“Ponha esse coração a funcionar”

quinta-feira, março 16, 2017


Cabelo preto curtinho e fino como pêlos de pincel-de-aguarelas, a previsível nuvem de perfume antigo e os envelopes dos exames médicos debaixo das mãos trémulas e enrugadas. Os seus olhos acinzentados e pequeninos de rato observavam-me com agudeza perscrutando o que levaria uma sirigaita da minha idade, coradinha, bem-disposta e luzidia, sem estar grávida, ao centro de saúde tirar o lugar a quem precisa.

Baixei a cabeça para o meu livro, que tinha levado de casa para evitar as revistas cor-de-rosa que costuma haver na sala-de-espera. A senhora do cabelo de pincel-de-aguarelas manteve o olhar na mesma direcção, mas sem nada ver, como se o tempo — o seu tempo — tivesse feito uma breve pausa para retemperar forças.

Oiço finalmente o meu nome ser chamado numa voz clínica e fria como o metal da agulha de uma seringa (porque será que as enfermeiras têm sempre aquele tom incisivo que nos faz antecipar algo doloroso?).

Levanto-me atabalhoadamente, deixando cair a carteira para o chão. Espalham-se os cartões do supermercado, da biblioteca, do combustível, e talões nem-sei-de-quê, que recolho à pressa para não fazer esperar o Senhor-Doutor. Todos os segundos contam. Apresso o passo, entro educadamente no consultório, fecho a porta atrás de mim e cumprimento o médico com um aperto de mão onde as minhas falanges são comprimidas com vigor. O meu médico tem sempre aquela atitude salutar e vitaminada, de quem foi criado a tomar óleo de fígado de bacalhau todas as manhãs.

De olhos franzidos postos no computador e óculos na ponta do nariz, consulta eficaz e rapidamente o meu histórico. Entrego-lhe os resultados dos exames que me tinha mandado fazer e aguardo o veredicto com dramatismo, como se toda a minha vida dependesse daquele momento. O Senhor-Doutor empurra os óculos para o topo da cana do nariz e afasta os papéis para ver melhor ao longe:

— Ponha esse coração a funcionar — disse o meu médico na sua voz de médico, clara e firme, enquanto pousava o electrocardiograma.

Por segundos, a romântica idiota em mim ficou embevecida a pensar que ele queria dizer que tenho de amar mais. Ah que lindo. Ainda esbocei um sorriso pateta, que logo procurei disfarçar quando realizei que, afinal, o que se pretende é que eu faça mais exercício.

Saí do consultório com asas nos pés, tamanha a satisfação. Ainda não é desta que se livram de mim. E ri-me sozinha pela minha interpretação idealista do conselho médico. A senhora dos olhinhos de rato apanhou-me em flagrante a rir sozinha pelo corredor. Sinto que, depois disso, achou que o meu problema seria de ordem mental, o que ainda me fez rir mais. É uma injustiça que o riso só seja socialmente aceite se estivermos acompanhados e que sejamos olhados com descrédito quando nos apanham a rir sozinhos.

Esta semana, o arcano seis de Copas inspira-nos a reencontrar a leveza e a capacidade de manter o sentido de humor em todas as circunstâncias. Para quê tanta seriedade. O riso cura. 
Se não curar, alivia. E, se não aliviar, tomem óleo de fígado de bacalhau.

Hazel
Consultas em Oeiras e online
Email: hazelclaridade@gmail.com
Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1623
foto: voltamax, licença CC0

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