Amor de Amigo

quinta-feira, junho 30, 2016

A amizade é uma espécie de amor onde não há tensão sexual. Apaixonamo-nos pela pessoa, deliciamo-nos com as suas piadas, até mesmo quando não têm assim tanta piada, estamos lá para apoiar e para sofrer junto nos momentos difíceis, brindamos à vida quando esta é generosa para com o nosso amigo. Partilhamos segredos, conselhos, fragilidades, medos, afectos. Entregamo-nos de corpo inteiro, alma e coração escancarados, deixando apenas os genitais e pouco mais de fora da equação.

Imagem: Anne Taintor
Assume-se, sem precisar de se lhe fazer referência, um compromisso de afecto, honestidade, lealdade e dedicação mútuos. 

Quando desaparece um destes quatro alicerces que sustentam as paredes da casa que abriga os nossos sentimentos, esta degrada-se até acabar por ruir, causando uma dor enorme e prolongada. A perda de um amor pode vir a curar-se depois de voltarmos a amar e a desejar alguém. 

Contudo, a perda de um amigo é irreparável. O vazio que fica nunca mais volta a ser preenchido, por muitos novos amigos que venhamos a fazer. 

Confesso, por isso, o meu receio de fazer novos amigos. Assumo a minha cobardia e fragilidade. Porque gostar de alguém é confiar, mostrar-lhe o nosso mapa interno onde, para além dos frondosos jardins perfumados, também existem estradas mal sinalizadas habitadas pelos fantasmas de amigos que deixaram de o ser, precipícios de memórias sem futuro e áreas em construção onde o perigo de queda é intenso - e não se usa capacete ou cinto de segurança.

Não obstante, gosto de conhecer pessoas, de observá-las. Fascinam-me as suas particularidades, caprichos e preferências. Comovem-me as mágoas. Desejo-lhes bem. Emociono-me quando sinto que também me querem bem. E, inevitavelmente, as barreiras começam a desaparecer, os laços a estreitar-se, e a amizade surge no horizonte cálida e delicada como o nascer do dia. Nasce espontaneamente - não porque alguém decidiu. Apaixono-me novamente e tomo consciência de que a fragilidade nos leva à injustiça, por vezes. Reconheço que no seio da amizade encontrei confortos e alegrias que deram novo sentido à minha existência. Porque um amigo às vezes é mais do que família. É uma extensão do melhor que temos em nós.

Esta semana, a carta 3 de Copas leva-nos a reflectir sobre a necessidade de alimentar a amizade e de celebrá-la, de dar o melhor de nós sem esperar contrapartidas. Porque, se a família é feita de laços de sangue e de obrigação, os laços entre amigos unem-se pelo afecto, afinidade e cumplicidade. Façamos uma pausa para saborear o lado mais doce da vida, junto de quem nos quer bem, seja ele do nosso sangue, ou não, seja humano ou animal. O mundo que espere um pouco - enquanto o melhoramos.

Hazel

Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, 30 Junho-06 Julho

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