28/08/2015

Vitrolinha da Rua :: colaboração com programa de rádio

Lá do outro lado do oceano, no Brasil, existe um programa de rádio infantil chamado Vitrolinha da Rua, que tem o apoio da TV UFPB/TV BRASIL. 

Nesta rádio, contam-se histórias infantis, lendas, há trava-línguas, música, poesia e muita, muita magia. Este é um projecto inclusivo, desenvolvido a pensar nas crianças cegas.

Há algumas semanas, esta vossa escriba, que tem alma de Peter Pan, foi convidada para colaborar com a Vitrolinha, fazendo a narração de uma história infantil.

Sendo eu portuguesa, concebida, nascida e criada em Portugal, tive algum receio que a minha pronúncia talvez não fosse bem compreendida ou apreciada.

Mas o projecto é tão delicioso e cheio de amor, que resolvi mergulhar de corpo e alma... e o resultado desta união entre Portugal e Brasil não poderia ter sido mais divertido e encantador!

Partilho convosco o programa, com o título "A casa da bruxa", que pode ser escutado online, ou podem também fazer download e levar para ouvir no carro com os vossos gaiatos.

Quando ouvirem a pronúncia de Portugal (a partir do minuto 16)... já sabem quem é! grin emoticon



No espírito da Formiga-Rabiga,

25/08/2015

"As Rosas de Heliogábalo" - Sir Lawrence Alma-Tadema

"As Rosas de Heliogábalo" - 1888


Ninguém diria que este quadro, pintado pelo holandês Sir Lawrence Alma-Tadema, tão belo, delicado, leve e perfumado, na verdade, é um retrato perfeito da malvadez requintada.

Heliogábalo é o cognome atribuído post mortem ao jovem imperador romano Marco Aurélio Antonino. Tornou-se Imperador aos 14 anos de idade, foi assassinado aos 18.

Os seus quatro anos de poder (e últimos de vida) foram marcados pela excentricidade e escândalos sexuais e religiosos. Casou-se 5 vezes, uma das quais, com uma virgem vestal. Teve vários amantes do sexo masculino, usava maquilhagem e prostituía-se. Ofereceu uma fortuna ao médico que pudesse operá-lo de forma a ter órgãos sexuais femininos.

O quadro "As Rosas de Heliogábalo" eterniza um banquete onde se vê o Imperador em segundo plano, deitado juntamente com alguns dos seus favorecidos, a observar com deleite os restantes convidados enquanto estes são asfixiados com milhares de violetas, rosas e outras flores que caem inesperadamente de um tecto falso.

Um assassinato perfumado, premeditado por um Imperador caprichoso, intoxicado pelo próprio poder e pelo sentido de beleza até no mais vil e traiçoeiro dos actos.

Sobre o perfume das flores,

13/08/2015

"Segure-me aqui a Língua desta Menina."


Foi na Primavera tensa de 1999 que uma malfadada espinha de carapau me escorregou através da glote e se espetou bem lá no fundo da garganta.

[Isto não é uma metáfora. Se é sensível a descrições de teor demasiado humano, cru e visceral, não leia mais. Embora não seja dos posts com maior "violência gráfica" que escrevi. Há piores.]

Tentei tossir, mas ela não saiu. Comi pedaços de pão inteiro, na esperança de empurrá-la pelo aparelho digestivo abaixo, e-depois-logo-se-via, sempre com a memória daquela tia-avó que um dia foi parar ao Hospital com uma espinha de bacalhau atravessada no reto.

O pão não resultou. A espinha estava ali para ficar. Nessa noite, deitei-me com o desejo que a espinha demoníaca desaparecesse milagrosamente e, na manhã seguinte, tudo não tivesse passado de um sonho menos bom.

A manhã chegou e, com ela... a Espinha. Agora, em letra maiúscula, como se escreve o nome das coisas que ganham uma personalidade própria. Tomei duche com a Espinha. Vesti-me com a Espinha. Fui trabalhar com a Espinha. E, após as advertências dos colegas, que me alertavam para a possibilidade de começar gangrenar - eu perdoei-lhes, a sério que sim!, dei-me por vencida e fui para o Hospital.

A funcionária da triagem parecia farejar algo embaraçoso no motivo da minha ida às Urgências, quiçá digno de notícia no "Correio da Manhã", a avaliar pelo meu aspecto saudável e, ao mesmo tempo, tremendamente envergonhado. Não, não tinha objectos estranhos entalados nas cavidades anal nem vaginal! Apre!

