Obsessão


Roubei uma colher de sopa. Está escondida debaixo do meu colchão. Quando vêm mudar os lençóis, coloco-a atrás da sanita. Esta colher, que tenho há duas semanas, é o meu passaporte para a liberdade.

Na parede junto à cama há um ponto de maior fragilidade onde todos os dias escavo com a colher, lenta e pacientemente, para que o meu cárcere — que sou eu — não descubra o plano de fuga. Para não levantar suspeitas, vou comendo a terra e o estuque. Não sabe pior que salada de beterraba crua. Mas fui apanhado.

Sacudi a terra da cara com duas lambadas que dei a mim mesmo, peguei-me por um braço e lancei-me para a solitária. De castigo por ter tentado fugir de mim, para reflectir sobre o crime que me levou à clausura. Um crime que neguei, como todos os culpados que procuram desesperadamente a absolvição que não merecem, e escapar à condenação.

A obsessão é uma prisão onde o cárcere e o carcereiro são a mesma pessoa. Encontro-me aprisionado em mim mesmo. Condenado por crime nenhum, cumpro pena por tempo indeterminado.

No julgamento, o juiz era eu. O advogado de acusação era eu. O advogado de defesa era eu. Os jurados eram eu. O guarda que segurava as algemas à porta do tribunal era eu. E o réu, cabisbaixo, mortificado pelas penas que caíam de si para si — era eu.

Tudo me assombra o pensamento em imagens fractais, como uma sala de espelhos e vidros recortados, na solidão da solitária, onde apenas um raio de luz tímido me traz companhia e um fio de lucidez.

A minha sombra espalha-se parede acima até se diluir na penumbra. Estendo-lhe a mão. Olhamo-nos nos olhos. Perdoamo-nos.

Abatido de cansaço, encolho-me deitado no chão de pedra fria à espera da manhã, com a sombra sentada ao lado a velar-me o sono.

O despertador pousado na mesa-de-cabeceira acorda-me ao raiar dos primeiros alvores. Os vizinhos conversam debaixo da minha varanda.

— Sonhaste esta noite?
— Sonhei, mas não me lembro sobre o quê — respondo à minha mulher.

Saio de guarda-chuva aberto, a caminho do trabalho. Atrás de mim, sem que eu note, caminham as sombras desdobradas pela estrada fora: o carcereiro, o juiz, os jurados, os advogados, o guarda.

O arcano O Diabo projecta-nos as sombras mais secretas na parede, numa dança diabólica de tempos e contratempos estonteantes que, ora nos seduzem o ego, ora o deitam por terra. 

Por mais que tentemos agarrar-nos à verdade absoluta como se da nossa colher de sopa se tratasse, é precisamente a capacidade de questionar, de duvidar, de aceitar luz e sombra sem negar nenhuma que nos trará a libertação da clausura do ego.

Hazel
Consultas em Carcavelos, Oeiras e online
Tarot - Reiki - Regressão - Reprogramação Emocional
Marcação: casa.claridade@gmail.com

MetAMORfose


Do caos, a limpidez.
Da limpidez, a luz.
Da luz, a verdade.
Da verdade, o amor.

Do vento nas asas, o vôo planado.
Do vôo planado, a liberdade.
Da liberdade, a vida.
Da vida, a morte.

Da morte, a eternidade.
Da eternidade, o divino.
Do divino, o amor.

Do amor, o Amor.

Hazel

"Nada importa."


Serão dois. Um, com a compilação das crónicas e de outros textos inéditos que nunca saíram do meu caderno. O tal que vos devo há muitos anos.

Mas é sobre o outro que penso hoje. Aquele com que espero horrorizar-vos. Quinhentas páginas em branco. Na última folha, uma singela frase:

"Nada importa."

Excêntricos, visionários, filósofos, lunáticos e aqueles que-têm-preguiça-de-ler talvez aplaudam a audácia.

Os restantes, poderão fazer aviões e barquinhos de papel, arremessá-lo para a lareira, ou levar à mesa como base para as panelas fumegantes. Quiçá se lancem protestos e acusações de insolência, de desrespeito para com o leitor, de obscenidade, excesso de rebeldia e atrevimento.

No primeiro, escrevo tudo o que alguma vez desejei ler.

