Hospital de Corações


Acabei de inventar. Quem está doente do corpo vai para o hospital “comum”, quem está doente da cabeça vai para o hospital psiquiátrico e quem está doente do coração vai para o hospital de corações.

É um edifício semelhante aos outros por fora, mas com pessoas mais simpáticas e cuidadosas. Todo o staff usa sapatinhos de lã, roupa colorida e também faz parte do equipamento um medidor de dores de coração em vez do vulgar estetoscópio. Neste serviço curam-se mágoas, angústias, tristezas e desgostos de amor.

Os corredores são forrados de algodão até ao tecto e o chão tem relva macia e perfumada. Nas enfermarias, os pássaros trazem gotas de madressilva no bico que vão depositando mililitro a mililitro nas feridas expostas. Ali o Betadine não tem serventia.

Os pacientes magoados são aconchegados em lençóis de asa de pássaro e fecham os olhos durante muito tempo até se sentirem capazes de voltar a abri-los sem perigo de desidratação devido aos ribeiros que deles transbordam em águas contaminadas. É preciso limpar, secar, repousar e, acima de tudo, abrandar o ritmo dos batimentos cardíacos que cavalgam desenfreadamente pelos campos pedregosos da dor.

Na hora das refeições, serve-se tempo em modestos tabuleiros. Puré de tempo com escalopes de tempo, salada de tempo e, para beber, tempo espremido. Os pacientes não gostam do cardápio, mas é o único que realmente pode ajudar. A dieta do tempo, além de desinteressante e insípida, ainda tem a terrível desvantagem de ter de ser seguida durante muito tempo.

Não existe roupa para os pacientes no hospital dos corações. Andam nus, despojados de tudo o que possa causar ainda mais peso que aquele que já transportam. Apenas as asas de pássaro servem de agasalho nas noites mais frias e solitárias, onde se ouve o eco do choro e o gemido da dor abafado nas almofadas. Mas há-de passar, tudo passa um dia, com a ajuda do Doutor Passarinho. Ei-lo a entrar agora no gabinete de medidor de dor de coração pendurado no bico para auscultar mais uma paciente que acabou de dar entrada.

Chama-se Hazel e vai ficar na cama cinco, junto à janela. Um bando de pássaros-enfermeiros faz-se acompanhar dos auxiliares em sapatinhos de lã para ajudar a recolher as águas que lhe escorrem dos olhos. A cura vai demorar. Submetida à dieta do tempo, a paciente debate-se e implora por uma anestesia geral ou a eutanásia, mas ambas lhe são recusadas. Terá de aguentar. Terá de conseguir.

Esta semana, o arcano Três de Espadas diz-nos que por muito que doa, um dia tudo acabará por passar. Quando? Não sei. Mas não pode haver tempestade que dure para sempre.

Hazel
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Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1688
foto: Comfreak, licença CC0

A louca da camisa de dormir


A louca da camisa-de-dormir todos os dias faz o mesmo percurso que se cruza com o meu, ora de manhã, ora pela tardinha. Contemplo a visão onírica da senhora de meia-idade que atravessa a estrada sem pressa, a chinelar nas suas chanatas de quarto com borlas emplumadas em seda rosa-pétala, cabelos de nuvem e às vezes um robe puído sobre a camisa-de-dormir comprida.

Há no seu semblante triste a beleza silenciosamente desesperada e suspensa no tempo de uma mulher que naufragou e não pára de nadar mesmo sem mar entre as vagas dos dias que se sucedem — sem nunca chegar a terra.

Não usa chapéu para se proteger da chuva — parece mesmo não a sentir. Caminha de olhos fixos no vazio e mãos caídas. Vejo nela o avesso de nós, que saímos de casa vestidos, aprumados, ordenados e perfumados.

Talvez sejamos nós o avesso dela:

Quando regressamos a casa, libertamo-nos dos atavios sociais e vestimos a roupa-de-andar-por-casa, que costuma ser confortavelmente triste e gasta, às vezes tem nódoas que não saem, está debotada e pingona, mas somos incapazes de a deitar fora.

A roupa-de-andar-por-casa é o sorriso que esmorece pelo cansaço ou pelo enfado da rotina. A maquilhagem que cai desmaiada nas olheiras, os cabelos desalinhados, as unhas dos pés compridas, os chinelos velhos e um pouco (ou muito) fedorentos, que cheiram a casa, a conforto e a amparo.

A voz áspera do catarro, a rabugice do Domingo à noite, o ranho a espreitar das narinas dos gaiatos, as caretas que fazemos para o espelho quando vamos a caminho do duche pela manhã. A suposta ausência de beleza a que nos permitimos entregar — e onde repousamos — quando nos sentimos seguros e protegidos do olhar alheio.

É a verdade do que somos, com os nossos maus cheiros, pêlos que despontam bravios onde menos queremos, cabelos oleosos junto à raiz e aquele bocadinho de sujo debaixo das unhas — a crua humanidade que não nos atrevemos a partilhar senão com aqueles que sabemos que vão amar-nos por completo.

O arcano Sete de Espadas aponta-nos para as nossas roupas de andar-por-casa e de andar-na-rua, para as mentiras que contamos ao mundo e a nós mesmos. Todos mentimos. Até o mais honesto de nós. Porque se mostrássemos toda a verdade como ela é, seríamos para os outros uma louca em camisa-de-dormir.

Hazel
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Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1686
Foto: fotografreneasmussen

O Deus Mitra das calças coçadas


Encontrei Deus dentro de mim. Afinal não parece o Gandalf. Nem barba tem, o velhaco, excepto um punhado de pelitos manhosos que lhe escurecem o buço, formando um bigode ralo e insolente.

Dei com ele entre a minha terceira e a quarta vértebra, sentado a ler um livro virado de cabeça para baixo. Além de escrever direito por linhas tortas, também lê livros de pernas para o ar. Misteriosos são os desígnios do Senhor, carago.

O comboio da linha de Cascais ilumina-se momentaneamente com um clarão entre Caxias e Santo Amaro, enquanto o maluco que diz que viu Deus prossegue o seu relato da experiência. Os passageiros fingem distrair-se de olhos perdidos na paisagem que foge pelas janelas, mas todos o escutam com secreta e atenta curiosidade.

Usa calças de ganga coçadas (não o maluco, mas Deus), com o tecido completamente gasto na zona genital devido ao roça-roça das coxas gordas, descaídas como se as tivesse esquecido de puxar ao sair do quarto-de-banho. Fuma marlboro lights e tem um gorro de lã cheio de borbotos enfiado pela cabeça. Compreende-se, depois de ver o seu ar de mitra suástico, que tenha achado mais legítimo comunicar com Moisés através de uma sarça ardente.

Já O havia procurado nas nuvens, no coração da floresta, nos altares pagãos e nos rituais cristãos, no desfiar das contas do japamala, no desvario da luxúria e, quando desisti, ei-Lo!, todo este tempo dentro de mim, a rir-se com tosse-de-catarro-de-fumador da minha ingenuidade de crente bem-intencionado (paragem em Algés, temperatura exterior: 13 ºC, entra uma velhinha com tosse cavernosa).

Perguntei-lhe o porquê do dilúvio, da arca de Noé, das epidemias, das dez pragas do Egipto, do kizomba e de outras calamidades que têm atormentado a Humanidade desde o fiat fux; e porque não resolve de vez a querela com o Diabo e ficam amigos de novo. Ele expira o fumo do tabaco e sorri com indiferença de gato gordo.

Deus não quer saber de nós, amigos. Deus está-se marimbando. Agora percebo porque é que as vezes em que me comportei como um tipo decente, fui enganado por gente de má índole, mas quando me comporto como um sacana, safo-me boa parte das vezes. Deus sou eu.

