Se a vida te dá limões, é porque os plantaste.

18.5.16

Carta da semana de 19 a 25 de Maio

Crédito foto: Bigstockphoto

A fé na Humanidade caminha em passos vacilantes enquanto “os maus” continuam a ser maus e nada parece acontecer-lhes. Safam-se sempre, os sacanas. Imaginamo-los a envelhecer bronzeados, sem flacidez nas nádegas e cheios de charme com o dinheiro dos nossos impostos à beira da piscina, de cocktail colorido na mão, olhar felino e um sorriso mefistofélico nos lábios. 

Ainda não consegui discernir se actualmente a corrupção é maior, ou apenas mais noticiada que no tempo dos dois canais de televisão. Parece que anda meio mundo a enganar outro meio mundo. Na política, nas empresas, nas associações, nas igrejas, nos círculos esotéricos, nas terapias alternativas, nas famílias, entre amigos. 

Para quê ser certinho, com tantos por aí a roubar, a enganar, a desrespeitar o próximo - e a rirem-se na nossa cara. Vivemos permanentemente com um Darth Vader imaginário a seduzir-nos na sua voz metálica e abafada - porque o lado negro da força parece ser mais poderoso, ter mais sorte e até mais estilo.

No entanto, a decisão é sempre nossa. Queremos que a vida nos dê maçãs doces e reluzentes, cor de rubi, quando aquilo que andámos a plantar foi sementes de limão

O Universo é muito justo, até mesmo no que consideramos injusto. Se o que lançamos à terra é amargura, competitividade, rivalidade, ganância, falta de verdade, escassez, é justamente isso que iremos colher mais tarde. Podemos tentar enganar o mundo inteiro, mas - bem lá no fundo - todos sabemos aquilo que fizemos. A justiça é um fruto que pode demorar bastante tempo a amadurecer, mas acabaremos sempre por ter de colhê-lo. Como se diz, o plantio é opcional, mas a colheita é obrigatória.

Esta semana, a carta A Justiça recomenda-nos a vigiar as nossas acções, mesmo as mais pequenas, procurando que sejam tão límpidas, honestas e generosas quanto nos for possível. Aqui, neste simpático planeta que partilhamos, não existem santos. Todos já fizemos, numa ou noutra ocasião de fraqueza, um chichi fora do penico


Que atire o primeiro limão-siciliano aquele que nunca meteu uma mudança abaixo para passar o semáforo laranja, enquanto via se não havia polícia por perto. Somos humanos. Olhemos um pouco mais para nós, e menos para os outros. Afinal, a única pessoa que temos o poder de melhorar somos justamente nós.

Se aquilo que desejamos colher é abundância, alegria, paz, amor, é precisamente isso - sem tirar nem pôr - que temos de dar ao mundo. Não vale desistir à primeira. 
Afinal, os frutos demoram até nascer. Na minha cozinha, tenho duas sementes de abacate e uma terceira na varanda há mais de duas semanas. Ainda não nasceu nada. 
Mas eu lá vou regando todos os dias...

Escute a minha sugestão musical nesta semana de A Justiça:


Consultas em Oeiras, Carcavelos, Sintra e online.

[Coluna semanal publicada no Jornal O Ribatejo, 19 Maio-25 Maio]

O que queres ser quando fores grande?

12.5.16

Aos 5 anos, vi uma telefonista com auscultadores a transferir chamadas desligando fios de um lado e ligando-os noutro. Fascinou-me a sua voz áspera, eficiente e monocórdica. Fumava como uma chaminé enquanto trabalhava na central que se assemelhava ao cockpit de um avião. Era o começo dos anos 80 e isto era tecnologia de ponta. 

Os telefones começavam aos poucos a ser instalados nas casas; dava-se 25$00 pela lista telefónica e falava-se alto nas chamadas regionais porque o interlocutor estava longe! Quis ser telefonista quando crescesse (ainda bem que não fui, dada a minha antipatia pela invenção de Meucci).

