A Ratinha


Lá vai a Ratinha toda espevitada. Viram-se cabeças à sua passagem, desviam-se os prédios meio decrépitos, inclinam-se os degraus da Bica, debruçam-se os candeeiros da rua. Não há quem não se espante ao vê-la, tão viva e airosa.

O Elias do talho conhece-a bem, esse magano, assim como a Virgínia florista que nunca mais recuperou do susto quando lhe entrou na loja para elogiar o esmero com que esta lhe tinha composto o arranjo de coroas imperiais.

À sua maneira, a Ratinha é uma lenda viva que um dia foi uma vizinha comum, como tantas outras; baixinha e bombástica como uma pequena mulher-nitroglicerina, sempre com a ponta do lenço a espreitar do bolso para limpar o ranho à canalha, as mãos calejadas de tantas escadas varrer e a preocupação diária de ter o jantar do marido pronto a horas.

Sofria dos nervos e de pés chatos. Pelava-se por grão com mão-de-vaca. Não ela, o marido. E não podia ser grão de lata, tinha que ser do outro, o raio do homem era minhoquinhas. A boa Ratinha, que na época era chamada pelo seu nome de nascimento, o qual nem eu nem ninguém já se lembra, pôs o grão a cozer na panela-de-pressão, danada com a vida, com os pés, com a vizinha do rés-do-chão-esquerdo e com o gaiato do meio que tinha arranjado chatices na escola.

A pressão da panela subia e o crescendo do apito ia acompanhando os seus gritos que se ouviam ao fundo da rua. O miúdo saiu cabisbaixo depois do ralhete e a Ratinha voltou a entrar na cozinha no fatídico momento em que uma pele de grão entupiu o pipo da panela, a pressão acumulou até ao limite e CABUM!, deu-se uma violenta explosão de grão, molho a ferver e pedaços de mão de vaca que voavam em todas as direcções. Foi fatal para a Ratinha. Parou-lhe o coração.

O funeral foi igual a tantos outros. O padre celebrou as Exéquias, as vizinhas choraram com gosto, os gaiatos estavam inconsoláveis e o Elias do talho, que sempre fora seu admirador, depositou uma coroa de rosas-cor-de-rosa escandalosa e denunciadoramente maior que as restantes, mas já nada disso importava.

Eis que era chegado o momento rude e frio de se atirar com uma pá de cal antes de fechar a tampa do caixão. Assim que a cal lhe cai em cima do rosto lívido, a Ratinha dá um salto do caixão como se tivesse acabado de receber a descarga eléctrica de um relâmpago, para grande horror de todos.

Ficou com os olhos mirrados e arrepanhados, pequeninos como os de um rato, queimados pela cal, mas estava mais viva e satisfeita que nunca. Quem lá estava, não esqueceu; muitos nem pregaram olho nessa noite. Saiu a cambalear do cemitério, directa para casa e a primeira coisa que fez foi atirar com o que restava da panela de pressão pela janela. Nunca mais se enervou, nunca mais se comeu grão naquela casa.

Esta semana, o arcano 10 de Paus alerta-nos para as panelas de pressão que ameaçam explodir a qualquer momento, esgotando-nos a paciência, a energia e o tempo. Porque nem todos podem ter a sorte da Ratinha, é mais sensato respirar fundo, descomprimir, e o resto que espere.

Hazel
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Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1640
Foto: Leroy_Skalstad, licença CC0

A caixa de música


Cravei a faca de um dos lados e torci-a para a frente e para trás até destruir sem remorsos a caixa de música. A pequena e delicada bailarina que rodopiava como Terpsícore, a musa, caiu para o chão na sua lividez de plástico sem vida, desabitada de alma e de calor. Voltei a enfiar a ponta da faca e desencaixei o mecanismo que tocava “Speak softly love” da saga “O Padrinho”, que guardei no bolso como um tesouro.

O Domingos era um homem peculiar, excêntrico, uma criança de humores voláteis e efusivos num corpo adulto, enorme e espaçoso como um Buda (nem sempre) sorridente. Mau grado o seu temperamento irascível, recebia-me sempre com um afecto e uma alegria que me faziam estalar as costelas no seu abraço exagerado, sentido e cilíndrico.

