Encontrar o Silêncio

Há demasiado barulho no mundo. Demasiados objectos, demasiadas emoções, demasiados odores, sabores, texturas. Demasiado tudo.

Escrevi demasiadas vezes a palavra "demasiado", mas nada descreve tão bem o que é demasiado quanto a palavra demasiado.

Poderia gritar, mandar o mundo calar-se. Mas só iria aumentar o barulho. E quando gritamos com o mundo, o mundo grita-nos de volta. Com a força de um Titã. 

O barulho empurra-nos, agarra-nos, distrai-nos. Pode até esmagar-nos. Esquecemo-nos de quem somos, do que estamos a fazer, de para onde planeámos ir em primeiro lugar.

Não. Não é o mundo que tem de se calar e fazer Silêncio. Sou eu. Sento-me de olhos fechados a observar a minha própria respiração, a velocidade com que o ar entra e sai pelas narinas, saboreando cada partícula de oxigénio. Observo cada músculo do meu corpo a partir de dentro. Eis a serenidade que se faz anunciar sem pressa.

O silêncio é uma esfera de luz dourada que irradiamos a partir do nosso centro e nos envolve, tornando-nos imperturbáveis ainda que rodeados por uma multidão de vozes graves, estridentes, roucas, cavernosas. Deslizamos imaculados como um cisne branco num lago negro. 

Podemos estar horas a falar e, ainda assim, conservar o silêncio dentro de nós. 
Por vezes, olhamos para dentro e sorrimos para o silêncio como para um velho e sábio amigo que sempre nos espera pacientemente num cadeirão macio junto a uma janela onde bate o Sol.

O silêncio é limpo, puro, pleno de luz. Poderia dizer-se que o silêncio é triste, mas eu acho que é desprovido de emoções, ou não seria silêncio pleno.

Como um copo de água da nascente que vem das profundezas silenciosas da terra e nos escorrega pela garganta até ao interior do nosso corpo. Leve, cristalina e sem sabor, mas que nos sacia a sede num dia seco de Verão, hidratando todos os nossos órgãos e fazendo o sangue circular com maior pureza pelos vasos sanguíneos, como a seiva que viaja numa folha verde de uma planta acabada de regar.

Tão simplesmente, em silêncio.

7 formas diferentes de acordar pela manhã


Vamos lá a ver: quem é que tem mau acordar?

Tenho pensado sobre diferentes formas de acordar e resolvi fazer uma lista de todas maneiras possíveis que me ocorrem de fazer a transição entre o conforto uterino do sono e o despertar para a crueza da manhã:

1. Rádio-despertador. 
Vantagens: Podemos sintonizar na estação de rádio da nossa preferência e acordar com música.
Desvantagens: Pode faltar a electricidade durante a noite. Por vezes, não sintoniza bem uma estação e acordamos com o som da estática. Há sempre um ruído subtil e contínuo nos rádio-despertadores que perturba a qualidade do sono. Nada garante que, na hora exacta que vai despertar, não irá passar uma publicidade a um Banco. Ou a uma marca de pomada para hemorróidas.

2. Aparelhagem de som.
Vantagens: Podemos colocar um CD e acordar com a música que quisermos. Maravilha.
Desvantagens: Ocupa algum espaço no quarto. E, se faltar a electricidade...

3. Relógio-despertador analógico.
Vantagens: Não depende de electricidade. Não gera poluição electromagnética. Ocupa um espaço mínimo.
Desvantagens: O irritante som do "triiiimmm!"

4. Telemóvel.
Vantagens: Ocupa um espaço mínimo. Podemos instalar aplicações que permitem acordar com sons da Natureza ou a música que desejamos e algumas até emitem uma luz suave para simular o nascer do dia. Não precisa de estar ligado à electricidade (desde que tenha a bateria carregada). Se colocarmos em "modo de avião", não recebe chamadas e, creio, por estar desligado de todas as redes, não gera poluição electromagnética.
Desvantagens: Não me ocorre nenhuma agora. A menos que eu esteja errada e, realmente, mesmo em "modo de avião", continue a gerar poluição electromagética.

5. Pedir a alguém que nos acorde.
Vantagens: Não depende de electricidade nem gera poluição electromagnética.
Desvantagens: Quem é que iria arriscar a vida em semelhante missão? Ninguém.

6. Um galo.
Vantagens: Emite o verdadeiro som da Natureza! Não gera poluição electromagnética nem depende de electricidade. Nunca falha uma manhã.
Desvantagens: Caganitas de galo no quarto!

7. O nascer do dia (dormir com as persianas levantadas).
Vantagens: É suave e gradual. Não depende de electricidade nem gera poluição electromagnética.
Desvantagens: Muito arriscado para pessoas com sono profundo. No Inverno, quando não se vê o Sol, o risco de adormecer é ainda maior.

Acordadinha e bem-dispostinha,

Hazel

Acabar com as pulgas (antes que elas acabem consigo)

O Verão é aquela estação do ano em que as pulgas gostam de conviver umas com as outras, organizando raves pulguentas com música techno e luzes psicadélicas.

Vêm os parentes mais afastados dos clãs de pulgas de todos os cantos do mundo (pareceu-me até já ter visto uma pulga de longas barbas e quilt escocês), fazem orgias, eclodem ovos, e todas elas, sequiosas de sangue, enlouquecem humanos e animais.

