Procura-se aranha viajante


CENTRO DE EMPREGO DAS ARANHAS
Anúncio afixado na Delegação da Sala - Canto da Parede Junto à Janela

Procuro:
Aranha aventureira e leal, com total disponibilidade para viajar curtas distâncias.

Ofereço:
Estadia no espelho lateral esquerdo do meu carro, música de boa qualidade (tenho sempre um duplo álbum dos The Doors no porta-luvas e, ocasionalmente, também lá canta o Bryan Ferry) e alimentação diversificada consoante o tipo de fauna que esvoaça nas localidades onde nos iremos deslocar.

Funções:
Deverá conhecer todos os meus caminhos, desvios e atalhos; saber guiar-me nas encruzilhadas e antever engarrafamentos. São valorizadas capacidades de orientação a estacionar em lugares apertados. Terá de suportar com heróica bravura ouvir-me cantar quando viajarmos sozinhas (os ouvidos humanos não possuem, lamentavelmente, imunidade para a minha voz).

Desafios da profissão:
Não poderá enjoar nas viagens de automóvel, nem ter propensão a ficar com a garganta inflamada devido às correntes de ar (é permitido usar cachecol, mas não muito comprido - vd. o caso da bailarina irlandesa Isadora Duncan).

Terá de ser resistente e musculada, com uma capacidade de sobrevivência superior à da sua antecessora, a minha saudosa companheira que era um autêntico sidecar aracnídeo, mas, infelizmente, não sobreviveu na última ida à lavagem automática (o risco é moderado, pois apenas lavo o carro uma, ou, no máximo, duas vezes por ano - e este ano já foi lavado).

Lidará diplomaticamente com comentários desmotivadores ocasionais, de pessoas que não compreendem os perigos, a emoção e o valor da profissão de aranha-viajante, que poderão por vezes viajar comigo e exclamar algo como: "Que nojo, já viste a teia-de-aranha que tens aí no espelho? Tens de limpar isso, dá mau aspecto."

Compreenderá sem ressentimentos que seremos amigas íntimas, porém, sem qualquer contacto físico. Viveremos uma relação platónica, embora de grande fidelidade.

Regalias:
Comprometo-me a não danificar as instalações aracnídeas, vulgo, teia-de-aranha.

É permitido constituir família, desde que as crias se mantenham na teia e não andem a fazer sapateado no interior do carro.

Será autorizada a dizer adeus às outras aranhas que viajam nos espelhos dos outros carros, conversar com elas quando pararmos na fila de trânsito e ter uma vida social preenchedora.

O meu carro é um carro onde se canta. Assim, a aranha que me acompanhar terá permissão para cantar os clássicos das viagens de autocarro, como "Aguarrás, aguarrás..." e outros êxitos semelhantes.

O vernáculo é permitido, aliás, dentro do meu veículo é considerado 'terminologia técnica' à qual se recorre, seja para fazer referência à condução alheia, seja para fins terapêuticos de alívio da tensão emocional.

Perfil:
A aranha que viajar comigo será mais que um mero co-piloto. Será uma companheira de aventuras, uma amiga, uma conselheira, um oráculo animal, e terá da minha parte toda a consideração e reverência dignos do mais nobre e fino corcel.

Poderão enviar por email os vossos curricula com nome, cartas de referência provenientes de outras aranhas mais experientes e indicação dos três últimos espelhos de carro onde viajaram.

Expectante das vossas respostas,
Uma viajante solitária,

Hazel
Foto: Efraimstochter, licença CC0

Manual do Terapeuta New Age


Se és terapeuta, não podes beber imperiais, panachés, vinho carrascão e ainda menos shots.
Bebes sumos detox com folhas de couve, de cor verde-vómito. Ou leite de amêndoas.

Comes muito pouco. Essencialmente, alimentas-te de prana, quinoa, bagas goji, tofu e sementes de periquito. És vegan, intolerante à lactose, ao glúten, ao açúcar e a todos os que não comem o mesmo que tu.

Não cobras um preço pelo teu trabalho, mas pedes uma "troca de energia", que é opcional - porque vives de esmolas e não podes tocar em dinheiro. O que significa que pagas a renda de casa, água, electricidade e gás com amor. E o teu senhorio aceita, claro. Assim como a EDP, companhia do gás e da água. Eles compreendem.