Aos 10, Yuri Gagarin foi o meu herói. Com ele, viajei de foguetão entre as estrelas e descobri os mistérios escondidos para lá das nuvens, onde a ausência de gravidade nos suspende no ar como pássaros livres. Ah, como quis ser astronauta. Estava disposta a sacrificar-me pela evolução do conhecimento. Não teria saudades da Terra, a Terra não teria saudades minhas. Seria perfeito.

Aos 11, quis ser modelo. Enfiava duas laranjas dentro do soutien da minha avó e vestia-o por baixo dos exóticos conjuntos que criava com as suas roupas - com que desfilava pela casa com grande seriedade e satisfação. Quando acabava o faz-de-conta, pendurava tudo impecavelmente nos cabides para que ninguém descobrisse.

Aos 12, quis ser dona de uma fábrica de perfumes, vestir tailleur cor-de-rosa, e ter uma secretária grande repleta de frasquinhos de vários formatos e tamanhos onde misturaria fragrâncias florais únicas. Nas janelas do meu escritório, haveria estores de lâminas que deixariam ver as palmeiras lá fora. Seria em Malibu?

Aos 14, quis ser vocalista de uma banda de rock. Vestiria cabedal preto e calças de ganga rasgadas. Seria moderadamente devassa. Teria uma Harley Davidson e tocaria guitarra eléctrica de forma estridente. Deuses, ainda bem que nunca aconteceu. Os que não ficassem surdos, ficariam loucos.

Aos 15, quis ser professora de inglês. Organizada, sóbria e picuinhas, de casaco de bombazine castanho, uma pasta simples onde guardaria os livros para as aulas e uma maçã vermelha sobre a mesa. Teria giz de várias cores para escrever no quadro negro. Os meus alunos fariam muitos ditados e cópias. Seria chata, e teria prazer nisso.

Aos 17, quis ser repórter de viagens. De chapéu de palha e sandálias, iria mostrar o mundo ao mundo. Deixaria tudo e todos para trás. Iria sozinha. O mundo seria a minha casa. Escreveria sobre as minhas viagens e teria um programa de televisão que seria transmitido a partir de qualquer lugar inesperado.

Isto talvez explique porque me sinto realizada se fizer várias coisas diferentes. 
Os astrólogos diriam que é porque tenho Júpiter em Gémeos. Como as Matrioskas, há várias mulheres dentro de mim e cada uma é feliz a fazer a sua parte: blogger, tradutora, revisora, colunista num jornal, taróloga, terapeuta, professora, bailarina, orientadora de meditações, modelo, curadora, poetisa que não rima, mãe, contadora de histórias.

Fechei a porta dos sonhos durante muitos anos. Talvez achasse que sonhar tem prazo de validade e o meu estivesse ultrapassado. Contudo, nos últimos anos, os sonhos voltaram. Sonho em segredo e escrevo os meus desejos em bocadinhos de papel que dobro e escondo onde ninguém possa encontrá-los e rir de mim por ainda me atrever a sonhar.

Entretanto, finalmente decidi o que quero ser quando for grande. Quero ser eu. Completa.
A caminho da realização,


39 anos!

5.5.16

Há dias, estava atrasada para ir buscar o meu filho à escola. Tinha acabado de tomar banho, só tive tempo de enfiar umas calças de ganga e uma camisola, e saí a correr, de cabelos molhados. Encontrei-o sentado no chão com os colegas a jogarem nos telemóveis. Ele levantou a cabeça, olhou para mim e continuou o que estava a fazer.
- Então?!, disse eu.
- Ah, és tu! Pensava que eras uma adolescente, exclamou o meu gaiato.
Ainda que escandalosamente bem conservada, hoje faço 39 anos. 39!
Ai minha nossa. Não sei como é que isto aconteceu.

Estou atónita por ter chegado aqui tão depressa - eu, que ainda ontem colava pastilhas elásticas debaixo da mesa na escola.

Aos 39 anos, temos mesmo de deixar-nos de merdas e agarrar a vida, porque ela escoa-se como areia numa ampulheta. Não há uma gaveta extra de tempo para onde possamos atirar os sonhos e guardá-los enquanto esperamos nem sei o quê.
Não dá para ignorar o que sentimos por baixo da pele. É agora. Ou nunca.