No segundo, escrevo aquilo que todos procuramos sem verdadeiramente querer encontrar: a verdade sobre o Universo. Servida num prato limpo, branco, honesto. Sem tristeza associada, ou qualquer sentimento que não o de paz absoluta.

Nas páginas em branco, os leitores são escritores. São livres para nelas redigir o diário das suas vidas, receitas de culinária, listas de compras no supermercado, fazer desenhos, ou enumerar todos os insultos alguma vez inventados e dirigi-los à autora das folhas brancas, em justo e isento protesto. A escolha é de cada um. Cada página, uma nova decisão. O que fazer com ela, com todas as possibilidades que a vida nos oferece a cada nascer-de-dia?

Façam o que fizerem, no fim de contas, na última página do livro da vida, todos chegaremos juntos — ou separados — à mesma conclusão: nada importa.

Oh sim, eu posso fazer isso.

Hazel 

P.S. — Uma das mais valiosas regras da escrita consiste em nunca subestimar a inteligência do leitor, que, sei, compreenderá que todo este texto é uma metáfora.
Este post scriptum serve apenas para tranquilizar os que vieram aqui parar por engano. 😃 Sinto-me tentada, mas não vou publicar um livro com uma só frase.
Já foi tão divertido imaginar a situação como se esta tivesse efectivamente ocorrido.

Foto: Vítor Vargas / Produção: Ana Luar Vaz / Modelo: Hazel Evangelista

Pulseiras gregas de Martis


No último dia do mês de Fevereiro, cumpre-se a tradição de origem grega Martis  (ou Martiá), de onde deriva o nome do mês de Março. Fazem-se pulseiras para celebrar e dar as boas-vindas à chegada da Primavera.

As pulseiras (que se chamam kroki, na Grécia) são feitas com fios de lã vermelha e lã branca, que se entrançam, ou torcem, conforme a preferência – e habilidade 🙂 – de cada um.

Colocam-se no pulso direito e no tornozelo esquerdo no primeiro dia de Março e aí permanecem até ao último dia do mesmo mês.

O branco representa a pureza e limpeza dos ventos da Primavera, e o vermelho a protecção, a vida e a paixão. Acreditava-se, nos tempos antigos, que as krokis protegiam contra todo o tipo de malefícios, doenças, e até mesmo dos primeiros raios de Sol de Março.

No último dia de Março podem ser queimadas nas fogueiras, ou penduradas nos ramos das árvores sem dar nó, para que os pássaros as possam recolher e aproveitar para construir os seus ninhos.

Preparada para a Primavera,

Hazel

11 anos a escrever


Hoje a Casa Claridade celebra onze anos de vida. Como já é tradição, neste aniversário desvendo onze factos aleatórios:

1. Escrevo quase sempre primeiro em papel, num caderno velho com marcas de maçãs acabadas de comer. Só depois transcrevo para o computador;

2. Tenho sempre esse caderno na mesa-de-cabeceira, vários na gaveta da secretária, um no carro e outro que anda comigo na mala;

3. Uso lápis ou lapiseiras velhos ou caneta Bic laranja para escrever;

4. Alguns dos meus textos são resultantes de ideias que tive durante o sono e que escrevi no caderno a meio da noite;

5. Gosto especificamente de usar cadernos velhos, muitos já sem metade das folhas;

6. Quando acabo de publicar um texto, sinto-me a criatura mais feliz do mundo;

7. Já escrevi estirada no sofá, imersa na banheira, na cama, na secretária, na varanda, sentada no chão, no carro, em mesas de café, na rua, no comboio, em bancos de jardim e paragens de autocarro;

8. Não consigo escrever se me aperceber que alguém está a olhar para mim. É um acto íntimo, apesar de poder fazê-lo na rua;

9. Sou uma observadora atenta do comportamento humano. Tudo e todos são matéria-prima saborosa e suculenta que poderei utilizar para os meus textos;

10. No momento em que escrevo, não penso em quem poderá ler ou se os leitores irão ou não gostar. Não o faço por egoísmo, mas por necessidade de liberdade absoluta;

11. Na verdade, quando escrevo faço-o como se não estivesse a escrever, mas a falar, com toda a confiança que não tenho.

Muitas graças a todos por me acompanharem.

Hazel