Sabes que és de Carcavelos quando


Só quem é de Carcavelos para entender.

A5
Sais nas portagens da A5 em S. Domingos de Rana e quando fazes a curva do Stand J. Iglésias (se fores mesmo de Carcavelos, sabes que o 'J' não é de Júlio, mas de José), respiras fundo e relaxas porque já te sentes em casa.

"Banco dos Pich@s Murchas"
Recordas-te dos bancos de pedra - e das palmeiras - no Largo de S. Domingos de Rana para os velhinhos se sentarem, onde um dia um engraçadinho qualquer se lembrou de escrever a graffiti: "Banco dos Pichas Murchas" (desculpem a citação!). Ainda te ris disso. Não se faz; é errado, muito errado, hum (ainda mais agora, com o Viagra)?

Marginal e praias ao fim-de-semana
Esquece. Se fores a casa de alguém, vais sempre "por dentro". Evitas a Marginal e a praia nos fins-de-semana à tarde porque estão lá todos os habitantes da linha de Sintra, que são 377.835 e vêm sempre nervosos por causa do trânsito.

Habitantes
Carcavelos tem 23.437 habitantes e todos se conhecem, pelo menos, de vista.

Feira de Carcavelos
Às quintas-feiras de manhã já sabes que há sempre confusão e carros estacionados por todo o lado à volta do recinto da feira de Carcavelos - que deixou de ser o local de trabalho predilecto dos carteiristas desde que a Polícia passou a estar presente. Entretanto, o contrabando reduziu substancialmente - não se pode ter tudo, ora.

Redes sociais
Sabes que a rede social mais antiga que existiu foram os tanques da Rebelva e os cafés de bairro. O facebook é um bebé ao pé da velocidade com que aquelas senhoras faziam circular informação, tão fidedigna quanto as notícias do 'Inimigo Público'.

Vinho de Carcavelos
Sentes orgulho pelo Vinho de Carcavelos, de tradição secular e reconhecido internacionalmente, e não te conformas por ter mudado o nome para Villa Oeiras. Bolas!

Noites de Verão
Ninguém dorme durante o Verão com a música dos arraiais dos santos populares, maçada que se suporta alegremente enquanto se petiscam umas sardinhas assadas na brasa acompanhadas por um copito de sangria. Chateia mais aturar os adolescentes imberbes que estão de férias e se juntam na rua a fazer barulho até raiarem os primeiros alvores - mas no dia seguinte o Sol é esplendoroso e esquece-se tudo.

Cleópatra de Carcavelos
Provavelmente, já viste a funcionária dos Correios de Carcavelos (que agora funcionam na Rebelva), que é a reencarnação da Cleópatra, com um cabelo negro como a noite, liso e espelhado como a superfície do Nilo e mitologicamente saudável e brilhante. A senhora é realmente enigmática, uma personagem que escapou dos livros e foi ali parar por acidente.  

Quinta dos Ingleses
A tua mãe avisava-te para não passares pela mata da Quinta dos Ingleses, como se fosses encontrar ali o lobo mau. Ias sempre pela estrada. Aquilo não era para brincadeiras. Mesmo.

Calado
Sabes quem é o Professor Calado. Se calhar, preferias não saber. Haha!

Passarada
É normal que tenhas gaivotas a sobrevoar a tua rua. Se moras na Rebelva, estás habituado ao canto esganiçado (grito talvez seja mais adequado) dos pavões. Por toda a freguesia, voam melros, pardais, pombos e rolas. E algures, ninguém sabe bem onde, há sempre um galo que não falha o nascer do dia. Todos o ouvimos, estejamos onde estivermos.

Barcos na cama
Sabes quando está nevoeiro mesmo antes de te levantares porque consegues ouvir as buzinas de nevoeiro dos barcos como se eles estivessem a navegar junto à tua cama. OOOMMM!

Plim! 
Ainda te lembras do Plim, o centro comercial alternativo, meio punk, meio underground, onde o fumo de tabaco e de outras substâncias era tanto que não conseguias ver um palmo à frente do nariz. Ainda existe, agora sem fumo, com cabeleireiros afro, lojas de tatuagens e piercings, de instrumentos musicais, esotéricas e de indianos que reparam telemóveis. Colado ali mesmo ao lado, está o Centro Comercial de Carcavelos, com o cinema Atlântida Cine, que funciona há mais de 30 anos - embora nunca te lembres de lá ir.