Os passageiros seguem com o olhar o maluco-que-viu-Deus, enquanto este sai na estação de Santos. O comboio prossegue a marcha para o Cais do Sodré, mais sisudo e cinzento, agora sem Ele.

O arcano Valete de Espadas espicaça-nos com a ponta de um alfinete, atiçando-nos a astúcia e o estado de alerta, desafiando-nos a encontrar outras verdades dentro da verdade. No entanto, é sempre bom recordar que nada disso é suficiente se não aprendermos a compaixão e consideração pelos outros — e por nós próprios.
Deus O perdoe.

Hazel
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Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1662
foto: NeuPaddy, licença CC0

A Princesa Ranhosa, um conto de fadas moderno


Era uma vez uma bela princesa que vivia numa torre de apartamentos remodelados ali para os lados das florestas luxuriantes de Mem Martins, mesmo antes de chegar a Sintra. Bela é como quem diz: a voz de bagaço, o buço que lhe crescia junto aos cantos dos lábios, o acne, as olheiras profundas e os dentes podres dos tempos da heroína não a deixavam ser muito bem-apessoada; mas era a princesa de lá da rua, isso era.

Bela (diminutivo de Belarmina) suspirava por um mancebo escorreito da Amadora, que trabalhava na loja de reparação de telemóveis do Centro Comercial Babilónia.

Sonhava com o dia em que ele apanhasse a IC19 montado na acelera de cromados reluzentes e viesse salvá-la da reclusão da sua torre húmida, solitária e assombrada pelo fantasma da vizinha de cima (que ainda não se tinha finado, mas matava-lhe a paciência com o feitio desgraçado e o arrastar de móveis à noite).

Para seu desgosto, o gaibéu gostava de outra, uma flausina qualquer do Estoril, de cabelo-alisado-a-ferro-quente e unhas de gel cintilantes, espetadas como garras de gata assanhada. Cansada de esperar por um salvador que nunca chegava, fez uma longa trança com os seus cabelos e atirou-a pela janela.

Os transeuntes, que caminhavam em passo apressado para apanhar o comboio na interface Algueirão-Mem Martins, desviaram-se repudiados com o cheiro nauseabundo das melenas que não viam água há anos, onde os piolhos já tinham construído uma autêntica metrópole com arranha-céus, vias rápidas e edifícios com elevadores panorâmicos que iam dar à parte de trás das suas orelhas.

Vencida pela indiferença cruel do mundo ao seu sofrimento, atirou-se para a cama e enterrou o rosto no travesseiro. Havia de chorar até morrer.
Ou até lhe caírem os olhos.
Ou até o ranho lhe começar a entrar na boca.
Foi a terceira: quando as ranhocas começaram a empastar no buço, sentou-se na beira da cama e mergulhou as mãos nos bolsos do vestido à procura de um lenço para se assoar.

Encontrou um pente desdentado, um isqueiro Bic sem gás e, quando puxou com a ponta dos dedos pelo lenço ouviu o som metálico de algo a cair no chão. Uma chave! — tinha estado sempre no seu bolso. O tempo todo.

Limpou o ranho da cara com a manga do vestido, rodou a chave na fechadura e abandonou a torre onde se tinha fechado a si mesma, dando por findo o conto.

O arcano 8 de Espadas surge-nos com a clareza fria de uma mão que toca o próprio reflexo no espelho, mostrando-nos em simultâneo a vítima e o autor. De pouco adianta esperar por dias melhores, por alguém, por uma sorte que nos saia, pelo raio que nos parta, o diabo que nos carregue ou um deus que nos acuda.

Não vem ninguém porque ninguém nos pode salvar de nós mesmos.

Quando as circunstâncias da vida nos encurralam a um canto, só nos resta sair pelos próprios pés. Entre arriscar tomar uma decisão, ou permanecer insatisfeito por uma não-decisão, é preferível deixar de ser uma princesa, limpar o ranho — e sair da torre.

Hazel
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Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1653
Foto: cocoparisienne, licença CC0

Cuspir ou Engolir


«Se houver alguém que se oponha, que fale agora ou cale-se para sempre.»
A gaveta da cozinha deslizou para fora e uma mão pesada tacteou por uma faca afiada que emergiu, gélida e reluzente, reflectindo a luz mortiça da lâmpada fluorescente e uns olhos raiados de sangue. A casca do limão caiu delicadamente sobre a bancada.

O silêncio sepulcral foi interrompido pelo som da torneira a encher o fervedor de aço inoxidável. Um riscar de fósforo. Sentou-se à espera que o chá acabasse de ferver enquanto limpava demoradamente a sujidade das unhas com a ponta da faca e a imaginava a escarafunchar por entre a terceira e a quarta vértebra do sacana do Ermelindo. Teria de fazer força para perfurar a pele e de fazê-lo com agilidade suficiente para evitar que ele se conseguisse defender a tempo. O cretino havia de revirar os olhos e esticar o pernil em minutos.

Espremeu o limão como quem expele o próprio desdém e juntou o sumo ao chá acabado de ferver. Adoçou com mel, mexeu com a colher e levou a caneca aos lábios. Estendeu o jornal à frente, sobre a mesa. Na primeira página, pareceu-lhe ler o título “Engoliu uma espada e foi parar às urgências”, mas a tosse e a febre causada pela garganta inflamada turvavam-lhe a visão e o entendimento; devia ser uma espécie de alucinação. Que importa, as notícias nunca trazem nada de novo.

Fechou o jornal, engoliu o resto do chá e arrastou os chinelos até à cama. Há sapos que nem um homem com goelas de pelicano consegue engolir. Quando se obriga a isso, fica ferido por dentro, as palavras que quis dizer e não lhe saíram para não maçar os outros queimam-lhe as vísceras. Não admira que tivesse ficado com a garganta neste estado.

A noite foi um tormento de ranho, suor e pesadelos que se dissiparam com a luz limpa e fresca da manhã. A febre tinha passado, mas a tosse ainda persistia. Na mesa-de-cabeceira encontrava-se a faca, testemunha silenciosa do plano homicida da noite anterior, que agora se revelava ridículo e tresloucado.

Esta semana, o arcano Ás de Espadas recorda-nos que se tivermos de escolher entre ficar mal com os outros e ficar mal connosco, mais vale optar pela primeira. Afinal, somos nós que nos aturamos a nós mesmos desde o primeiro até ao último dia.

«Bom dia. Quero falar com o Ermelindo, se faz favor.
Sim, é urgente.»

As mãos seguravam o telefone firmes como as de um cirurgião. A vontade também. Teria de encontrar um novo emprego. Aliás, dois empregos, para suportar a indemnização que iria ter de pagar ao ex-sócio a quem acabara de enviar para a genitália da respectiva tia. De mãos a abanar, alma lavada e com a tosse finalmente curada, o homem que tinha engolido uma espada jurou a si mesmo que nunca mais se deixaria rebaixar por ninguém.

Hazel
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Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1647
foto: Free-Photos, licença CC0

Beldade de labaredas pintadas


O Tragédias olhou em frente, mordeu o lábio inferior e contraiu o esfíncter como se isso o fizesse encolher e passar despercebido ao carro da polícia parado no cruzamento com a Rua Artilharia 1. Safou-se, o marialva de cabelo lambido. Por segundos de distracção policial quase era mandado parar por circular sem farol traseiro na mota e com o escape meio solto, a dar-a-dar, montado à pressa como fazia todas as manhãs para ir trabalhar.

