Por vossa conta e risco

quinta-feira, março 23, 2017


Sou uma ladra de molas da roupa. Assumo este pequeno e desavergonhado prazer que sinto de surripiar as molas caídas no chão junto aos prédios. Nem é pelo valor (quanto custa um pacote de molas, um euro, dois?), mas pelo mesmo tipo de satisfação que leva os safardanas dos meus gatos a abocanhar um filete de pescada deixado na bancada da cozinha quando vou atender o telefone; ou que, aos dez anos, tocava as campainhas todas da rua quando vinha da natação — até um dia uma vizinha fazer-me uma espera, escondida de cócoras atrás de um arbusto de erva-das-pampas, e ameaçar agarrar-me “p’las gadelhas qu’até andas de lado” se voltasse a repetir a façanha (foi remédio santo).

E digo mais: tenciono fazer perdurar o travesso delito até que um dia algum queixoso me aponte uma mola acusadora e ameace entalar-me a ponta do nariz com ela. Ou outra parte do corpo, deuses me protejam as carninhas tenras. A vida de larápio tem os seus riscos. Não me desculpo por isso, que as desculpas pressupõem arrependimento e eu não tenho pinga de remorso (nem de vergonha). Também não fico apoquentada quando são os outros a apanhar as molas que deixo cair. É a lei da selva, no universo dos estendais; quem chega primeiro, caça as molas.

Creio que só adquiri molas da roupa uma vez, lá para os idos de 2010, da forma tradicional — compradas no supermercado. Não teve encanto: estacionei a viatura, paguei o parquímetro e senti-me logo gamada. De seguida, tive de gratificar o arrumador por serviço algum senão o de evitar que este causasse estragos intencionais no meu nobre corcel. Andava por lá um agente da polícia, mas distraído, muito distraído.

Já dentro do supermercado, comprei yogurte grego, fabricado em Espanha; carne nacional, importada da América do Sul, e três pacotes de molas da roupa numa daquelas promoções leve-três-pague-dois, embora o valor, se fizéssemos as contas, fosse dar ao mesmo.

O arcano sete de espadas surge-nos esta semana pela calada da noite, ardiloso e tentador, a desafiar-nos a pular a cerca para ver o que há do outro lado. Tenho cá para mim, eu que só apanho as molas caídas junto à cerca, que do lado de lá existe uma daquelas marquises de apartamento tipicamente portuguesas, onde se encafuam as máquinas de lavar roupa.
É que cheira sempre a limpinho quando leio as notícias no jornal, com tanta referência a lavagem de dinheiro, ou branqueamento de capitais para quem prefere um programa de lixívia, com detergente offshore.

Hazel
Consultas em Oeiras e online

Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1624
foto: do meu estendal de meias

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2 COMENTÁRIOS

  1. Nem me fale em lavagem de dinheiro... um bom dia para você... beijos!

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  2. Estou como a Heloisa...Não me fales em lavagem de dinheiro!. Então não é que, um dia tive o azar de lavar uma nota de 20 euros no bolso das calças do marido e ao fazer um pagamento com ela numa loja do Vasco da Gama, o funcionário da caixa achou que eu queria passar uma nota falsa?! Vá lá que não ma confiscou. Só faltava ter chamado a psp para o quadro ficar mais completo! :D

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