02/04/2012

Viagem ao fundo de um búzio

Os búzios são o contorno de uma espiral estonteante, íntima e misteriosa.
No fim desta, encontra-se o silêncio das profundezas do mar. Ou do ventre materno.

Os sons e luzes surgem difusos e entrecortados; tão pouco relevantes em comparação com o silêncio que viaja e preenche todos os espaços vazios, não deixando lugar para mais nada a não ser a tranquilidade absoluta.

Quem conseguir plasmar-se com uma partícula de ar ou um grão de areia, poderá viajar para esse recanto pequenino, escuro e secreto que existe no fim de um búzio.

Sentada de pernas encolhidas e olhos fechados, lá no cantinho onde termina a espiral interminável do búzio, dilato as narinas e sinto um suave odor a maresia.

Poderá ser a minha imaginação a pregar-me partidas, mas parece que consigo escutar ao longe uma tempestade no mar e as tábuas do convés de um navio a ranger com a força das ondas. Pouco importa. Na tranquilidade silenciosa do fundo de um búzio, está-se seguro das mais terríveis tormentas.

A palavra que surge é concentração. Concentrar, convergir para o centro. O centro, a essência. O pulsar do coração. O tiquetaque do relógio que nos avisa que o tempo está sempre em contagem decrescente.

O búzio, achado numa tarde de Verão junto ao rebentar das ondas, é levado para uma casa numa cidade longe do mar, e guardado num armário de vitrine embaciada durante anos.

Até que um dia, alguém decide restituí-lo ao mar. Uma criança, às escondidas dos pais, que achou que aquele búzio não pertencia ali, assim como uma peça de puzzle guardada por distracção na caixa de outro puzzle diferente.

Atirou-o para a água, e logo a corrente o sugou de volta, como se resgatando um tesouro há muito perdido. E a aventura recomeçou.
Tantos oceanos por onde viajar ao sabor das correntes...

Beijos com sabor a mar,
Hazel
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