- Tenho uma espinha espetada na garganta - disse eu, baixinho, baixinho.
- Tem o quêêê? - rosnava a redonda senhora, de dentro do guichet. A fina arte da velhacaria consiste em fazer-nos repetir alto e em bom som, numa sala cheia de pessoas curiosas e atentas (ou que a nossa timidez assim nos faz parecer), o motivo do nosso embaraço. [Agora que olho para trás no tempo, constato como era introvertida na época.]

- TENHO UMA ESPINHA ESPETADA NA GARGANTA! - respondi, mais alto, para satisfação da curiosidade mórbida que me rodeava - E porra para isto tudo! - isto não disse, mas pensei, intercalado por impropérios também ditos mentalmente, que não me atrevo a reproduzir aqui.

Fui atendida pelo Otorrinolaringologista, um senhor de bigode fininho, com uma calma anestésica e uma paciência infinita. O Sr. Dr. espreitou cá para dentro e decidiu mentalmente quais os instrumentos de tortura que iria utilizar em mim. Chamou um enfermeiro para ajudar:
- Segure-me aqui a língua desta menina.

Gene Simmons - Kiss
O jovem enfermeiro chegou e, com um pedaço de gaze, puxou-me a língua cá para fora com força. Ai Senhores. Senti-me como o vocalista dos Kiss, mas sem as pinturas faciais, o cabedal preto e o talento para cantar.

Entretanto, o Sr. Dr. Otorrinolarin.... (isso, isso), segurava uma pinça que seria suficientemente grande para agarrar na parte mais larga da tromba de um elefante. E era aquilo que ele ia enfiar-me goelas abaixo. Jurei a mim mesma nunca mais comer peixe. "Nunca mais como peixe, nunca mais como peixe, nunca mais como peixe."

Conforme a pinça zoológica me adentrava a faringe, percebi no quão parecidos os humanos podem ser com os gatos em espasmos pré-vómito de bolas de pêlo. Julguei que fosse vomitar na cara do médico do bigode fininho e do enfermeiro que me continuava a puxar a língua como se esta fosse elástica. Pensei que depois disto ia ficar tão comprida como a passadeira vermelha dos Óscares do Cinema. Ou bifurcada como as das serpentes!

Foram várias as tentativas de chegar até à Espinha. As lágrimas escorriam-me pelos cantos dos olhos, enquanto eu pensava, tentando encontrar algum lado positivo naquilo, "Vai que ela tinha ficado espetada à saída..."

Por fim, a super-pinça conseguiu apanhar a diaba da espinha. Agora, volta a ser espinha em letra minúscula. Na minha imaginação, depois de 24 horas com ela enterrada nas minhas carnes macias, tenrinhas e indefesas, esperava uma espinha gigante. Tinha menos de 1 centímetro. Muito pequenina. Mas velhaca, bem velhaca, a danada.

Após esse episódio, em 1999, estive, de facto, vários meses sem comer peixe. Depois, gradualmente, voltei a comer peixe. A minha zanga, em particular com os carapaus, durou muitos anos. Olhava para eles com um desprezo que mais ninguém entendia, a não ser eu e a minha glote, que ainda guardava memórias funestas.

Raramente comi carapaus depois disso e, as poucas vezes que o fiz - sempre a contragosto - era porque estava em casa de alguém, e não tinha mesmo como fugir ao maledeto peixe, mais perigoso que um tubarão branco.

Até esta semana. De volta a 2015, após 16 anos, comi carapaus assados no forno.
E, olhem... gostei. Tenho que admitir: estavam deliciosos.
Carapaus, estão perdoados!

A sentir-me um autêntico carapau-de-corrida,

11/08/2015

Dentro do meu Candeeiro mora um Fantasma

O candeeiro da minha mesa-de-cabeceira é uma antiguidade e, por isso, faz mau contacto. Todas as noites, quando o desligo, ele volta a acender-se sozinho. Eu volto a desligá-lo, e ele reacende-se. E torno a desligar, até ele acabar por aceitar que é hora de dormir. A maior parte das vezes, ele reacende-se umas sete ou oito vezes seguidas.


É assim todas as noites, nos últimos anos. Mas agora ele ficou caprichoso. Durante a madrugada, várias horas depois de o ter desligado, sou acordada pelo clarão no quarto. Abro os olhos e lá está ele, teimoso, aceso.