«Esta ninguém m'a tira», pensava enquanto dava um estalo de satisfação com a língua. Depois de, nos últimos três anos, lhe terem roubado pela calada da noite quatro motorizadas seguidas que muito suou para pagar, tomou medidas drásticas — e criativas. A última aquisição, uma Honda CG 125 vermelha, antiga mas com umas labaredas desenhadas que lhe davam estilo e personalidade, era todos os fins de dia desmontada num tempo record de dezasseis minutos. Os gaiatos da rua sentavam-se no passeio a apreciar a velocidade com que as peças saíam, de olhos brilhantes e cronómetro na mão.

A porta de casa escancarava-se como se esta acabasse de ser invadida por uma trovoada trôpega com cheiro a cerveja e uma cacofonia metálica de escape, amortecedores, espelhos, faróis, manetes de travão, selim, depósito e tudo o que conseguisse enfiar dentro da cozinha, para garantir que o pouco da beldade-com-labaredas que pernoitasse na rua não valeria aos larápios o esforço de partir correntes e cadeados, e ainda lá estaria ao raiar do dia.

Os gritos e o vernáculo desesperado do Tragédias à procura das peças eram o despertador da Rua da Bica todas as manhãs nos dias de semana; era uma cómica tragédia, porque nunca encontrava as peças todas. Desmontar era fácil, mas voltar a montar a Honda era outra conversa. «Ai homem, tu matas-me!», os chinelos da Edite, que começava o dia a correr afogueada com os faróis apertados contra o peito montanhoso para não caírem ao chão, ouviam-se apressados escada-acima-escada-abaixo no prédio.

«‘té logo!» Lá ia ele. Dobrava a esquina triunfante por ter levado a melhor aos ladrões, ainda que isso implicasse ter todos os dias o fadário de desmontar e montar a motorizada.

Esta semana, o arcano 7 de Espadas surge-nos como um vil malandro à espera da ocasião que o revelará patife sem coração, capaz mesmo de tentar preencher o próprio vazio com a segurança do colchão alheio, por maldade ou mesquinhez de alma empobrecida que nunca conseguirá, por isso, encontrar um vislumbre de luz.

Resta-nos, tal como o genial e persistente Tragédias, separar por peças toda a nossa estrutura, reinventar-nos, recriar-nos diariamente. Todos os dias são dias para começar de novo.

Hazel
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Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1646
foto: Free-Photos, licença CC0

Agosto, mês de desgosto


Um novelo de cotão, um pedaço de Chocapic, um papel de rebuçado bola-de-neve amachucado e uma lasca de coração. O meu. Homessa, o que uma pessoa descobre quando muda o sofá de lugar.

Reuni o bocado de coração aos outros que se encontravam esparsos como fragmentos de navio naufragado; debaixo da cama, dentro do copo das escovas de dentes, caídos no fundo do frigorífico. Cheguei mesmo a encontrar um pedaço do ventrículo inferior esquerdo a balançar no candeeiro da sala.

Andei a juntá-los com Paciência para ver se conseguia consertar com cola-tudo, mas ficaram a faltar bocados. Desnorteada, deitei tudo fora. Já diziam os antigos, cacos só trazem infelicidade.

De maneira que andei uma data de dias por aí sem coração. O sangue circulava por especial favor do cérebro que veio fazer as vezes do órgão cardíaco, mas que me moía o juízo com reclamações por estar a fazer o trabalho do outro.

Onde é que desencanto agora um coração novo, indaguei aos meus botões e ao fecho-éclair da saia. Apareceram corações de papel, de loiça e até de pano — que não tinham serventia. O meu teria de ter sangue, nervoso miudinho, veias, força, alma, paixão, ganas.

Agarrei no pano do pó, no espanador-de-penas-verdes e na esfregona, e pus-me a limpar o espaço desabitado junto aos pulmões. Lavei, esfreguei, tirei as teias-de-aranha abandonadas e até pendurei quadros novos.

Mas nada ali morava além do vazio silencioso e de uma dormência em sentir fosse o que fosse. Nem uma mosca se ouvia. Receei estar a tornar-me, agora sim, uma besta. A ser, pelo menos, seria uma besta limpinha e organizada. Daquelas que até dobram o pijama e o guardam debaixo do travesseiro.

Azedo e impiedoso, o arcano Três de Espadas ensina-nos que não somos um par de sapatos para ficar arrumados numa caixa. Bem sabemos que os sapatos guardados vão sempre magoar-nos os pés e mordê-los como se tivessem dentes.

Para meu espanto, no outro dia, quando encostei a cabeça no travesseiro, ouvi um barulho que se tinha tornado quase desconhecido. Alguém a martelar nas paredes?
A música dos vizinhos? Kizomba (o horror)? Um carro a buzinar? Não, não podia ser.

Ga-gum, ga-gum, ga-gum, insistia o barulho. Pelas abençoadas banhas na barriga de Afrodite, querem lá ver que. Que isto. Que isto é. Um. Coração? Dentro do travesseiro? Acendi o candeeiro da mesa-de-cabeceira de olhos arregalados.

Não, o travesseiro não tinha nada lá dentro. Ai Senhores. Deitei as mãos ao peito, os ribeiros a escorrerem-me pelos olhos, quando descubro que era cá dentro, aqui.

Páro de escrever e espeto um dedo no peito como se vós que me ledes pudésseis ver.

Um coração a bater dentro de mim. Novinho em folha, acabado de nascer.
‘que pariu! Renasceu, o safado. Renasceu. Tudo passa. Também isto passará.
E passou. Adeus, Agosto; vai, que já vais tarde.

Hazel
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Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1645
Foto: Gere, licença CC0

O fantasma cor-de-rosa


Sentei-me a beberricar uma chávena de café com os meus fantasmas. No rádio toca Cyndi Lauper para distrair a melancolia e lá fora o Sol ondula como uma sereia de fogo por trás de um véu vaporoso de nuvens brancas.

Antes de eu ter nascido, a minha avó herdou da sua prima uma toalha de linho antiga. A dita senhora era referida como “excêntrica”. Vivia sozinha numa casa abafada e silenciosa, morbidamente arrumada; cristalizada no tempo, onde já nem as aranhas faziam teia. As janelas tinham redes para filtrar o atrevimento invasivo dos mosquitos — e da vida.

A única companhia que tinha era o espírito da sua falecida irmã, por isso nunca se sentava a meio do sofá, mas no canto, de forma a que esta pudesse ocupar o espaço que continuava vazio ao seu lado.

O fantasma não foi invejoso. Aguardou pacientemente, com a mansidão de quem sabe que o fim sempre acaba por chegar. A prima Rosa partiu muito velha e totalmente ignorante dos prazeres-de-alcova: virgem. Vestiram-na toda de cor-de-rosa, a cor do seu nome e da feminilidade nunca explorada na carne, como era tradição.

A toalha de linho, com mais de cento e cinquenta anos, passou grande parte da existência guardada como uma relíquia no fundo de um baú com bolas de cânfora, no sótão da casa onde cresci. Ninguém lhe tinha particular afeição. A minha avó não a usou. A minha mãe também não. Ficou reservada para mim, à espera que tivesse idade suficiente para recebê-la.

Sei agora que a prima Rosa não era louca. Apenas via o que os outros não conseguiam vislumbrar por estarem tão apegados à matéria e aos seus egos. Reconforta-me ter sido a sucessora da velha toalha de linho e talvez de alguma da sua excentricidade.

Não me incomodam os fantasmas. Vejo-os sentados à mesa a observarem-me em silêncio, testemunhas de uma vida que aprendeu resignadamente a aceitar as ausências. A música toca alto na cozinha para eu ter a certeza que não sou também um fantasma.