Nunca a expressão "andar com a pulga atrás da orelha" teve contornos tão tenebrosos. 

Esta vossa paciente escriba foi à procura de soluções e remédios caseiros para eliminar as pulgas em casa. Pousem o lança-chamas, amigos em desespero, pois eu trago-vos toda a artilharia pesada que precisam:


1. Aspirar a casa (e tapetes!) diariamente. 
As pulgas podem pôr cerca de 20 ovos por dia durante 21 dias. A esperança média de vida de uma pulga é de 4 meses.

2. Lavar o chão com sumo de limão/vinagre. 
Juntar à água de lavar o chão sumo de 4 limões ou 2 copos de vinagre. Elas odeiam limão. 
E odeiam vinagre. E nós adoramos isso. Riso maquiavélico.

3. Borrifar o colchão com vinagre. 
Além de repelir as pulgas, é um antibacteriano natural. Depois de secar, o cheiro desaparece.

4. Spray de cânfora.
Receita: Misturar 3 pedras de cânfora em 1 litro de álcool, meio copo de vinagre e um punhado de cravos-da-Índia. Pode ser usado para borrifar tapetes, sofás e mantas. Letal para pulgas, inofensivo para cães e gatos (entretanto, convém aplicar pipetas anti-pulgas nos nossos animais).

5. Poejos e alfazema. 
Colocar saquinhos com poejos e alfazema dentro da almofada, na cama e onde mais for preciso. São repelentes de pulgas.

6. Uma armadilha de pulgas. 
A sério, mesmo. Uma espécie de ratoeira, mas para pulgas. Colocar no chão de cada divisão da casa uma taça com água e detergente da loiça misturados. Apontar a luz de um candeeiro de secretária para a água, ou usar mesmo uma vela flutuante ou tealight acesa. A luz irá atrair as pulgas para a água e o detergente da loiça puxa-as para o fundo, afogando-as. 
As pulgas não sabem nadar, yô...!

Agora é convosco. Se nada disto resultar, usem o lança-chamas.

Com comichão no pé,

Hazel

Como Tratar a Ferrugem de um Caldeirão

O caldeirão é um dos objectos ritualísticos mais estimados e preciosos para qualquer bruxa.

Representa o princípio feminino, o útero da Deusa, de onde provém a vida. Os seus três pés simbolizam as três faces da Senhora: Donzela, Mãe e Anciã.

Pode ser utilizado para fazer cozinhados sobre o fogo, poções mágicas, queimar pedidos, colocar velas, queimar ervas, incenso, fazer feitiços, scrying, esconder pequenos tesouros e objectos secretos...

Como o tradicional caldeirão é de ferro, o aparecimento de ferrugem é um problema recorrente que deixa qualquer bruxa de cabelos ainda mais em pé.

Mas... tudo se resolve com dedicação e perseverança. Seguem instruções detalhadas para limpar a ferrugem do seu velho caldeirão:

Num local ao ar livre, onde não haja inconveniente em fazer alguma sujidade, calce umas luvas para proteger as mãos e coloque uma máscara anti-poeira sobre o nariz.

Com uma escova e/ou esfregão de aço (compra-se em qualquer drogaria), esfregue todas as áreas com ferrugem do seu caldeirão como se não existisse amanhã. - Sim, é um trabalho chato e muito demorado...

Uma vez raspada toda a ferrugem, será imprescindível que se faça "a cura" do caldeirão. Seguindo os métodos antigos, coloque uma colher de sopa cheia de gordura/banha dentro do caldeirão, e depois coloque-o sobre o fogo, para que a gordura (ou banha) se expanda por todo o caldeirão, por dentro e por fora. Isso criará uma espécie de capa impermeabilizante, que irá prevenir o reaparecimento de ferrugem.

O caldeirão não deve ser lavado com detergentes, mas apenas com água. Após cada lavagem, deve ser muito bem seco ao Sol ou próximo do fogo e novamente curado (nas curas seguintes, pode usar um pouco de azeite para "besuntá-lo" todo).

Evite mantê-lo tapado para que não crie humidade no interior (humidade = mais ferrugem!!), e mantenha-o sempre em locais secos (não é por acaso que os caldeirões sempre foram vistos pendurados nas lareiras).

Força na peruca, bruxas e bruxos!
Estou convosco. Vamos vencer essa ferrugem malvada.

A mexer o caldeirão,

Hazel

Fada dos Bosques

O anoitecer de Domingo com música a tocar e uma folha de papel estendida à minha frente iluminada pelo quebra-luz de cor verde-floresta. Um yogurte de frutos do bosque de um lado, e os lápis-de-cor do lado oposto. 

Hoje é o meu dia de folga, que eu também mereço. Não respondo a emails, não quero saber de nada. Estou de pés descalços, um vestido velho e o cabelo preso num carrapito - oh, amigos, é a idade. A idade traz-nos carrapitos no cabelo e outros hábitos assim estranhos que nem me atrevo a relatar para não assustar ninguém.

Terminei a minha Fada dos Bosques. Foi uma viagem maravilhosa ao Reino das Fadas!
Pintar é um pouco como dançar. Quando nos entregamos, tudo o resto desaparece. 
E em cada traço, em cada movimento, pintamos um novo mundo.

Beijos de todas as cores,