18/07/2015

A Lenda e a Simbologia da Dança dos Sete Véus

A origem da enigmática e fascinante "Dança dos Sete Véus" é tão difusa e volúvel quanto o é todo o Mistério Feminino.

Ainda que exista uma ideia (errada) de que é uma espécie de striptease, tal não poderia estar mais longe da verdade.

A Dança dos Sete Véus é uma forma de arte riquíssima em simbologia mágica onde se faz uma teatralização do processo iniciático.

A lenda da descida aos Submundos pela Deusa Babilónica Ishtar (Senhora do Amor, da Fertilidade e da Guerra), poderá estar na origem desta dança:


Ishtar viajou através do reino dos mortos para resgatar o seu amado Tammuz. Teve de atravessar 7 portais, cada um guardado por 7 demónios.

Para poder passar cada portal, foi-lhe exigido que deixasse ficar um dos seus pertences, que, por sua vez, representava um atributo de que ia prescindindo: beleza, fertilidade, amor, saúde, magia, poder e o domínio sobre as estações do ano.

Todas as jóias e véus que levava iam ficando para trás ao longo da descida. Quando passou o último portal, estava completamente nua.

O cair dos véus representa o revelar dos mistérios outrora ocultos, a abertura da visão, o despertar da verdadeira consciência.

Simboliza também a troca inevitável imposta pelo eterno girar da Roda da Fortuna: é preciso deixar ir, abdicar do que nos é precioso, desapegando-nos da ilusão de posse, para conquistar algo grandioso.

Seja no mundo dos homens, seja no dos Deuses, não existem espaços vazios; há que pagar um preço por cada degrau evolutivo da longa escadaria da ascensão espiritual. Para andar para a frente, tem que se deixar algo para trás.

A ascensão faz-se para baixo, e não para cima - é no mergulho nos submundos que nos despimos das máscaras sociais e encaramos o nu e cru visceral da Verdade, regressando, assim, à Essência. Como uma semente que precisa das profundezas da terra para poder germinar, e só assim consegue romper a superfície do solo em direcção ao Sol...

Abreviando a lenda, que é extensa, Ishtar revela a sua verdadeira essência e une-se a Tammuz, tornando-se a guardiã das chaves dos portais, que abrem apenas para os Iniciados.

É, para mim, inevitável olhar para esta representação da Deusa Ishtar sem fazer um leve desvio ao tema do post e associá-la à carta de Tarot "O Mundo".

Na carta XXI (21 = 3 ciclos de 7), "O Mundo", também surge uma mulher (os Mistérios e o atravessar dos portais são assuntos eternamente ligados ao sexo feminino; as mulheres são, em si, o portal da vida e da morte), nua (porque está na sua essência e, portanto, dispensa artifícios), e que segura as duas varinhas (que detém as chaves do Conhecimento). O véu, o Conhecimento desvendado.
Tal como Ishtar, acompanhada pelos 4 guardiões.
A derradeira representação da Iniciação.

Está tudo interligado; e, neste post, fundiram-se várias das minhas grandes paixões: a Dança, a Mitologia, a Magia, o Tarot e a Escrita.
Diferentes peças que completam um delicioso puzzle.
Regressemos ao tema da Dança dos Sete Véus...:

Diz-se que os sete véus correspondem às sete cores do arco-íris, às sete notas musicais, às sete virtudes e aos sete vícios, os sete planetas, os sete chakras: vermelho, laranja, amarelo, verde, azul-claro, violeta (ou azul-índigo) e branco.

O número 7 é considerado o número da perfeição, por ser a soma do 3 (Céu/Espírito) com o 4 (Terra/Matéria), ou seja, a fusão dos mundos. A Totalidade.

Idealmente, as cores dos véus correspondem às dos chakras, e a retirada de cada véu é acompanhada de movimentos corporais com ondulações e/ou marcações na zona do corpo que é revelada.

Respondendo à pergunta que paira na mente dos mais púdicos e maliciosos, a verdadeira nudez é um conceito mais profundo do que um corpo sem roupa. Não existe nudez física quando uma bailarina de Dança Oriental faz a "Dança dos Sete Véus". Os véus vão caindo, mas a roupa permanece vestida. Porque é a alma que se desnuda, e não o corpo.