Não usas anéis de ouro, mas um anel Atlante. Tens um candeeiro de sal dos Himalaias na tua sala, onde também existe um pano pendurado com uma mandala indiana.

Vives num estado de permanente felicidade, desapego e luz. Nunca te zangas. No caso de seres mulher, não tens TPM e não usas pensos higiénicos nem tampões, mas copos menstruais de cores fofinhas. E todos têm de saber. Achas que todos os devem usar, até os homens - eles que arranjem maneira de os enfiar em algum lado.

Não ouves Marilyn Manson, AC/DC ou Metallica. Ouves Enya, Snatam Kaur e cânticos tibetanos.
Não fazes headbanging. Fazes danças devocionais. E tens uma tatuagem do infinito no pulso, no tornozelo ou na parte de trás do pescoço.

Saúdas aquele outro terapeuta que assume trabalhar em troca de dinheiro com "Namasté", mas no fundo achas que ele é um filho-da-puta garganeiro.

Não podes ter relações sexuais sem que estas sejam uma experiência tântrica, sagrada, higiénica e profundamente religiosa com visões de deusas indianas de oito braços (que se multiplicam em milhões de possibilidades eróticas).

Um terapeuta new age não diz palavrões. Entoa mantras.
Não faz manguitos nem piretes. Faz mudras.
Não tem dores de cabeça. Tem os chakras bloqueados.
Não deseja mal a ninguém. Só invoca a lei do retorno tríplice e deseja "muita luz".
Não tem vida pessoal. Existe apenas para servir os outros.
São os teus mandamentos.

Conduzes um carro emprestado - porque não podes ter bens materiais - que tem um autocolante a dizer "Free Tibet" ou com o símbolo do OM.

Sabes sempre quando Mercúrio está em movimento retrógrado e culpa-lo pelas chatices que arranjas por seres um desbocado que fala mais do que deve.

Tens um nome espiritual diferente do nome civil. Como Shiva, Angel, Brunhild, Nefele, Rainbowsoul, Epona, Ronan, Hazel, Shakti, Ariadne, Freya, Selene, Ísis e outros. Dizes que fazes "canalização", mas não sabes mudar a borracha de uma torneira que pinga.

Não passas uma tarde refastelado no sofá. Passa-la sentado em posição de lótus no zafu que compraste online a meditar sobre as origens do Universo e os seres interdimensionais. Não vês filmes de acção. Vês documentários sobre como descalcificar a glândula pineal.

Ficaste danado comigo pela caricatura que fiz de ti (de nós), mas no fim acabas por ter de me perdoar. Porque um terapeuta new age perdoa sempre. Ahah!

OOOMMMM,

Hazel

Porque o céu é mais largo no Alentejo



Não existe onde encontre tanta paz quanto no Alentejo. Não é pelo calor que amolece a determinação. Nem pela maresia na zona costeira que nos viaja em espiral desde as narinas até ao cérebro, fazendo crescer água na boca e esperança nos olhos.

Nem tão pouco pelo uso do gerúndio, a forma mais pacata e sem pressa de fazer uso dos verbos, levando-os até a perder a definição de tempos verbais para passarem a ser apenas um tempo nominal do verbo devido à falta de flexão de tempo. Ali o tempo é diferente do tempo nos outros lugares do mundo, e até os verbos se conjugam de outras maneiras.

Vou ao Alentejo para ver o céu. Sobre a planície, nas zonas rurais alentejanas, as casas e as árvores semeiam-se escassas e esparsas, deixando que o céu beije toda a superfície à nossa volta. Como o céu é largo ali.

Vemo-lo descer mesmo até ao chão, sobre nós, imenso, eterno, vivo como um Deus feito de azul e de oxigénio. Sentimo-nos aplacados pelo seu tamanho onde se entornaram latas de tinta em tons ciano durante o dia; e, à noite, embalados pelo canto hipnótico dos grilos, somos cobertos pelo manto negro salpicado de estrelas.

Ali encontro a minha pequenez, aconchegada por braços celestes que não têm fim.
Ah, Alentejo.

Falando e escrevendo usando o gerúndio,

Hazel

[Escrito a lápis de carvão no meu caderno, com a Ilha do Pessegueiro ao fundo e o horizonte aberto à minha volta.]

