Saber as linhas com que se cose

quinta-feira, setembro 08, 2016


As mulheres que costumam coser roupa são mais corajosas que as outras. Pelas suas mãos, nascem caminhos, rectas, curvas e contracurvas feitos de linhas de várias cores e espessuras, ora a direito, ora em ziguezague, ora em ponto caseado. Fazem e desfazem, cortam, cosem, descosem, medem e alinhavam. Voltam a coser, mas ainda não está bem. Às vezes, desmanchar leva mais tempo que fazer. 

Os pensamentos voam soltos ao compasso da máquina de costura, deixando um rasto feito de pontos que mergulham e emergem no tecido como um nadador olímpico que nunca mais chega ao outro lado da piscina. Cada ponto guarda a memória de um pensamento que não foi dito por palavras, mas por linhas. Cada bainha retém um suspiro de cansaço.

Creio que ninguém conhece tão bem o sabor da frustração e a enfrenta com tamanha perseverança quanto as costureiras. Desistir é extremamente amargo. Atormenta-nos a ideia de ter de abandonar um caminho para onde nos dirigíamos a passos largos achando que se estava na direcção certa. E, no entanto, as costureiras fazem-no repetidamente, com uma paciência heróica que apenas elas possuem.

Nunca fiz uma peça de roupa para mim; não quis aprender a coser a sério porque sempre soube que isso implicaria errar e desfazer mais vezes do que aquelas que nasci preparada para aceitar fazer. Como o destino é matreiro e travesso, acabei por me ver a coser, não com linhas, mas com palavras que serpenteiam a carvão ao longo das folhas branco-amareladas dos meus cadernos velhos, como alinhavos antes de uma costura, que depois transcrevo para o computador. Apago mais frases do que aquelas que ficam escritas. Parece que nunca encontro a medida certa, o tom e a direcção que mais me satisfaz. Em cada sílaba, um ponto rematado no tecido da vida. Escrevo, apago e torno a escrever até me parecer melhor. Mas nunca chego lá. Por isso, continuo a escrever, como uma colcha de Penélope que nunca é terminada.

A carta Oito de Copas mostra-nos que desistir nem sempre é andar para trás; porque também o retrocesso, que enfrentamos virados do avesso com as costuras e cicatrizes expostas, faz parte dos planos. Afinal, de que vale insistir na confecção de uma peça de roupa que nunca nos irá servir? 

Desistir não é fracassar, e está reservado a quem possui a coragem de desmanchar para aprimorar. Fracassar seria recusar-nos a mudar de direcção quando temos uma parede e não uma porta à nossa frente; quando tentamos enfiar uma camisola do tamanho M, sabendo que a nossa medida é L.

Hazel
Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1597
foto: cortesia de Zélia Évora

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