31/03/2015

O Príncipe do Egipto


[A vida é uma fascinante e surpreendente teia de aranha que não tem começo nem fim, onde todos eventualmente nos (re)encontramos nos pontos em que os fios se tocam...]

Há vários anos atrás, uma mulher ficou com a sua vida virada do avesso. As tempestades foram implacáveis, e os marinheiros do seu navio, fracos e influenciáveis, iludidos pelo canto cruel e enganador das sereias, desertaram, deixando-a sozinha a lutar contra as forças do mar negro e revolto.

Os ventos levaram-na para outras paragens; um porto onde trabalhavam pessoas de várias nacionalidades diferentes. Lá, conheceu o Príncipe do Egipto.

O Príncipe do Egipto era sábio, educado, generoso e humilde. Era genuinamente assim, para todos sem distinção. Um homem de família e de valores, como aqueles que os livros descrevem. Foram muitas as vezes em que ela se sentou a almoçar com o Príncipe do Egipto, e ele, na sua infinita bondade, partilhou o seu almoço, cozinhado pela sua amada esposa.

Um dia, o vento mudou de direcção, e chegou a hora de ela partir para onde as estrelas apontavam.

A viagem pelos mares levou-a para lá do vento Norte, até uma terra de paz e de luz, onde pôde lançar âncora e construir uma nova vida, abençoada pelos Deuses, e onde apenas permitia entrada àqueles que tinham amor e lealdade a oferecer. Os anos passaram com a doçura e a bonomia dos ventos estivais.

Os marinheiros que outrora tinham ido embora, tentaram voltar para o navio quando as velas resplandecentes pelo Sol o tornaram de novo atractivo, e útil para os seus intentos.
Mas o navio não tinha lugar para desertores.

E os fios da teia do destino fizeram outro cruzamento inesperado; ela voltou a encontrar o Príncipe do Egipto, que a tinha ajudado no tempo em que usava um manto de farrapos em vez do manto de luz. Foi grande a sua alegria por ter a oportunidade de agradecer.

Contudo, o Príncipe encontrava-se triste e preocupado; a sua amada mulher estava doente.
A mulher do manto de luz pediu ao Príncipe do Egipto que trouxesse a sua amada para a sua terra, onde tudo faria para a ajudar, retribuindo a ajuda que um dia recebeu.

Nada é deixado ao acaso no Universo. Todos acabamos, de uma forma ou de outra, por colher o fruto das nossas acções. Que estas sejam as mais nobres.
Aprendamos com o Príncipe do Egipto.

Para lá do vento Norte,

25/03/2015

Acordar tão cedo que ainda é ontem


4:56, e eu a pé. Não por alguma urgência imparável intestinal, mas porque as 4 horas de sono que dormi hoje foram o suficiente. Ponto de exclamação. Os meus olhos abriram como janelas para o mundo, sem a névoa pesada que os volta a fechar quando tenho sono.
Então, calcei as pantufas e lancei-me ao dia.

Fui à janela olhar para o céu. Ainda escuro, salpicado de estrelas. Não há carros a passar, apenas o vento frio, o galo de alguma casa ao longe que anuncia a chegada do dia, e o ponteiro dos segundos do relógio da cozinha, que marcha num compasso perfeito e implacável como um soldado que nunca se cansa.

Talvez me tenha tornado sonâmbula, e ande para aqui de pijama e tranças pela casa julgando-me acordada. Preparo um chá de frutos vermelhos, e bebo-o devagarinho, para ter a certeza que isto não é um sonho.

Rio-me sozinha, pensado que é mais sensato não ir à casa-de-banho - vai que estou mesmo a sonhar? Não, estou acordada. É a sério... Que bênção, um dia enorme pela frente!

Vou preparar tudo para me sentar a meditar no local exacto onde o Sol me vai banhar quando o dia nascer.

De pijama às riscas,

18/03/2015

As Lições do Bosque



"Terra, ensina-me a quietude, como a relva é silenciosa pela luz.
Terra, ensina-me a sofrer, como as velhas pedras sofrem com a memória.
Terra, ensina-me a humildade, como as flores são humildes nos seus primórdios.

Terra, ensina-me a acarinhar, como a mãe que envolve o seu bebé.
Terra, ensina-me a coragem, como a árvore que se eleva solitária.
Terra, ensina-me a limitação, como a formiga que rasteja no solo.