Betinhos da linha
És visto como um betinho, mesmo que tenhas usado calças "Leve's" compradas na feira de Carcavelos durante a adolescência.

Droga
Lembras-te que os foguetes lançados à noite não eram para anunciar festas, mas para avisar que tinha acabado de chegar a droga às Marianas - que hoje já não existem.

Carteiros
Não costumas reparar, mas todos os carteiros em Carcavelos são simpáticos, reflexo da atitude afável, educada e voluntariosa da grande maioria dos habitantes. Não existem carteiros antipáticos nesta freguesia.

Legrand
Sabes que a Legrand se chamava SIPE antes de ter sido comprada pelos franceses.

Não há piropos
É verdade. Os homens já não mandam piropos às mulheres em Carcavelos. Isso era antigamente. Hoje, se tal acontecer, é porque eles não são de cá (também pode haver a hipótese de eu já estar fora de prazo para receber piropos; nesse caso, desconsiderem este item).

Feira de tralhas em segunda mão
Sabes que à quarta-feira de manhã existe mercado no Centro Comunitário de Carcavelos, onde podes comprar roupa, livros, brinquedos, bricabraque e todo o tipo de cangalhada engraçada por valores simbólicos. Sabes também que tens de ir cedo para apanhar as melhores pechinchas.

Trânsito Zen
Estás habituado a conduzir pacatamente e com respeito pelos outros automobilistas em Carcavelos. É assim que se conduz aqui, mas não podes fazer o mesmo em Lisboa, senão és fustigado, insultado, cilindrado e talvez até mesmo esbofeteado.

O Crocodilo da Alagoa
Existe um crocodilo de pedra em tamanho real no fundo do lago da Quinta da Alagoa, mas só o viste se fores um dos habitantes mais antigos.

O Pitrolino
Aliás, se fores mesmo muito antigo, até te lembras do "Pitrolino", o simpático senhor que tinha uma mercearia inteira enfiada dentro de uma carrinha e parava em todas as ruas para as donas-de-casa fazerem as suas compras, antes do surgimento das grandes superfícies comerciais. Não tinha caixa registadora, as contas eram feitas num bloco de papel às riscas verdes e brancas.

Gatos
Se fores um gato esperto, vens viver para Carcavelos. Aqui safas-te com as taças de comida que há sempre escondidas nos cantinhos e no meio dos arbustos junto aos prédios, para os bichanos que vivem na rua.

Casas assombradas
Já ouviste várias histórias de casas e apartamentos assombrados onde ninguém consegue morar, todas contadas por alguém-que-conhece-alguém-que-conhece-alguém-que-conhece-o-dono.

Biblioteca Itinerante
Havia também a carrinha da Biblioteca Itinerante, mas dessa já só eu me devo lembrar, pois era a única leitora que ia requisitar livros, e acabaram por deixar de circular na minha rua porque não compensava. Snif.

Santini
Estás radiante por ter o Santini ao pé de casa. Viva! Agora sim, tens a certeza que moras no melhor lugar do mundo (não fui paga para escrever isto, embora, se os senhores do Santini quiserem, aceito agradecimentos em forma de bolas de gelado e crepes, e até alinho em provar todos os sabores e em dar a minha opinião - tudo pelo bem da freguesia, claro está!).

Por muitos lugares bonitos que conheças, se és de Carcavelos, é sempre a Carcavelos que regressas.

Ah Carcavelos. 💗

Hazel

A fina arte da velhacaria


Um velhaco é um indivíduo matreiro que se compraz no exercício subtil e ardiloso da malícia - como uma pérfida forma de arte. Lembra-se de detalhes que não ocorrem a mais ninguém, quase levando - não fosse o facto de o desprezarmos - a que lhe ganhemos afeição, pela inegável criatividade e sentido de humor retorcido. Dir-se-ia que é um mestre perfumista que trabalha com quantidades de veneno pequeninas, adocicadas, tentadoras e altamente viciantes.

Suscita-nos sempre curiosidade, embora não gostemos de admiti-lo. Sempre que o desejo de saber salta por cima do muro erguido pela moral, somos caçados na armadilha do velhaco.