O Baile do Vento

foto: Christian Schloe
Dançam as árvores, os arbustos e as flores. Dançam os meus cabelos embaraçados e a ponta do meu vestido azul. Dançam as borboletas, mariposas, vespas, abelhas e libélulas. As bandeiras e as velas dos barcos. Dançam as ondas do mar que lambem a areia da praia. Dançam as agulhas de crochet com o fio de lã.

Dançam os pensamentos que voam alto onde encontram as aves de asas largas.
Abro os braços na imaginação e subo em espirais de ar quente como se o mundo estivesse de pernas para o ar e as sementes caíssem do chão para o céu.

Dançam as fadas, os silfos, as sílfides e os outros seres invisíveis. Dançam as penugens dos dentes-de-leão sobre os campos queimados pelo Sol. Dançam folhas secas, em fúria. Dançam gafanhotos apanhados de surpresa num salto. Dançam os sinos e os espanta-espíritos. Dançam cheiros, fumos, círculos de incenso, o vapor da cafeteira de chá a arrefecer no parapeito da janela.

Dançam as vozes, as gargalhadas, o choro e os suspiros. Dançam os moinhos, os cata-ventos e os galos nos campanários. Dançam teias-de-aranha que baloiçam para trás e para a frente. Dançam as cortinas nas janelas e as portadas de madeira que batem com força. Dançam as roupas lavadas penduradas no estendal que ganham vida quando o vento as veste umas a seguir às outras e as faz esbracejar.

Dança a areia do deserto e as moedas douradas que tilintam nos lenços de seda que cobrem o corpo sinuoso das odaliscas. Dançam bilhetes de amor roubados pelo vento antes de serem lidos. Dançam labaredas nas fogueiras de Verão que iluminam os corpos nus à sua volta. Dançam fitas coloridas que se entrelaçam em torno do mastro.

Dança a ponta do lápis sobre uma folha de papel branco, desenhando palavras que não servem para nada. Dançam as páginas do jornal, folheado pelo vento. Dançam as pontas das gravatas dos homens de negócios, sérios e circunspectos, incapazes de dançar. Dança a varinha de condão sobre os elixires perfumados. Dançam migalhas de pão sacudidas da toalha do pequeno-almoço, que os pardais depenicam.

Dançam papagaios de papel, koinoboris e bandeiras tibetanas que espalham preces de paz pelo mundo, levadas pelo vento que sabe ler em todas as línguas. Dançam as vagens das ervilhas nas plantações. Dançam as écharpes das senhoras elegantes.

Dançam as maminhas descaídas e os falos rodeados de floresta púbica na praia dos nudistas. Dança a chama da vela que tremeluz e dançam as sombras na parede. Dançam as cortinas do teatro a seguir às pancadas de Molière. Dança a vassoura que varre o lixo do chão e o das ideias. Dançam os fantasmas que se escondem nas portas e corredores. Dança a colher de pau que mexe a sopa de legumes. Falando nisso, vou parar de dançar para ir almoçar.

Num dia de vento quente,

Hazel

Sonho de uma noite solsticial

Imagem: John William Godward
De olhos fechados, vi-me aconchegada entre os ramos verdes das árvores com a delicadeza de uma ave no ninho. Estendi uma perna devagar. 

Os nós dos troncos de madeira roçaram na pele nua, arranhando-a como as unhas afiadas de um gato. As folhas frescas faziam-se cama sob o meu peso etéreo. 

Não sei se era mulher, se era pássaro. Recolhi as asas brancas nas minhas costas, inspirei o ar adocicado e continuei a dormir longe da terra, longe do mundo.

Sob os auspícios da Lua Cheia de Verão,

Hazel

Deixar de Beber Leite : Vantagens e Desvantagens


Há cerca de 3 anos, depois de ler alguns estudos sobre o assunto, tomei a decisão de deixar de consumir leite (seja de origem animal ou vegetal).

Na época, só encontrei estudos realizados por entidades, e não relatos de indivíduos, de pessoas reais. Assim, após este longo período de tempo, venho partilhar a minha experiência e os resultados positivos e negativos desta decisão. Talvez o meu testemunho neutro seja útil a mais alguém.

