Numa casa portuguesa fica bem...

sexta-feira, março 13, 2015


Ser português é sinónimo de ter um conjunto de pratos impecável no armário, que apenas se usa quando vêm visitas; e outro, já velho ou gasto, que é o do dia-a-dia. Quem diz pratos, diz copos. Ou toalhas de mesa.

Mas que raio.

Porque seremos nós assim? Um povo preocupado em manter uma imagem melhor do que aquela que temos de nós mesmos. Será também assim nas outras culturas?
Quem estiver a ler isto noutro país, conte-me, como é aí?

Acharemos que os objectos bons são "demasiado" para nós?

Ou teremos medo de ser criticados, e poupamos a-mais-fina-loiça para quando recebemos alguém, com uma cerimónia que não queremos admitir, depois de ter virado as almofadas do sofá para o lado das visitas, escondendo as nódoas, para que estas vejam apenas o melhor, e não o real?

Quando é que isto começou, esta forma de viver em que se cria um cenário para agradar ou impressionar as visitas, e depois se regressa aos velhos pratos, como se não merecêssemos nós também o melhor que há no nosso próprio armário de cozinha?

Acho que o interior do armário onde guardamos os pratos é muito semelhante ao interior do nosso coração:

1. Se há uma infinidade de loiças, demasiadas para o espaço existente, pode revelar um coração cheio de apegos, preso ao passado. Ou sovinice, também (hihihhi!);

2. Ter um conjunto de pratos para o dia-a-dia, e outro para as visitas, incapacidade ou dificuldade em entregar-se de corpo e alma, sem reservas, na amizade. Manter sempre um pé atrás, nem que seja um bocadinho só;

3. Um conjunto de loiça para as visitas, outro para o dia-a-dia, e ainda outro terceiro que ocupa um lugar "intermédio", falta de amor por si mesmo, crença de que não é digno do melhor.

Ai, Senhores. Pára tudo. Vou ali à cozinha ver o meu armário.

(Pausa)

(Voltei!)

Eis o resultado: há alguns anos que não tenho um conjunto completo de pratos. Tenho apenas pratos soltos, restos de outros conjuntos, com um ou dois lascados. O que me faz lembrar dois pedaços de corações diferentes que se juntam, formando um coração com um contorno irregular, invulgar, mas que, de alguma maneira, vai funcionando.

[Edição em 8 de Junho de 2016: Algum tempo depois de ter escrito este post, doei os pratos todos e comprei um conjunto simples de pratos brancos. Porque achei que já era tempo de deixar para trás os restos de um passado inexistente e abraçar de vez o presente.]

Os nossos pratos dizem muito sobre nós.

Hazel

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8 COMENTÁRIOS

  1. Belo tema para uma dissertação! :)
    Cá em casa há apenas um conjunto de pratos (na verdade são 2 iguais - sim enquadro-me no ponto 1, tenho o coração cheio de apegos e preso ao passado!!! E ainda bem que não estamos a falar de copos... Nem imaginas quantos tenho nos armários :O
    Mas voltando aos pratos: alguns tem lascas e cada vez que olho para elas penso "tenho de deitar este fora" e nunca consigo fazê-lo! É exatamente por esse motivo que tenho 2 serviços iguais, para me poder desfazer deles se pudor, mas...
    Quando recebo visitas, confesso que procuro os pratos sem lascas! LOL

    Sara, http://fleaecoffee.blogspot.pt/

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  2. Hazel não tem a ver com o post, gostava de saber se faz consultas de Tarouca online?

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  3. Boa tarde aqui no Brasil pelo menos no sul no estado do RGS as coisas são assim o melhor para as visitas acho que herdamos da vossa cultura.Mas eu particularmente já estou mudando uso tudo que tenho e o que está feio ou lascado substituo um grande abraço Eliane Lima.

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  4. Aprendemos a agir assim com os portugueses, como não podia deixar de ser! Hahaha. Mas aos poucos vai caindo em desuso. Não uso comigo as piores coisas, e me desfaço de tudo que estiver lascado, manchado, feio. Compro as louças e copos sempre em número de 8. Aí vão se quebrando, quebrando...qdo restam uns 4 compro outros 8. E aí fico usando os 4 mais velhos no dia a dia. Não porque sejam feios, que não são, mas pque são poucos. Já não bastam para um jantar com visitas, mas chegam perfeitamente para o jantarzinho diario...O ciclo todo leva uns cinco anos, creio eu.

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  5. Aprendemos isso com os portugueses! Hahaha mas aos poucos está caindo em desuso. Eu me desfaço de qquer coisa lascada, feia, manchada. E não reservo as piores coisas para meu uso. Tenho por hábito comprar sempre 8 peças de louças ou copos. Aí vão quebrando, quebrando...quando restam uns 4, compro 8 novos, e fico usando os 4 mais velhos no dia-a-dia. Não pque sejam feios, que não sao, mas pque são poucos. Já não bastam para um jantar com visitas, mas chegam perfeitamente para os jantarzinhos diários. Recomeço o ciclo lá a cada 5 anos...

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  6. Primeira vez que visito...amei!!! Parabéns!!!

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  7. Olá, Hazel. tudo bem?

    Apesar de não me recordar se já comentei antes aqui (sou um pouco tímida), acompanho este canto mágico há anos. E é sempre um prazer ler seus textos. Os assuntos sempre me fazem erguer os olhos da tela do notebook e refletir - com um pequeno sorriso nos lábios - sobre suas palavras. É muito bom!

    Sobre as louças, aqui, no Brasil, costumasse tem-se a mesmo esta divisão: uma louça mais velhinha para a família usar no dia-a-dia e outra mais "chique" para as visitas. Eu fui criada com esta divisão apesar de achá-la triste pois amava quando podíamos usar a "louça de festa" que era mais bonita (não os feios Duralex cor âmbar!), mais delicada e bem acabada (a mais simples tinha defeitos da fabricação...). E como havia/há pratos, copos, xícaras, panelas na minha casa materna. Minha impressão sempre era que viria um batalhão comer em nossa casa a cada fim de semana. Contudo, incrivelmente, as melhores louças e as muitas panelas eram guardadas como tesouros nos armários e praticamente intocadas.
    Já eu decidi comprar para minha nova casa apenas aquilo que me desse prazer em usar. Gosto de louças em cerâmica (gosto pessoal mesmo), como se fossem feitas artesanalmente; e também daquelas com motivos delicados mas modernos. E, minha grande paixão, as canecas! Sempre que há um dinheirinho sobrando e encontro uma que gosto, eu compro. Para tomar um chá (que acompanha um bom livro), ou um chocolate quente naqueles dias em que só o cacau nos salva do mau humor, ou então aquela sopinha gostosa (Outono chegou aqui e as sopas já se preparam para meu ataque! Hehe). E quem quiser, pode usar porque é pra isso mesmo!

    Mas o que me enseja sobre a louça não é o ter, mas sim, como você falou, Hazel, o utilizar pelo meu prazer. E, sinceramente, se quebrar alguns pratos ou copos, eu mantenho o resto e recombino-os com outras louças. Porque pra mim vale mais a satisfação de usar quando eu quero e não de acordo com convenção alguma. E pra mim, a máxima é verdadeira: coisas eu uso; pessoas eu amo e guardo com carinho.

    Abraço para ti!

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  8. Ah, sim, as canecas que racham no fundo ou quebradas na asa viram vasos de plantas ou castiçais. :)

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