Tem sido sempre à mesma hora. Ele é uma antiguidade, e as antiguidades são assim.
Fazem mau contacto e têm as suas vontades e pertinências.

Só hoje reparei que ele nunca se reacende de dia. Nunca aconteceu, mesmo.
Aliás, quando o ligo de dia consigo sempre desligá-lo à primeira. Concluo que o maroto é um noctívago. Prefere brincar comigo à hora em que o Sol dorme e os mistérios e assombros tomam conta do mundo.

Podia trocar-lhe os fios e o interruptor, para que ele funcionasse como os candeeiros modernos, máquinas perfeitas e infalíveis, sem estes humores e contornos excêntricos de personalidade que assustariam muitas pessoas.

Mas... eu gosto dele assim.  smile emoticonsmile emoticonsmile emoticon

(Mantenho-vos informados, caso ele se lembre de me surpreender com novas habilidades!)

Encantada com antiguidades caprichosas,




07/08/2015

Manifesto Anti-Galo de Barcelos

A Lenda do Galo de Barcelos
Reza a lenda que tinha havido um crime, e um galego que estava de passagem tornou-se o principal suspeito. Foi condenado à forca. Desesperado, o homem implorou que o levassem ao juiz. Este, encontrava-se a jantar com os amigos. Sobre a mesa, estava uma travessa com um galo assado. O galego, insistindo na sua inocência, disse:

"É tão certo eu estar inocente, como certo é esse galo cantar quando me enforcarem."

Ainda assim, a condenação foi em frente. No momento do enforcamento, o galo assado levantou-se da travessa e cantou. O juiz, tomando consciência de que tinha cometido um erro, correu para o condenado e retirou-o da forca que, graças a um nó mal feito, não o matara.

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Desde o séc. XVI, o Galo de Barcelos tornou-se um símbolo nacional. De Norte a Sul do país, várias gerações de artesãos portugueses - quase se diria possuídos pelo espírito do galo cantante - não têm feito outra coisa ao longo destes últimos cinco séculos, senão galos de Barcelos.

Meus senhores, o bicho está em todo o lado. Em estatuetas de todos os tamanhos e géneros, aventais de cozinha, azulejos, pratos, canecas, copos, travessas, brinquedos, tabuleiros, bordados, caixas, joalharia, almofadas, toalhas, canetas, saca-rolhas, guardanapos, tapetes, cortinas, relógios, porta-chaves, livros para colorir, bijuteria, colchas, talheres, tecidos estampados... ad nauseam!

Eu nem sei como não está na bandeira nacional, em lugar da esfera armilar.

Esta semana, estava a folhear as promoções dos supermercados e lá estava ele na secção de têxteis: panos da loiça estampados com o Galo de Barcelos, por 1€.

Com tantos padrões que existem, pelo amor da piriquita. Riscas, bolinhas, axadrezado, vichy, cornucópias, losangos, chevron. As modas passam, mas o velhaco do Galo sobrevive a tudo. Pudera, pois se ele cantou depois de ter sido assado, qual zombie de penas estorricadas.

Se houver alguém em Barcelos que esteja a ler isto, peço que me desculpem. Sem querer magoar o orgulho que têm no vosso Galo, creio poder arriscar afirmar em nome do país inteiro...: estamos fartos dele!

Há cinco séculos - repito, cin-co-sé-cu-los - que o vemos em todo o lado. Todos conhecemos o Galo de Barcelos, desde que nascemos; aliás, já o aturamos desde há não sei quantas encarnações antes desta. Por isso, num momento de profundo e galináceo desvario, resolvi escrever este Manifesto Anti-Galo de Barcelos.

O Galo de Barcelos é chato.
O Galo de Barcelos nem sequer sabe cantar, porque é desafinado.
O Galo de Barcelos não passa de um frango que foi mal assado.
O Galo de Barcelos é possidónio, fatela e piroso.
O Galo de Barcelos é um grande garganeiro que ocupa o espaço todo, e não deixa as outras lendas portuguesas serem também dignamente representadas em panos-da-loiça-a-um-euro.
O Galo de Barcelos cheira mal das patas! E tem a crista despenteada!
O Galo de Barcelos merece paz e descanso! E nós também! Dele!