No outro dia, qual lebre que passeia despreocupada pelos campos, fui apanhada na rede da curiosidade. Passei um par de horas - tempo muito bem empregue, diga-se - a ler reportagens e comentários sobre o casal que distribuiu água na A1 durante o incêndio que deflagrou no Verão passado. Saciaram a sede de inúmeros desconhecidos que se encontravam presos na estrada cortada, debaixo de quarenta graus, com cerca de mil litros de água que compraram do próprio bolso. O país emocionou-se e agradeceu. Foram elogiados, aclamados heróis. No vídeo que invadiu as redes sociais, via-se a bagageira do Mercedes aberta, de onde saíam garrafas de água entregues com um sorriso aberto.

Cinco meses depois, a vida do casal Lucinda Borges e Paulo Pereira ficou de pernas para o ar. 

A família virou-lhes as costas. Os vizinhos também. Paulo ficou sem trabalho e a Lucinda surgiu um problema oncológico. Chegaram ao ponto de não ter o que comer, tendo de recorrer a um casal amigo para que ficasse com a filha durante o Natal por não terem dinheiro para a ceia nem para lhe comprar um presente. O país, sensibilizado com a injustiça, quis retribuir. As ajudas não tardaram, paralelas à curiosidade pelo inusitado comportamento dos conterrâneos do casal. 
As equipas de reportagem que se deslocaram a Avanca, Estarreja, indagaram junto dos vizinhos e até do pároco da freguesia o motivo pelo qual Lucinda e Paulo estavam a ser alvo de tanto azedume e revolta ali, quando, no resto do país, o sentimento geral era precisamente oposto.

Foi neste ponto que a fina arte da velhacaria se manifestou. O Mercedes causou pruridos nos cotovelos das pessoas e o passado de Lucinda e Paulo foi esmiuçado e amplamente especulado nos meios de comunicação social. Não irei detalhá-lo nem ajuizá-lo. Eu não estava na A1, mas estou-lhes grata como se tivesse estado.

O mundo não se divide em bons e maus. Toda a gente tem culpas no cartório, a diferença é que o casal da A1 está exposto à opinião pública - e cercado de inveja - enquanto os podres de todos os outros continuam escondidos. Sim, merecem ser ajudados, mesmo que tenham alguma vez cometido erros - quem nunca falhou? - porque são seres humanos e porque aquilo que eles fizeram foi inegavelmente generoso, uma iniciativa louvável que inspirou milhares de pessoas a tornarem-se seres humanos melhores - com excepção dos seus familiares, vizinhos e do pároco de Avanca.

Esta semana, o arcano Valete de Espadas tenta-nos com o veneno da velhacaria, dando-nos a possibilidade de escolher pensar por nós próprios sem nos deixarmos influenciar.
Nós conseguimos ser melhores do que isso.

Hazel
Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1616

Sapatinhos de veludo pretos


Pela calada da noite, enquanto a coruja piava do alto da torre da igreja solitária, guardiã derradeira de uma fé perdida nas brumas enganadoras do tempo e das vontades, os sapatinhos de veludo preto calcorreavam a calçada de pedra com a agilidade silenciosa de um felino.

As pernas rapadas a gilette apareciam por baixo do casaco cintado, deixando adivinhar prazeres e paixões, e os cabelos compridos, descolorados com água oxigenada, dançavam ao ritmo cadenciado da caminhada, como se uma música inaudível a acompanhasse. Todas as noites apanhava o autocarro e depois o comboio para o Cais do Sodré, e dali prosseguia para uma segunda vida, secreta e proibida, onde ninguém a conhecia.

Quando for grande, quero ter uma profissão normal de dia, e à noite quero ser prostituta. 
Ninguém respondeu. Continuámos a brincar com as bonecas. Nenhuma sabia exactamente o que fazia uma prostituta, mas percebemos que seria algo emocionante, mau e delicioso, quiçá ao nível de riscar a caneta o livro de ponto da professora, às escondidas. Nenhuma tinha mais de dez ou onze anos. 

A profecia concretizou-se. Durante uma meia-dúzia de anos, a miúda confiante-e-delambida dos cabelos oxigenados devotou-se à profissão mais antiga do mundo, onde conheceu as várias faces da volúpia, da excitação, da submissão, da mentira, das drogas, da sujidade e do roubo. Perdeu os dentes e o sorriso, mas manteve a atitude altiva, cheia de si para preencher o espaço vazio que a assolava.

