O Silêncio do Inverno

segunda-feira, janeiro 04, 2016


Hoje o tempo encontra-se tão musgoso quanto os muros centenários de Sintra. A chuva cai sem pressa, teimosa e lânguida, enquanto a humidade se alastra pelas paredes e tectos transbordantes de água e sedentos de Sol. Deixou de se ouvir o canto dos pássaros, agora recolhidos sabe-se lá onde. Parece que vai chover para sempre.

A chuva ensina-nos a ser pacientes. A saber esperar. A ajustar-nos. Espero, mas não sei o quê. Ajusto-me a algo que ainda desconheço. Nada anseio. Nem tenho saudades de nada. Estou a ocupar exactamente o meu espaço no mundo, nem um milímetro para a frente, nem para trás. O centro de gravidade perfeito.

Estamos na estação do silêncio. Da quietude e do olhar no vazio, esse lugar onde repousamos a alma das inquietações que não têm razão de ser, como o são todas as inquietações.

Oiço a voz do Inverno no vento que viaja como um dragão uivante através dos ramos das árvores e nas gotas de água espertas e brincalhonas que batem contra os vidros das janelas. Escuto a sabedoria da velha mulher de cabelos de teia-de-aranha e mãos calejadas, com a paciência das sementes que aguardam no interior da terra.

Nunca pensei dizê-lo, mas passei a gostar do Inverno. Talvez porque deixei de tentar esticar os últimos raios de Sol até não conseguir mais, numa luta onde os dias escuros sempre fazem cheque-mate.

Aprendi a amar o vazio, o silêncio, a espera e até mesmo o frio. E, por amá-los, encontrei a plenitude no primeiro, a sabedoria no segundo, a serenidade no terceiro e a força no último.

De cabelo molhado pela chuva,

Hazel

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2 COMENTÁRIOS

  1. Por aqui o verão, úmido verão dos trópicos... Bom vir aqui e encontrar uma postagem sua! Estava já a sentir falta.... bom recolhimento e reflexões, curta o inverno e o silêncio, para depois brotar de novo em primavera! Um abraço!

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