Os livros amontoavam-se nas prateleiras. Romances, poesia, ficção científica, erotismo, ocultismo, até mesmo pornografia. Não havia assuntos tabu, tudo era legítimo, digno de existir, intocado pela peneira da moral e da hipocrisia. No armário de portas de vidro, os bibelots inúteis acumulavam-se às dezenas: os patinhos de porcelana, as nossas-senhoras-de-Fátima, chávenas de chá desirmanadas, amuletos exóticos, toda uma série de quinquilharia que coleccionava, incluindo uma estatueta do Diabo.

«Mas, se reparares, estão todos de frente 
para dentro de casa, 
só o Diabo é que está virado lá para fora, 
para o lado da janela», e ria-se com satisfação. 

As suas histórias de fantasmas e outros assombros nunca me cansavam, e ele deleitava-se por ter quem lhas escutasse com o mesmo prazer que as contava. Gabava-se que, quando novo, era forte como um touro, corajoso e — espante-se — pouco modesto. Fazia apostas com os amigos que o levavam a atravessar o cemitério de uma ponta à outra pela calada da noite.

Numa dessas brincadeiras, desafiaram-no a derrubar a porta de uma casa assombrada onde ninguém conseguia entrar. De lanterna em punho, deu-lhe vários encontrões sem que esta cedesse. Na derradeira investida, a porta abriu-se abruptamente e o bom Domingos estatelou-se no chão da casa.

A lanterna apagou-se — e não tornou a acender. Se tinha entrado em grande velocidade, mais depressa ainda se pôs ao largo, e acabaram-se ali as apostas. Ria-se muito. Nunca soube se estas histórias foram mesmo vividas ou produto do seu sentido de humor que fazia as delícias do meu. Que importa.

Escondida à entrada da enfermaria, com receio que alguém me visse suspensa entre o choque e a fragilidade, observei ao longe o que restava do meu amigo. Respirei fundo e acabei por entrar em silêncio, mal tocando com os pés no chão. Conversámos sobre banalidades. A comida era má. O que caía bem era um copo de vinho branco. As enfermeiras eram simpáticas. «Gosto muito de si, Senhor Domingos, sabe disso, não sabe?», «Lá estás tu, o Senhor está no céu».

Meti a mão ao bolso e retirei o mecanismo da caixa de música, «para pôr a tocar quando vier a noite, se se sentir sozinho.» Olhámo-nos com tristeza. Sabíamos que nunca mais nos veríamos. Nessa noite, quando já estava deitada, ouvi a música tocar dentro de mim. Soube que ele estava a escutá-la naquele momento. No dia seguinte, partiu. Nunca mais tive uma caixa de música. Nunca mais tive um amigo assim.

Esta semana, o arcano 5 de Copas ensina-nos que, apesar de todas as perdas que nos vão despedaçando ao longo da vida, não temos o direito de parar. A melhor forma de honrar os momentos bons é recordá-los com amor e dar-lhes continuidade em nós, com o que nos resta. Mesmo que tenhamos de terminar de escrever uma crónica a sorrir e a chorar ao mesmo tempo.

Hazel
Consultas em Oeiras e online

Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1639
Fotos: Luiz-Jorge-Artista e 422737, licença CC0 

A vida louca


As sevilhanas de vestidos rodados e cintura estreita ganhavam vida dançando à minha volta num baile hipnótico de pássaros e flores de todas as cores. Debaixo do chapéu-de-palha que me protegia dos quarenta tórridos graus de Sol alentejano, os meus olhos tímidos e curiosos — sob inexplicável feitiço, ou quiçá motivado pelas elevadas temperaturas — viam os pássaros de papel descerem em vôo picado para me virem pousar nos ombros com chilreios de alegria. 

As flores bailavam em espirais que se elevavam pelo ar ao compasso da música contagiante. Os homens de patilhas farfalhudas e calças-à-boca-de-sino bebiam cerveja fresca e faziam gracejos que escapavam à minha compreensão, enquanto as mulheres de sandálias às tiras se abanavam com leques e refrescavam a sede com Sumol. A fronteira que separava Portugal de Espanha desaparecia; éramos um só, com primos que hablaban castellano, uma bisabuela chamada Esperanza e pais que falavam português.