Aos 39 anos, não podemos mais olhar para trás, mas caminhar em frente, fazer planos, atirar-nos à loucura que sempre amordaçámos por receio do que os outros possam pensar. Afinal, nesta idade, já ninguém nos pode obrigar a comer a sopa.
A nossa felicidade está exclusivamente por nossa conta.

No ano que vem, não sei como me sentirei com a mudança de "inta" para "enta", mas, até lá, prometo solenemente a mim mesma, com todos vós como testemunhas, que darei o meu melhor para fazer tudo aquilo que me traz alegria!

Imaginem-me a subir ao púlpito e a desenrolar um pergaminho de dois quilómetros, enquanto agradeço. Recebam toda a minha gratidão:

Querido L., meu amor Marco, J.P. Alves de Sousa, família Galante, vizinh'amigos Patrícia & Nuno, Cintrinha, Lieve Tobback, Patrícia Tiago, Ritas Aires e Mil Homens, família Picado, J. Duarte & todos os colaboradores do Jornal O Ribatejo. Primo Moriel, Sílvia Lopes, família Morgado de Queluz, Rita Mandeiro e Vera Reis, todos os alunos que têm feito cursos comigo, todos os amigos que têm feito meditações comigo, clientes, pacientes. Amigos do mundo da fotografia, Luiz Carvalho, Zito Colaço e Mário Pires.
Fred Soares da Cunha, Lila Nuit, Renas & Soraia, Carla Fonseca, Liliana Rodrigo, companheira alada Ana Fidalgo, Mónica Bolas, Daniel Santos, Daniela Guimarães, Simona, Chris & filhas, Ângela & Mostafa, Rita Domingues, Marta Ferreira da Noruega, Lena Montez, Neusa Ascensão & Carla Frade. Todos os leitores da Casa Claridade e todos os que me acompanham pelas redes sociais. Restantes amigos e conhecidos.
Os meus gatos Aramis & Merlin. As minhas plantas. Vizinhos do andar de baixo.
As minhas Fadas, guias e mestres de Reiki, seres de luz. Todos os pássaros do mundo. Todo o planeta Terra. Todas as estrelas que brilham no céu. Todos os poetas, escritores, pintores e músicos que me inspiraram, emocionaram e tornaram mais feliz.

Em palco com as minhas queridas colegas, no último espectáculo de dança oriental de 2015.
Foto por Marco Dinis Santos
Uf!
Uma enorme e sentida vénia, de nariz a tocar nos dedos dos pés.

Pronta para soprar as velas,


Sangue, dor e amor.

4.5.16


Há feridas que sangram para sempre. Por muitas compressas e ligaduras que se lhes coloque,  o sangue continua a correr de fio e a dor torna-se permanente, de tal forma que nos habituamos a ela, como um fantasma sempre presente que faz ranger o soalho no mesmo lugar há tantos anos - e já quase não o ouvimos. As respostas que nunca nos foram dadas. O abraço quente e sincero que nunca se estendeu em torno do nosso corpo. O esperado pedido de desculpas que nunca foi dito. O amor que nunca chegou a manifestar-se de forma límpida, sem a toxicidade da crítica e do ressentimento.

Diz-se que as pessoas que foram magoadas são as mais fortes, porque sobreviveram. Talvez seja só o que se diz. A dor, ora nos fortalece, ora enfraquece, num imprevisível vai e vem que oscila ao sabor do vento. 

Na verdade, as pessoas magoadas são sempre mais frágeis e sensíveis e, sobretudo, mais atentas, por necessidade de auto-preservação. Têm a reputação de desconfiadas. Por vezes, tornam-se frias e reservadas, quem sabe, por terem de anestesiar os próprios sentimentos. Em muitos casos, as pessoas que foram magoadas sentem uma necessidade inconsciente de magoar os outros, criando um ciclo vicioso que apenas se desfaz quando percebemos que o fazem porque não sabem ou conseguem aliviar a própria dor de outra forma.

