A mulher mais odiada de Portugal

quarta-feira, fevereiro 08, 2017


Ela canta “Hoje Maria Leal aqui só p’ra ti”, mas o país, horrorizado, diz que dispensa. Nem dada. Ninguém a quer ver, no entanto, ninguém consegue deixar de olhar para ela. Os espectáculos onde actua têm lotação esgotada em todo o país e a sua agenda está mais cheia que a do Marcelo.

Antigamente, antes da miudagem ter passado a ver o mundo através dos écrans, quando se juntavam na rua, havia um jogo - calma, não vou falar sobre o “bate-o-pé” - chamado “corredor”. Miúdos e miúdas alinhavam-se ombros com ombros formando duas filas paralelas. Depois havia sempre um desgraçado que tinha de passar no meio e levava calduços de todos. Até fervia.

Lembro-me de ter jogado uma vez, e fiquei nos que davam calduços (entre dar e levar, sempre é melhor dar). Hoje, já adultos, vejo que o jogo continua à escala nacional; quem passa no corredor é a Maria Leal, a levar forte e feio de todos. Até eu - mea culpa, que não sou santa nenhuma - já lhe assentei um calduço ao de leve quando comentei uma notícia que falava sobre a inexistência de artistas dispostos a actuar na tomada de posse de Donald Trump, dizendo, com certa velhacaria, que era a grande oportunidade da nossa Maria.

Elisabete Maria Pereira Garcia Rodrigues d'Eça Leal - ou, como é conhecida, Maria Leal - é uma má cantora, não tem um discurso eloquente, nem possui a beleza da Miss Universo. A ausência de talento para cantar e dançar é directamente proporcional à sua falta de consciência disso - o que não é necessariamente negativo. A ML tinha o sonho de se tornar uma cantora famosa, sem a menor noção de estar artisticamente despreparada. Por não o saber, lançou-se ao sonho. E conseguiu. Não é uma questão de se ser bom, mas de se acreditar que é.

Os outros riem-se, gozam e insultam-na continuamente, mas ela não vacila. O talento da Maria é a perseverança: tem sido uma campeã olímpica de resistência. Se fosse um quadro, seria uma daquelas telas indecifráveis com um borrão de tinta que todos acham feio, mas tem que se respeitar mesmo não o compreendendo - porque “é arte”.

O problema não é a sua falta de jeito para cantar, mas a nossa falta de respeito. Ela é uma artista sofrível, mas não sabe. E nós somos um país de fanfarrões, mas não sabemos. É espantoso o ódio que lhe é dirigido massivamente sem que tenha causado qualquer tipo de dano a ninguém, excepto auditivo - desculpem, não resisti à piadola, foi Satanás que se apossou de mim agora, pois ainda sou um ser humano em processo de evolução -, tendo em conta que apenas realizou o seu sonho de cantar.

Esta semana, o Valete de Copas comete a ousadia de afirmar “Eu sou Maria Leal, aqui só pr’a ti”, em homenagem à mulher mais odiada do burgo - ainda bem que o país é pequenito, hein? - inspirando-nos a nunca desistir dos nossos sonhos, digam-nos aquilo que disserem; e a ver a nossa realidade com amor, ainda que o amor possa ser uma ilusão. Antes passar uma vida feliz na ilusão de que se é amado, que infeliz na fealdade do ódio, enfiado atrás de um computador a falar mal dos outros.

Ao fim e ao cabo, acho que gosto da Maria Leal. Quer isto dizer, detesto ouvi-la cantar, mas admiro o que ela representa. Porque os sem-talento também merecem um lugar ao Sol. Arriscando o meu próprio pescoço a levar com alguns calduços por marchar em descompasso dos restantes, atrevo-me a dizer: ela é que está certa. Não sei quanto a vós, mas a mim a mulher do “entroncamento sem fim” ensinou que não se desiste, nem se baixa a cabeça, mesmo que tenhamos sobre ela a espada de Dâmocles suspensa por um fio prestes a rebentar.

Hazel
Consultas em Oeiras e online
Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1618

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