Uma pequena nota introdutória: Vou contar-vos uma história vivida na primeira pessoa, há alguns anos. Quem acompanha as minhas crónicas ao longo destes quase vinte anos, sabe que alterno entre ficção, relatos reais e histórias onde os factos se misturam com imaginação e – em muitos casos –, humor.
Desta vez, não. Farei aquilo a que se chama “stick to the facts”. A realidade consegue superar a ficção. Tudo o que se segue aconteceu exactamente como conto.
COLOCÁMOS AS MALAS DE VIAGEM no carro ao início da tarde, e partimos de Portugal em direcção a Marrocos, por terra. Era o dia trinta e um de Dezembro. Omito o ano, por questões de segurança e privacidade. O objectivo era chegar a Chefchaouen, a cidade-labirinto azul, antes da meia-noite, para celebrar a passagem de ano.
Chegámos ao porto marítimo no Sul de Espanha mais cedo que previsto, mas o ferry atrasou-se. Fizemos a travessia das águas negras no Estreito de Gibraltar de noite.
No ferry, lotado com centenas de carros, tive uma estranha sensação de calma, ordem e silêncio à minha volta. As pessoas deixavam os carros meticulosamente arrumados na parte inferior e subiam as escadas para o andar superior, onde podiam tomar uma bebida durante a viagem e sentar-se.
Apercebi-me que eu era a única mulher a viajar dentro da embarcação. Talvez as mulheres tivessem ficado nos carros. Talvez estivessem longe do meu ângulo de visão –, tentei justificar para mim mesma (tenho este problema de pensar demais).
⧫⧫⧫
Tânger
O ferry atracou em Tânger e todos os veículos saíram ordeiramente, formando filas intermináveis na linha da fronteira. Ficámos parados durante horas. A meia-noite chegou silenciosa, sem qualquer movimento ou celebração, como se fosse uma “não-passagem-de-ano”.
Os carros teriam de passar no pórtico de inspecção por uma máquina de scanner de raios-x para veículos, como faz parte do protocolo operacional. Mas, por alguma razão, não avançavam.
A faca
Os carros teriam de passar no pórtico de inspecção por uma máquina de scanner de raios-x para veículos, como faz parte do protocolo operacional. Mas, por alguma razão, não avançavam.
A faca
O companheiro de viagem que ia comigo, um namorado que tinha na época, disse que seria mais seguro, para evitar problemas com a polícia da fronteira, que eu deitasse fora a faca que levava no compartimento da porta do carro. Bem-entendido, era uma faca para cortar laranjas. Não deixa de ser uma arma branca, dizia ele, livra-te disso, porque a máquina vai detectar.
A última coisa que queria fazer era abrir a porta do carro numa zona onde os veículos são revistados para deitar “discretamente” um objecto no caixote de lixo. Tive de o fazer, mesmo sabendo que podia chamar as atenções e levantar suspeitas.
A última coisa que queria fazer era abrir a porta do carro numa zona onde os veículos são revistados para deitar “discretamente” um objecto no caixote de lixo. Tive de o fazer, mesmo sabendo que podia chamar as atenções e levantar suspeitas.
Enfiei a faca dentro da manga da djellaba, o capote magrebino, segurando-a com a ponta dos dedos dobrados e fingi que ia caminhar um pouco para estender as pernas. Dei algumas voltas sem sentido, tentando tornar-me o mais invisível e desinteressante possível perante a curiosidade de quem esperava dentro dos carros.
O silêncio era total. Os motores estavam desligados e mais ninguém saía para caminhar, o que fazia com que sentisse o peso de todos os olhos sobre mim.
Sustive a respiração e deixei a faca deslizar para um caixote de lixo vazio. O som clonc pareceu ecoar por todo o lado e reverberar à velocidade do meu ritmo cardíaco.
Voltei para o carro, como uma criminosa acabada de se livrar da arma do crime. Relembro, era uma faca para descascar laranjas. As laranjas de Marrocos são as mais doces que existem.
Voltei para o carro, como uma criminosa acabada de se livrar da arma do crime. Relembro, era uma faca para descascar laranjas. As laranjas de Marrocos são as mais doces que existem.
Sempre tive uma certa percepção afinada dos padrões subtis no ambiente. Podemos chamar-lhe intuição. Ou imaginação? O que estava a formar-se na minha mente era de tal forma rebuscado, que só podia ser a última:
À minha volta estavam centenas de carros, mas continuava a sentir o tal silêncio denso, acima do normal nos padrões do comportamento humano espontâneo e comum. Não havia música. Não havia barulhos de famílias a conversar dentro dos carros. Não havia mulheres nem crianças. Apenas homens. Nenhum deles era idoso. Todos os carros eram escuros, sem autocolantes ou objectos pessoais visíveis. Todos eram station wagons ou monovolumes recentes, sem marcas de uso, sem história. Não podia ser coincidência. Seriam centenas de coincidências. Centenas de coincidências é um padrão.
Os detalhes começaram a ligar-se na minha cabeça:
Os detalhes começaram a ligar-se na minha cabeça:
«Estes carros todos que estão aqui, não são pessoas comuns. São operacionais que trabalham para uma organização de transporte de drogas. Escolheram a passagem de ano para fazer entrar um grande carregamento de drogas em Marrocos, porque prevêem que a vigilância está mais relaxada nesta noite.»
Depois de ter ouvido a minha própria voz dizer estas palavras de uma só rajada, e sem racionalizar, voltei à postura céptica, em conflito comigo mesma. Isto é vício de pessoa que escreve. Estou a fabricar histórias, por certo.
Os pacotes rectangulares
Os pacotes rectangulares
À minha frente, abre-se lentamente a porta de um carro. Ao fundo, os polícias da fronteira chegam em grandes quantidades, em passo apressado com metralhadoras. O homem que abriu a porta do carro agacha-se e começa a enfiar grandes pacotes rectangulares dentro do blusão acolchoado, que alguém lhe vai passando do interior do veículo. Eu desvio a cara para o lado, fingindo não ver o que não convém testemunhar.
O silêncio é interrompido por várias portas de carros que se abrem e homens que se movimentam com agilidade, como formigas, fazendo deslizar os pacotes de mão em mão, para chegarem não sei onde. Não quis ver. A ignorância é uma bênção e quanto menos virmos, percebermos e soubermos, melhor. Ao fundo, na barreira fronteiriça, vejo homens correr e vários sujeitos serem algemados e levados.
Horas depois, no dia um de Janeiro, cansada e sem a faca de cortar laranjas, passo a fronteira para Marrocos ilesa, e com esta história que guardei até sentir que seria o momento mais seguro para contar. Foi agora.
O silêncio é interrompido por várias portas de carros que se abrem e homens que se movimentam com agilidade, como formigas, fazendo deslizar os pacotes de mão em mão, para chegarem não sei onde. Não quis ver. A ignorância é uma bênção e quanto menos virmos, percebermos e soubermos, melhor. Ao fundo, na barreira fronteiriça, vejo homens correr e vários sujeitos serem algemados e levados.
Horas depois, no dia um de Janeiro, cansada e sem a faca de cortar laranjas, passo a fronteira para Marrocos ilesa, e com esta história que guardei até sentir que seria o momento mais seguro para contar. Foi agora.
A beber sumo de laranja,
Hazel
Consultas de Tarot em Oeiras e Online
Tarot | Reiki | Reprogramação Emocional | Terapia Multidimensional | Regressão
Contacto: casa.claridade@gmail.com
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Fotos: Minhas. Chefchaouen, Marrocos.