Esta semana, a carta 3 de Espadas recomenda-nos a olhar para dentro, para as nossas próprias feridas e entendê-las, aceitando-as como necessárias para crescermos como seres humanos. Afinal, até mesmo uma árvore que seja podada, continua a crescer. 
Não desiste nunca. Se lhe cortam um ramo, com o tempo, estende outro noutra direcção. Desde que haja luz, água, alimento. Contando que haja amor, venha ele de onde vier - também nós conseguiremos estender os nossos ramos e renascer dos cortes que a vida traz. E se o amor não vier de fora, que venha de dentro em primeiro lugar. 

Talvez não seja preciso que as feridas sangrem para sempre, afinal.

Cuidemos de nós, com muito amor, e cuidemos também dos outros. Abrandemos a velocidade, para evitar magoar alguém. Se, na pressa de realizarmos os nossos objectivos, causamos danos pelo caminho, directos ou indirectos, que merecimento será o nosso? Haja amor, haja abraços daqueles em que os corações se encostam e batem em uníssono, haja compreensão, haja sinceridade.




[Coluna semanal publicada no Jornal O Ribatejo, 5 Maio-11 Maio]

'Cojones'

27.4.16


A cada passo que damos, estamos a fazer escolhas e a afirmar quem somos. Mesmo que decidíssemos ficar mudos e estáticos como um pisa-papéis sobre uma mesa, continuaria a ser uma escolha nossa. Muitos de nós, por vezes, optamos pelo silêncio e pela ausência de movimento, à espera que tudo passe e que os problemas se resolvam por si mesmos, agarrando-nos ao conceito de resiliência como os limos se agarram às paredes dos aquários. 

Mas até a resiliência tem o seu limite, e este reconhece-se quando os ditos limos existem há demasiado tempo e a água começa a ficar turva. A resiliência termina onde começa a auto-negação.

Façamos o que fizermos, sempre haverá quem nos censure, quem se ofenda, quem se melindre, quem se sinta desapontado por não sermos aquilo que se esperava que fôssemos. Sempre haverá quem não acredite que tivemos genuína boa intenção, que fomos honestos, que desejámos e fizemos o bem, não conseguindo ver senão o reflexo da sua própria desconfiança.

Somos presos por ter cão e presos por não o ter. E, por muito que isto nos apoquente, está certo assim. Se todos concordassem sempre connosco, teríamos a determinação de um animal invertebrado; seríamos fracos de carácter, perderíamos a garra, a ambição, o entusiasmo. É preciso que haja atrito, que nos ofereçam resistência, que nos neguem a entrada, para que saibamos o que realmente queremos, até que ponto o desejamos, e qual a dimensão das nossas capacidades. O filme “O Bom, o Mau e o Vilão” seria uma tremenda maçada se fosse apenas “O Bom”.

Nós não somos o que os outros acham que somos. Nem o que esperam que sejamos. Nem, talvez, o que nós próprios acreditamos ser. Não precisamos, sequer, de ter de ser coisa alguma, e apenas a ânsia em querer demonstrá-lo nos impele a tomar decisões que, na verdade, não são as nossas, mas as dos outros.

Esta semana, a carta Os Enamorados incita-nos a escolher sabiamente, de acordo com aquilo que está em harmonia com quem somos no momento presente. Não existe uma decisão mais franca e honesta que esta, a de honrar a nossa verdade. Digam o que disserem. Pensem o que pensarem. Façam o que fizerem. Nada pode ser mais libertador que assumir a inevitabilidade da verdade. 


O abismo está mesmo à nossa frente. Podemos ficar a vida inteira sentados sobre a almofada do medo à espera que apareça uma ponte por artes mágicas. Podemos distrair-nos com o que os outros dizem e fazem, arriscando-nos a ser empurrados. Ou podemos abrir os braços e lançar-nos de vez. 

A escolha é sempre nossa, mas só aqueles que tiverem a audácia de abrir os braços e saltar poderão descobrir que talvez o abismo seja do tamanho de um degrau, e toda a profundidade vertiginosa era a dimensão do medo e da resistência a pensarem por si próprios.



[Coluna semanal publicada no Jornal O Ribatejo, 28 Abril-4 Maio]

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