Seria divertido poder dizer que a toalha de linho está assombrada e muda de lugar durante a noite, mas nunca aconteceu. Tive-a por muito tempo sobre a minha secretária, onde tantas vezes lanço as cartas de Tarot, abrindo o livro da vida, para mim e para os outros. Há uns meses, guardei-a no fundo de uma gaveta, onde talvez repouse por uns cinquenta anos à espera da sua sucessora que um dia nascerá, daqui a duas gerações.

O arcano Dez de Espadas vagueia à nossa volta como um fantasma misterioso, soprando no vazio que todas as almas transportam, reclamando um lugar para se sentar ao nosso lado. Não devemos deixar que os nossos fantasmas fiquem por muito tempo — ou corremos o risco de encontrar redes nas nossas janelas a filtrar-nos a vida e o ar novo.

Hazel
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Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1641
Foto: junko, licença CC0

Plantas do demo


Debrucei-me para a frente sem vergonha nenhuma dos vizinhos e apanhei os dois vasos que alguém deitou para o contentor do lixo na curva à entrada da minha rua. Um com túlipas cor-de-rosa, o outro com jacintos lilases. Ah que belas flores. Obrigada, vizinhos!, pensei com desfaçatez. Cheia de amor e cuidados, trouxe as novas hóspedes para casa e instalei-as junto com as extrovertidas begónias, a orquídea pachorrenta que tem preguiça de florir e as saintpaulias pequeninas e vivaças. Foi um festim. Nunca há plantas demais aqui em casa — ou onde quer que seja. Se fosse eu a mandar nisto, ordenava que o mundo fosse completamente forrado de relva para que as pessoas pudessem andar descalças.

Reguei-as durante dias, semanas, meses, encantada com as inverosímeis cores das suas pétalas e a inacreditável longevidade das flores. Inacreditável, disse eu, e disse bem, pois nenhuma das flores dava sinais de estar cansada de viver. Seria gratidão vegetal? Poderia ser da luz, da água? Ou de mim? De sobrolho franzido, suspeitei que talvez pudesse ser de mim. Não por deter algum particular talento para imortalizar plantas, mas devido a uma astigmática inaptidão para desconfiar delas.

Com grandes sentimentos de culpa por cometer tamanha atrocidade com as folhinhas eternamente verdes — impossivelmente verdes, essa é que é essa — tentei partir-lhes um pedaço para testar. Nada aconteceu. Tentei com mais força. Ainda nada.

Incrédula, puxei uma pétala e constatei, com grande espanto, que andei meses (meses, senhores, meses!) a regar duas plantas artificiais que só podem ter sido fabricadas pelas mãos engenhosas do Belzebú, e que me enganaram, não só a mim, mas também ao meu gato que também lá foi tentar mordiscar uma folha sem qualquer sucesso. Podia sentir o gerânio da marquise a rir-se de mim em todas as flores, trocista. A hortelã virava as folhas para lá, com descrédito.

Após a escandalosa descoberta, superei o preconceito que sempre tive com plantas artificiais. Fiquei com elas na mesma (fazer o quê?), sem saber o que me espera depois disto. Um galo de Barcelos, um ‘naperom’ sobre a televisão, uma couve Bordallo Pinheiro?

Esta semana, o arcano 10 de Espadas leva-nos a avaliar com atenção aquilo que nos rodeia e a tomar consciência da quantidade de plantas que existem por aí sem vida e que continuamos a alimentar convictos que ainda podemos recuperá-las. Quem diz plantas, diz projectos. Ou relações. Ou sonhos. Vamos pensar nisso. Agora, com licença, que vou ali encher o regador na torneira da banheira.

Hazel
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Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1634
foto: vaso das túlipas cor-de-rosa que, entretanto, já mudou de lugar 😊

Crime organizado entre panelas e peúgas


Há uma falha na massa entre dois azulejos ao lado do fogão por onde já vi deslizar silenciosamente um tentáculo da Máfia siciliana. A minha cafeteira é uma ladra contrabandista. Coloco-lhe a água em baixo, o café no depósito central, enrosco a parte de cima e acendo o lume. A gangster octogonal colabora sem oferecer resistência, como uma boa e honesta cafeteira acima de qualquer suspeita.

A água ferve e sobe, percorrendo a secção onde se encontra o café, até chegar ao compartimento superior — dizem os vrai connaisseurs que o café é mais saboroso se subir em vez de descer, por algum misterioso motivo. No entanto, mal desligo o lume, ela — a velhaca — chupa o café de volta e fica com ele no andar de baixo.

Não será pela necessidade de beber o meu café-levanta-mortos que a chupista o rouba, mas certamente porque a Cosa Nostra chega a todo o lado. Uma pouca-vergonha pegada com sotaque italiano.

Mais ao fundo da cozinha, insuspeita junto à janela, encontra-se a sua comparsa, a máquina de lavar roupa. Essa é mais imprevisível na metodologia criminosa.

Em breve reconstituição do último crime ocorrido, dirigiu-se esta vossa escriba com o alguidar da roupa para lavar na anca direita (toda a gente sabe que as ancas das mulheres servem para encaixar o alguidar), ajoelhou-se junto à máquina de lavar e colocou a roupa lá dentro: um pijama axadrezado, camisolas do gaiato, calças de ganga, dois vestidos, toalhas de banho, todo um arsenal de cuecas pretas e, por fim, as cobiçadas peúgas. Lembro-me perfeitamente de ter colocado para lavar aquele par de meias castanho-escuras com gatinhos que comprei para o meu filho (e que acabaram por ficar para mim).

Regulo a máquina para o programa da roupa escura e vou aos meus afazeres. Quando a dissimulada mafiosa termina de lavar, retiro a roupa do seu interior e, com grande espanto, constato que apenas se encontrava uma (1!) das meias dos gatinhos. Rodei o tambor, inspeccionei a roupa toda, mas a infeliz meia desapareceu como se nunca tivesse existido, deixando órfã a irmã gémea. O desaforo não acaba aqui: apareceram, não uma, nem duas, mas três outras meias pretas que não coloquei para lavar.

É do demo: roubou-me uma meia e deu-me outras três que tinha furtado noutras lavagens em troca, como quem permuta reféns menos valiosos por outros que interessam mais.

Estou profundamente indignada com a patifaria que se está a passar na minha cozinha. Tanto a cafeteira quanto a máquina de lavar são membros executantes da Máfia, essas filhas-da-mãe que não têm outro nome — bem, ter, têm, mas vou abster-me por decoro.

O arcano Cinco de Espadas surge-nos bruscamente como um gangster sem coração para nos levar as meias, o café e o bom-senso, numa batalha perdida onde ninguém é genuinamente vencedor.

Por vezes, o melhor é agir com distanciamento e não dar confiança à malandragem. Como vou fazendo com os atrevimentos dos mafiosos da cozinha: ignorar, evitar conflitos e conferir a roupa suja que se lava.

Hazel
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Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1632
Foto: andreas160578, licença CC0

Voando sobre um ninho de ratos


O ninho de ratos foi surgindo aos poucos, formado pelo emaranhado de cabelos abandonados, que não eram reordenados pela escova havia várias semanas. Cada fio, um fino ramo de árvore que se contorceu até ao limite à procura da luz em todas as direcções e, não conseguindo alcançá-la, acabou por se embaraçar com os outros fios que se fechavam sobre si como uma flor que murchou.

Não havia olhos, expressão, rosto ou corpo. O espelho mostrava-me apenas o ninho de ratos sem ratos, feito de cabelos que coroavam um vazio fantasmagórico.

A notícia tinha sido transmitida por telefone durante a madrugada com a frieza de uma bofetada dada por uma mão gelada. Tinha-me comprometido a ir para ajudar nas burocracias que fossem precisas. Falhei — não consegui. Consigo rever tudo, pelos olhos de clorofila das plantas que me observavam nos seus vasos, em silêncio vegetal, únicas testemunhas, que guardam memória de tudo o que se passa à sua volta. 