A coruja vigilante observava de lá do alto o caminho de calçada agora deserto e os sapatinhos de veludo que um dia acabaram abandonados no contentor do lixo. 

O dia nascia e a fila de carros para entrar na A5 começava a formar-se, cheia de expressões amargas e carrancudas, cigarros pendurados displicentemente na ponta dos dedos, telemóveis freneticamente dedilhados em mensagens inúteis, as notícias do trânsito e, finalmente, a música. No seu Opel Corsa bordeaux, o porta-chaves com um ursinho de peluche pendurado na ignição balançava como um pêndulo enquanto aumentava o volume do som. Tocava “Girls just wanna have fun” da Cyndi Lauper, a sua música preferida. No banco de trás, a sua filha segurava na boneca enquanto marcava o ritmo com a perna direita na cadeira de viagem.

Esta semana, o arcano Sete de Espadas leva-nos a reflectir sobre os contornos mais sombrios da existência. A nossa, não a dos outros. Desengane-se quem se acha acima de qualquer mácula. Ninguém está a salvo da imperfeição, da desonestidade, dos sentimentos de inveja, de cobiça, de despeito - embora vejamos sempre as falhas dos outros, e nunca as nossas.

Hazel
Consultas em Oeiras e online
Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1615

Cala-te, cão


Fui o quarto ou quinto Mike. Os pêlos do Mike anterior a mim sugerem-me que era mais escuro e cerdoso que eu, e que apreciava dormir enroscado no canto do sofá da sala, onde bate o Sol à tardinha. Os meus donos foram parcos de imaginação na escolha de nomes, mas têm muito amor para dar, ah se têm. Ora lá vai um prato, zás!, contra a parede. E mais outro! Paf! 

De vez em quando, a Palmira vai renovando a loiça, coitada. Até já a minha taça da ração anda num virote. As mãos ásperas e calejadas do Mesquita acercam-se do pescoço anafado da Palmira cujos olhos se esbugalham ameaçando saltar das órbitas. A sogra-cobra, que ouviu a gritaria, galga as escadas cheia de genica, de garfo em riste, preparada para cravá-lo onde conseguir, desde que acerte na nora. O Mesquita urra de dor pela dentada que acabei de lhe ferrar nas nalgas, e a Palmira lá se safou.

Eles são boa gente, tratam-me bem. Lutam muito uns com os outros, mas amam-se que nem lobos. Até o Amâncio gostava de mim, esse bom malandro que nunca mais nos visitou. Trazia sempre salsichas para partilhar connosco, e só uma vez me tratou mal, quando me deu com o sapato porque lhe fui cheirar o rabo enquanto ele estava a acasalar com a minha dona (o Mesquita estava emigrado na Suíça). Tinha o hábito engraçado de tirar as calças e deixar ficar as meias e os sapatos, porque tinha pé-de-atleta - e porque eu lhe roía os sapatos e os escondia junto com os do Mesquita. 

Quando o Mesquita regressou, a sogra-cobra - que morava no andar de baixo e escutava com ouvidos de tísica os mais despudorados e libidinosos suspiros que ecoavam pelos tubos da canalização (refiro-me à canalização da casa-de-banho contígua ao quarto, bem-entendido) - denunciou-lhe os encontros furtivos. Nunca mais houve um conjunto de loiça completo nesta casa. Valia mais comprarem pratos de inox como a minha taça.

O Mesquita, com a idade, foi-se conformando com as mágoas. De vez em quando, ainda passa pelas portas com a cabeça de lado, numa silenciosa e desdenhosa alusão à envergadura que sustenta sobre a cabeça, mas já ninguém liga. 

A sogra-cobra, que foi ficando caduca e falava sozinha, finou-se engasgada com uma ervilha. Chamaram os bombeiros e, para constrangedora surpresa de todos - até eu meti o rabo entre as pernas - apareceu o Amâncio, que era socorrista; fez tudo o que pôde, mas não chegou a tempo. Depois do funeral, a Palmira comprou um serviço de jantar novo. Em loiça. Esta gente não aprende, pensei enquanto coçava a pulga que me comichava a orelha direita.

Hoje vão levar-me ao veterinário para levar uma injecção. O meu coração velho já não aguenta esforços, e o sexto Mike não tardará a chegar. Vou feliz. Nunca conheci uma família com tanto amor para dar e com tão pouco jeito para tal. Boas pessoas com feridas. Quem não as tem. 
Até eu, que sou um cão. Mas lambo as minhas - não mordo os outros.