VANTAGENS
Os benefícios no aparelho digestivo foram bastantes: nunca mais tive cólicas matinais, perturbações na flora intestinal, ou enjôos após tomar o pequeno-almoço - que era algo que me acompanhava desde a infância. Ganhei algum peso, 4 ou 5 Kgs (o que, no meu caso, que sempre fui uma criatura magra, classifico como vantagem! haha!).

DESVANTAGENS
As minhas unhas passaram a crescer mais devagar (o que não me incomoda, pois sempre usei unhas rentes). O meu cabelo perdeu alguma força. Embora seja bastante longo, ficou mais fino e cai facilmente, o que me levou a tomar algumas medidas (assunto que irei desenvolver nos próximos dias - fiquem atentos!).

Alternativas para o pequeno-almoço

Cresci a beber leite todos os dias ao pequeno-almoço, como milhares de outras pessoas. Depois de deixar de consumi-lo, a minha primeira questão foi, justamente: "Então, e o que é que agora passo a beber de manhã?"

Bebo chás (diversos), como yogurte com muesli, bebo sumos, ou faço smoothies.
Muito raramente, bebo cappuccino (daqueles que se compra a mistura já feita e é só juntar água quente). Vou alternando consoante o que tenho em casa, o tempo disponível para preparação e a minha vontade.

Ninguém me pode chamar copinho-de-leite,
Hazel

Palavras e Expressões Alentejanas


Um destes dias, peguei no lápis e no meu caderno de pensamentos, e comecei a reunir uma lista de palavras e expressões alentejanas com que cresci. Ai que bem que soube! Esta vossa escriba não nasceu no Alentejo, mas a parte que vai desde as costelas flutuantes até às unhas dos pés é feita de 50% de genes alentejanos.

Com respeitosas desculpas por algum palavreado que poderá constranger alguns mui nobres leitores de trato mais cerimonioso - que os alentejanos de outrora chamavam tudo pelos nomes, ou então inventavam designações mais castiças - atrevo-me a partilhar este pequeno acervo de expressões coloquiais das terras do além Tejo, resgatado dos recantos mais poeirentos da minha memória, assim como algumas histórias:

Levas um par de nalgadas nã' tarda.
Foi logo a primeira expressão que me lembrei, porque levei muitas. Os alentejanos não usam a palavra "rabo". Só para os animais. Os humanos têm nalgas. Nalgadas são palmadas no rabo.

Pantomineiro (pronuncia-se pant'minêro).
Mentiroso. Aldrabão. Aquele que diz pantominices.

Estás aqui, estás a levar uma estampilha.
Bofetada. Também levei, especialmente da minha professora primária, que estava na menopausa e, para aliviar os picos de fúria, fazia o gosto ao dedo a esbofetear os miúdos que se esqueciam de fazer os trabalhos de casa (e eu era dolorosamente esquecida...).

Caga-te, porca.
Adoro esta. Tem tanto de embaraçoso quanto de cómico. Já não a oiço há anos.
É o equivalente ao "gaba-te, cesto", quando alguém tem a mania da superioridade e gosta de se vangloriar. Digo-a muitas vezes mentalmente.

Vou à da Conceição.
Ir "à da" é ir a casa de alguém que, geralmente, nunca é muito longe. No entanto, se a casa for longe, numa outra cidade a vários quilómetros de distância, nesse caso já se dizia "vou visitar a Conceição". Dizia-se sempre "à da", e nunca "à do", a menos que se tratasse de um homem que vivesse sozinho.

Cagalosa.
Havia uma vizinha alentejana com quem eu costumava ir para a praia de Carcavelos quando era pequena. Era uma mulher simpática, mas, benza-a a Deusa, muito bruta.

Na época, não sabia nadar. Ela obrigava-me a ir para a água; levava-me ao colo e deixava-me cair quando vinham as ondas e eu não tinha pé. Acabava por ir ao fundo, em pânico com a água a entrar-me pelo nariz e pela boca. Quando ela me agarrava e voltava a tirar da água, ria-se e dizia sempre "Ah, cagalosa!". - Eu ficava danada.

Cresci zangada com ela, porque passou um Verão inteiro a brincar aos afogamentos comigo e ainda tinha o desplante de me chamar cagalosa, porque sabia que me arreliava. Fingia que não a via quando passava na rua e, mesmo assim, ela exclamava sempre um sonoro e denunciador "OLH'Á CAGALOSAAA!".

