De coração nas mãos

10.2.16

Horóscopo: Carta da Semana de 11 a 17 de Fevereiro, por Hazel Claridade










[Rei de Copas]

Às vezes, o coração apanha-nos desprevenidos e salta para fora do peito sem que nada possamos fazer para contê-lo, como se, cansado de estar escondido e confinado à solidão da caixa torácica, reclamasse o reconhecimento da sua existência.

“Os pulmões têm-se um ao outro para conversar, mas eu apenas te tenho a ti. 
Como me tens ignorado, resolvi sair para falar contigo.” 

Quanto mais nos esforçamos por acalmá-lo, mais exigente e indisciplinado ele se revela, qual tsunami que galga muros, paredes, edifícios, e leva tudo à frente sem pedir licença.

Procuramos simular a normalidade das pessoas auto-controladas fazendo as actividades rotineiras de todos os dias: vestimo-nos como sempre, mas colocamos a roupa do avesso, de fragilidades expostas, perfumamos os nervos à flor da pele e damos um nó no cachecol tão apertado como o que sentimos na garganta. E saímos assim, de cara lavada para enfrentar um mundo que se tornou demasiado complicado e cheio de alíneas e ressalvas para alguém que apenas queria ser feliz.

Sentamo-nos ao volante do carro, colocamos o cinto de segurança, e fazemos o mesmo caminho de sempre, já em piloto-automático. É então que o coração, sentado no banco do lado, de braço de fora e com um olhar impaciente, nos lança a primeira pergunta, que sai como um soco certeiro no estômago:

“Será que vai ser sempre assim, para o resto da vida? É esta a vida que tu queres?” 

Há algum tempo que nos sentíamos à deriva, de um lado os sonhos, do outro as obrigações. E no meio, a nossa pequena jangada cheia de furos, que deixa entrar mais água do que deveria. Esta indagação proveniente do nosso órgão cardíaco atirou-nos para um canto como um pedaço de papel amassado. Em cheio.

E agora, o que fazer? O coração, depois de sair do peito, é como uma criança impertinente. Não nos vai deixar nem se cala enquanto não lhe respondermos às perguntas e explicarmos porque é que não lhe estamos a proporcionar aquilo que deseja. E ai de nós se o contrariamos ainda mais, que ele tem um protocolo com os nossos olhos, e coloca-os a verter água quando menos desejamos, em protesto.

Não há como enganar os nossos sentimentos e fugir às suas manifestações. A única forma de repôr a ordem e colocar o coração de volta no peito, sereno e compassado, é escutá-lo sem interferências externas, e aceitar que a sua vontade é soberana

Quando o seu desejo é genuíno e proveniente do verdadeiro amor, o Universo acabará por se tornar seu cúmplice. Temos de acreditar que isto é verdade. 
Enquanto acreditarmos, os sonhos e o romantismo ainda vivem. 
Enquanto acreditarmos, ainda é possível realizarmos...

Escute a minha sugestão musical nesta semana de Rei de Copas:


A Carta da Semana é uma mensagem genérica de inspiração para todos, independentemente do signo, que pode ser interpretada como uma fonte de reflexão ou mesmo de orientação, se assim o sentir nestas palavras.

É semanalmente publicada no Jornal O Ribatejo, que está nas bancas à 5ª feira. 

Consultas em Oeiras, Carcavelos, Sintra e online.

Marcação: casaclaridade@gmail.com


Fadas, Pássaros e a Donzela-sem-nome

31.1.16

A noite é a senhora de todos os sonhos e pesadelos, assombros, deslumbramentos e horrores; guardiã das criaturas misteriosas, negras, doces e venenosas. As árvores assumem silhuetas sinistras e observadoras com braços magros que se alongam infinitamente para agarrar os mais incautos. 