Deitada em posição fetal, o telefone caído no chão, assistia de olhos fechados às imagens que iam sendo projectadas como um filme antigo com a fita a rodar ao contrário, mostrando toda a minha vida em reverse: momentos antes, a dormir em sobressalto; essa tarde, quando ‘estertor’ deixou de ser uma palavra lida algures para se transformar numa violência pacífica partilhada sem palavras; os meses anteriores; o ano anterior; as zangas; as mágoas; as frases ditas sem medir estragos; um único abraço; a adolescência em calças de ganga e t-shirt com as mangas enroladas; a rebeldia da infância; a primeira boneca; os primeiros passos junto aos cravos que nasciam no quintal; o nascimento; a não-existência. 

Vivi tudo às arrecuas, até me encontrar encolhida no chão de polegar na boca, com uma poça de lágrimas debaixo da cara. Então era ali o fundo do poço, onde, buscando o neologismo a José Mário Branco, se desnasce. O não-lugar onde se cai desprevenido como Alice na toca da lebre branca, sem um país de maravilhas para descobrir, mas apenas o vácuo, o escuro e a dor que nos come por dentro, mastigando-nos com dentes de rocha. O fundo do poço é um lugar assombrado e solitário, onde ficamos por tempo indeterminado a flutuar em águas putrefactas.

O mundo cá fora continuou a girar, na indiferença egoísta e abençoada que restabelece a ordem após o caos. Tudo foi, com os auspícios de Cronos, o Tempo, arrumado aos poucos dentro de um baú que empurrei com a ponta dos dedos para um canto escondido algures dentro de mim. 

Nem uma palavra foi escrita sobre o assunto durante sete anos. Na proximidade de celebrar quatro décadas de estadia entre-a-terra-e-o-céu — com muitas deslocações à Lua, que frequento com grande prazer —, atrevo-me a abrir caminho por entre as teias-de-aranha que tão zelosamente escondem o baú dos fantasmas, e encontro-o entreaberto, revelando as memórias, quase surreais à distância do tempo, do dia em que a minha mãe morreu, eu morri com ela, e com as duas morreu o nome que partilhávamos.

Esta semana, o arcano 9 de Espadas leva-nos a reflectir sobre os momentos em que o tecto do mundo se estilhaça sobre a nossa cabeça e não há nada nem ninguém que nos possa valer. Somos vítimas e agressores de nós mesmos; só o tempo e a reinstalação da rotina, aos poucos, nos podem dar a força que precisamos para sair do fundo do poço pelas próprias mãos, desfazer os ninhos de ratos e resgatar olhos, rosto, uma expressão — de paz — e corpo. Tudo passa. Também isto passará.

Hazel
Consultas em Oeiras e online

Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1629
Foto: AlexSky, licença CC0

Por vossa conta e risco


Sou uma ladra de molas da roupa. Assumo este pequeno e desavergonhado prazer que sinto de surripiar as molas caídas no chão junto aos prédios.

Nem é pelo valor (quanto custa um pacote de molas, um euro, dois?), mas pelo mesmo tipo de satisfação que leva o safardanas dos meu gato a abocanhar um filete de pescada deixado na bancada da cozinha quando vou atender o telefone.

Ou que, aos dez anos, tocava as campainhas todas da rua quando vinha da natação — até um dia uma vizinha fazer-me uma espera, escondida de cócoras atrás de um arbusto de erva-das-pampas, e ameaçar agarrar-me “p’las gadelhas qu’até andas de lado” se voltasse a repetir a façanha (foi remédio santo).

Digo mais: tenciono fazer perdurar o travesso delito até que um dia algum queixoso me aponte uma mola acusadora e ameace entalar-me a ponta do nariz com ela. Ou outra parte do corpo, deuses me protejam as carninhas tenras. A vida de larápio tem os seus riscos.

Não me desculpo por isso, que as desculpas pressupõem arrependimento e não tenho pinga de remorso (nem de vergonha). Também não fico apoquentada quando são os outros a apanhar as molas que deixo cair. É a lei da selva, no universo dos estendais; quem chega primeiro, caça as molas.

Creio que só adquiri molas da roupa uma vez, lá para os idos de 2010, da forma tradicional — compradas no supermercado. Não teve encanto: estacionei a viatura, paguei o parquímetro e senti-me logo gamada. De seguida, tive de gratificar o arrumador por serviço algum senão o de evitar que este causasse estragos intencionais no meu nobre corcel.

Já dentro do supermercado, comprei yogurte grego, fabricado em Espanha; carne nacional, importada da América do Sul, e três pacotes de molas da roupa numa daquelas promoções leve-três-pague-dois, embora o valor, se fizéssemos as contas, fosse dar ao mesmo.

O arcano Sete de Espadas surge-nos esta semana pela calada da noite, ardiloso e tentador, a desafiar-nos a pular a cerca para ver o que há do outro lado. Tenho cá para mim, eu que só apanho as molas caídas junto à cerca, que do lado de lá existe uma daquelas marquises de apartamento tipicamente portuguesas, onde se encafuam as máquinas de lavar roupa.

É que cheira sempre a limpinho quando leio as notícias no jornal, com tanta referência a lavagem de dinheiro, ou branqueamento de capitais para quem prefere um programa de lixívia, com detergente offshore.

Hazel
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Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1624
foto: do meu estendal de meias

"Aos homens nada parece mal"


Uma mulher às vezes tem que se calar, mesmo quando tem razão - aconselhava a minha mãe no tom pragmático de quem cresceu no tempo da ditadura antes da Revolução dos Cravos e aprendeu a evitar chatices. Poucos conselhos segui, como compete a uma ovelha ronhosa.
Fui uma gaiata travessa, que respondia mal, que questionava, quase sempre de trombas - e levava nelas algumas vezes também. Nasci e cresci danada com o mundo.

Contrariada, tenho de admitir que ela estava correcta quando afirmava que aos homens nada parece mal: podem ter pêlos nas pernas, a floresta amazónica a enfeitar as virilhas, o peito e as costas, um matagal debaixo de cada braço e até podem ter uma única e longa sobrancelha como o Becas da Rua Sésamo. Podem ter barriga e afagar com orgulho a sua eterna gravidez alimentar. Se estiverem aflitos, há sempre um canto numa rua onde não parece muito mal que um homem alivie a urgência da micção. Em casa, podem fazer chichi de pé e salpicar a tampa da sanita, que alguma mulher há-de limpar a seguir.

Ó estreeela, queres co’meta? - podem meter-se com as mulheres que passam, mudar de companheira quantas vezes quiserem, e usar cuecas feias, com os elásticos relaxados, que deixam caídas no chão junto com as meias e o resto. Se andarem desmazelados, a culpa é das mulheres (que “são” umas desmazeladas).

Podem não saber cozinhar, nem gostar, nem querer aprender, porque não é preciso. Contar anedotas ordinárias, dizer palavrões, gabar-se à boca-cheia das mulheres com quem estiveram e até daquelas com quem não estiveram - mas gostavam de ter estado. Sentar-se de pernas abertas, assim como coçar e escarafunchar a genitália em público (vá lá uma mulher atrever-se a fazer o mesmo). Mostrar as mamas na rua, na internet, na praia, na piscina, ou no quintal enquanto conversam com o vizinho do lado. Ninguém liga.

Podem ter caspa, calvície e até carrapatos atrás das orelhas. Não há escândalo, porque são homens. Safam-se sempre; eles sabem-na toda. Contudo, em caso de catástrofe natural, são as mulheres as primeiras a ser salvas.