Tinha cinco anos, cabelo curto e um espanto maior do que eu perante todas as flores que forravam as ruas de maravilha, de encanto e de fantasia alegórica. O som das castanholas e o peito cheio de ganas de viver ficaram para sempre num baú forrado com tecido de cores garridas que guardei na arrecadação das memórias doces. Um dia. Um dia vou ser assim como aquelas mulheres de papel colorido, sorriso largo, cabelos compridos, a música nas ancas, saia rodada e sapatinhos de atrevimento. 

Ainda não regressei às festas de Campo Maior, mas este Verão reencontrei a magia das sevilhanas de papel a dançar-me nos olhos enquanto subia a Calçada da Bica, em Lisboa, com as fitas de bandeiras coloridas a ziguezaguear o longo rectângulo de céu entre as duas filadas de prédios baixos de onde espreitam varandas com xailes de franjas, vasos com manjericos, estendais com cuecas penduradas que ali se tornam obras de arte e rapazes debruçados de cigarro pendurado na ponta dos dedos. Ali estava o meu baú metade português, metade espanhol, escancarado junto à linha do eléctrico.

Admiradora confessa dos filmes de Pedro Almodovar; simples, crus e intensos, onde os dramas da existência são vividos pelas personagens com lágrimas, garra, desespero, volúpia e pinceladas de vermelho; onde a tristeza, as tentações e a dor pintam os lábios de cor-de-sangue e se unem numa trégua para dançarem de mãos dadas como a melancolia portuguesa se tempera de paixão ali junto à fronteira com Espanha, descubro com prazerosa surpresa que em qualquer rua onde encontrarmos flores, música a tocar e todas as maravilhas que o Verão tem para oferecer, a vida pode mesmo, por instantes, ser tão bela como um filme espanhol.

Esta semana, o arcano 4 de Paus desafia-nos a sair de casa para dançar e encontrar o conforto e o suco da vida junto daqueles que nos fazem sorrir e rodopiar. Sai um Sumol ali para a mesa 11!

Hazel
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Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1638
foto: na Calçada da Bica

Fátima, Futebol, Fado e Fogo


A morte ergueu-se da terra escura e caminhou implacável por entre a rectidão austera das árvores que aguardaram o fim com dignidade e sacrifício, fornecendo oxigénio até ao derradeiro segundo. Levou tudo à frente como uma besta cega, surda e muda. Famílias, floresta, animais, casas, carros. Sem fazer distinções entre bons e maus, ateus e religiosos, crianças e adultos; como as epidemias medievais que varriam localidades inteiras, deixando para trás a sombra do desamparo, do vazio e da revolta.

Após a breve euforia nacional com o trio divino: a visita do Papa (Fátima); a vitória da Selecção Nacional (Futebol); não é bem Fado, mas o primeiro lugar na Eurovisão (Fado), enfrentamos uma inesperada e catastrófica quadratura com o Fogo que nos derrubou o ânimo e lançou no cadafalso da melancolia tipicamente portuguesa.

Apontam-se responsáveis, especula-se e acusa-se como no tempo da caça-às-bruxas, onde a falta de verdade, a manipulação da informação e a indignação nos intoxicam o discernimento. Os doutores da peste envergam actualmente, em lugar das lúgubres máscaras com o bico longo, máscaras anti-fumos e fardas de Bombeiro, do INEM, da Protecção Civil, fazendo o que podem até à exaustão, perdendo tantos deles também as suas vidas.

Se outrora a causa das epidemias era a falta de higiene e de redes de esgotos, hoje a diferença não é tanta assim, se avaliarmos bem. É notório que os hábitos de asseio melhoraram consideravelmente, contudo a higiene dos valores humanos encontra-se pela hora da morte, começando na putrefacção dos interesses económicos associados aos incêndios e na corrupção associada à plantação de eucaliptos, e terminando nas fétidas reportagens sensacionalistas onde se explora gratuita e escandalosamente a desgraça alheia para fazer disparar os gráficos de audiências.