Tenho a certeza que vem nas profecias do Nostradamus que os panos da loiça do Galo de Barcelos serão os últimos sobreviventes após o fim do mundo. Quem viver, verá! (ou não)

Horrorizada com a descoberta de um pano da loiça do Galo de Barcelos no fundo de uma das gavetas da minha cozinha,

03/08/2015

Uma noite de loucos no Hospital Júlio de Matos

Neste último Sábado à noite, estive no Hospital Júlio de Matos.
Fui de livre e espontânea vontade, sem vestir um casaco branco, sabem, daqueles em que nos podemos abraçar a nós mesmos, e que são moda nos hospitais psiquiátricos. haha!

E, olhem, deixem que vos diga: foi uma estadia de loucos...

Tudo começou quando enviei uma foto de um antigo guarda-jóias meu que, caso fosse aceite, passaria a fazer parte de um dos cenários vintage da peça de teatro com o nome "E morreram felizes para sempre".

Em troca, se a candidatura fosse aprovada, eu receberia bilhetes VIP para assistir à mesma peça. Eles aceitaram!

Às 22:00, dei por mim, e mais umas vinte pessoas, fechados numa sala pequena, velha, mal iluminada e cheia de tubos de ensaio, no antigo hospital psiquiátrico.

Foram-nos entregues máscaras cirúrgicas e explicadas as regras. É proibido retirar a máscara durante a peça inteira, falar, andar de mãos dadas, tirar fotografias, filmar e mexer nos actores. Casacos e malas devem ficar no bengaleiro. Todos vão de mãos a abanar, retirados da sua zona de conforto.

É permitido circular livremente, mexer nos cenários, abrir gavetas, armários, portas, baús, livros, ler relatórios médicos, e bisbilhotar tudo o que quisermos. Tudo mesmo.

Todos os convencionalismos ficaram lá fora. A maçaneta da porta mexe-se sozinha, causando um silêncio perturbador na sala onde esperamos o início da peça, sem percebermos de imediato que ela já tinha começado, como uma charada perfeita.

A abertura violenta da porta que dá acesso ao interior escuro do hospital, faz-nos ter mais adrenalina do que sangue a percorrer as veias. De máscaras cirúrgicas colocadas, todos perdem as máscaras sociais e observam sem pudores o que se está a passar a um milímetro da própria pele arrepiada de emoção, abrem e remexem em gavetas, ou sentam-se numa poltrona de veludo vermelho-sangue dentro de um quarto impregnado de perfume de lavanda onde um casal se veste para ir a uma festa. Os cenários estão repletos de pistas.

Nesta viagem no tempo, somos transportados para o ano de 1949, em que o Dr. Egas Moniz recebe o Prémio Nobel da Medicina pela sua maquiavélica invenção da lobotomia.

Algumas das pessoas que estavam a assistir foram levadas para salas fechadas com personagens, ou puxadas para o meio da cena, tornando-se parte activa nela (esta vossa escriba, infelizmente, não teve essa sorte!).

A curiosidade é-nos constantemente espicaçada (cheguei a ver um rapaz rastejar por uma passagem secreta dentro de um roupeiro que o levava para outra sala), levando-nos a perseguir as personagens ao longo de cenas recheadas de mistério, loucura, erotismo, pancadaria, dança, sentido de humor e uma dose constante de ironia. Nenhuma palavra é dita pelos actores durante a peça. E, no entanto, conseguimos acompanhar tudo.

Sentimo-nos como fantasmas que descem as escadarias a correr e caminham a passo apressado através dos corredores escuros e cheios de nevoeiro do "hospital dos malucos" - como é vulgarmente conhecido - a meio da noite.

Várias histórias interligadas desenrolam-se em simultâneo nos diferentes cenários, levando-nos a observar diversos pontos de vista para cada situação. Que belíssima metáfora.

Os actores desta peça de teatro imersível tiveram um desempenho irrepreensível.

Os cenários são riquíssimos, mexendo-nos com os sentidos. Diferentes cheiros em cada sala, cortinas de veludo, toucadores, livros velhos, perfumes antigos, um esqueleto, um picador de gelo (para as lobotomias!), chávenas que abanam sozinhas sobre cómodas, candeeiros com abat-jours de franjas...

Regressamos para casa no fim da peça a reviver mentalmente tudo o que se passou, como se o nevoeiro dos corredores do hospital, de alguma forma mágica, nos acompanhasse, e passamos dias a fio a tirar conclusões atrás de conclusões. Talvez tenhamos sido sujeitos a uma lobotomia, mas sem o picador de gelo, e bem-sucedida...

Agradeço à Produção pela oferta dos bilhetes e pela experiência vivida, e regressarei em Setembro, para continuar a charada.

