A revolução dos cravos

quarta-feira, abril 25, 2018


“Se quiser, tome, um cravo oferece-se a qualquer pessoa”, respondeu Celeste Caeiro, 40 anos, ao soldado que lhe pediu um cigarro. Não tinha mais nada para oferecer senão os braços cheios de cravos vermelhos e brancos.

O restaurante onde trabalhava, em Lisboa, celebrava nesse preciso dia um ano de abertura, e tinham comprado uma quantidade considerável de cravos para oferecer às senhoras que lá entrassem.

As notícias sobre a ocorrência do golpe de estado levaram a que o gerente tomasse a decisão de não abrir o estabelecimento. Celeste foi, como os restantes colegas, mandada para casa devido aos acontecimentos iminentes. Os cravos foram distribuídos pelos funcionários, para que os levassem consigo.

Curiosa e inquieta, quis ir ver a revolução que estava para acontecer com os seus próprios olhos. Após sair do metro, encontrou os tanques que se dirigiam para o Quartel do Carmo. Indagou os militares sobre o que estava a passar.

“Nós vamos para o Carmo para deter o Marcello Caetano. Isto é uma revolução!"
O soldado recebeu o cravo que Celeste lhe estendeu e enfiou-o no cano da espingarda. Celeste dos Cravos, como ficou depois conhecida, distribuiu as restantes flores que transportava pelos outros militares, que replicaram o gesto do camarada.

A revolução dos cravos trouxe a promessa da liberdade, que ainda falta cumprir.
O 25 de Abril ainda não acabou. Continua no dia 26, no 27, no 28 e por aí em diante — enquanto houver alguém com medo de sofrer retaliações por dizer aquilo que pensa. Enquanto houver alguém a abafar ou a deturpar a verdade. Enquanto houver desrespeito pelo livre arbítrio do outro.

A liberdade será conquistada quando todos aprendermos e integrarmos genuinamente os valores éticos; a honestidade absoluta, a confiança e a bondade desinteressada. Só então se poderá verdadeiramente chegar à Liberdade. Temos de merecê-la primeiro.

Até lá, continuamos todos os anos a comprar cravos vermelhos para celebrar a liberdade sem ter noção que o fazemos a partir de dentro da clausura em que nos encontramos, prisioneiros da ditadura da desonestidade, da corrupção, do desrespeito, da manipulação, da mentira e da falta de transparência, até mesmo por parte de quem trabalha em prol dela.

Nas pequenas e nas grandes esferas, a Liberdade ainda se encontra longínqua. Tanto quanto a verdade.

Avante, que a revolução ainda mal começou. Esta semana, o arcano Nove de Paus incita-nos a manter-nos lúcidos e alerta, a pensar por nós mesmos, a questionar tudo — e a não abandonar o barco. Se não formos nós, quem por nós?

Hazel
Consultas em Oeiras e online

Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1678
foto: Leonardo Negrão - Global Imagens

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