O gemido dos fantasmas que se deslocam através da neblina ecoa com a aragem fria e insinuante que serpenteia nos pescoços alvos e nus, onde o sangue quente lateja nas veias e atiça o apetite sôfrego dos vampiros, que escorrem saliva de desejo. O medo pressente os movimentos subtis, apenas perceptíveis pelo olhar vigilante da coruja. 
A loucura anda à solta de mãos dadas com as almas penadas.

Quando o último grão de areia desliza pela ampulheta, o vento muda de direcção e todos os círculos abertos na areia da praia se unem num só, criando uma passagem onde a cortina da realidade se desfaz. Os pássaros já o haviam pressagiado quando forraram o tecto do céu tornando o dia noite, em resposta ao chamado dela

O veludo negro das horas nocturnas é trespassado pela luz delicada que se faz soberana abrindo caminho através das trevas. As árvores voltam a endireitar os ramos que perseguem quem foge e todas as criaturas tenebrosas se dissolvem como fumo no ar. 

Tudo se encontra suspenso, cristalizado no tempo. O silêncio denso que a envolve e a clara percepção de uma presença sobrenatural que a observa de perto despertam-na do sono. 

Senta-se na beira da cama, os cabelos escorrem como serpentes adormecidas nos ombros despidos e o olhar húmido prende-se na beleza translúcida e hipnótica de duas fadas envoltas num halo de luz etérea que se deslocam através do ar, ao seu encontro.

A donzela-sem-nome sucumbe 
inebriada de magia numa doce espiral de oblívio que ascende deixando para trás absolutamente tudo o que conhecia deste mundo. 
Quem tem um encontro com as fadas, morre e volta a nascer meio-humano, meio-feérico, sem jamais esquecer o que viu. Nunca mais se volta a ser o mesmo. 

A ponte de arco-íris entre este mundo de prazeres vãos e o outro de luz, claridade e silêncio, uma vez traçada, mantém-se para sempre. E as fadas regressam, em sonhos, para sossegar o medo de imaginar que são delírios ou sintomas de insanidade e, assim, confundir o ego demasiado frágil para admitir que elas são tão reais quanto uma partícula de ar: leves, flutuantes, subtis, inalcançáveis e, contudo, verdadeiras.

Neste pacto selado pelo amor e sem que alguma palavra houvesse sido proferida, estabelecido para toda a eternidade entre a donzela-sem-nome e as duas fadas, estas estenderam o seu halo de luz em seu redor, coroando-a com ervas e flores e tornando-a a terceira fada. E os anos passaram mais devagar para ela do que para as outras pessoas, mantendo sempre uma aparência mais jovem do que a idade, que se perdeu nos confins do tempo.

Desde então, as mãos delicadas e translúcidas das fadas desataram nós na teia-de-aranha, enviaram serpentes guardiãs que rastejam invisíveis em torno da donzela-sem-nome, sempre fiéis e vigilantes, e os seus lábios de néctar de madressilva sussurraram-lhe palavras sem som, que apenas podem ser escritas, mas nunca faladas.

Quando a noite regressa com os seus assombros, demónios e outras criaturas tenebrosas, as fadas estão sempre no intervalo dos caminhos. Às vezes, surgem luzes azuis na ponta dos dedos da donzela-sem-nome, e à sua volta. Um dia, ela resolveu escrever para recordar quando os anos ultrapassarem a distância da memória. 


Sobre as asas das fadas,


Hoje é o teu dia, filho

14.1.16

Crédito foto
Há 11 anos atrás, nasci mãe, pela vinda do meu filho.

Querido L., meu bebé que cheirava a flores e a caramelo, abençoado pelas Fadas que abriram o nevoeiro espesso como algodão-doce na A5 para deixar passar o mesmo carro que ainda temos hoje, de quatro-piscas ligados e águas que vertiam como um tapete de cristal que se estendia para a tua chegada.