Bem sei que este retrato é um exagero, uma hipérbole, um descabimento - mas só por conta dos carrapatos. O resto é-como-é por responsabilidade das mulheres, porque todo o homem é filho de uma. O meu filho é filho de uma mãe (que engraçado seria se a frase acabasse assim) que não se quis calar. Perdoem-me.

Esta semana, o arcano Rei de Espadas inspira-nos a questionar as regras do universo que nos rodeia e a não aceitar que nos imponham uma verdade que não é a nossa. Porque é que uns podem tudo e os outros não podem nada? Isto, para quem é do sexo feminino. Já os leitores portadores do cromossoma xy, olhem, escondam este jornal e não o mostrem às vossas mulheres.

Hazel
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Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1619
foto: madairainitaly, licença CC0

A fina arte da velhacaria


Um velhaco é um indivíduo matreiro que se compraz no exercício subtil e ardiloso da malícia - como uma pérfida forma de arte. Lembra-se de detalhes que não ocorrem a mais ninguém, quase levando - não fosse o facto de o desprezarmos - a que lhe ganhemos afeição, pela inegável criatividade e sentido de humor retorcido. Dir-se-ia que é um mestre perfumista que trabalha com quantidades de veneno pequeninas, adocicadas, tentadoras e altamente viciantes.

Suscita-nos sempre curiosidade, embora não gostemos de admiti-lo. Sempre que o desejo de saber salta por cima do muro erguido pela moral, somos caçados na armadilha do velhaco.

No outro dia, qual lebre que passeia despreocupada pelos campos, fui apanhada na rede da curiosidade. Passei um par de horas - tempo muito bem empregue, diga-se - a ler reportagens e comentários sobre o casal que distribuiu água na A1 durante o incêndio que deflagrou no Verão passado. Saciaram a sede de inúmeros desconhecidos que se encontravam presos na estrada cortada, debaixo de quarenta graus, com cerca de mil litros de água que compraram do próprio bolso. O país emocionou-se e agradeceu. Foram elogiados, aclamados heróis. No vídeo que invadiu as redes sociais, via-se a bagageira do Mercedes aberta, de onde saíam garrafas de água entregues com um sorriso aberto.

Cinco meses depois, a vida do casal Lucinda Borges e Paulo Pereira ficou de pernas para o ar. 

A família virou-lhes as costas. Os vizinhos também. Paulo ficou sem trabalho e a Lucinda surgiu um problema oncológico. Chegaram ao ponto de não ter o que comer, tendo de recorrer a um casal amigo para que ficasse com a filha durante o Natal por não terem dinheiro para a ceia nem para lhe comprar um presente. O país, sensibilizado com a injustiça, quis retribuir. As ajudas não tardaram, paralelas à curiosidade pelo inusitado comportamento dos conterrâneos do casal. 
As equipas de reportagem que se deslocaram a Avanca, Estarreja, indagaram junto dos vizinhos e até do pároco da freguesia o motivo pelo qual Lucinda e Paulo estavam a ser alvo de tanto azedume e revolta ali, quando, no resto do país, o sentimento geral era precisamente oposto.

Foi neste ponto que a fina arte da velhacaria se manifestou. O Mercedes causou pruridos nos cotovelos das pessoas e o passado de Lucinda e Paulo foi esmiuçado e amplamente especulado nos meios de comunicação social. Não irei detalhá-lo nem ajuizá-lo. Eu não estava na A1, mas estou-lhes grata como se tivesse estado.

O mundo não se divide em bons e maus. Toda a gente tem culpas no cartório, a diferença é que o casal da A1 está exposto à opinião pública - e cercado de inveja - enquanto os podres de todos os outros continuam escondidos. Sim, merecem ser ajudados, mesmo que tenham alguma vez cometido erros - quem nunca falhou? - porque são seres humanos e porque aquilo que eles fizeram foi inegavelmente generoso, uma iniciativa louvável que inspirou milhares de pessoas a tornarem-se seres humanos melhores - com excepção dos seus familiares, vizinhos e do pároco de Avanca.

Esta semana, o arcano Valete de Espadas tenta-nos com o veneno da velhacaria, dando-nos a possibilidade de escolher pensar por nós próprios sem nos deixarmos influenciar.
Nós conseguimos ser melhores do que isso.

Hazel
Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1616

Sapatinhos de veludo pretos


Pela calada da noite, enquanto a coruja piava do alto da torre da igreja solitária, guardiã derradeira de uma fé perdida nas brumas enganadoras do tempo e das vontades, os sapatinhos de veludo preto calcorreavam a calçada de pedra com a agilidade silenciosa de um felino.

As pernas rapadas a gilette apareciam por baixo do casaco cintado, deixando adivinhar prazeres e paixões, e os cabelos compridos, descolorados com água oxigenada, dançavam ao ritmo cadenciado da caminhada, como se uma música inaudível a acompanhasse. Todas as noites apanhava o autocarro e depois o comboio para o Cais do Sodré, e dali prosseguia para uma segunda vida, secreta e proibida, onde ninguém a conhecia.

Quando for grande, quero ter uma profissão normal de dia, e à noite quero ser prostituta. 
Ninguém respondeu. Continuámos a brincar com as bonecas. Nenhuma sabia exactamente o que fazia uma prostituta, mas percebemos que seria algo emocionante, mau e delicioso, quiçá ao nível de riscar a caneta o livro de ponto da professora, às escondidas. Nenhuma tinha mais de dez ou onze anos. 

A profecia concretizou-se. Durante uma meia-dúzia de anos, a miúda confiante-e-delambida dos cabelos oxigenados devotou-se à profissão mais antiga do mundo, onde conheceu as várias faces da volúpia, da excitação, da submissão, da mentira, das drogas, da sujidade e do roubo. Perdeu os dentes e o sorriso, mas manteve a atitude altiva, cheia de si para preencher o espaço vazio que a assolava.

A coruja vigilante observava de lá do alto o caminho de calçada agora deserto e os sapatinhos de veludo que um dia acabaram abandonados no contentor do lixo. 

O dia nascia e a fila de carros para entrar na A5 começava a formar-se, cheia de expressões amargas e carrancudas, cigarros pendurados displicentemente na ponta dos dedos, telemóveis freneticamente dedilhados em mensagens inúteis, as notícias do trânsito e, finalmente, a música. No seu Opel Corsa bordeaux, o porta-chaves com um ursinho de peluche pendurado na ignição balançava como um pêndulo enquanto aumentava o volume do som. Tocava “Girls just wanna have fun” da Cyndi Lauper, a sua música preferida. No banco de trás, a sua filha segurava na boneca enquanto marcava o ritmo com a perna direita na cadeira de viagem.

Esta semana, o arcano Sete de Espadas leva-nos a reflectir sobre os contornos mais sombrios da existência. A nossa, não a dos outros. Desengane-se quem se acha acima de qualquer mácula. Ninguém está a salvo da imperfeição, da desonestidade, dos sentimentos de inveja, de cobiça, de despeito - embora vejamos sempre as falhas dos outros, e nunca as nossas.

Hazel
Consultas em Oeiras e online
Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1615
Foto: thedissolve.com

A madona das maminhas tristes


Tudo estava a cair à sua volta. O estuque no tecto da casa-de-banho, a roupa pendurada nas costas da cadeira, o copo de água que resvalou da mesa e se estilhaçou no chão, as maminhas que olhavam tristes para os pés quando desapertava o soutien para vestir o pijama-às-riscas.

Lá fora, a chuva batia nas pedras da calçada formando diferentes tons numa melodia fúnebre e descompassada que, de alguma forma inexplicável, batia certo com o ritmo descontrolado do seu coração.

