assentavam sempre bem e os gatinhos dormiam placidamente à janela.

Com esmero de dona-de-casa caprichada, compunha o napperon de renda branca sobre a tampa da arca congeladora e pousava a couve de loiça Bordallo Pinheiro, lascada mas digna, onde guardava os rebuçados da tosse.

Era uma arca com alguns anos, daquelas horizontais, espaçosas. Postas de pescada para fritar, dois frangos criados pela vizinha do lado, pá de porco, língua de vaca, entrecosto, rissóis de camarão, perna de perú e mais de um terço do marido cortado aos pedaços - embalado em sacos de plástico. Há mais de dois anos que o falecido tinha refrescado as ideias para a eternidade, agora aconchegadas por um pacote de ervilhas congeladas.

Tinha sido um homem rude, grosseiro, de poucas falas e nenhum amigo que lhe sentisse a falta. A moldura com a sua fotografia a-preto-e-branco, de sobrolho franzido e o fato dos funerais vestido, continuava na credência da entrada, como se estivesse a observar tudo.

Em casa, longe dos olhares da vizinhança, costumava descarregar a dor abafada de uma infância desprovida de calor humano na Dona Idalina, que andava sempre de meias até aos joelhos e manga comprida para esconder as marcas. Num desacato que foi longe demais, uma frigideira de ferro voou com a força de muitos anos de revolta silenciada. Parecia obra do Diabo.

Chegou, por macabro engano, a dar um pedaço da coxa do marido à vizinha do lado, como retribuição pelos frangos que de vez em quando lhe oferecia. Esta fez um inolvidável guisado para o almoço de Domingo que toda a família lambeu em menos de nada. Enquanto ensopavam o pão no molho, comentavam: “Há anos que não vejo o Júlio, uma besta daquelas nem merece a mulher que tem.”

Amiga dos gatos abandonados que alimentou toda a vida, frequentadora assídua das missas semanais - quiçá com secretamente culpada devoção - sempre com um conselho de culinária a partilhar com as vizinhas na mercearia, a boa senhora esteve sempre acima de qualquer suspeita. Nunca foi descoberta. A arca congeladora sobreviveu-lhe, assim como a prova do seu crime com que pacientemente conviveu durante mais de vinte anos.

O segredo foi desvendado após o seu falecimento, por idade avançada, pela senhoria, quando desocupou a casa para fazer obras na cozinha. A moldura com a foto do finado caiu ao chão e o vidro estilhaçou-se quando os gritos de horror ressoaram pela casa. Ainda assim, a Dona Idalina foi sempre recordada com saudade e amizade, não só pelos vizinhos, como pelos gatos da rua que durante anos foram alimentados com deliciosas papinhas de carne picada.

Esta semana, o arcano A Sacerdotisa incita-nos a apurar a sensibilidade intuitiva e procurar ver para além das aparências. Por detrás da capa da normalidade, por vezes escondem-se os mais inesperados segredos. E todos os temos.


Hazel
Consultas em Oeiras e online
Coluna semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1607
foto: Anne Taintor