Hoje, usas o perfume do Batman e gostas de cozinhar. O teu professor disse-me que andaste a atirar aviõezinhos de papel na aula. Apetece-me ralhar por isso, mas adoro-te e também te quero abraçar. E é nesta fronteira fina como um fio de cabelo de anjo que vive o infinito universo do amor incondicional para onde me levaste há 11 anos atrás, e de onde nunca mais saí...

Obrigada, filho.


Carta ao Sindicato dos Suportes de Rolo de Papel Higiénico

13.1.16

Protesto! Sou um suporte de rolos de papel higiénico e quero trabalhar!
Nesta casa onde vivo, ninguém me respeita nem considera. Sou o objecto mais desprezado de todos. Parece que não me reconhecem utilidade. Passo semanas na companhia do mesmo rolo de cartão com apenas uma (1!) única folha esfarrapada de papel higiénico colada, que alguém deixou ficar para não ter de colocar um rolo novo.

E assim fico abandonado, neste local de maus odores e vista para as nádegas e pendurezas que por aqui passam.

Um dia, a porta da casa-de-banho estava entreaberta e, daqui do meu cantinho, nos azulejos entre a sanita e o bidé, consegui espreitar pela porta também meio aberta da outra casa-de-banho do lado, onde morava outro suporte de rolos de papel higiénico igual a mim, que era muito meu amigo, e o único que compreendia e partilhava as mesmas queixas que eu. Contudo, fiquei tristíssimo. Ele já não estava lá. Alguém o deitou fora e, no seu lugar, estava - imagine-se - uma cesta de palha. Que pouca-vergonha.
A delambida da cesta de palha, cheia de atitudes de lambisgóia com auto-proclamada importância, tinha um rolo de papel higiénico inteirinho dentro. É justo?

Receio muito pelo meu futuro. Cada vez que um par de nádegas se senta perto de mim, fico a pensar se serão as últimas que verei. E se um dia também serei substituído como foi o meu colega da casa-de-banho do lado. Protesto, pois, então! Quero trabalhar!
Os rolos de papel higiénico rodam com tanta alegria quando a sua folha é puxada para limpar entrefolhos obscuros e narizes ranhosos. Foi para isso que nasci.
Por favor, deixem-me trabalhar!

Assinado: O suporte de rolos de papel higiénico.


O Silêncio do Inverno

4.1.16


Hoje o tempo encontra-se tão musgoso quanto os muros centenários de Sintra. A chuva cai sem pressa, teimosa e lânguida, enquanto a humidade se alastra pelas paredes e tectos transbordantes de água e sedentos de Sol. Deixou de se ouvir o canto dos pássaros, agora recolhidos sabe-se lá onde. Parece que vai chover para sempre.

A chuva ensina-nos a ser pacientes. A saber esperar. A ajustar-nos. Espero, mas não sei o quê. Ajusto-me a algo que ainda desconheço. Nada anseio. Nem tenho saudades de nada. Estou a ocupar exactamente o meu espaço no mundo, nem um milímetro para a frente, nem para trás. O centro de gravidade perfeito.

Estamos na estação do silêncio. Da quietude e do olhar no vazio, esse lugar onde repousamos a alma das inquietações que não têm razão de ser, como o são todas as inquietações.

Oiço a voz do Inverno no vento que viaja como um dragão uivante através dos ramos das árvores e nas gotas de água espertas e brincalhonas que batem contra os vidros das janelas. Escuto a sabedoria da velha mulher de cabelos de teia-de-aranha e mãos calejadas com a paciência das sementes que aguardam no interior da terra.

Nunca pensei dizê-lo, mas passei a gostar do Inverno. Talvez porque deixei de tentar esticar os últimos raios de Sol até não conseguir mais, numa luta onde os dias escuros sempre fazem cheque-mate.

Aprendi a amar o vazio, o silêncio, a espera e até mesmo o frio. E, por amá-los, encontrei a plenitude no primeiro, a sabedoria no segundo, a serenidade no terceiro e a força no último.

De cabelo molhado pela chuva,


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