Ainda hoje, se ela me encontrasse, me chamaria assim. E se na adolescência eu me encolhia de vergonha pela embaraçosa saudação, hoje tenho saudades de ouvi-la.
Mas da boca desta senhora. Que ninguém se atreva a chamar-me cagalosa. haha!
Quase me esquecia de referir o significado da palavra. Um cagaloso é alguém medroso.
[Esta vossa escriba já não tem medo da água, mas ainda sou cagalosa com as ondas, especialmente as do Guincho, que são bravas!]

Anda lá que n'a morres de coice de boi.
Deixa lá que isso não te vai fazer mal (quando temos medo que um determinado alimento nos vá fazer mal).

Rodilha = Pano de limpar a loiça. Ou roupa amarrotada.
Amolar = Arreliar. Aborrecer.
Assomei-me à janela. = Espreitei pela janela.
Titarada = Macacada. Confusão. Palhaçada.
Gaiato. Ou gaiata. = Criança. Rapaz ou rapariga novos.
A dormir e a caçar ratos. = A fingir que está a dormir.

Temos a porca nas ervilhas.
O equivalente a "está o caldo entornado". Ou ao igualmente ameaçador "mau, mau..."

Temos a burra nas couves. = Idem anterior.

Porra madrinha, que se caga a noiva.
Equivale a "porra", mas mais refinado, como se pode v(l)er. Expressão de espanto, admiração.

Parece que saíste do cu do burro. = Tens a roupa toda amarrotada.
Eu pareço sempre saída do cu do burro, porque não passo a ferro há muitos anos.

Foi prender o burro. = Amuou, fez birra.
Está com o grão na asa. = Está bêbedo.
Isso traz água no bico. = Ter segundas intenções.
Testo = Tampa (da panela, por exemplo).
Chocolatêra = Cafeteira.
Aventar = Deitar fora.
Canalha = Grupo de miúdos.
Astro = O céu. Exemplo: "O astro hoje está carregado, vem lá trovoada."
'tou cá com uma lanzêra. = Estou cá com uma preguiça/moleza.
Magano = Maroto, traquinas.
Zorra = Raposa
Ametade (pronuncia-se com os dois "ás" abertos) = Metade.

Cagando e andando (nem acredito que escrevi isto),

Hazel

Carta ao Sindicato dos Suportes de Rolo de Papel Higiénico


Protesto! Sou um suporte de rolos de papel higiénico e quero trabalhar!
Nesta casa onde vivo, ninguém me respeita nem considera. Sou o objecto mais desprezado de todos. Parece que não me reconhecem utilidade. Passo semanas na companhia do mesmo rolo de cartão com apenas uma (1!) única folha esfarrapada de papel higiénico colada, que alguém deixou ficar para não ter de colocar um rolo novo. E assim fico abandonado, neste local de maus odores e vista para as nádegas e pendurezas que por aqui passam.

Um dia, a porta da casa-de-banho estava entreaberta e, daqui do meu cantinho, nos azulejos entre a sanita e o bidé, consegui espreitar pela porta também meio aberta da outra casa-de-banho do lado, onde morava outro suporte de rolos de papel higiénico igual a mim, que era muito meu amigo, e o único que compreendia e partilhava as mesmas queixas que eu.

Contudo, fiquei tristíssimo. Ele já não estava lá. Alguém o deitou fora e, no seu lugar, estava - imagine-se - uma cesta de palha. Que pouca-vergonha. A delambida da cesta de palha, cheia de atitudes de lambisgóia com auto-proclamada importância, tinha um rolo de papel higiénico inteirinho dentro. É justo?

Receio muito pelo meu futuro. Cada vez que um par de nádegas se senta perto de mim, fico a pensar se serão as últimas que verei. E se um dia também serei substituído como foi o meu colega da casa-de-banho do lado. Protesto, pois, então! Quero trabalhar!

Os rolos de papel higiénico rodam com tanta alegria quando a sua folha é puxada para limpar entrefolhos obscuros e narizes ranhosos. Foi para isso que nasci.
Por favor, deixem-me trabalhar! Assinado: O suporte de rolos de papel higiénico.

Hazel

Faróis de Nevoeiro : Atravessar a Metade Escura do Ano.