[Esta vossa escriba numa actuação em palco, de Dança Oriental. Fotos por Marco Dinis Santos.]

No limiar dos portais,

06/07/2015

O sábio do lago dos lótus





- Mamã, quero fazer alguma coisa contigo, diz o L., cheio de enfado porque os brinquedos já não brincam como antigamente quando era pequenino.

A paciente mamã levou a cangalhada toda dos trabalhos manuais para a mesa da cozinha e sentou-se a desenhar um velho chinês a andar de barco num lago de flores de lótus.

Com lápis-de-cor, pétalas de flores secas (os lótus), folhas secas (o chapéu e as folhinhas nas montanhas), cartão (o barco), um pau de fósforo dos compridos (o remo), pedaços de penas (a gaivota), lãs (cabelo e barba) e outras minhoquices que fui acrescentando, o quadro foi aparecendo aos poucos.

Sua Alteza não estava a colaborar. A resignada mamã foi pintando e colando.
Sua Alteza levantou-se da mesa rabugento e chato, e eu julguei que tivesse ido buscar mais algum ingrediente para colar ao desenho. E nunca mais voltava...

Deve ter ficado com sono pelo movimento suave do barco no lago dos lótus; a surpreendida mamã foi encontrá-lo a dormir profundamente.

Afinal, o que Sua Alteza queria fazer comigo era dormir uma boa sesta!

Com os dedos cheios de cola,

26/06/2015

O Feitiço da Serpente

[Ficção - maiores de 18 anos]

O ar pesava tanto que quase se poderia contá-lo partícula a partícula. O manto escorregou-lhe ao longo das costas nuas em direcção ao chão, no entanto, parecia que ainda continuava sobre si.

Havia uma electricidade no ambiente semelhante àquela que se sente antes de uma trovoada.

Os seus pés caminhavam através das lajes pretas e brancas, como uma peça de xadrez que desliza ao longo do tabuleiro. Silencioso e inexorável como a Torre e, contudo, directo e fatal como a Rainha.

O som oco do bambu tocava a melodia ordenada pelo vento quente que se esgueirava por uma janela no extremo oposto, e era quebrado por pesadas cortinas de veludo cor de sangue, que se moviam subtilmente revelando fantasmagóricas formas femininas que dançavam à sua passagem.

Toda a sala parecia um útero profundo, macio e enigmático, que aguardava a sua chegada com a inevitabilidade de uma velha profecia.

O fumo do incenso serpenteava à sua volta, entontecendo-o, embriagando-o. As imagens começaram a aparecer em flashes, inexplicavelmente sincronizadas com o pulsar do sangue nas suas veias dilatadas pela mistura da excitação e do medo.

Através das cortinas de fumo, revelou-se o corpo de uma mulher, que se movia de forma sinuosa como uma serpente, dançando lentamente ao ritmo dos bambus. A Deusa. A Bruxa. Aquela que Tudo Vê. Sentiu-se capaz de sacrificar a sua própria vida para poder perpetuar aquela visão, de se oferecer para ser seu escravo. De matar ou de morrer.

Engoliu em seco, enquanto uma gota salgada de suor lhe escorria pelas têmporas. Os olhos ardiam-lhe e desfocavam-se numa névoa que mal lhe permitia ver. Totalmente submisso, de corpo nu, transpirado e a latejar de medo e desejo, mal conseguia pensar com clareza.

Talvez fosse tudo um sonho, uma alucinação, ou uma obsessão que foi longe demais. Os cabelos longos, escuros e ondulados da mulher beijavam-lhe provocadoramente os seios como serpentes vivas, lânguidas e famintas.

Deu um passo em frente, movido pelo desejo que não se consegue conter e nos leva a saltar para o abismo só pelo prazer de voar. É na loucura que está a razão.

Beijou com devoção os seus pés brancos e suaves como uma delicada flor de lótus. Ousou olhá-la nos olhos de ágata-de-fogo, que o aprisionaram num transe hipnótico. Entregou-se. Sentiu-se asfixiar, enquanto o prazer lhe invadia o corpo. Estava a ser devorado pela serpente. O seu sibilar penetrava-lhe os ouvidos como uma corrente eléctrica. Nada mais importava. Ali estava tudo. O Alfa e o Ómega. A Grande Iniciação.