Terra, ensina-me a liberdade, como a águia que paira no céu.
Terra, ensina-me a resignação, como as folhas que morrem no Outono.
Terra, ensina-me a regeneração, como a semente que brota na Primavera.

Terra, ensina-me a esquecer-me de mim, como a neve que derrete esquece a sua vida.
Terra, ensina-me a lembrar-me da bondade, como os campos áridos choram com a chuva."

"UTE" Philip Novak
A escutar as árvores,

13/03/2015

Numa casa portuguesa fica bem...


Ser português é sinónimo de ter um conjunto de pratos impecável no armário, que apenas se usa quando vêm visitas; e outro, já velho ou gasto, que é o do dia-a-dia. Quem diz pratos, diz copos. Ou toalhas de mesa.

Mas que raio.

Porque seremos nós assim? Um povo preocupado com manter uma imagem melhor do que aquela que temos de nós mesmos. Será também assim nas outras culturas?
Quem estiver a ler isto noutro país, conte-me, como é aí?

Acharemos que os objectos bons são "demasiado" para nós?

Ou teremos medo de ser criticados, e poupamos a-mais-fina-loiça para quando recebemos alguém, com uma cerimónia que não queremos admitir, depois de ter virado as almofadas do sofá para o lado das visitas, escondendo as nódoas, para que estas vejam apenas o melhor, e não o real?


Quando é que isto começou, esta forma de viver em que se cria um cenário para agradar ou impressionar as visitas, e depois se regressa aos velhos pratos, como se não merecêssemos nós também o melhor que há no nosso próprio armário de cozinha?

Acho que o interior do armário onde guardamos os pratos é muito semelhante ao interior do nosso coração:

1. Se há uma infinidade de loiças, demasiadas para o espaço existente, pode revelar um coração cheio de apegos, preso ao passado. Ou sovinice, também (hihihhi!);

2. Ter um conjunto de pratos para o dia-a-dia, e outro para as visitas, incapacidade ou dificuldade em entregar-se de corpo e alma, sem reservas, na amizade. Manter sempre um pé atrás, nem que seja um bocadinho só;

3. Um conjunto de loiça para as visitas, outro para o dia-a-dia, e ainda outro terceiro que ocupa um lugar "intermédio", falta de amor por si mesmo, crença de que não é digno do melhor.

Ai, Senhores. Pára tudo. Vou ali à cozinha ver o meu armário.

(Pausa)

(Voltei!)

Eis o resultado: há alguns anos que não tenho um conjunto completo de pratos. Tenho apenas pratos soltos, restos de outros conjuntos, com um ou dois lascados. O que me faz lembrar dois pedaços de corações diferentes que se juntam, formando um coração com um contorno irregular, invulgar, mas que, de alguma maneira, vai funcionando.

Os nossos pratos dizem muito sobre nós...

04/03/2015

O homem-árvore


"Como uma árvore, o rei da floresta, assim é o homem exactamente.
Os seus pêlos são as folhas, a sua pele, a casca exterior.

O sangue escorre da sua pele como a seiva da casca da árvore.
Do homem ferido, jorra como a seiva da árvore em que batemos.

As carnes são ramos. Os tendões são o alburno, o que é firme.
Os ossos são o cerne da madeira. E a medula é como a medula.

A árvore abatida cresce de novo da sua raiz, renovada.
Mas o mortal que a morte abate, de que raiz crescerá de novo?

"Do esperma!" Não digais isso: este só é gerado por um vivo.
Como uma árvore crescendo de uma semente, morto, vemo-lo renascer.

Se a arrancamos com as suas raízes, a árvore nunca mais revive.
Mas o mortal que a morte abate, de que raiz crescerá de novo?

Ele nasceu, não nasce. Quem poderia fazê-lo renascer?
Conhecimento, beatitude, sagrado, recompensa de quem dá, refúgio além, de quem fica assim, de quem conhece isso."


Brhad - Aranyaka - Upanixades

Na Paz do Bosque,

03/03/2015

Ladrões de Tempo





















Alguém anda a roubar o tempo.

Vou descobrir quem são esses ladrões de tempo trapaceiros e prendê-los aos ponteiros do relógio, para que se lembrem que o tempo é um assunto sério, que não deve ser apressado nem atrasado.

Sem tempo,

 

01/03/2015

Entrevista para o programa Fotografia Total, na TVI24


A vossa fiel escriba foi entrevistada no programa Fotografia Total, que foi exibido ontem e hoje.

Quem não viu na televisão, pode ainda ver na página da TVI24.

Feliz e muito grata,

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