A senda da cenoura

quinta-feira, setembro 15, 2016


Quem é que vai ganhar com o esforço que fazes todos os dias para chegar exactamente às nove em ponto ao trabalho, e não às nove e cinco? Não podes falhar. Dá o teu melhor. Chega a horas. Não basta fazer, tens de mostrar que fizeste. Diz bom dia aos vizinhos. E aos colegas. Paga a renda de casa a horas. Muda a correia de distribuição ao carro, olha que já passaste o limite.

Vê o noticiário, tens de saber o que se passa no mundo. Veste a camisola de malha vermelha na consoada. Põe menos açúcar no café. Bebe mais um, vais precisar da cafeína. 
Corre, corre! Tu és um cavalo de corrida!, já diziam os UHF. Todos esperam tudo de ti, e tu viras-te do avesso para mostrar que consegues.

Nem por um segundo páras para te questionar porquê, para quê. Foi assim que foste programado desde que nasceste, para ter um emprego bem sucedido, morar na melhor casa possível, ter uma arvorezinha ambientadora de aroma a pinho pendurada no espelho retrovisor do carro, e uma mulher que te faz um jantar isento de glúten, porque agora todos passaram a ser intolerantes e tu não te podes ficar atrás.

Vives como um burro de pescoço esticado para a frente, deixando um rasto de bosta atrás de ti que não vês - nem cheiras - porque estás muito concentrado em alcançar a cenoura à tua frente. Levas em cima do lombo o peso da vaidade de todos os bens materiais que acumulas, reconhecimentos e honrarias. Pelo caminho cruzas-te com outros burros, uns com uma carga menor que a tua, outros com carga maior. Cada um atrás da sua cenoura.

Julgas que vais viver para sempre; estás convencido que ias ser o burro, digo, o homem mais velho do mundo e destronar o indiano com três metros de cabelo enfiados num turbante, que tem mais de cento e trinta anos e passou os últimos dez na mesma asana

Mas quando tudo se vira de pernas para o ar e a tua hora chega, já só vês as vezes em que não amaste, os abraços que podias ter dado se não tivesses sido orgulhoso, a paz de que abdicaste porque preferiste degladiar-te para provar aos outros que tinhas razão, e nem assim os conseguiste convencer. Percebes que a tão desejada cenoura era uma ilusão, assim como a razão, a casa, o carro, o emprego, e tudo o resto.

Seria um castigo divino deliciosamente irónico se o paraíso fosse uma planície a perder de vista cheia de ervinhas verdes e milhões de ramagens de cenouras - biológicas, obviamente - que bastaria puxar da terra. Mais nada nem ninguém, a não ser a tão desejada cenoura. 
Ah, betacaroteno. Ad nauseam.

A carta Roda da Fortuna recorda-nos que num instante tudo pode mudar. Ninguém está seguro. Na incerteza do futuro, a única garantia que existe é de que tudo e todos estão connosco por empréstimo. E por tempo limitado. Podemos reformular a qualquer momento as nossas prioridades, fazer escolhas diferentes, regressar ao nosso centro, focar-nos no que verdadeiramente importa. Ou passar a vida inteira atrás das cenouras.

Hazel
Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1598

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