As paredes brancas do corredor dos quartos pareciam duas prensas gigantes que se moviam para esmagá-la, reduzi-la a líquido, a puré. O telefone não parava de tocar. Incapaz de ouvir mais uma palavra, atirou-o contra a parede. Aquele foi o dia em que o mundo - o seu mundo - parou.

Todos tinham morrido. Uns porque faleceram, outros porque, ainda que permanecessem vivos, deixaram que lhes morresse a última gota de amor e só tinham fel para oferecer. Até uma ovelha negra se cansa de tentar explicar que o problema não é ela ser negra e as outras brancas, mas o pasto ser pouco e a estupidez muita.

Despiu-se e encheu a banheira de água quente. Deixou-se escorregar. De olhos fechados, pediu com todas as forças ao seu corpo e a Deus, se esse cretino existisse mesmo, que o coração lhe parasse de bater - porque era demasiado cobarde para se matar.

Na manhã seguinte, acordou com uma valente constipação acompanhada de uma humilhante crise de hemorróidas que saltavam espavoridas quando os acessos de tosse lhe fustigavam todas as cavidades do corpo. O coração continuava a bater, ainda que desordenadamente, como se tivesse leões a correr dentro do peito. Mas a dor da alma parecia já um pouco mais branda.

Dentro daquela casa onde morava a solidão e a loucura, longe do mundo e dos seus habitantes, conseguiu acabar por curar as feridas de um coração despedaçado e atormentado. Durante muito tempo, ninguém soube o seu paradeiro - nem ela própria.

Às vezes, tudo o que nos resta fazer é esperar, e deixar que o planeta continue a girar sobre si mesmo; ver os nasceres e pôres do Sol sucederem-se até acabarmos por perceber o sentido da vida, a grande mensagem cósmica, o mistério dos mistérios: o mundo está-se nas tintas para nós. De tão insignificantes que somos.

Colocou a cafeteira ao lume com água e chá de folhas de verbena para espantar a tristeza, e decidiu que já chegava. Como um longo resfriado que finalmente se consegue curar, também a mágoa ficou sanada. Estava pronta para partir. De malas feitas, alma lavada e maminhas arrebitadas, mudou de casa, de nome e de vida.

Esta semana, o arcano quatro de espadas inspira-nos a abrandar a velocidade e a afastar-nos para observar o mundo à distância, sempre que sentirmos que precisamos de um tempo para nós. Não necessitamos de viajar para Marte; podemos fazê-lo mesmo enquanto cumprimos as nossas responsabilidades, concentrando-nos em manter o silêncio exterior e interior e voltando-nos para dentro - de forma a ouvir a voz dos nossos próprios pensamentos.

Hazel
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Email: casa.claridade@gmail.com
Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1609
foto: Lee Price

O cabelo na sopa


O menino Ricardinho foi ensinado a não comer de boca aberta. Filho de família de classe média, representava a promessa num futuro cheio de conquistas que os pais falharam em atingir. Compenetrado, sentava-se à mesa de costas rectas como um esparguete e manuseava os talheres com destreza cirúrgica, para inchado orgulho da avó que todas as semanas o levava pela mão a passear nas roupas domingueiras cheia de vaidade, de peito inchado como um perú, para que as outras avós vissem que o seu neto era a mais fina flor, de esmerada educação, fino trato e uma palidez mais alva que o branco-pérola das meias até aos joelhos.

Todas as atenções recaíam no menino que nem o guardanapo deixava cair ao chão. Pelo canto do olho, via o avô palitar os poucos dentes que ainda conservava, enquanto saía um arroto sem pudor nem cerimónia, e voltava a concentrar-se no seu prato, porque no seu universo de água-de-colónia com cheiro a talco e roupa de marca impecavelmente engomada, não havia espaço para a rudeza humana.

O Ricardinho foi crescendo sem abandonar o porte frio e aristocrático até se tornar adulto e acumular títulos académicos conseguidos à custa de muita cábula e copianço. O que importava era o resultado, não os meios para lá chegar - e chegou, ora se chegou. O menino dos papás veio mesmo a representar um cargo autárquico, para deleite dos progenitores, que entretanto ficaram demasiado importantes e cheios de si para cumprimentar os vizinhos.

Nos grandes encontros gastronómicos, o Ricardinho mantinha o mesmo esmero e elegância no manuseio dos talheres, que cortavam pedaços de vitela barrosã com a mesma precisão e argúcia com que cortava o orçamento de acordo com os interesses que melhor o serviam. Todos sabiam que o menino Ricardinho era travesso, mas poucos se atreviam a referir as suas marotices, com excepção de um jornal onde trabalhavam pessoas levadas da breca, honestas e de olho vivo que, ao contrário do menino, não viam o que lhes convinha, mas a verdade nua e sem artifícios.

Para grande embaraço do Ricardinho, certa vez, ao comer uma sopa da pedra, encontrou um cabelo. Discretamente, puxou-o da boca, mas o cabelo era enorme e nunca mais acabava. Quanto mais puxava, mais o cabelo parecia crescer, tornando-se impossível fingir que ele não existia. O vexame foi inevitável. O menino Ricardinho queria abafar o caso, mas ainda assim, a verdade já estava nas bocas do mundo.

Esta semana, o arcano Rainha de Espadas ensina-nos que nem sempre a verdade é devidamente recompensada e raros são os que preservam a ética, mesmo longe dos olhares alheios. Ainda assim, sempre haverá um denunciador cabelo na sopa, onde quer que se coma.


Hazel
Consultas em Oeiras e online
Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1606
foto: "Portrait of a boy", Kurt Günther

Tudo sob perfeito (des)controlo


Somos inocente e deliciosamente chatos e previsíveis. Faz-se planos para o futuro. Decide-se o que vai ser o jantar de logo à noite, que se põe dentro de uma travessa no lava-loiças para ir descongelando à temperatura ambiente. Planeia-se e reserva-se as férias do Verão com uma antecedência quase deprimente, porque ficam francamente mais baratas.

Escolhe-se a roupa para vestir na manhã seguinte com uma capacidade infalível de previsão meteorológica, digna do Anthímio de Azevedo. Sonha-se com o dia em que finalmente se consegue demonstrar aos sacanas que nos deitaram abaixo quando mais precisámos deles que, afinal, até conseguimos fazer alguma coisa de jeito da vida. Planeiam-se até os dias sem planos. Temos tudo controlado até ao momento em que percebemos que tudo isto está sustentado por fita-cola, cuspo e um clip.

O tapete é-nos puxado debaixo dos pés quando menos esperamos. Mas qual jantar, quais férias, qual dia seguinte, quais sacanas. Que cegueira é esta em que nos encontramos, sempre a planear o futuro, sempre a viver mais à frente, sempre a querer estar um passo adiante do espaço que ocupamos, desfazados do tempo, de nós mesmos e dos outros. Para quê a pressa, se, no fim, façamos o que fizermos, acabamos por ir todos parar ao mesmo lugar - e, no entanto, ninguém para lá quer ir.

Assassinámos a espontaneidade a sangue-frio, e tenho cá para mim que os contratempos inesperados, que nos surgem quando menos jeito dão, são o fantasma da dita que nos puxa o pé no momento em que vamos subir para a cama, para ajustar contas connosco.

Esta semana, a carta Cavaleiro de Espadas surge-nos repentinamente como um vendaval gelado num dia que se vislumbrava cálido e estival. Ninguém estava preparado para ele, todos são apanhados de surpresa, e é bem feita para aprenderem a viver o presente e para perceberem de uma vez por todas que ninguém controla nada. Há quem lhe chame lei de Murphy. Poderíamos também chamar-lhe “abre-olhos”, por nos enraizar e devolver a humildade que havíamos perdido nos atropelos do ego.