Nos tempos antigos, dividia-se o ano em duas metades: a metade clara e a metade escura. Duas partes opostas que os Deuses costuraram usando a linha do Equador.

Na metade clara do ano, tudo é luz, expressão e expansão. O horizonte sem fim, sob o vôo planado das aves migratórias que estendem as asas aquecidas pelo Sol, é tão nítido e límpido quanto a certeza no amanhã. Como é fácil sonhar e alimentar a esperança quando conseguimos ver o que está mais à frente.

As tardes caleidoscópicas do Verão seduzem-nos com a ilusão da eternidade, mas a espada de vento frio do cavaleiro-negro-Inverno acaba por roubar-nos o calor e a luz. Perde-se a clareza do horizonte oculto pela névoa, para que o procuremos - assim como tudo o resto - dentro de nós.

Quando não vemos o que está à frente, receamos. Duvidamos. E está bem assim.
É preciso recear e duvidar, para desafiar as certezas. E é preciso ter certezas para confrontá-las com a dúvida e o receio. Algures no meio da viagem, estará a linha do Equador, o meio do espelho.

Mergulhamos no lago sombrio da metade escura do ano, onde a luz fraqueja e as águas gelam. O silêncio das pedras, outrora aquecidas pelo Sol de Verão, dá lugar ao lamento do frio que se agasalha com um manto de musgo verde.

Não há como fugir à sombra para viver num eterno Verão. Se assim fosse, o ciclo de renovação da Natureza cessaria. Deixaria de existir a morte que antecede o renascimento. E morrer não é fácil. Dói muito.

Acabamos por sucumbir para tão logo renascer na divina fracção de segundo em que compreendemos que lágrimas são a chuva do Inverno da alma que vem para regar a terra, escorrendo através das folhas secas das certezas caídas, e alimentando as árvores que se elevam numa nudez tão crua e delicada como aquela em que nos encontramos perante o espelho de nós mesmos.

Retornaremos à luz após atravessarmos o vale das sombras. Os atalhos, horizontes e candeias perdem-se ao longe no nevoeiro como ecos difusos do pensamento. Nesta estação dada à introspecção, preservemos, assim como a semente que aguarda nas profundezas da terra, o silêncio e a paciência, e confiemos na alquimia que transforma o quase-nada a que nos rendemos na promessa do que está para vir com o regresso da metade clara do ano.

Na linha do Equador,

Hazel

Com os Parafusos todos bem Apertados

O calor do momento são as engrenagens da vida em sobreaquecimento, por estarem há demasiado tempo a rodar na mesma direcção. Ferro escaldante que bate contra ferro incandescente num movimento já gasto, estafado, mas demasiado célere para conseguir travar.

Um grão de areia que cai no ponto certo de ebulição faz saltarem faíscas e provoca explosões, emoções e palavras corrosivas que queimam e derretem o metal.

As engrenagens fumegantes perdem velocidade. O fumo preto risca o céu azul matutino.
Tudo se desencaixa, tudo se desmonta. Inúmeras peças pequeninas que se soltaram rodam pela rua fora, sem destino. O metal estala de alivio ao arrefecer.

Silêncio.

A máquina da vida, que é perfeita, volta a ser cuidadosamente aparafusada por hábeis e pacientes mãos. O vento sopra morno e as engrenagens recomeçam a rodar, desta vez, numa direcção diferente.

O monstro obsoleto onde o cotão se empastava em óleo queimado e malcheiroso é agora uma primorosa reinvenção steampunk, onde as rodas dentadas giram reluzentes com o ritmo da música. No calor do momento, mudam-se destinos.

No centro da roda dentada,
Hazel

As Rosas de Heliogábalo - Alma-Tadema

"As Rosas de Heliogábalo" - 1888
Ninguém diria que este quadro, pintado pelo holandês Sir Lawrence Alma-Tadema, tão belo, delicado, leve e perfumado, na verdade, é um retrato perfeito da malvadez requintada.

Heliogábalo é o cognome atribuído post mortem ao jovem imperador romano Marco Aurélio Antonino. Tornou-se Imperador aos 14 anos de idade, foi assassinado aos 18.