Gradualmente, todos os seus dedos foram sendo sugados, os lóbulos das orelhas, o pescoço, os mamilos, o sexo, a ponta da língua. E tudo ficou completamente escuro.

...

Quando acordou, tinha os seus lençóis enrolados à volta das pernas. Sentou-se na beira da cama, confuso. Teria sido tudo um sonho?

O seu coração disparou quando olhou para baixo e se deparou com uma pequena tatuagem de uma serpente que apareceu misteriosamente no interior da coxa esquerda...

- Fim -

Sob os auspícios da Serpente,

17/06/2015

Pelas ruas do meu bairro :: Viagem no Tempo



Ainda eu usava totós com laçarotes de cetim e meias de renda branca até aos joelhos, e já a Drogaria Costa, no Largo de S. Domingos de Rana, era antiga.

Foram muitas as vezes que ali fui, pela mão da minha mãe, porque ela precisava de comprar uma vassoura, um escorredor, um globo de vidro para o candeeiro da sala, querosene, parafusos, ou qualquer outra utilidade doméstica.

Ali havia de tudo, e as pessoas tantas vezes chegavam a fazer fila até à rua. Nesse tempo, ainda não existiam as "lojas dos chineses", nem o Leroy Merlin.



Os anos passaram-se, e quase todo o comércio tradicional foi, aos poucos, desaparecendo como pó numa tarde de vento quente. Excepto esta loja, a mais antiga da localidade. E, para mim, a mais especial.

Hoje, precisei de comprar um insecticida para os tapetes (que os meus gatos têm andado pulguentos!), e resolvi ir lá.

Enchi-me de coragem, venci a timidez e, depois de pagar a minha conta, pedi autorização à senhora para fotografar a sua Drogaria. Conhecendo-a de vista praticamente desde que nasci, apercebi-me de que só hoje, pela primeira vez, perguntei o seu nome.



A Dona Irides, 76 anos, não queria ser fotografada. Esta senhora, que percebe de torneiras, parafusos, decapantes, tintas, ceras, e toda a parafernália que se possa imaginar numa drogaria, no fundo, é a alma deste lugar. É de si que provém todo o encanto, toda a magia.

Por isso, correndo o risco de ser chata, insisti. Aceitou uma fotografia acompanhada pela sua filha Paula, enquanto conversámos sobre os velhos tempos.



A Drogaria já existia antes de ter sido comprada pela Dona Irides e o seu (já falecido) marido. Desde há 40 anos que esta senhora, bem-disposta e com um sorriso, atende os pedidos de quem lá vai, tendo sempre um conselho útil a dar.



Enquanto as suas sábias mãos me mostravam como se monta uma ratoeira, explicava de que forma os ratos mais espertalhões, depois de roubarem o tentador pedaço de queijo, conseguem escapar.



A sua filha Paula, de 40 anos, a mesma idade da Drogaria Costa, contou-me que sabe tocar piano e, na genuína doçura e ternura de uma criança, perguntou se me podia dar um beijo.



Estas paredes contam histórias de um tempo em que havia menos de tudo. Menos lojas grandes, menos canais de televisão, menos aparelhos electrónicos. Mas, em compensação, havia mais simplicidade, mais olhos-nos-olhos, mais calor humano.

A Drogaria Costa não tem página de Facebook. Por isso, fui lá directamente fazer "like", à boa maneira tradicional. Cheguei lá, olhei nos olhos das pessoas, e disse que gosto deste sítio, e que é especial para mim! Assim mesmo.







Obrigada, Dona Irides!
Obrigada, Paula!

Dentro da máquina do tempo,



"Mamã, eu quero mais liberdade!"



O L. está insatisfeito porque lhe limito o tempo passado no computador a jogar "Minecraft". Num suspiro vindo lá do fundo da alma, clama:

- Mamã, eu quero mais liberdade!

Ora, foi com uma afirmação semelhante que D. Afonso Henriques começou isto tudo. Também queria jogar "Minecraft", e criar um país. Olhem no que deu.