É um tormento a incerteza de não saber o dia de amanhã. Por outro lado, sabê-lo amolece-nos a capacidade de estar alerta, de debater-nos pelos nossos ideais.

Se a ignorância nos incita a estender as asas e a aguçar os sentidos para encontrar alimento para o corpo e para a alma, o conhecimento antecipado oferece-nos o conforto flácido - e frígido - de um sofá que se afunda quando nos sentamos, como se nos engolisse. Quanto mais nos enterramos nele, mais camaleonicamente iguais a ele nos tornamos -  até sermos salvos pelo fantasma da espontaneidade, mascarado com a capa dos imprevistos que nos trocam as voltas, que nos toca à campainha de casa para despertar-nos deste sonho em que nos imaginamos seguros e arrumados - como um par de sapatos velhos.

Hazel
Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1601
Foto: Sandro Giordano

Aula de Pancadaria


Eram cinco da tarde e o Sol espraiava-se pelo chão da sala de aulas, inundando-a de um mar de luz dourada e idílica que contrastava com o meu estado de espírito carrancudo.

Não tinha mais de catorze anos e o mundo estava contra mim. O professor de trabalhos manuais fora buscar grosas para limar os pedaços de madeira que todos tínhamos terminado de serrar. Naquele momento, não havia farpas nem arestas mais contundentes que as que me foram dirigidas.

O David, um rapaz com borbulhas na cara, igual a tantos outros da sua idade, fixou os olhos em mim e voltou lançar as mesmas piadas que provocavam o riso da turma inteira, tornando-me alvo de chacota. Na época, a palavra bullying era desconhecida em Portugal. Os professores fingiam que não viam o que se passava. Quando eram interpelados sobre o assunto, recambiavam o aluno queixoso para o conselho directivo que, por sua vez, nada fazia. Limitavam-se a dizer para não ligar. Ora, um ano lectivo são cerca de 200 dias - a tentar “não ligar”.

Naquela tarde, foi a gota de água.

Não deu para aguentar mais. Não era justo; eu nunca tinha humilhado ninguém. Era calada, tímida, apagada. Não dava nas vistas. Tudo o que queria era poder ser invisível. A sua voz estridente mais uma vez bateu na ferida que já estava demasiado massacrada para me importar com o que ele pudesse dizer ou fazer a seguir.

Cala-te!, disse-lhe, e, pela primeira vez, a minha mão levantou-se instintivamente indo espalmar-se a grande velocidade nas borbulhas cheias de pus do bully. Ele devolveu-me a bofetada, surpreendido, mas ainda a rir-se.

Insuflada de indignação, num acto reflexo, eu, que jamais tinha batido em ninguém mas já tinha visto todos os filmes de acção do Bruce Willis, fechei a mão com força e disparei um soco em cheio no maxilar do tal David, que rapidamente se afastou com o rosto tapado pelas mãos - jamais saberei se escondido pela dor, se pela vergonha da gargalhada geral que agora lhe era dirigida.

O professor “não viu”; estava — convenientemente — virado de costas a distribuir as limas e grosas pelas mesas. O imberbe nunca mais se meteu comigo. Intimamente, senti-me satisfeita por ter recuperado o respeito e dignidade e por ter socado o meu colega - admito sem orgulho. Mas quando vi algumas lágrimas contrariadas a espreitarem-lhe no canto dos olhos, senti-me desconfortável e culpada. Como se eu tivesse sido uma má pessoa, capaz de um acto de selvageria. Contudo, dadas as circunstâncias, não me restou alternativa.

Desconheço em que tipo de pessoa o David se terá hoje tornado, mas não lhe guardo ressentimento. Na verdade, ele foi um professor para mim; permitiu-me aprender que ninguém tem de assumir o papel de vítima nas mãos dos outros; que somos bem mais fortes do que imaginamos - especialmente quando estamos furiosos; e que pessoas bem intencionadas podem ter de tomar atitudes drásticas e negativas para evitar danos maiores. Especialmente, quando as únicas opções são levar ou bater. Mesmo assim, em algumas ocasiões, já esqueci estas lições, que foram relembradas por outros “Davids”.

O arcano Cinco de Espadas leva-nos a reflectir sobre a necessidade de controlar os impulsos, de forma a tomar as decisões mais sensatas que nos for possível, tentando deixar um rasto mínimo de danos e de perdas pelo caminho. Sejamos o elemento apaziguador, até onde nos permitirem. Na impossibilidade de sê-lo, podemos sempre dar um soco - na mesa.

Hazel

Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, edição 1593
foto: Anne Taintor

O filho da mãe


Em todos os lugares há sempre um filho da mãe. Às vezes até existe mais de um. O filho da mãe - sem desprimor para com a senhora que o pariu - é alguém que está sempre de olho vivo e ouvidos de tísico à espera do momento em que nos apanha na curva para tramar-nos.

Por dever profissional, social ou familiar, temos frequentemente de engolir o indesejável e peçonhento batráquio - e lidar com o filho da mãe. Vemo-nos obrigados a dizer-lhe bom dia, quando, no fundo, o que realmente desejaríamos era poder lançar-lhe um hasta la vista, baby.

Perto de um filho da mãe, todo o nosso comportamento se altera. Cá dentro, nas entranhas, erguem-se muralhas, envergam-se armaduras de aço, apontam-se canhões, bestas e roquetes. Porque, com um filho da mãe nunca se sabe. 

Sem darmos conta, tornamo-nos também um filho da mãe, como o filho da mãe que repudiamos. Mas em legítima defesa, claro. Porque o filho da mãe nunca somos nós. Todos os filhos da mãe que estiverem a ler irão concordar comigo e quem sabe se não serei eu também uma filha da mãe. Ninguém está livre de ser um.

Há atributos que não podemos negar a um filho da mãe, por muito que não queiramos admitir; um filho da mãe tem, geralmente, mais sorte que os outros; que não é merecida, pois recorre a artimanhas sinuosas, obscuras e duvidosas para conseguir o que quer. E isso revolta-nos, pelo esforço que fazemos para andar na linha e fazer tudo certinho nos rigores da lei e do bom-senso. Ao primeiro desvio, somos logo caçados. Já o filho da mãe safa-se sempre, parecendo usufruir de alguma espécie de imunidade diplomática divina. Pode tudo, não lhe acontece nada.

Talvez o papel dos filhos da mãe no mundo seja precisamente abanar perante o nosso olhar incrédulo um inconveniente leque de tonalidades cromáticas que se estende desde a justiça à injustiça, fazendo tremer as estruturas que nos sustentam, enquanto enfrentamos e relativizamos os nossos dogmas. Mostrando-nos a mais feia expressão da humanidade reflectida nos seus gestos, somos levados, se tivermos o desprendimento para tal, a constatar a existência desse mesmo rosto amargo e distorcido que tanto desprezamos escondido num canto escuro e poeirento dentro de nós, aprisionado e amordaçado.

Um mundo sem filhos da mãe seria imaculado, esterilizado, inodoro, incolor, ensosso, insípido. Sem textura nem atrito. Sem heavy metal; apenas com harpas celestiais a ecoar através de torrentes de luz intensa que nunca se encontra com as trevas e, por isso, nos fere a vista. E seria também irreal.

O arcano Valete de Espadas insurge-nos num malicioso e travesso alerta em relação aos filhos da mãe que nos rodeiam, sem excluir o filho da mãe do espelho da nossa casa-de-banho, que conhece todos os nossos segredos mais imorais e escabrosos e reflecte cruamente a nudez das nossas virtudes e fraquezas.

Hazel
Consultas em Oeiras, Carcavelos e online

Crónica semanal publicada no Jornal O Ribatejo, 7 Julho
foto: Thumbs up picture Shutterstock