Esta semana, o arcano Cinco de Paus inspira-nos a distanciar-nos dos focos de tensão para que possamos concentrar-nos no que realmente importa. Os conflitos, vistos de uma perspectiva mais elevada, podem ter a dimensão de uma ervilha: pequeninos e, contudo, intragáveis, se não soubermos respirar fundo no momento certo.

Hazel
Consultas em Oeiras e online

Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1614
Foto do canito: hotphotosfree.com

Um café e uma atitude, se faz favor


Todas as manhãs sentava-se na mesa mais afastada e ficava com o jornal aberto à frente, fingindo lê-lo enquanto o burburinho das pessoas que iam chegando aumentava aos poucos. Escutava-lhes as conversas; fazia-o há tanto tempo que era como se os seus problemas lhe pertencessem um pouco também.

Ninguém notava a sua presença, invisível nas suas camisolas cor de papas-de-aveia que cheiravam a naftalina. Sentia-se muitas vezes como um fantasma. A solidão é, no fundo, uma espécie de morte; quando ninguém conversa connosco, atestando a nossa existência, somos levados, com o tempo, a duvidar dela.

Os habitués foram envelhecendo, vinham caras novas, outros deixaram de aparecer. As paredes rosa-envergonhado do café foram ganhando um tom amarelecido como as cravinas matizadas que espreitavam do lado de fora das janelas, olhando-o como crianças com risinhos trocistas.

Aos poucos, todas as suas camisolas cor de papas-de-aveia iam ficando mais esburacadas. Depois de aparar a barba e dar umas sonoras chapadas com after shave no rosto, revolveu as gavetas em busca de algo decente e apresentável para ir ao café como fazia sempre, mas tudo tinha sido devorado pelas traças. As cretinas tinham vencido a naftalina. Sentia-se como as suas roupas: gasto, flácido, acabado. Esperem. O que foi que eu disse? Acabado? Isso é que não podia ser. Era o que mais faltava.

Entrou de rompante no café. Meias cinzentas, os sapatos pretos que só usava nos casamentos e funerais e uma toalha de banho vermelho-capa-de-toureiro embrulhada à volta do corpo. Nem calças tinha. Finalmente, todos o viram. Agora sim, tinha a certeza que estava vivo.

O que é que vai tomar hoje?, inquiriu a mulher de papos nos olhos e cabelo puxado para trás num carrapito, disfarçando o espanto enquanto alisava o avental com as mãos encarquilhadas de lavar a loiça sem luvas.

Uma atitude, é o que vou tomar hoje - disse alto e em bom som -, chamo-me Arnaldo e estou doido por si.

Todos se encontravam de olhos postos nele desde que tinha transposto a porta, mas neste ponto podia mesmo sentir-se os pescoços, olhos e orelhas esticarem como elástico na sua direcção. Silêncio absoluto. O rosto da mulher, amadurecido pelo passar dos anos, foi invadido até à raiz dos cabelos por um rubor que lhe escaldava até as pestanas. Um sorriso iluminou-lhe o semblante. O tempo ficou suspenso, cristalizado. Ninguém pestanejou. O bloco de papel e a caneta com que anotava os pedidos soltaram-se da sua mão, caindo em câmara lenta no chão.

Desde então, o Arnaldo nunca mais me vestiu. Encheu as gavetas de camisolas garridas e saquinhos de alfazema e eu fui dobrada e colocada dentro da cesta onde o seu gato cor de baunilha passa as tardes a dormir. Sou agora um cobertor de gato. O Arnaldo nunca mais foi o mesmo. Nem a sua nova mulher. Nem o café. Nem quem lá estava naquela manhã - segundo me relatou a toalha de banho vermelho-capa-de toureiro.

Esta semana, o arcano O Carro desafia-nos a olhar para as situações que se arrastam desde o ano passado - porque, lá bem no fundo, temos receio de fazer mudanças - e instiga-nos a assumir as rédeas das mesmas com coragem, sagacidade e rapidez. Sim, esta é uma boa semana para tomar uma atitude.

Hazel
Consultas em Oeiras e online

Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1613
Fotografia de Michael Ochs Archives em Getty Images