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A Menina Achada no Lixo





EU ERA TÃO PEQUENINA que as poças de água dentro das rochas na maré vazia me pareciam casinhas-de-bonecas completas que o mar fazia para mim durante a noite e entregava de manhã, em que os limos eram plantas decorativas e as pedras se transformavam em cama, sofá, mesa e cadeiras.

Para lá da aba do meu chapéu de palha, o mar de sombrinhas de praia coloridas com franjas, a bola da Nívea e o cheiro a óleo bronzeador de côco eram um mundo longínquo e abstracto naquele Verão eterno, como são todos os Verões na infância.

Não tinha brinquedos de praia. Tudo o que precisava para entreter a imaginação estava ali, naquelas poças de água cheias de maravilhas submarinas, e na minha companheira de brincadeiras que tinha a mesma idade que eu, e a mesma capacidade de viajar para o universo fantástico onde-tudo-é-possível.

As nossas mães tornaram-se amigas de praia. Conheceram-se nesse Verão, e todos os dias à mesma hora colocavam as toalhas e as sombrinhas juntas, partilhando cumplicidades de senhoras crescidas, enquanto nós brincávamos naquelas poças de água que eram o mais importante de tudo.

No fim do Verão, algo tinha mudado. A expressão das mães assumiu uma gravidade inesperada, que contrastava com a despreocupação dos dias de praia.

As algas verdes enroladas à volta dos meus dedos gotejavam, agitando a limpidez das poças de água, e a praia tornava-se um cenário difuso à medida que as vozes das mães se amplificavam na minha percepção de criança silenciosa.

A mãe da outra menina confidenciou à minha mãe que a sua filha na verdade não era sua filha. Parei de brincar e mantive os olhos perdidos nos reflexos estrelados da poça de água enquanto tentava compreender o que isso significava.

Num fim de tarde, foi deitar o lixo fora no contentor da rua e ouviu um barulho vindo lá de dentro. Pensou que fosse um gato. Quando espreitou, encontrou uma bebé, ainda com poucos dias de vida, embrulhada numa manta, dentro de uma caixa de cartão. 

A tremer, escondeu-a dentro do casaco e levou-a para casa, evitando os vizinhos. Deu-lhe banho, alimentou-a, cuidou dela. Comprou-lhe roupas novas e ficou com ela, sem contar a ninguém, o que a levara a viver um pouco escondida, com medo que alguém lhe tirasse a criança.

Naquele momento, faltava-nos cerca de um ou dois anos para entrarmos na escola primária, e ela estava num tormento para encontrar uma forma de legalizar a situação e poder colocar a menina na escola.

Nunca contes isto a ninguém, disseram, quando viram a minha expressão séria de quem tinha compreendido tudo. Continuámos a organizar as pedras e os limos nas poças de água, compondo a nossa casinha-de-bonecas num silêncio cúmplice. 

Guardei segredo durante quase cinquenta anos. Nunca voltei a vê-las. Nunca soube o desfecho da história. 

Contudo, lembro-me de olhar para a menina como se ela tivesse sido um presente mágico vindo de outro lugar e de pensar que aquela senhora tinha tido muita sorte por a ter encontrado.

Essa mãe que fingia ser mãe, era, na verdade, mãe.

No túnel do tempo,

Hazel
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Cronista, Viajante no Tempo, Terapeuta, Taróloga, Tradutora, Professora.