O esgoto encontra-se a céu aberto, senhoras e senhores, é vê-lo e cheirá-lo. Todos os anos o enfrentamos sem solução à vista. Andamos sempre às voltas com os mesmos assuntos, com as mesmas reacções, como uma criança num carrocel comandado por alguém que não vemos, permanentemente surpreendida apesar de estar num círculo que se repete ad nauseam.

Esta semana, o arcano A Morte leva-nos numa viagem rocambolesca e reveladora às agruras da existência, em busca do silêncio e de um caminho que se não vê — mas que tem que aparecer algures no meio das cinzas.

Nada faz sentido. Não há justiça. Invente-se um país novo. Se faz favor, alguém que desligue a ficha deste carrossel para que possamos sair dele.

Hazel
Consultas em Oeiras e online

Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1637
foto: Pexels, licença CC0

«Faz-me impressão o trabalho. Ô-o-ô.»


Estava aqui a pensar escrever uma história em torno de um preguiçoso convicto e dedicado, verdadeiro profissional no exercício do ócio; uma narrativa lenta, sem ritmo, onde nada aconteceria e o dito preguiçoso estaria inerte desde a primeira à última linha. Um monumental tédio que começaria com um pachorrento arrastar de chinelos pelo chão peganhento da cozinha e uma mão macia e indolente que se estenderia para abrir a gaveta das tralhas.

Todas as cozinhas têm uma gaveta dessas, para onde se atiram parafusos que aparecem caídos no chão até que se descubra aonde pertencem, uma bisnaga de pomada para as picadas de insecto com a tampa mal enroscada, algumas molas da roupa, rolhas de cortiça, tampas órfãs de caixas Tupperware, jornais velhos para limpar os vidros e — ora, ali está ela — uma corda.

Enfastiado com a própria existência, tencionaria suicidar-se num Domingo à tarde com a televisão a transmitir um daqueles documentários sobre a vida sexual dos primatas e a tábua de engomar aberta no centro da sala. A corda para se enforcar encontrar-se-ia mesmo ao fundo da gaveta, emaranhada.

«Que maçada, ter de tirar tudo cá para fora. 
Depois faço isso. Suicido-me para a semana.»

Prosseguiria existindo, com preguiça de viver e de morrer, numa casa cheia de pó, frascos vazios ao fundo da banheira-revestida-de-sarro — , comida fora de prazo no frigorífico, um calendário de há dezassete anos pendurado na cozinha e um relógio parado.

Tinha um emprego, no entanto: era funcionário público no Registo Civil, onde tratava dos cartões de cidadão. O expediente fechava às 16:00, mas às 12:00 já não havia senhas para os utentes, que reclamavam sem que isso o afectasse. Eles não entendiam a sua necessidade de repouso.

O preguiçoso era preguiçoso porque era mais fácil assim. Estava seguro. Era como se nunca tivesse saído do útero materno. Chegou a apaixonar-se algumas vezes, mas as relações dão trabalho para se conquistar e ainda mais para se manter. Tentara declarar os seus sentimentos à Inês e à Isabel (tinha uma inexplicável fixação por mulheres com nomes começados por I), mas chegava imperdoavelmente atrasado aos encontros — quando comparecia.

Não morreria virgem. Era, porém, um desastre nas artes de alcova, onde a outra interveniente teria de estar o tempo todo em-cima-do-acontecimento para que este acontecesse — se é que me entendem.

Que vontade de espetar alfinetes nas nádegas desse lamentável mandrião para acicatá-lo, não fosse o indivíduo uma personagem inventada que ganhou vida nas páginas de um caderno velho arrastadamente manuscrito a Bic laranja, numa tarde quente passada na varanda onde um enxame de moscas esvoaçava como pensamentos dispersos.

Esta semana, o arcano Cavaleiro de Ouros espreita languidamente por entre os cobertores desejando que ninguém o mace. A preguiça é um luxo; como qualquer outro, severamente criticado, mas maliciosa e secretamente cobiçado. Resta-nos perdoar (guardar ressentimento dá mais trabalho).

Ainda bem que não escrevi esta história. Daria muito trabalho e hoje tenho que ir ao Registo Civil — levantar o meu cartão de cidadão.

Hazel
Consultas em Oeiras e online
Email: hazelclaridade@gmail.com

Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1636
foto: Wokandapix, licença CC0