Os seus quatro anos de poder (e últimos de vida) foram marcados pela excentricidade e escândalos sexuais e religiosos. Casou-se 5 vezes, uma das quais, com uma virgem vestal. Teve vários amantes do sexo masculino, usava maquilhagem e prostituía-se. Ofereceu uma fortuna ao médico que pudesse operá-lo de forma a ter órgãos sexuais femininos.

O quadro "As Rosas de Heliogábalo" eterniza um banquete onde se vê o Imperador em segundo plano, deitado juntamente com alguns dos seus favorecidos, a observar com deleite os restantes convidados enquanto estes são asfixiados com milhares de violetas, rosas e outras flores que caem inesperadamente de um tecto falso.

Um assassinato perfumado, premeditado por um Imperador caprichoso, intoxicado pelo próprio poder e pelo sentido de beleza até no mais vil e traiçoeiro dos actos.

Sobre o perfume das flores,

Hazel

Manifesto Anti-Galo de Barcelos

A Lenda do Galo de Barcelos
Reza a lenda que tinha havido um crime, e um galego que estava de passagem tornou-se o principal suspeito. Foi condenado à forca. Desesperado, o homem implorou que o levassem ao juiz. Este, encontrava-se a jantar com os amigos. Sobre a mesa, estava uma travessa com um galo assado. O galego, insistindo na sua inocência, disse:

"É tão certo eu estar inocente, como certo é esse galo cantar quando me enforcarem."

Ainda assim, a condenação foi em frente. No momento do enforcamento, o galo assado levantou-se da travessa e cantou. O juiz, tomando consciência de que tinha cometido um erro, correu para o condenado e retirou-o da forca que, graças a um nó mal feito, não o matara.
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Desde o séc. XVI, o Galo de Barcelos tornou-se um símbolo nacional. De Norte a Sul do país, várias gerações de artesãos portugueses ― quase se diria possuídos pelo espírito do galo cantante ― não têm feito outra coisa ao longo destes últimos cinco séculos, senão galos de Barcelos.

Meus senhores, o bicho está em todo o lado. Em estatuetas de todos os tamanhos e géneros, aventais de cozinha, azulejos, pratos, canecas, copos, travessas, brinquedos, tabuleiros, bordados, caixas, joalharia, almofadas, toalhas, canetas, saca-rolhas, guardanapos, tapetes, cortinas, relógios, porta-chaves, livros para colorir, bijuteria, colchas, talheres, tecidos estampados... ad nauseam!

Nem sei como não está na bandeira nacional, em lugar da esfera armilar.

Esta semana, estava a folhear as promoções dos supermercados e lá estava ele na secção de têxteis: panos da loiça estampados com o Galo de Barcelos, por 1€.

Com tantos padrões que existem, pelo amor da piriquita. Riscas, bolinhas, axadrezado, vichy, cornucópias, losangos, chevron. As modas passam, mas o velhaco do Galo sobrevive a tudo. Pudera, pois se ele cantou depois de ter sido assado, qual zombie de penas estorricadas.

Se houver alguém em Barcelos que esteja a ler isto, peço encontrem outro símbolo. Um pintainho, um perú, um gafanhoto ― o que quiserem. Mas concedam descanso ao galo!

Há cinco séculos ― repito, cin-co-sé-cu-los ― que o vemos em todo o lado. Todos conhecemos o Galo de Barcelos, desde que nascemos; aliás, já o aturamos desde há não sei quantas encarnações antes desta. Por isso, num momento de profundo e galináceo desvario, resolvi escrever este Manifesto Anti-Galo de Barcelos.

O Galo de Barcelos é chato.
O Galo de Barcelos nem sequer sabe cantar, porque é desafinado.
O Galo de Barcelos não passa de um frango que foi mal assado.
O Galo de Barcelos é fatela e piroso.
O Galo de Barcelos é um garganeiro que ocupa o espaço todo e não deixa as outras lendas serem também dignamente representadas em panos-da-loiça-a-1-euro.
O Galo de Barcelos cheira mal das patas! E tem a crista despenteada!
O Galo de Barcelos merece paz e descanso! E nós também! Dele!


Tenho a certeza que vem nas profecias do Nostradamus que os panos da loiça do Galo de Barcelos serão os últimos sobreviventes após o fim do mundo.
Quem viver, verá!

Horrorizada com a descoberta de um pano da loiça do Galo de Barcelos no fundo de uma das gavetas da minha cozinha,

Hazel