Na plena posse das minhas faculdades,

18/07/2015

A Lenda e a Simbologia da Dança dos Sete Véus

A origem da enigmática e fascinante "Dança dos Sete Véus" é tão difusa e volúvel quanto o é todo o Mistério Feminino.

Ainda que exista uma ideia (errada) de que é uma espécie de striptease, tal não poderia estar mais longe da verdade.

A Dança dos Sete Véus é uma forma de arte riquíssima em simbologia mágica onde se faz uma teatralização do processo iniciático.

A lenda da descida aos Submundos pela Deusa Babilónica Ishtar (Senhora do Amor, da Fertilidade e da Guerra), poderá estar na origem desta dança:


Ishtar viajou através do reino dos mortos para resgatar o seu amado Tammuz. Teve de atravessar 7 portais, cada um guardado por 7 demónios.

Para poder passar cada portal, foi-lhe exigido que deixasse ficar um dos seus pertences, que, por sua vez, representava um atributo de que ia prescindindo: beleza, fertilidade, amor, saúde, magia, poder e o domínio sobre as estações do ano.

Todas as jóias e véus que levava iam ficando para trás ao longo da descida. Quando passou o último portal, estava completamente nua.

O cair dos véus representa o revelar dos mistérios outrora ocultos, a abertura da visão, o despertar da verdadeira consciência.

Simboliza também a troca inevitável imposta pelo eterno girar da Roda da Fortuna: é preciso deixar ir, abdicar do que nos é precioso, desapegando-nos da ilusão de posse, para conquistar algo grandioso.

Seja no mundo dos homens, seja no dos Deuses, não existem espaços vazios; há que pagar um preço por cada degrau evolutivo da longa escadaria da ascensão espiritual. Para andar para a frente, tem que se deixar algo para trás.

A ascensão faz-se para baixo, e não para cima - é no mergulho nos submundos que nos despimos das máscaras sociais e encaramos o nu e cru visceral da Verdade, regressando, assim, à Essência. Como uma semente que precisa das profundezas da terra para poder germinar, e só assim consegue romper a superfície do solo em direcção ao Sol...

Abreviando a lenda, que é extensa, Ishtar revela a sua verdadeira essência e une-se a Tammuz, tornando-se a guardiã das chaves dos portais, que abrem apenas para os Iniciados.

É, para mim, inevitável olhar para esta representação da Deusa Ishtar sem fazer um leve desvio ao tema do post e associá-la à carta de Tarot "O Mundo".

Na carta XXI (21 = 3 ciclos de 7), "O Mundo", também surge uma mulher (os Mistérios e o atravessar dos portais são assuntos eternamente ligados ao sexo feminino; as mulheres são, em si, o portal da vida e da morte), nua (porque está na sua essência e, portanto, dispensa artifícios), e que segura as duas varinhas (que detém as chaves do Conhecimento). O véu, o Conhecimento desvendado.
Tal como Ishtar, acompanhada pelos 4 guardiões.
A derradeira representação da Iniciação.

Está tudo interligado; e, neste post, fundiram-se várias das minhas grandes paixões: a Dança, a Mitologia, a Magia, o Tarot e a Escrita.
Diferentes peças que completam um delicioso puzzle.
Regressemos ao tema da Dança dos Sete Véus...:

Diz-se que os sete véus correspondem às sete cores do arco-íris, às sete notas musicais, às sete virtudes e aos sete vícios, os sete planetas, os sete chakras: vermelho, laranja, amarelo, verde, azul-claro, violeta (ou azul-índigo) e branco.

O número 7 é considerado o número da perfeição, por ser a soma do 3 (Céu/Espírito) com o 4 (Terra/Matéria), ou seja, a fusão dos mundos. A Totalidade.

Idealmente, as cores dos véus correspondem às dos chakras, e a retirada de cada véu é acompanhada de movimentos corporais com ondulações e/ou marcações na zona do corpo que é revelada.

Respondendo à pergunta que paira na mente dos mais púdicos e maliciosos, a verdadeira nudez é um conceito mais profundo do que um corpo sem roupa. Não existe nudez física quando uma bailarina de Dança Oriental faz a "Dança dos Sete Véus". Os véus vão caindo, mas a roupa permanece vestida. Porque é a alma que se desnuda, e não o corpo.

[Esta vossa escriba numa actuação em palco, de Dança Oriental. Fotos por Marco Dinis Santos.]

No limiar dos portais,

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