Some things never change.  smile emoticon

Saudações da Rainha-Mãe,

16/06/2015

O Grande Livro das Plantas de Interior :: O tão desejado!


Publicação de 1982. O livro que toda a dona-de-casa esmerada e airosa tinha de ter.
Um clássico que sempre vi pelas casas portuguesas, junto de outros tomos da literatura doméstica, como o "Livro de Pantagruel", "O Grande Livro dos Lavores", os da Filipa Vacondeus e, escondida no meio deles, a revista "Maria" - a tal que todas compravam, mas nenhuma admitia, aham...

Eu não sou dona-de-casa. Sou dona-de-mim. Nem sou esmerada, mas sou um bocadinho airosa. E adoro plantas! Nunca o tive, mas sempre desejei, que o livro é velhinho, mas bom!

Hoje, encontrei-o à venda em 2ª mão. Peguei nele lentamente com as duas mãos, com a devoção de quem pega numa relíquia sagrada. Até acho que os meus pés se elevaram um bocadinho do chão, enquanto um coro de anjinhos barrocos entoava AAAAHHHH...

O tão desejado livro das plantas, ali, à minha espera. Custou 2€. E aqui está ele, ao meu colo. Não fosse amanhã acordar com a cara espalmada, e estava quase capaz de o usar como almofada, só para não me separar de tão precioso tesouro.

Em suspiros,

08/06/2015

As 7 plantas mais resistentes e fáceis de ter em casa

Se não tem um jardim, ou mesmo uma varanda, sonha com um pouco de Natureza dentro de casa, mas acha que é impossível, isto é para si!

Reuni as 7 plantas mais resistentes que conheço. Todas sobrevivem dentro de casa, desde que haja um pouco de luz natural, água e amor. São tão resistentes, que quase poderíamos chamar a esta lista "o Chuck Norris do reino vegetal". Ora, vejamos as instruções:


1. Clorofito (chlorophytum comosum)

Não deve ser exposta a luz directa, senão as folhas ficam queimadas. Requer regas frequentes e abundantes.

Se tiver gatos, terá de colocá-la (ou pendurar) num lugar alto, pois eles adoram comer as suas folhas!

2. Violeta (saintpaulia ionantha)

Requer luz indirecta.

As regas devem ser regulares, mas não abundantes.

Não regar a planta directamente; a água deve ser colocada no prato por baixo do vaso.




3. Dracaena (dracaena deremensis)

Também dispensa luz directa.

As regas devem ser regulares, mas pouco abundantes.
4. Jibóia (epipremnum aureum)

As folhas ficam queimadas se for colocada sob luz directa.

As regas devem ser frequentes e abundantes. Sobrevive também apenas em água, sem terra.

Como é uma trepadeira, deve ser usada uma estaca para que ela possa apoiar-se (neste caso, tem de estar num vaso com terra).



5. Lírio-da-Paz (spathiphylum wallisii)

Manter protegido de luz directa.

Requer regas frequentes e abundantes.

Além das regas, ela fica muito feliz se receber umas borrifadelas de pulverizador com água.




6. Yucca (yucca sp.)

Necessita de luz directa de uma janela.

As regas devem ser regulares, mas não abundantes.

Convém deixar a terra secar um pouco entre regas.







7. Espada-de-São-Jorge (sansevieria trifasciata)

A mais resistente de todas.
Tolera luz directa, assim como meia-sombra.

Resiste a regas abundantes, assim como a regas muito espaçadas.

Se deixar morrer uma Espada-de-São-Jorge... o melhor para si são mesmo as plantas de plástico!


Por fim, dois conselhos que se aplicam a todas as plantas: sempre que houver folhas ou flores secas, corte-as com uma tesoura, para que os nutrientes cheguem ao resto da planta.

Quando as folhas tiverem pó, limpe-as com um pano húmido (há quem use leite, mas a água é perfeitamente suficiente para limpar as plantas), de ambos os lados, para que as plantas consigam respirar. A excepção é a violeta, que tem folhas frágeis e peludas; neste caso, basta retirar o pó usando cuidadosamente uma escova de dentes velha.

Se seguir as minhas instruções, não há como falhar!

Directamente da minha selva em vasos, para o mundo,

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...